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Para proteger a mídia de cera ou, mais recentemente, de vinil, o disco era envolvido, encoberto por uma embalagem que servia para evitar possíveis arranhões ou outros danos que pudessem danificar a qualidade do som. Seu investimento imagético restringia a descrever o conteúdo protegido por aquele invólucro, sem quaisquer pretensões artísticas ou menos ainda estabelecer uma relação de sentido entre o que se enunciavam nas canções e o formato dos desenhos, das letras inscritas nessas capas.

A elaboração de uma capa de disco das décadas de 20 ou 30 era similar a de uma embalagem de sabonete ou de biscoitos da época. Essa ausência de um trabalho mais elaborado quanto à apresentação do produto devia-se não somente pela falta de uma tecnologia mais eficiente, que, talvez, não conseguisse atender as necessidades de quem desenvolvia tais embalagens – além do fato de que, possivelmente, não se visse a necessidade de tanto apreço ou sofisticação na imagem de um produto que servia prioritariamente para ser ouvido.

Os primeiros registros de que se tem notícia acerca do design gráfico na elaboração de capas de discos é em 1951, por Paulo Brèves, a qual foi desenhada para a Sinter (distribuidora da Capitol). Sem qualquer tipo de investimento imagético, a capa, que era uma espécie de envelope que portava o disco, apresentava um orifício bem no centro apenas para visualizar, no “miolo” do LP, a identificação do artista e da(s) canção(ões) ali presentes.

No final dos anos 1950, André Midani, um dos maiores produtores, diretores e empresários musicais do Brasil, afirma que, quando começou a trabalhar na Odeon, as capas dos discos brasileiros de então eram “monstruosas de feias” (p. 70); nisso, ele viu oportunidade para convidar profissionais da fotografia, como Chico Pereira, César Villela e Otto Stupakoff, fotógrafo formado em Los Angeles. Como exemplos dessa safra, o autor cita “Caymmi e o mar” (1957), “Caymmi e seu violão” (1959), “Chega de Saudade” (1958), “Ooooooh! Norma” Norma Benguel (1959) e “Se Acaso Você chegasse” (1959). Foi essa época que podemos considerar o auge das capas:

Figura 9: “Caymmi e o Mar” (1957) Figura 10: “Caymmi e seu Violão” (1959)

Fonte: http://www.jobim.org/caymmi/handle/2010.1/11053 (acessado em 21/12/2013)

Fonte: http://www.jobim.org/caymmi/handle/2010.1/11054 (acessado em 21/12/2013)

Figura 11: “Chega de Saudade” (1958) Figura 12: “Ooooooh! Norma” (1959)

Fonte: http://www.luizamerico.com.br/fundamentais-joao-gilberto.php (acessado em 21/12/2013) Fonte: http://www.toque-musicall.com/?p=2169 (acessado em 21/12/2013)

Figura 13: “Se acaso você chegasse” (1959)

Fonte: http://limonadasambadub.blogspot.com.br/2011/01/azedo-elza-soares-se-acaso- voce.html(acessado em 21/12/2013)

Mais especificamente na época da Bossa Nova, foi que aconteceu o boom do investimento imagético nas capas de disco. Imprimir na capa do disco a fotografia do artista dava ao trabalho um peso, um ar de um trabalho mais elaborado; com isso, a capa passou a adquirir o status não apenas de invólucro que protegia o disco ou ainda de elemento com forte tom apelativo, através da qual a imagem era a “propaganda” das canções ali existentes; mais que isso, os capistas eram profissionais que faziam desse objeto um elemento de apreciação artística não só pelo seu conteúdo cancional, mas também pela sua estética visual que se percebia na capa, como também percebemos no álbum “Milagre dos Peixes” (1973), de Milton Nascimento:

Figura 14: “Milagre dos Peixes” (1973)

Fonte: http://motownsong.wordpress.com/2012/03/18/milton-nascimento-milagre-dos-peixes- 1973/(acessado em 21/12/2013)

Neste álbum de Milton Nascimento, a capa se abria num pôster de 90 cm e a letra de cada música vinha em papeis coloridos independentes. O disco Blitz 3 da banda Blitz, de 1984, vinha com três opções de capas impressas em cores diferentes, ideia que é retomada pela Adriana no segundo disco dela, com duas capas também diferentes. Os discos eram “conceitos”, cujo projeto gráfico das capas, elaborado pelo profissional chamado capista, fazia parte deles.

Midani (op. cit.) cita algumas capas que são históricas. Uma delas foi a do disco “Barra 69”, de Caetano e Gil estavam em prisão domiciliar na Bahia, fazendo tristemente as malas para a Inglaterra. Gravado ao vivo no Teatro Castro Alves, o show, segundo o autor, “originou um extraordinário LP, cuja capa, produzida pelo Rogério Duarte, é até hoje um dos pontos altos da arte gráfica brasileira” (p. 117).

Figura 15: “Barra 69” (Caetano e Gil)

Fonte: http://todoprosa.blogspot.com.br/2010_07_01_archive.html; (acessado em 21/12/2013)

Outro exemplo de obra da arte gráfica no ramo da indústria fonográfica, segundo Midani (op. cit.), é a célebre capa do álbum “É proibido fumar” (1964), do ainda jovemguardista Roberto Carlos:

Figura 16: “É proibido fumar” (1964)

Fonte: http://www.mp3mp4mp5players.net/roberto-carlos-e-proibido-fumar.html; (acessado em 21/12/2013)

A sobriedade dos caracteres, no tom impositivo do enunciado, em conjunto com a postura do artista (de braços cruzados contra qualquer forma de proibição), com

seu meio sorriso e o olhar de quem está disposto a enfrentar qualquer adversidade representa a moderada revolução com a qual a juventude da classe média urbana se identificava. Eram as capas exprimindo a ideologia das canções.

Nessa mesma década, outra capa chamava a atenção por também exprimir uma ideologia presente nas canções:

Figura 17: “Chico Canta” (1973)

Fonte: http://300discos.wordpress.com/2010/05/22/ln09-chico-buarque-calabar-ou-chico-canta-1973/; (acessado em 21/12/2013).

No disco “Chico Canta” (1973), o que justificaria a presença da forma verbal “canta” que exprime o gesto enunciativo esperado (e, portanto, óbvio) para um disco não seria a ideia que contrariasse sua negação (como forma de rebater algumas críticas ao seu potencial vocal para ser classificado como cantor); mas principalmente como resposta para contexto sócio-político em que tal disco foi lançado. Em 1973, ano em que o disco é lançado para a peça “Calabar”, o país vivia o auge do período ditatorial; o governo Médici é considerado o mais duro e repressivo, a censura reprovava quase toda e qualquer manifestação artística, por isso ficou conhecido como os “anos de chumbo”. Dessa forma, dizer na capa do disco que “Chico Buarque Canta” era a maneira de dizer que, apesar da repressão, das tentativas de silenciamento, de todas as formas, o cantor resiste cantando. É necessário ainda dizer que essa capa foi a que foi aceita pelos órgãos censores, já que a original havia sido censurada, como nos diz Menezes (2005).

Ainda nesse contexto de subversão, algumas capas ficaram eternizadas, dentre eles os que se utilizavam da nudez como estratégia de sensualidade subversiva, já que, culturalmente, o corpo ainda é um tabu social, principalmente para determinados segmentos sociais que preservam uma tradição. Vejamos alguns exemplos:

Figura 18: “Jóia” (1975) Figura 19: “Jóia” - Contracapa

Fonte: Capa: http://www.toque-musicall.com/?p=352 (acessado em 21/12/2013). Fonte: Contracapa:http://www.toque-musicall.com/?p=352 (acessado em 21/12/2013).

Figura 20: “Índia” (1973) Figura 21: “Todos os olhos” (1973)

Índia, de Gal Costa:

Fonte: http://imagesvisions.blogspot.com.br/2012/10/o-disco-gal-gosta-censurado.html; (acessado em 21/12/2013).

Fonte: http://www.dzai.com.br/revistaragga/blog/daredacao?tv_pos_id=90393; (acessado em 21/12/2013).

Cada um, a seu modo, buscava, atingir algumas estruturas da sociedade (caretice, hipocrisia, falso moralismo, dogmatismo cultural etc.), no sentido de provocar uma discussão que verdadeiramente alterasse algum estado de coisas, principalmente levando em consideração o contexto sociopolítico da época.

Sobre a difícil transição do vinil para o CD, o autor conta que

a primeira vítima dos tecnocratas foi a capa dos discos, que diminuiu de 30cm para 17cm no lançamento do CD; o impacto maléfico passou despercebido inicialmente. As ilustrações dos LPs, frequentemente sofisticadas, eram um prelúdio ao prazer de ouvir o disco, uma introdução gráfica ao mundo mágico do artista e a porta de entrada ao seu universo de música, poesia e sonhos. A capa do LP encantava o olhar. À capa do CD somente se deu um propósito: informar. Sacrificou-se o indispensável elemento do prazer lúdico em nome da maximização dos espaços nas prateleiras dos depósitos das gravadoras e das lojas de discos (mais produtos em menos espaço), além de reduzir os custos de fabricação (p. 216).

Com isso, o desafio dos capistas era tentar manter, em suas produções, o viés artístico e, principalmente, o seu caráter persuasivo, de ser a capa a propaganda das canções presentes no álbum. Além disso, há que se comentar, em decorrência dessa transição, sobre outra característica que, para os mais saudosistas, foi uma perda, e para os mais modernos, foi um avanço: o chiado durante a execução da canção. Além de alegarem também o fato de não mais precisar se dirigir ao aparelho de som para precisar “virar o disco”, os modernos argumentam que agora se tem um som mais puro, sem “ruídos”.

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Benzer Belgeler