Define-se, para o que se construiu até agora, texto sincrético da seguinte maneira: Texto sincrético é o texto cuja natureza constitutiva se dá de maneira mista, heterogênea, híbrida quanto à utilização das linguagens verbal e não verbal, cujo estatuto informacional e efeitos de sentido interdependem de maneira que uma não prescinda da outra.
Um anúncio publicitário, uma notícia apresentada em um jornal ou em uma revista, um álbum fonográfico (CD), uma história em quadrinhos, uma charge ou uma tirinha são alguns exemplos de gêneros discursivos cujo investimento imagético é elaborado de tal maneira que a imagem visual utilizada para a construção de determinado gênero se compatibiliza com a linguagem verbal cujo resultado é um objeto de discurso coeso, e não apenas um uma soma de fragmentos.
Em um texto sincrético, a linguagem verbal se compatibiliza com a não verbal de tal maneira que as relações de interação entre elas possibilitam uma imbricação, uma interdependência que extrapolam a vaga crença na ideia de “linguagem não verbal como prescindível à linguagem verbal”. É preciso saber que a criação de um determinado texto é inevitavelmente condicionada pelas regras estruturais do gênero discursivo em que ele se manifestará e que nessa criação o dizer tanto do verbal quanto do não verbal é pensado um em função do outro. Observe o anúncio a seguir como exemplo:
Figura 3: Anúncio publicitário da cerveja Skol
Frase do 1º quadro: “Se o cara que inventou o bebedouro bebesse Skol, ele não seria assim”. Frase do 2º quadro: “Seria assim”.
Fonte: http://www.fotolog.com/guetto_core/22349348/ (acessado em 21/dez/2013).
Diferentemente da ideia tradicional, de se pensar o predomínio da linguagem verbal sobre a não verbal, a concepção desse anúncio estabelece a primazia da imagem em relação à palavra, de maneira que a construção do texto tem como centralidade a imagem, em que ela em si já pressupõe o dizer da palavra. É preciso perceber que, observando apenas a imagem, o sujeito-interpretante poderia supor que se trata, por exemplo, do lançamento de um novo produto, um bebedouro de cerveja. Entretanto tal especulação não se confirma, tendo em vista que a mulher presente na cena não é a personagem prototípica que consome o produto nem o novo público alvo a quem o produto se destinaria. E, mesmo que o propósito fosse conquistar esse novo público, a imagem não seria concebida da maneira que foi. Por isso, apesar do predomínio do não verbal sobre o verbal, a leitura da imagem só é possível quando se lê a palavra.
Da mesma forma, ler os enunciados verbais do texto abstraindo a imagem, não seria possível a compreensão do texto, a começar pela ausência de localização do referente textual (“assim”), que se localiza na imagem. Tentar compreender o verbal desconsiderando o não verbal incorreria numa leitura ineficiente, insuficiente e até errônea.
Não convém precipitar-se e afirmar que a palavra aqui exerce papel discursivo meramente incidental, complementar, visto que a imagem foi elaborada de forma que sua eficiência comunicativa já atende os propósitos comunicativos do gênero. Portanto, nesta circunstância, não é necessário que o sujeito-interpretante seja alfabetizado para uma compreensão eficaz do anúncio; entretanto, é necessário que haja um letramento visual.
Dentro da mesma perspectiva teórica definida por Rojo (2004; 2012) e também por Soares (2001, p. 47), a concepção aqui adotada para letramento tem a ver com o “estado ou condição de quem não apenas sabe ler e escrever, mas cultiva e exerce práticas sociais que usam a escrita”. Para o escopo deste trabalho, compreende-se o letramento tem a ver com a ideia de compreender as manifestações linguísticas que permeiam o mundo, a realidade em que os sujeitos vivem. É preciso entender o letramento visual como um processo de aprendizagem de uma modalidade linguística em que, através da qual, os sujeitos se apropriam de estratégias cognitivas e discursivas, direcionando o olhar para a compreensão de textos que são produzidos mobilizando linguagens de naturezas diferentes entre si.
Mas é preciso ter em mente algo bastante relevante: é preciso saber que uma não pode ser entendida como moeda de troca da outra, que, apesar ambas as linguagens se
interdependerem, elas possuem sua autonomia significativa. Isso quer dizer que não é possível afirmar que o sentido de uma só é possível se a outra estiver presente.
De acordo com os caminhos até hoje percorridos pelos estudos na área, deve-se entender aqui que o conceito de prática intersemiótica não deve ser entendido como um evento material, concreto que se manifesta no nível do texto do qual ele pode se abster. O fenômeno da prática intersemiótica não pode ser visto como um mecanismo cuja ocorrência poderia ser facultativa; a partir das análises até então realizadas aqui, acredita-se que o fenômeno da prática intersemiótica seja constitutivo da linguagem escrita; e cabe ao leitor- interpretante identificar que significações são possibilitadas por meio da interação entre as linguagens, seja ela de qual natureza for.
Na medida em que qualquer manifestação escrita já possui seu aspecto visual, pode-se dizer que, com isso, no verbal, já se apresentam elementos do não-verbal; um texto de qualquer que seja sua natureza ou ordem discursiva apresenta uma formatação, um layout que já passou por uma escolha, o que, portanto, já é dotado de significação, já existe um dizer. A realização de um texto e sua concretização, muitas vezes, sofre determinações institucionais para que ele seja concebido estruturalmente, formalmente como tal, obedecendo a determinados intuitos discursivos.
A visão representacional que devemos ter hoje da palavra é a de um dispositivo configuracional portador de uma compleição de elementos que, adequadamente elaborados, arranjados e direcionados, apresentam a sua significação não mais como algo a ser alcançado, sendo trazida a posteriori; seu processo significativo é dado, na medida em que os tais elementos estruturais, composicionais da palavra interagem entre si e com o contexto enunciativo em que ela se apresenta.
Figura 4: Letra de grafitagem Figura 5: Convite de casamento
Fonte:http://www.tattoostime.com/graffiti-alphabet-letters-tattoos-design/ (acessado em 21/dez/2013). Fonte:
A ABNT, quando estabelece normas para a formatação quanto à margem, tipo de letra (fonte), tamanho, espaçamento etc. de textos acadêmicos, não estão sendo feitas essas escolhas de maneira aleatória; tais determinações imprimiriam ao dizer científico o caráter da sobriedade, da imparcialidade, cuja clareza deveria ser focada no que está sendo dito, e não necessariamente no aspecto visual da palavra. É como se o objetivo fosse eliminar qualquer possibilidade de significações possíveis por meio do seu aspecto formal. Dessa forma, o dizer científico ficaria a cargo somente do conteúdo apresentado textualmente.
Por outro lado, publicitário, marketeiros, profissionais da comunicação social, de uma maneira geral, procuram fazer da palavra um elemento muito mais visual do que propriamente “a caixinha que guarda o significado”. Para esses profissionais, seu grande desafio é explorar ao máximo o aspecto visual do elemento verbal e, assim, fazer dele um objeto “verbi-voco-visual” (Poesia Concreta).
A relação de independência não implica dizer que uma prescinde a outra; devemos entender essa relação de independência no sentido de que elas não podem ser lidas apenas como sendo formas diferentes de se dizer a mesma coisa; isto quer dizer que tais linguagens não entram numa conjunção enunciativa apenas para co-significarem, e sim para promoverem efeitos de sentidos diversos a partir desse contato entre elas em mesmo texto- discurso.
Dessa forma, o que faz com que tais sentidos sejam propiciados é exatamente essa interação, esse contato, esse “contrato” estabelecido entre ambas dentro do texto-discurso que elas constroem; portanto, convém dizer que, por causa dos sentidos que são decorrentes desse
diálogo, As linguagens verbal e não-verbal estabelecem entre si, na verdade, uma profunda e imprescindível relação de interdependência.
Verbal e não-verbal interdependem para a construção dos processos de significação dos dizeres do discurso, cabendo ao sujeito interpretante, considerando o propósito e a situação comunicativa do dado texto em análise, determinar qual delas prepondera, não no sentido de se estabelecer qual delas é mais relevante para o que deve ser dito, mas para estar de acordo com sua finalidade.
A relação de interdependência entre verbal e não-verbal não pode ser quantificada, colocada em um gráfico, visto que não seria possível estabelecer métodos para se mensurar o valor significativo de uma em relação à outra; afinal, como estabelecer, por exemplo, em percentagem quanto uma imagem é mais relevante que a letra de uma canção no encarte de um CD para a construção dos sentidos?