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12.1 MFK Diyagnoz Arabirimi
No que se refere aos sentidos identificados nos discursos acerca da interprofissionalidade, o primeiro aspecto a destacar é a aparente confusão quanto aos termos utilizados, quando muitas vezes, por exemplo, confunde-se a interdisciplinaridade com a interprofissionalidade, ou ainda esta com a perspectiva multiprofissional. Diante disso, Furtado (2009) nos esclarece quanto à necessidade de distinção entre os sufixos “disciplinar”, que compete ao campo dos conhecimentos e saberes em sua dimensão epistemológica; e “profissional”, como aquele relativo ao campo das práticas concretas. Quanto aos prefixos “multi” e “inter”, o mesmo autor os diferencia ao relacionar o multi (multidisciplinar/multiprofissional) à justaposição entre saberes e práticas frente a um mesmo objeto, sem que haja interlocução entre as diferentes categorias; enquanto o inter (interdisciplinar/interprofissional) pressupõe o estabelecimento de uma relação de maior entrosamento e integração entre as profissões, operando, portanto, com relações menos verticais e mais colaborativas.
Nesse sentido, à interprofissionalidade caberia a operacionalização da interdisciplinaridade no campo das práticas assistenciais, de modo a superar a compartimentalização ainda tão característica do trabalho em saúde, bem como buscando uma tentativa de resposta frente à complexidade das necessidades de saúde dos usuários (FURTADO, 2009).
Quando questionados acerca das atividades ditas interprofissionais, identificamos que alguns residentes ainda recorrem a um discurso simplista quando, por exemplo, restringem a interprofissionalidade à possibilidade de estarem juntos no mesmo espaço físico com todos os membros da equipe, como na fala a seguir: “tinha rodízio que a gente tava junto
e conseguia ter realmente essa atuação integral, interdisciplinar. Mas tinham outros que ficava muito inviável porque ficava cada residente em setores diferentes” [PSI T2].
No entanto, outros residentes apresentaram uma percepção mais crítica acerca das atividades que, apesar de se dizerem interprofissionais, na prática configuravam tão somente uma mera aglomeração de profissionais, caracterizando mais uma perspectiva multiprofissional. Muitos deles, inclusive, enfatizam que, para além do estar junto no momento da atividade, a residência possibilitava tempo para planejar o desenho das propostas conforme as necessidades dos pacientes, o que refletia sobremaneira na qualidade da assistência prestada.
A primeira coisa que me vem à mente são os grupos nos diferentes serviços né. Seja o grupo de acolhimento na Quimioterapia, o grupo que a gente fez com familiares, e as atividades de sala de espera. Porque eram atividades que, idealmente pelo menos,
mas acho que muitas vezes a gente conseguiu fazer isso, desde o planejamento tinha uma perspectiva de interação entre diferentes profissões, que estavam pensando aquela atividade ali juntos [...] tinha uma dimensão de interprofissionalidade porque tinha o planejamento conjunto e a gente participava um pouco da fala um do outro, mas ainda se aproximava um pouco mais de uma perspectiva multi porque era tipo, a falinha de cada um, do que era sua área. Mas o grupo de apoio a familiares, que a gente fez também na quimio né, que aí eu me juntava com [...] o Serviço Social, com [...] a enfermeira, e a gente pensar uma atividade que a gente fosse conduzir junto, como é que cada um faria. [PSI T1]
O grupo de acolhida da quimioterapia: chegava um profissional, falava e ia-se embora. Aí chegava outro profissional, falava e ia-se embora. Chegava o outro, falava, era assim. Não se sentavam os profissionais pra preparar aquele grupo daquele dia né, e não havia uma integração do que ia ser falado, que cada um ia compreender, o que cada categoria ia falar né. Cada um dava o seu recado e saía. Cada um dava o seu recado e saía. [ASS T1]
Alguns residentes refletem ainda sobre outras atividades que, embora não acontecessem em um formato grupal, também possibilitavam uma aproximação com a dimensão da interprofissionalidade, principalmente na medida em que desenvolvia nos residentes a habilidade de reconhecer as especificidades de outros fazeres profissionais, fortalecendo a dimensão comunicativa inerente e imprescindível à área da saúde.
É, mas eu acho que, assim, não é propriamente a gente prestar assistência junto, entendeu? Mas de existir aquela comunicação, uma necessidade do paciente, uma coisa que a convivência me fez. Assim, e eu acho que isso é um grande diferencial da Residência, na minha opinião, é que a gente apropria muito a visão da gente a partir do espaço do outro. As necessidades, eu não sou enfermeira, mas eu tenho noção de quando eu preciso chamar uma enfermeira e às vezes pra alertar de alguma coisa. Tem tanto paciente que às vezes passa batido, ou então o próprio paciente não verbaliza. Então hoje, com a formação que a gente recebeu, eu acho que eu consigo olhar e ver que tá alguma coisa errada e solicitar, entendeu? [FIS T2]
[...] eu acho que os grupos eles diziam muito desse trabalho, em algumas situações, porque nem todo grupo eu percebia a interprofissionalidade né? Acabava que, às vezes, uma categoria é...estando como se fosse mais do que outras figuras entende, e não se completando como a interprofissionalidade...como o trabalho interprofissional fala. Mas muitas vezes em beira de leito, em algumas vezes eu via mais a interprofissionalidade na beira do leito do que no grupo, entende? [PSI T2] É isso que eu chamo de trabalho interdisciplinar. Por que? Porque você consegue trabalhar com o suporte do outro [...] Você consegue trabalhar com a integração dos saberes, você consegue estar ali e você tem de fato uma equipe [...] Você vê a importância do outro, porque você vai numa unidade que não tem. Caramba, como esse profissional é necessário. [FAR T3]
Diante do exposto, é interessante refletir que, apesar da forte ênfase e recorrência com que se fala da necessidade de superar as atuações fragmentadas em saúde, pensar a interprofissionalidade nos coloca em um campo onde interagem forças e concepções de
cuidado absolutamente antagônicas, tal como antecipamos no capítulo 04, ao pontuarmos os desafios da interface entre profissionalização, interprofissionalidade e integralidade. Furtado (2009) ratifica esta reflexão ao afirmar que, em pólos opostos, encontram-se duas lógicas de trabalho: de um lado, deparamo-nos com a lógica profissional, onde cada categoria ocupa-se em demarcar e expandir seus territórios de atuação em um mercado competitivo como o da saúde e que, portanto, em nada conversa com a lógica da colaboração que, por sua vez, busca estabelecer pontes e relações entre as profissões, fomentando um espaço de compartilhamento de conhecimentos e experiências.
Portanto, para além do interesse e do entendimento dos profissionais, o enfrentamento desse antagonismo de forças passa necessariamente pela lida com outras variáveis, com gestões e culturas institucionais que poderão conformar práticas mais ou menos interprofissionais.