3. TÜRK EDEBİYATINDA OTOBİYOGRAFİ
3.2. Modern Türk Edebiyatında Otobiyografik Anlatılar
Já o dissemos aqui, e é fato reconhecido por todos, que no Brasil é a partir da geração concretista que se fixa e se naturaliza, em paralelo à prática da tradução de poesia, o exercício de se falar dela. É a partir daí que o processo tradutório e sua consequente exibição, tanto, talvez, quanto seu produto, torna-se objeto de interesse e passa a se constituir um fator que agrega valor ao trabalho do tradutor. É também a partir daí que trabalhos como este – focados exatamente na análise desse discurso sobre a tradução – ganham validade e condição de viabilidade, mesmo que se reconheça que, em se tratando de prática tradutória, sempre pode haver um descompasso entre o que se diz fazer e o que efetivamente se faz.
Na verdade, as escolhas envolvidas no processo tradutório, aqueles ―quem, o quê e como‖ traduzir, que orientaram tão naturalmente as análises de Ana Cristina em seu ―Bastidores da Tradução‖ e que aqui também nos servem de guia, passam a poder ser aferidos por duas vias, obviamente interrelacionáveis e complementares, mas que se distinguem pelas problemáticas que põem em evidência: a do exame mesmo da fatura dos textos traduzidos, do produto em si, que envolve a delicada e complexa questão do estabelecimento de critérios de avaliação de traduções, e esta, da análise do perfil do poeta-tradutor que se dá a ver por meio dessas formas de exibição do processo tradutório, que permite vislumbrar com maior clareza as táticas pelas quais ele traça seu modo de atuação no campo literário.
Creio que o mergulho efetuado no capítulo anterior nos textos críticos de Ana Cristina Cesar sobre tradução, em contraste com aqueles em que os irmãos Campos – sobretudo Haroldo – exibem sua poética tradutória, terá deixado bem claro isso, que há todo um conjunto de desdobramentos importantes a se detectar nessas decisões que envolvem o modo e os graus com que se manifesta essa visibilidade do processo tradutório.
Nesse aspecto, do modo e graus de exibição do processo de tradução, há, entre os poetas de nossa amostra diferenças sensíveis, certamente decorrentes – e ao mesmo tempo sintomáticas – da nova configuração que assume o exercício da atividade de tradução literária dos anos 80 do século passado para cá. A adoção da página bilíngue, forma mais básica de se chamar a atenção para o processo tradutório, é praticamente a única unanimidade entre esses autores. De resto, os formatos vão desde a opção econômica de um Ronald Polito que, em texto que acompanha suas traduções, em parceria com Sérgio Alcides, dos Poemas civis de Joan Brossa, declara ―restringir as notas ao essencial, a fim de não sobrecarregar a leitura, desviando-a dos poemas desnecessariamente‖ (POLITO; ALCIDES, 1998, p. 282) – o que arma um interessante contraste com aquela atração nabokoviniana de Ana Cristina Cesar pela
profusão de notas; passam por casos como o de Paulo Henriques Britto, que desenvolve, como professor universitário na área dos estudos de tradução, inúmeros trabalhos acadêmicos voltados exclusivamente para a discussão teórica sobre o tema; e abarcam ainda manifestações como as que percorrem as inúmeras colunas publicadas por Nelson Ascher na Folha de São Paulo, nas quais, dentre outros assuntos, o poeta-tradutor direciona a um público mais amplo uma série de reflexões sobre concepções e modos de traduzir. Isso, para mencionar apenas alguns exemplos, eles mesmos capazes de serem ainda mais nuançados.
Cada uma dessas peculiaridades seria de imediato um convite a mais outros tantos mergulhos, similares ao empreendido no capítulo anterior, na tentativa de destrinchar, a partir daí, os diferentes perfis dos tradutores da amostra, tal como fizemos no caso de Ana Cristina Cesar. Porém, um conjunto de perfis justapostos não forma necessariamente uma imagem, mesmo que se a admita provisória, instável, de uma geração. Pode até contribuir para entrevê- la, mas creio que seja certamente válido também para o território da tradução um comentário como este, de Rodrigo Garcia Lopes, sobre a configuração que toma o cenário da poesia pós- anos 80: ―Apesar da excessiva pluralidade de escolha e diferença de dicções, o leitor verá, comparando os diferentes Régistros, que a escolha não é tão disparatada assim‖ (LOPES, 1991, p. 277). Em suma, penso ser possível detectar um certo denominador comum por sob o qual se faça uma leitura mais abrangente e panorâmica dessa diversidade. A partir dessa leitura, aí sim, poderá ser dado um realce aos dados e casos mais significativos para uma melhor articulação dessa imagem de conjunto.
O procedimento de Ana Cristina Cesar serve mais uma vez de orientação: partir dos aspectos mais evidentes. Entrevistar os poetas-tradutores da amostra foi exatamente uma maneira de colher evidências testemunhais de certos aspectos de seu trabalho tradutório, um meio de ―ouvir‖ suas vozes, de tomar contato com a imagem que eles constroem de si mesmos como poetas-tradutores. Foi ainda, também, uma estratégia tática: funcionou como tentativa de ―equalizar‖, mesmo que provisória e precariamente, seus discursos sobre a própria prática de tradução – de modo a superar as dificuldades impostas pela diversidade a que venho me referindo –, uma vez que foi proposto que cada um deles respondesse a um mesmo conjunto de oito questões, enviado por e-mail. Vejamos o conjunto:
Q1. Qual o papel da tradução de poesia em seu trabalho? Q2. Que critérios norteiam suas escolhas como tradutor(a)?
Q4. A obra tradutória de Haroldo de Campos exerceu, ou exerce, influência em suas atividades como tradutor(a)?
Q5. Em termos de concepções e procedimentos estéticos, como se afetam reciprocamente sua prática tradutória e sua prática poética?
Q6. Sua atividade como tradutor(a) se move por um projeto único ou se desdobra em diferentes frentes de trabalho? O que já está realizado, o que está em processo e o que você ainda pretende fazer em termos de tradução de poesia?
Q7. Você lê traduções de obras que poderia ler no original? Por quê?
Q8. Que diferença você vê, em termos de propósitos, de público-alvo e de forma de circulação, entre a poesia traduzida publicada em livro e aquela acolhida por suplementos literários, cadernos de cultura e revistas de poesia?
A característica marcante desse questionário é, antes de mais nada, sua intenção de ―medir‖ os graus com que cada um desses autores se relaciona (ou não) com o legado concretista em termos de tradução. Como o traço essencial da poética tradutória concretista, pelo menos do ponto de vista aqui priorizado, o ponto de vista histórico, é seu caráter programático, as perguntas procuram enfatizar exatamente aqueles aspectos, já apontados anteriormente, pelos quais esse caráter se manifesta.
Além disso, a análise dos trabalhos de Ana Cristina Cesar sugere mesmo, como vimos, que uma das formas de se vislumbrar uma identidade de conjunto para esta geração de que ela é representante ponta-de-lança possa ser enxergá-la sob o prisma de suas diferentes formas de resposta aos arranjos programáticos da geração anterior. Assim, sem deixar de contemplar a diversidade de posições dos entrevistados, o questionário procura compreendê-la por sob um mesmo ângulo.
É, então, como um exercício de escuta, de mixagem e interseção das vozes desses poetas-tradutores, que se pretende aqui obter uma resposta preliminar ao ―como, quem e o quê‖ traduz a geração contemporânea e qual a relação dessas suas opções tradutórias com o legado concretista.