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Kurmaca ile Gerçeklik Arasında Otobiyografi

2. BATI LİTERATÜRÜNDE OTOBİYOGRAFİ

2.4. Kurmaca ile Gerçeklik Arasında Otobiyografi

Se, como vimos, em ―Bastidores da tradução‖, a militância de Augusto de Campos, com tudo que ela implica, leva Ana Cristina Cesar a ver com certa desvantagem as traduções deste frente às de Bandeira, num outro aspecto – a extensão – seria este último quem ―perderia‖ para o primeiro.

É a própria autora quem admite isso, ao Régistrar: ―é bastante evidente que me ocupei mais de Augusto de Campos, como tradutor, do que de Manuel Bandeira, ao contrário do que faria se estivesse falando de ambos como poetas‖ (p. 408), numa clara demonstração da valoração distinta que atribui a um e outro, como poetas e como tradutores. Essa valoração diferenciada, entretanto, não decorre de modo algum da análise em si, mas, ao contrário, projeta-se nela quase com a naturalidade com que se toma como a priori um julgamento consensual. Isso tudo, somado aos diversos elogios que, ao lado das críticas, Ana Cristina faz às traduções de Augusto, parece legitimar a afirmação de que ela admira, no tradutor Bandeira, o poeta (e mais uma vez insisto, o poeta desinvestido de sua militância cultural, de sua relação com a geração a que está circunscrito), enquanto que, no tradutor Augusto, o tradutor mesmo (e apesar de sua militância)10. Daí o fato de, num texto que trata exatamente do tema da tradução, Augusto merecer a parte mais alentada do estudo.

Realmente, fica restrita apenas a ―Bastidores da tradução‖ a manifestação crítico- teórica de Ana Cristina quanto às traduções de Manuel Bandeira, enquanto a produção tradutória de Augusto de Campos será ainda mencionada em pelo menos mais dois outros textos. Num deles, inclusive, ―Bonito demais‖, uma resenha de 1983 extremamente elogiosa ao Mais Provençais de Augusto, Ana Cristina se referirá a ele como ―um tradutor admirável‖e ao volume como ―um livro precioso‖. É sem dúvida uma resenha curiosa porque parece

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Dirá: ―Poderíamos até afirmar que as traduções constituíram a mais alta contribuição criativa dos

tramar uma franca contradição com as ideias expostas em ―Bastidores da Tradução‖. O próprio Augusto de Campos verá nela uma espécie de correção de perspectiva quanto ao teor do ensaio anterior11.

Não deixa de ser. Creio, no entanto, que não há propriamente uma descontinuidade de pensamento entre os dois textos. Ana Cristina continuará elogiando as traduções de Augusto naquilo que já elogiara em ―Bastidores‖, por suas ―soluções impecáveis‖ e, ainda que mencione a militância e o didatismo poundiano do tradutor num tom bem mais receptivo e tolerante, não chega a desdizer nem a retificar as ponderações anteriores. Há, contudo, enfoques diferentes. É que, no ensaio, como já sugeri, Ana Cristina estaria discutindo, apesar da aparência em contrário, mais que as traduções de um ou outro analisado. O ponteiro da balança, na comparação, diria mesmo respeito às próprias convicções da autora quanto às relações entre o fazer tradutório e o fazer poético. Já na resenha, o comentário ao livro de Augusto parece ser, de fato, a prioridade, daí que certos aspectos, antes vistos com um valor positivo ou negativo, invertam seu sinal. Como nesta passagem, em que ela critica um aspecto, a ausência dos originais junto às traduções, que antes, visto em Bandeira, parecia positivo:

Parece mais e mais premente levantar a poeira e repensar a tão maltratada questão da tradução de poesia entre nós. Estou resistindo à urgência, que inclui reclamações graves sobre as traduções que andam por aí (e sobre edições que recusam, imperdoavelmente, a página bilíngüe) [...] (p. 254)

Diante disso, faz-se necessário insistir um pouco mais na exibição dos bastidores da relação entre os poetas-tradutores Ana Cristina e Manuel Bandeira, até porque tenho como premissa o fato de que essa relação ilumina a outra, que é meu propósito aqui dar a ver, a da autora com a poética de tradução dos irmãos Campos. Voltemos ao ensaio.

Nele, a certa altura de sua análise de Poemas Traduzidos, Ana Cristina afirmará:

A individualidade do autor (original) está constantemente se dissolvendo nesse livro – o que não é nada difícil de entender e de justificar. O resultado é desconcertante e parece indicar uma prática da tradução que absorve o texto original e se concentra na reconfiguração de um tema favorito. (p.401)

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Instigado, numa entrevista concedida à revista 34 Letras de junho de 1989, a comentar as opiniões de Ana Cristina quanto a Verso, reverso, controverso, em ―Bastidores da tradução‖, dirá: ―De um modo geral, ela foi muito simpática na sua apreciação. Creio, porém, que ela se impressionou excessivamente com a performance estética, subestimando a alma de minhas traduções – impressão que ela parece ter corrigido no review que publicou, em maio de 1983, no jornal Leia Livros, sob o título de Bom demais, a propósito da 1ª edição de MAIS PROVENÇAIS (Noa Noa)‖. (CAMPOS, A., 1989, p. 21)

A passagem chama a atenção por dois aspectos. Primeiro porque, ao afirmar não ser difícil de entender nem de justificar a dissolução da individualidade do autor do original na tradução, Ana Cristina parece querer naturalizar, até porque nada em sua argumentação fundamenta tal afirmativa, um efeito que não é de modo algum o mais esperado, em se tratando de tradução, e que ela própria considera ―desconcertante‖. Segundo, devido à formulação, em termos de ―absorção‖ e ―reconfiguração‖, com que a autora define a prática da tradução em Bandeira.

Ora, já são bastante conhecidos os estudos que veem por trás da poética de criação de Ana Cristina Cesar exatamente esses dois mecanismos. Flora Süssekind falará de sua poesia como uma poesia-em-vozes, uma ―arte da conversação‖ que, dentre outros aspectos, leva em conta a apropriação, em graus mais ou menos explícitos, de textos por ela traduzidos. Também Maria Lúcia de Barros Camargo salientará o papel do que ela conceitua como a ―vampiragem‖ na construção da identidade poética de Ana Cristina, processo pelo qual há ―absorção‖ e ―reconfiguração‖ de textos de vários autores, inclusive, e muito precocemente, dos de Manuel Bandeira.

Mas para o que interessa no momento não se faz necessário o paciente trabalho de rastrear as vozes e as vampiragens nos poemas de Ana Cristina. Basta apenas levar em conta o que ela Régistra em ―Pensamentos sublimes sobre o ato de traduzir‖, texto de 1980 que desliza entre o ensaio e a prosa poética e que tem em comum, com ―Bastidores da Tradução‖, o fato de ser também um texto comparativo – e, novamente, de traduções que não são dela. Dessa vez, o contraste se dá entre a versão, por Augusto de Campos (mais uma vez, Augusto), do poema ―Elegie: going to bed‖, de John Donne, incluído em Verso, reverso, controverso e sua ―absorção‖ e ―reconfiguração‖, por Caetano Veloso/Péricles Cavalcanti, na canção ―Elegia‖, do álbum Cinema Transcendental, de 1979. Acompanhemos esse lance de seus pensamentos:

Há dois movimentos possíveis no ato de traduzir.

1) um movimento tipo missonário-didático-fiel, empenhado no seu desejo de educar o leitor, transmitir cultura, tornar acessível o que não era. As variações vão desde o trot (= tradução literal, palavra a palavra, ao pé do original) à versão literatizada. Tentação recorrente (ou às vezes recurso inevitável): explicar o original mais do que ele se explicou, acrescentar vínculos que estavam silenciados, em suma, inflacionar o texto original. 2) um movimento não empenhado, livre de preocupações com o leitor iletrado ou de um projeto ideológico definido, que inclua digamos a importância de divulgar fulano no país. As variações vão desde bobagens e exercícios de pirotecnia, equivalentes adestrados do trot compromissado

paixão que divide o tradutor entre sua voz e a voz do outro, confunde as duas, e tudo começa num produto novo onde a paixão é visível mas o nome tradução, com seus sobretons de fidelidade matrimonial, vacila na boca de quem lê. (p.233-234)

A passagem, que fiz questão de reproduzir em toda a sua extensão, alude a uma série de aspectos relativos às concepções de tradução de Ana Cristina e que comparecem também como tema em outros de seus textos: a questão dos graus de fidelidade (tradução literal? literatizada?), o problema da inflação como inerente ao ato tradutório, a discussão sobre o papel da tradução que passa, inclusive, pela questão da militância e da noção de projeto, todos problemas a que retornarei adiante.

Quero me deter agora, porém, apenas no fascínio que ela manifesta por esse movimento (de tradução? de criação?) guiado pelo ―acesso de paixão que divide o tradutor entre sua voz e a voz do outro, confunde as duas [...] num produto novo‖, pois reconheço nele o mesmo processo que ela detecta nas traduções de Bandeira: ―absorção‖ e ―reconfiguração‖. Como ela mesma afirma, referindo-se ainda a ―Elegia‖, ―não se trata de ‗pura‘ tradução. Quando Caetano canta Donne, essa combinação não revela exatamente um projeto mas tem sim uma coerência, uma consistência, uma – identidade, arrisco‖(p.236).

Haveria então, a julgar por essas afirmações, um interesse especial, em Ana Cristina Cesar, por uma certa forma de aproximação ao texto alheio que não seria ―pura‖ tradução, mas também não seria algo desligado dos domínios de sua prática, e que estaria intimamente relacionada à projeção de uma identidade de (ou entre) poeta(s). É nesse aspecto que as traduções de Bandeira ganham relevo, para Ana Cristina, frente às de Augusto, e é por isso também que ela faz seu elogio à ―Elegia‖: por entrever nessas realizações um referencial de um certo tipo de movimento que ela também realiza, não no domínio de sua prática tradutória stricto sensu, mas no domínio dessa tradução não pura, lato sensu, que é a sua forma de criação poética.

Entende-se também, finalmente, porque ela afirmaria que a dissolução da individualidade do autor do original, nas traduções de Bandeira, não é algo nem difícil de entender, nem de justificar: trata-se de mecanismo para ela natural, pois é parte mesma de seu próprio trato com as leituras que informam sua poesia.

Assim, enquanto a preferência por Bandeira, em ―Bastidores da tradução‖, diria respeito, talvez, para usar palavras da própria Ana Cristina, aos ― segredos que a tradução pode guardar‖(p.239) sobre sua face de poeta, a insistência nos comentários aos trabalhos

tradutórios de Augusto, nos três textos aqui referidos, poderia estar, então, nos dizendo algo a respeito de sua face tradutora.

Se o perfil da poeta, inclusive em suas imbricações com a atividade tradutória, já encontra desenhos suficientemente nítidos em muitos dos estudos até agora realizados sobre a escritora, há, no entanto, ainda por ser traçado, o perfil da Ana Cristina que se coloca como tradutora stricto sensu, numa produção que, se pouco extensa12, faz-se significativa exatamente por representar, como ponta-de-lança, a investida da geração contemporânea no território mapeado pelo legado dos tradutores do Concretismo.

É ao desenho desse perfil e à determinação da natureza dessa ―investida‖ que me dedicarei agora. Antes, porém, uma ressalva e alguns esclarecimentos.

Ao propor essa divisão de faces, poeta / tradutora, e mesmo a identificação respectiva de uma e outra a Bandeira e Augusto, não estou de modo algum ignorando a inter- relação óbvia existente entre elas. Trata-se apenas de expediente metodológico, forma de melhor dar a ver certos aspectos. Virá o momento em que essa divisão se relativizará, com a necessária permuta das variáveis que compõem a equação.

Já está suficientemente claro que parto do princípio de que o contato com a poética concretista de tradução, seja ele mais ou menos intenso e do qual, no caso de Ana Cristina, dão bons testemunhos os textos aqui mencionados em que ela aborda as traduções de Augusto de Campos, criaria uma ambiência, um pano de fundo, em que alguma resposta aos seus princípios, assumidamente ou não, far-se-ia quase inevitável. Isso está sugerido aqui, inclusive, desde a nota de número 3 (p.27). Essa resposta, traduzindo-se na maneira pela qual um tradutor da geração posterior se colocaria em cena, poderia assumir desde a forma da recusa total até a da adesão plena e submissa, havendo entre esses extremos obviamente um leque bastante diverso de posicionamentos intermediários. No caso de Ana Cristina, a julgar pelo que apontam seus textos até agora analisados, parece-me haver uma adesão parcial, uma adoção de certos movimentos estruturalmente semelhantes, mas como forma de corroer o paradigma concretista de dentro dele. Por isso, minha investigação concentrar-se-á na busca dos aspectos ―absorvidos‖, na prática concretista, pela Ana Cristina tradutora, a fim de neles, identificar, ou não, algum tipo de ―reconfiguração‖. É talvez nesse sentido que se possa pensar a ideia de ―investida‖ tal como a vimos propondo.

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Considero aqui os textos de Alguma poesia traduzida e, além do já mencionado ―Bastidores da

tradução‖, outros ensaios sobre o tema reunidos em Escritos da Inglaterra, todos incluídos no volume

Considerando o que foi desenvolvido até aqui, dois pontos sobressaem na comparação estabelecida por Ana Cristina entre os tradutores Manuel Bandeira e Augusto de Campos, em relação às suas próprias convicções de poeta-tradutora. De um lado, a rejeição à militância de Augusto, questão cujas nuances procuramos distinguir, mas que fundamentalmente se traduz numa espécie de reação ao teor programático da atuação concretista. De outro, na admiração por Bandeira, bem como no já mencionado comentário à ―Elegia‖, a sugestão de que a tradução se pratique em graus de liberdade que tensionem os próprios limites entre criação e tradução, tópico que é também central na poética concretista e que não deixa de estar relacionado ao primeiro. Por isso mesmo, impõe-se, antes do exame da produção tradutória de Ana Cristina, a necessidade de um excurso em que se verifique como esses problemas são tratados pela geração anterior, a fim de que melhor se reconheça aquele ―pano de fundo‖ a que me referi há pouco.