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Pode-se perceber que toda vez que vamos aprender algo, a aprendizagem se torna mais rápida e fácil quando nos é apresentado um modelo. Em 1977, Bandura desenvolve a teoria social da aprendizagem na qual descreve a importância da aprendizagem pela observação, sugerindo que comportamentos podem ser ensinados e desenvolvidos por meio de um modelo.

O aprendizado seria excessivamente trabalhoso, para não mencionar perigoso, se as pessoas dependessem somente dos efeitos de suas próprias ações para informá-las sobre o que fazer. Felizmente, a maior parte do comportamento humano é aprendida pela observação através da modelagem. Pela observação dos outros, uma pessoa forma uma ideia de como novos comportamentos são executados e, em ocasiões posteriores, esta informação codificada serve como um guia para a ação (BANDURA, 1977, p. 22).

Tendo por base a teoria de Bandura, 1977, o Video Modeling (VM) é uma técnica que tem sido bastante utilizada e pesquisada. As pesquisas apontam que a mesma tem demonstrado eficácia na aquisição e desenvolvimento de habilidades de comunicação social, vida diária, trabalho e desempenho acadêmico para pessoas com deficiências variadas (HUANG; WHEELER, 2006). Dowrick e Jesdale (1991) definem modeling como um processo pelo qual uma pessoa (modelo) representa um comportamento que pode ser imitado ou adaptado por outro indivíduo (observador).

A discussão acerca das vantagens do VM envolve a facilidade e baixo custo em sua construção, fazendo-se necessário a utilização de uma máquina fotográfica para a construção do vídeo, televisão e aparelho DVD ou laptop para que o vídeo seja assistido (CIHAK et al., 2012). Consiste em um indivíduo assistindo um vídeo de um modelo/ator realizando um comportamento desejado antes de pessoalmente exercitar a habilidade a fim de facilitar a aprendizagem. Para tanto, primeiramente é gravado em uma máquina fotográfica ou filmadora um modelo demonstrando a habilidade que deverá ser aprendida. Após a confecção do vídeo, em cada sessão de ensino este vídeo é assistido pelo indivíduo e, posteriormente, ele é convidado a imitar a mesma habilidade que assistiu. Durante a aplicação do VM, o indivíduo é convidado a prestar atenção no vídeo exibido na frente dele, para que realmente aconteça a aprendizagem. Este método se torna vantajoso por ser acessado a qualquer momento e utilizado em diferentes

ambientes como casa, trabalho, escola e comunidade de uma forma geral (BRANHAM et al., 1999).

Em relação à escolha do modelo do VM, embora o modelo possa ser amigos de classe, pessoas da mesma idade (pares), irmãos ou adultos, muitas pesquisas têm mostrado que o uso de pares como modelo tem sido mais eficaz no ensino de indivíduos com autismo e atraso no desenvolvimento (EGEL; RICHMAN; KOEGEL, 1981; KAMPS et al., 1992; TRYON; KEANE, 1986).

Existe uma variedade de estratégias de vídeos e de modelagem que podem ser utilizadas. O video self-modeling é bastante parecido com o VM, a diferença é que o modelo é o próprio estudante. Existem dois tipos: positive self-review onde a filmagem é feita com o estudante desempenhando um determinado comportamento, depois esta imagem é editada de forma que somente os comportamentos-alvo permanecem na edição final. Outro tipo é o Feedforward no qual se cria vídeos do estudante realizando habilidades que não tenham sido realizadas por ele ou que não tenham sido realizadas em diferentes contextos (MECHLING, 2005). E então, em ambos os tipos, durante a intervenção o estudante assiste ao vídeo dele mesmo desempenhando o comportamento- alvo e em seguida realiza a atividade que acabou de ser visualizada. Acredita-se que ao assistir ele mesmo desempenhando um comportamento-alvo com sucesso, o mesmo sinta-se motivado a assistir e a manter a atenção no vídeo (BELLINI; AKULLIAN, 2007; SMITH; HAND; DOWRICK, 2014).

O vivo modeling consiste em pessoas assistindo a um modelo (adultos geralmente) realizando um comportamento-alvo. Neste caso não é realizada a filmagem e sim uma representação ao vivo, como se fosse um teatro (CHARLOP-CHRISTY; LE; FREEMAN, 2000). Estes autores realizaram um estudo comparando o video modeling com o vivo modeling e comprovaram que o VM proporciona uma aprendizagem mais rápida e também favorece a generalização.

Outro tipo é o point-of-view video modeling, consiste em um modelo executando uma sequência de vídeo com somente as mãos visíveis, ou seja, imagens das mãos demonstrando uma habilidade específica. Também existe a mistura de mais de um tipo de vídeo (MCCOY; HERMANSEN, 2007).

Alguns estudos indicaram que o VM se torna uma estratégia eficaz quando é associado à outra intervenção, porque este pode facilitar a aprendizagem e a generalização. Por exemplo, no estudo de Le Blanc et al., (2003) usaram o VM associado a reforçadores para ensinar habilidades de perspective taking (habilidade para

entender o ponto de vista de outras pessoas) para três crianças com autismo, demonstrando resultados positivos de tal associação. Apple; Billingsley e Schwartz (2005) realizaram dois estudos para examinar os efeitos do VM sozinho e do VM com autogerenciamento (independência) de comportamentos de crianças com autismo. Os resultados mostraram que a aplicação do VM associado às estratégias de autogerenciamento produziu mais iniciações sociais e generalizações do que o VM sozinho.

Pesquisas apontam as vantagens de se associar o VM à aplicação do PECS, tais como o estudo desenvolvido por Collins (2012), utilizou o delineamento de linha de base múltipla. Na primeira fase do estudo, uma equipe de oito membros aplicou o PECS (Fase I) em cinco pessoas adultas com deficiência intelectual somente com instruções escritas e depois aplicaram o PECS (Fase I) com instruções escritas mais VM e questionário, os quais demonstraram-se mais eficazes para o ensino do PECS à equipe de profissionais.

Na fase seguinte, participaram somente três membros da equipe cujos participantes atingiram o critério na primeira fase do estudo. Primeiro receberam instrução escrita da Fase II do PECS e aplicaram, depois receberam instruções escritas mais VM e questionário referente à Fase II e aplicaram. Os resultados da segunda fase do estudo foram semelhantes aos resultados da primeira fase, em que os membros aplicaram corretamente a partir da associação do VM e questionário às instruções escritas.

Embora neste estudo, Collins (2012) tenha utilizado o VM associado ao PECS para a facilitação da aprendizagem dos profissionais ao aplicarem o PECS, sua relevância está em associar estas duas estratégias de ensino, sendo um dos poucos estudos que abordam tal temática.

Outro estudo acerca da associação do VM ao PECS foi desenvolvido por Cihak et al. (2012) que usaram o VM associado ao PECS para aumentar a comunicação independente de quatro crianças da educação infantil de três anos de idade, duas com autismo e duas com diagnóstico de atraso no desenvolvimento, todas com habilidades de comunicação limitadas. Utilizaram o delineamento com tratamentos alternados, avaliando a eficácia de duas intervenções. Os autores buscaram responder se o VM usado antes da implementação do PECS poderia diminuir o tempo de ensino do PECS e se o PECS associado ao VM era socialmente validado e aceito. Para tanto, aplicaram concomitantemente o PECS sozinho e o PECS mais VM, em seguida, reaplicaram a

intervenção mais eficaz com os materiais (itens) menos reforçadores. Os resultados mostraram que o VM associado PECS mostrou-se a intervenção mais eficaz, o ensino do PECS com o VM foi mais rápido e todos os participantes aumentaram o número de iniciações independentes o que se manteve na reaplicação. Deve-se ressaltar que foi aplicada neste estudo somente a Fase I do PECS.

Smith, Hand e Dowrick (2014) utilizaram o VSM usando feedforward (vídeos de comportamentos que ainda não tenham ocorrido) para ensinar o PECS a duas crianças com autismo e um adulto com síndrome de Down. Utilizaram o delineamento AB. Os três participantes demonstraram rápida aprendizagem e generalização em relação ao comportamento desejado quando foi introduzido o VSM. No entanto, os resultados mostraram que o VSM, usando feedforward fornece uma maneira rápida e simples de ensinar as fases I e II do PECS, sem a necessidade de instruções ou condicionamento operante intensivo.

Foram encontrados somente os três trabalhos citados acima relacionando o VM com o PECS na literatura internacional, em nenhum deles o PECS foi aplicado na íntegra, contemplando todas as fases do treinamento. No entanto, na literatura nacional, foi encontrado somente um trabalho sobre VM de Moura et al. (2007) voltado à orientação de mães focando mudanças nos comportamentos de seus filhos. Já, em relação ao VM associado ao PECS, nenhum trabalho foi encontrado.

Diante da ausência de trabalhos na literatura brasileira sobre esta temática, o presente estudo se caracteriza como relevante academicamente e socialmente. Academicamente por apresentar uma nova estratégia, o VM, e os efeitos de sua aplicação associado ao PECS na íntegra por meio do delineamento de linha de base múltipla; e socialmente por buscar promover o desenvolvimento das habilidades de comunicação em crianças com síndrome de Down, assim como por permitir que essas intervenções sejam desenvolvidas com populações de outras faixas etárias e diferentes populações.

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