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Dentro de uma concepção epistemológica do texto, há que se considerar o gênero discursivo em análise, tendo em vista o fato de que, a depender do contexto e do dispositivo enunciativo – e, portanto, das práticas discursivas comuns a determinados tipos de discurso (jurídico, publicitário, literomusical etc.), determinado gênero pode investir mais ou em palavras ou em imagens visuais. Como exemplo, podemos imaginar um gênero do discurso publicitário, que, a depender do dispositivo comunicativo e da situação contextual em que um anúncio for divulgado, o caráter quantitativo das modalidades em um texto não pode ser determinado, não há regras a serem seguidas – até mesmo porque a composição dos gêneros é bastante variável, necessitando, portanto, ser analisado caso a caso.

Para o tipo de discurso aqui analisado, percebemos que cada uma das linguagens – a verbal e a não-verbal – possui uma autonomia relativa quando postas no jogo interativo e, a depender desse gênero, outras categorias podem variar.

Não se pode afirmar que uma depende da outra para o processo de construção do sentido; não se pode dizer que o sentido de uma fica estanque, emudecido enquanto não for posto em diálogo com a outra: ela apenas possibilita leituras limitadas ao seu conjunto de regras específicas; portanto, não se pode dizer que uma seria a “semiose-carro-chefe” e que a

outra seria um suporte, um reforço para o dizer da outra (como geralmente se costuma dizer a respeito da relevância da verbal sobre a não-verbal); pelo menos o que se pode perceber no âmbito do discurso literomusical e mais especificamente na obra de AC é que tais semioses são manipuladas de maneira que elas estabeleçam entre si um grau de independência que seus dizeres se compatibilizam, convergem para um mesmo posicionamento ideológico, para um dizer coerente, pertinente.

De acordo com a concepção de texto que adotamos, e diferentemente de outras concepções, não entendemos o texto como sendo prioritariamente verbal; até mesmo porque, historicamente, sabemos que, em se tratando de textos escritos, as primeiras manifestações que cumpriam papel textual eram feitas se utilizando apenas de imagens pelas comunidades ágrafas. É exatamente baseados nessa concepção de texto que acreditamos que o emprego do verbal e do não-verbal faz com que se estabeleçam diferentes tipos de relações entre essas modalidades de linguagem.

Mas essa relação de independência não implica dizer que uma prescinde a outra; devemos entender essa relação de independência no sentido de que elas não podem ser lidas apenas como sendo formas diferentes de se dizer a mesma coisa; isto quer dizer que tais linguagens não entram numa conjunção enunciativa apenas para co-significarem, e sim para promoverem efeitos de sentidos diversos a partir desse contato entre elas em mesmo texto/discurso.

Dessa forma, o que faz com que tais sentidos sejam propiciados é exatamente essa interação, esse contato, esse “contrato” estabelecido entre ambas dentro do texto-discurso que elas constroem; portanto, convém dizer que, por causa dos sentidos que são decorrentes desse diálogo, as semioses verbal e não-verbal estabelecem entre si, na verdade, uma profunda e imprescindível relação de interdependência.

Verbal e não-verbal interdependem para a construção dos processos de significação dos dizeres do discurso, cabendo ao sujeito interpretante, considerando o propósito e a situação comunicativa do dado texto em análise, determinar qual delas prepondera, não no sentido de se estabelecer qual delas é mais relevante para o que deve ser dito, mas para estar de acordo com sua finalidade.

A relação de interdependência entre verbal e não-verbal não pode ser quantificada, colocada em um gráfico, visto que não seria possível estabelecer métodos para se mensurar o valor significativo de uma em relação à outra; afinal, como estabelecer, por exemplo, em percentagem quanto uma imagem é mais relevante que a letra de uma canção no encarte de um CD para a construção dos sentidos?

Dessa forma, o que se pode estabelecer, na verdade, é uma gradação, um

continuum cuja escala seria definida por pólos determinados entre “mais” ou “menos” verbal

e “mais” ou “menos” não-verbal, cujo indicativo variável seria em prol do efeito de sentido:

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Verbal Não-verbal

Teoricamente, salientamos tipos de textos, que são, ressaltando o fato de que, a partir dessa gradação, o primeiro não existe:

 Totalmente verbais;

 Predominantemente verbais, com poucos elementos não-verbais;  Verbais e não-verbais;

 Predominantemente não-verbais, com poucos elementos verbais;  Totalmente não-verbais.

Os dizeres propiciados por ambas as modalidades linguísticas só fazem ratificar o princípio dialógico bakhtiniano, promovendo, assim, essa prática interativa das linguagens como o procedimento que confirma a interdiscursividade, além também das relações dialógicas.

Considerando o gênero em análise, a canção, fazer uma análise discursiva requer uma investigação de maneira que considerar apenas torna-se insuficiente para uma compreensão minimamente satisfatória. Analisar discursivamente a canção não significa relevar apenas de maneira caráter constitutivo da prática intersemiótica no discurso literomusical brasileiro; o fazer cancional não pode prescindir dessa característica, tendo em vista que essa prática lhe é inerente e que, portanto, não pode abrir mão da ocorrência desse fenômeno.

Em se tratando de discurso literomusical brasileiro, o encarte de disco (e nas últimas décadas o CD) foi, por muito tempo, o dispositivo enunciativo que apenas portava as letras das canções e a ficha técnica; com o decorrer do tempo, ele passou a ganhar o reforço do investimento imagético-visual, chegando a ser um espaço onde muitos artistas gráficos puderam empreender seu potencial artístico e fazer desse recurso também uma estratégia de marketing, em que se vendia o disco também pela imagem. Prova é que não raro encontram-

se pessoas que compram determinado álbum pela capa, sem mesmo ter qualquer referência do tipo de canção ou do artista ali presente. Algumas capas são concebidas seguindo toda uma elaboração, com toda uma história por trás, que reflete, muitas vezes, o momento do artista. Exemplo “The darkside of the moon”, do Pink Floyd.

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Benzer Belgeler