Desse manuscrito constam as cantigas de amigo que compõem parte do corpus desta pesquisa.
Ferrari (1993, p. 119) define o CBN como “o mais importante dos três códices da lírica profana galego-portuguesa”. Acrescenta que:
A sua característica particular é a de representar não só um cancioneiro-memória, simples repositório de poesia, mas também, e sobretudo, uma cópia de estudo e de trabalho, confeccionada sob a orientação e a constante supervisão do seu excepcional comitente- utente, cuja atenção estava toda virada não tanto para o aspecto externo do produto, mas sobretudo para o seu carácter exaustivo e para a sua fidelidade ao modelo, para a sua fiabilidade e perfeição ‘filológica’.
Figura1. Cantiga de amigo de Airas Carpancho (CBN658).
Cancioneiro da Biblioteca Nacional (Colocci Brancuti). Cód. 10991. Reprodução fac-
similada. Lisboa: Biblioteca Nacional / Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1982.
Considerado o cancioneiro galego-português mais completo12, o CBN era anteriormente conhecido por Cancioneiro Colocci-Brancutti. O nome Colocci-Brancutti diz respeito ao humanista italiano Ângelo Colocci, a quem pertenceu essa coletânea no século XVII e, também, ao Conde Paulo Brancuti de Cagli, que estava com o manuscrito quando esse foi encontrado. Segundo Nunes (1973, vol.I, p.441), o códice
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foi descoberto por volta de 1875 (há dúvidas sobre a precisão da data), perto de Iesi (Itália), pelo professor Constantino Corviseri, e estudado e copiado, na parte que completa o da Vaticana, na livraria do Conde Brancuti, por Henrique Molteni, que faleceu aos 24 anos de idade. Seu trabalho foi publicado em 1880 pelo seu mestre Ernesto Monaci, que adquiriu o códice em 1880, primeiramente por empréstimo e depois por compra, em 1888. Após várias negociações, o Cancioneiro foi vendido em 26 de Fevereiro de 1924 para a Biblioteca Nacional de Lisboa (NUNES, 1973, v. I, p.442).
O códice está disponível em uma edição fac-similada – reprodução fotográfica - de excelente qualidade para se trabalhar com textos antigos (na opinião de Mattos e Silva, 1996, p.41). A edição escolhida é a seguinte:
Cancioneiro da Biblioteca Nacional de Lisboa (Colocci-Brancuti) Cód. 10991.
Lisboa: Biblioteca Nacional/Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1982.
Na edição de 1982, o CBN contém 758 páginas, iniciando na página 15 com a Poética Fragmentária, que é atribuída a Ângelo Colocci (FERRARI, 1993, p.119 e
MASSINI-CAGLIARI, 1999a, p.37). Começa assim a Poética Fragmentária, que serve de introdução ao Cancioneiro, de acordo com a versão de Nunes (1973, v. I, p.1):
Capll’o IIIo. E, porque alguas cantigas hy ha en que falam eles e elas, outrosy porem he bem de entenderdes se som d’amor, se d’amigo, porque sabede que, se eles falam na prim[ei]ra a cobra e e elas na outra, [he cantiga d’]amor, porque se move a rrazom dela, como vos ante dissemos, e, se eles falam na primeira cobra, he outrosy d’amigo, e, se ambos falam en hua cobra, outrosy he segundo qual d’eles fala na cobra primeiro.
Segundo Massini-Cagliari (1995, p. 28), o CBN apresenta 503 cantigas de amigo, mas foi selecionado, para constituir o corpus, um décimo do total (50 cantigas). No registro desses 503 poemas, várias estrofes aparecem incompletas ou apenas indicadas por iniciais, além de haver folhas rasgadas e em branco, visto que o original encontrava-se bastante deteriorado (NUNES, 1973, v.I, p.443).
As cantigas no CBN estão agrupadas em três seções, separadas quanto ao tipo: primeiro as de amor, depois as de amigo e a seguir as de escárnio e maldizer. Mas, segundo Oliveira (1994, p. 32), essa distribuição não segue um caráter rígido. Esse autor afirma que esses critérios deixaram de ser seguidos pelos copistas e, em muitos momentos, é esquecida não somente a divisão por gêneros, mas também a preocupação por uma seqüência minimamente cronológica dos autores.
Esse cancioneiro foi copiado por várias mãos, causando, assim, erros na numeração das cantigas. Durante a produção foram deixadas páginas em branco para que o copista seguinte as utilizasse, mas a numeração não foi seguida. Desta forma, encontram-se vários lapsos na numeração das cantigas, como por exemplo, a mesma cantiga com numeração diferente ou números iguais para cantigas diferentes. (MASSINI-CAGLIARI, 1999a, p. 38).
Há diferentes tipos de letras no manuscrito; a esse respeito, Monaci diz o seguinte – apud Nunes (1973, v. I, p. 470):
No texto distinguem-se três formas de letra, que se alternam, do fim do século XV ou princípios do XVI, todas de escola italiana, e, afora elas, reconhece-se logo à primeira vista, quási em cada página, a de Ângelo Colocci, que numerou as poesias, a muitas antepôs os nomes dos autores e acrescentou várias nótulas marginais, umas vezes comparando palavras portuguesas com italianas, mas, na maioria dos casos, declarando o esquema rítmico das poesias. Afora isso, encheu de seu próprio punho várias lacunas do texto, sendo uma das principais a que se encontra a fols. 3 R onde começa o tratado de poética, em cujo início coluna e meia foi inteiramente escrita por ele.
Os copistas utilizaram dois tipos de letras para copiar as cantigas no CBN: o gótico e o italiano humanista (cf. NUNES, 1973, v. I, p.471). Os dois tipos de letras encontram-se organizados no CBN da seguinte maneira, na edição fac-similada de 1982 (cf. MASSINI-CAGLIARI, 1999a, p.40):
GÓTICO
Italiano Humanista
pp. 29-32 pp. 329-359 pp.253-319 pp. 37-78 pp. 365-391 pp.501-582 pp. 80-85 pp. 397-409 pp. 631-640 pp. 93-117 pp. 413-443 pp. 645-687 pp. 127-156 pp.449-464 pp. 731-752 pp. 177-179 pp. 469-495 pp. 201-225 pp.593-629 pp.231-240 pp.701-713 pp. 243-250 pp.717-723
Segundo Nunes (1973, v.I, p. 474) a diferenciação das grafias supõe que foram pelo menos dois copistas encarregados desse serviço, dos quais um estava acostumado ao tipo gótico e o outro ao humanista.
Ferrari (1993a, p. 120) afirma que foram seis as mãos que produziram esse manuscrito:
Escrita de seis mãos (mais a omnipresente de Colucci). Dos seis copistas que intervêm na transcrição, cinco utilizam variedades gótico-bastardas, e um só, o copista principal – não só pela quantidade mas também pela qualidade ‘filológica’ da cópia (o único que escreve também os reclamos e as rúbricas atributivas) escreve em cursiva itálica chancelaresca. Talvez nenhum deles seja italiano (?) e em geral revelam uma origem e uma educação gráfica ibéricas; hábitos gráficos particulares (por ex., traço horizontal cortado como sinal genérico de abreviatura) ligam explicitamente dois deles ao ambiente gráfico da Cúria pontifícia. São diversos tanto o grau de profissionalismo e de perfeição quanto a extensão e densidade das intervenções. Em suma, a distribuição das diversas mãos é desordenada e não parece corresponder a qualquer planificação lógica, ainda que a freqüente – embora não constante – coincidência entre grupos de cadernos e mudanças de mão sugiram a prática da “pecia”.