A desigualdade também é manifestada pelo acesso a serviços financeiros. A inclusão financeira mostra-se como um dos eixos da inclusão econômica e é atual preocupação do Banco Central brasileiro. Desse modo, a inclusão financeira diz respeito a acesso a crédito, a serviços bancários e à própria educação financeira dos consumidores. Para isso, dentre as medidas é necessárias é preciso incorporação de crédito às políticas de desenvolvimento, redução dos juros, consolidação do sistema nacional de finanças solidárias, aumento da diversidade de produtos microfinanceiros e ampliação da integração de agentes de microfinanças, além de padronização de informações da rede financeira350.
Vale dizer que a rede de economia solidária basicamente é sustentada pela oferta de microcrédito351, que pode ser conceituado como empréstimo de baixo valor,
349
VEIGA, Sandra Mayrink; FONSECA, Isaque. Cooperativismo: uma revolução pacífica em ação. Rio de Janeiro: Fase, 2001, p.39.
350
SIMÕES, Ruth. Combate à desigualdade financeira. In: Rumos, ABDE Editorial, ano 35, n°254 nov/dez de 2010, PP. 12-16, p.15.
351
Nesse sentido, o professor africano Sampath assenta:“um conjunto final de resultados que reforçam as interligações das quatro dimensões da igualdade, que também representam um avanço significativo em prol da inclusão nas cidades satélites, está relacionado à importância do micro-crédito. O micro-crédito para os pobres e desassistidos se revelou uma das medidas mais importantes para o aumento da inclusão política, embora sua concepção tenha sido inicialmente feita como uma medida econômica. O uso disseminado do micro-crédito demonstrou ser uma expressão econômica, social e cultural da visão da população pobre. Observou-se também que a inclusão social melhorou com as leis que promovem a expressão cultural dos cidadãos.” (SAMPATH, Padmashree Gehl. Cidades inclusivas: uma perspectiva asiática. Traduzido por Emmanuel Cavalcante Porto. In: Desafios do desenvolvimento, fevereiro/março de 2010, n°59, IPEA, p.31.)
destinado à produção e concedido através de metodologia específica, a associações cooperativas, a microempresas e a empreendedores informais, que não teriam acesso ao sistema financeiro tradicional, objetivando que o empréstimo seja convertido em riquezas, através da realização de atividade econômica, provocando, por conseqüência, o maior desenvolvimento da comunidade e reduzindo-se os índices de pobreza no país.
Nesse sentido, a oferta de microcrédito reflete uma relação emancipatória,
baseada na confiança entre os “tomadores de crédito” e as organizações financeiras seja
governamentais, instituições financeiras privadas ou organizações da sociedade civil. Configura-se, por isso, como fundamental para a auto-sustentabilidade em oposição de propostas assistencialista de combate à pobreza, que não refletem real desenvolvimento e nem melhoram a qualidade de vida da população de forma duradoura352.
Em 2011, O Governo Federal lançou o Plano Brasil Sem Miséria, sustentado a partir de três eixos: i) transferência de renda; ii) inclusão produtiva; e iii) acesso a serviços públicos353. Além dessa política, atualmente, no âmbito federal, a Secretaria Nacional de Economia Solidária354, vinculada ao Ministério do Trabalho e Renda, mantém programas de ações de apoio e geração de trabalho e renda, que engloba projetos quem tenham como objetivos o fortalecimento e divulgação da economia solidária, além de oportunizar financiamento a projetos, por meio de linhas de crédito especiais. Especificamente para o financiamento de associações cooperativas urbanas, cita-se: i) Proger Urbano Cooperfat, oferecido pelo Banco do Brasil; ii) Apoio a Projetos de Catadores de Materiais Recicláveis, mantido pelo Banco Nacional do Desenvolvimento- BNDS; iii) Programa de Geração de Emprego e Renda no Setor Urbano (PROGER Urbano Investimento), sustentado pelo Banco do Nordeste do Brasil- BNB.
Alguns programas são desenvolvidos em parceria com o Governo Federal, como por exemplo, o Programa "Trabalho e Cidadania", promovido pela Fundação Banco do Brasil, que tem como objetivo o fomento de ações destinadas ao atendimento
352
SANTIAGO, Eduardo Girão. Empreender para sobreviver: ação econômica dos empreendedores de pequeno porte. Fortaleza: Banco do Nordeste, 2008, p.62-63.
353
MINISTÉRIO DO TRABALHO E EMPREGO. Economia solidária: uma das estratégias de superação da pobreza do plano Brasil sem miséria. In: Acontece SENAES: Boletim Informativo . Ano III . agosto/2011, p.05.
354
MEDEIROS, Alzira. Programas e ações de apoio à economia solidária e geração de Trabalho e Renda no âmbito do Governo Federal- 2005: relatório final do convêncio MTE/IPEA/ANPEC-01/2003. Brasília: MTE, 2005, p.3-15, disponível em: http://portal.mte.gov.br/data/files/FF8080812BCB2790012 BCF05B29568CA/pub _geracao_trabalho_ renda_gf.pdf, consulta realizada em 21/08/2011.
a micro e pequeno empreendedores, na ótica do agente de crédito; ao desenvolvimento das microfinanças e ao fomento ao associativismo e cooperativismo, como forma de gestão coletiva e solidária de empreendimentos populares e a recolocação de trabalhadores no mercado de trabalho,
Também não pode ser olvidado que dentre as entidades de fomento e de financiamento dos empreendimentos solidários, estão as cooperativas de crédito, que podem ser definidas como instituições financeiras constituídas sob a forma de sociedade cooperativa, tendo por objeto a prestação de serviços financeiros aos associados, como concessão de crédito, captação de depósitos, cheques, prestação de serviços de cobrança, de recebimentos e pagamentos por conta de terceiros, sob convênio com instituições financeiras públicas e privadas e de correspondente no País355. Tais instituições, por força do artigo 192 da Constituição Federal, devem receber autorização de funcionamento do Banco Central.
De uma forma geral, Eduardo Girão356 aponta as principais características do
“modus operandi” das instituições que ofertam o microcrédito, destaca-se: i) foram
organizadas e estruturadas com apoio de agências internacionais de desenvolvimento, como o Banco Mundial e Banco Interamericano de Desenvolvimento, o Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas, congregações religiosas internacionais, etc.; ii) não exige garantia real pelo empréstimo, porém, em regra, não são direcionados empréstimos a microprodutores com menos de seis meses de atuação; iii) os valores de financiamento variam entre cem a mil e quinhentos dólares; e iv) atendem preferencialmente ao gênero feminino, por entenderem que as mulheres respondem de forma mais efetiva pelos ganhos sociais do microcrédito, pois os ganhos são revertidos para o sustento familiar.
Para promoção do desenvolvimento comunitário, Paul Singer357 defende o financiamento externo concedido com juros generosamente subsidiados, sendo oferecidos longos períodos de carência, sustentado através de recursos públicos. Ratifica, entretanto, que além do acesso ao crédito, é necessário que seja estabelecido
355
PINHEIRO, Marques Antônio Henriques. Cooperativas de Crédito: história da evolução normativa no Brasil. 6 ed. Brasília: BCB, 2008, p.07
356
SANTIAGO, Eduardo Girão. Empreender para sobreviver: ação econômica dos empreendedores de pequeno porte. Fortaleza: Banco do Nordeste, 2008, p.66.
357
SINGER, Paul. É possível levar o desenvolvimento a comunidades pobres? In: É possível levar o desenvolvimento a comunidades pobres: texto para discussão. Brasília: MTE/ Secretaria Nacional de Economia Solidária, 2004, p. 4.
um relacionamento simbiótico entre a comunidade e profissionais – como representantes de instituições financeiros, de serviços públicos (SEBRAE, EMBRAPA, por exemplo), agências de fomento da economia solidária, ligadas à Igreja, sindicatos, universidades e organizações não-governamentais - imbuídos este de servirem como agentes promotores do desenvolvimento, investidos na missão de capacitar e esclarecer os moradores, os associados sobre a importância do esforço conjunto da comunidade para alteração da realidade, bem como para orientar e acompanhar o emprego do crédito adquirido.
Destaca-se, por fim, ser imprescindível à economia solidária que o Estado promova ações permanentes, para formação de empreendedores nas comunidades, a fim de que sejam mobilizadas energias suficientes de combate á pobreza, estimulando-se a ampliação de vínculos sociais358. Apesar de ser apenas mais um passo no longo caminho de transformação social para o alcance do desenvolvimento pleno das comunidades, a economia solidária se mostra também como um instrumento de maturidade política em que cada indivíduo torna-se realmente parte importante do meio em que vive.