KOMİSYON RAPORLARI
MEVCUT DURUMU:
Através do dever de informação e esclarecimento, as partes ficam obrigadas a manter permanente intercâmbio sobre todos os aspectos relacionados ao vínculo e aos seus efeitos, de modo a permitir que abstraiam a exata medida de suas responsabilidades e esforços a serem empreendidos, visando atender o melhor adimplemento do ajuste.
Os deveres de informação e esclarecimento também se apresentam fundados na boa-fé objetiva, possuindo estrita vinculação com os demais deveres laterais, porque sua ausência, de regra, implica falta de cooperação, de lealdade e de proteção com a outra parte.
[...] a informação plena – aquela que é possível e está ao alcance dos agentes sociais – é uma obrigação que decorre de qualquer atividade, impondo o dever de indenizar àquele que, ainda que não tenha relação jurídica direta, cause dano pela omissão dolosa ou culposa da informação de que dispõe. Portanto, a terceira via, que se apresenta ao sistema em razão da violação de deveres éticos, de honestidade e equilíbrio das relações jurídicas decorrentes da função social do contrato, da boa-fé objetiva, da solidariedade, da proteção, da justiça social, da equidade e da transparência (Código Civil, arts. 113, 421 e 422), implica, sem a menor sombra de dúvida, o dever de indenizar pela ausência da correta, ampla e irrestrita informação. Vivemos em uma nova era – da sociedade da informação – impondo, em razão dela, a indenização decorrente da infração ao dever genérico de “bem informar”, elevado a princípio que sobrepaira as relações sociais. Este novo princípio, que decorre do artigo 5º, XIV da Constituição Federal, facilitado pelas novas tecnologias, com fundamento inexorável na boa-fé objetiva, exige, como temos insistido, lealdade, cooperação, probidade e confiança.
Tais deveres, por vezes, confundem-se com os deveres de prestação, pois:
[...] grande parte dos objetos de contratos que ensejam a transferência de propriedade demanda a complementação da prestação com notas explicativas, sem as quais o bem em si passa a não possuir qualquer significado operativo. Nesses casos, a ausência da informação costuma ser equiparada ao descumprimento de dever de prestação, principal ou secundário, conforme as especificidades do caso, igualando-se a ausência de informação à falta de qualidade essencial do objeto (SILVA, 2002, p. 117).
Todavia, é o próprio Silva (2002, p. 118, grifo do autor) quem, buscando uma melhor visualização dos deveres laterais, contesta a inserção do dever de informação e esclarecimento como deveres de prestação, asseverando que:
[...] essa equiparação poderia ensejar o aniquilamento da classificação do dever de informar como dever lateral, passando-se a compreendê-lo, no âmbito das relações de consumo, exclusivamente como qualidade do objeto prestado. O prejuízo interpretativo, nesse caso, seria evidente. Em troca da elevação da relevância do dever, em alguns casos, extinguir-se-iam em todas as outras as hipóteses de sua alocação lateral. Portanto, há que se ter em mente as distintas manifestações do dever de informar. Quando a informação for estandardizada e disser respeito às qualidades típicas e genéricas do produto (prazo de validade, modo de utilização, contra-indicações etc.), a ausência delas é considerada defeito do produto. Da mesma forma, o será, quando a ausência de informação, em face de outras circunstâncias circundantes, gerar a falsa imagem de que o produto possui tal ou qual qualidade. Porém, quando especificidades típicas da relação concreta demandarem um conjunto diferenciado de informações ou esclarecimentos, tendo em vista a permitir a correta fruição do bem ou o melhor adimplemento, então entra- se no campo dos deveres tipicamente laterais.
Esse entendimento, que ultima por criar diferentes categorias de deveres de informação e esclarecimento, parece ser o que melhor se coaduna com a regra do art. 12,
Todavia, incide na atecnia de, em dado momento, vincular o dever de informar85 ao próprio objeto da prestação, quando de rigor, tal dever diz respeito, exclusivamente, ao comportamento do sujeito na relação obrigacional, atualmente compreendida como entidade complexa.
Não se tem dúvida que “informar” e “esclarecer” remetem às condutas que as partes devem respeitar para viabilizar não só a celebração, mas a própria consecução da finalidade do contrato, daí porque tais deveres laterais devem ser observados em todas as suas fases.
Nesse sentido, Prata (2005, p. 49-50) registra que:
O dever de informação respeita a todos os elementos negociais relevantes quer para a decisão de contratar, quer para a conformação concreta do contrato a celebrar, quer ainda para a completa funcionalidade do contrato para servir os interesses que a parte com ele quer ou pode ver prosseguidos: características da coisa ou actividade, seus vícios, sua prestabilidade para os objectivos do contraente, sua prestabilidade para fins que a parte desconhece que ela possa servir, qualidades jurídicas do sujeito susceptíveis de influir no negócio [...].
O dever de esclarecimento para Silva (2007a, p. 94):
[...] dirige-se ao outro participante da relação jurídica, para tornar clara certa circunstância de que o alter tem conhecimento imperfeito, ou errôneo, ou ainda ignora totalmente. Esclarecimento, evidentemente, relacionado com alguma circunstância relevante. Não se trata de dever para consigo mesmo, mas em favor do outro.
Nessa esteira, complementa Scavone Junior (2007, p. 341):
Em outras palavras, é obrigação legal, imposta pelo sistema, consumerista ou não, notadamente nas atividades empresariais, a informação ampla e passível de inculcar no potencial contratante todas as informações sobre o negócio jurídico que será praticado. E resta evidente que esta obrigação não se limita à fase contratual, manifestando-se, com mais vigor, na fase pré-contratual, sem descartar a fase pós- contratual. O dever de informar, decorrente da sociedade da informação, em resumo, abrange as possibilidades técnicas de informação que encontram contrapartida no conhecimento e compreensão pelo pólo inverso, mesmo antes da contratação e cujo descumprimento acarreta nulidade do contrato eventualmente formado em razão da infração à boa-fé objetiva e conseqüente objeto ilícito. Posta assim a questão, gera o dever de indenizar contratual e extracontratual.
Amplo e variado é o núcleo dos deveres de informação e esclarecimento, de sorte a incluir tanto atuações quanto omissões, o que inclui informações e esclarecimentos falsos
85 Ricardo Luis Lorenzetti (1998, p. 239) adverte que: “[...] a informação é um requisito da liberdade, já que o
relacionados ao objeto da prestação, ou mesmo atempados, impedindo que a contraparte, pela falta de oportunidade, se acautele ou promova os esforços adequados ao cumprimento do ajuste.
Importante frisar, ademais, que diante do seu caráter elementar, o dever de informação e esclarecimento não se limita à comunicação das cláusulas contratuais que venham a integrar o instrumento, mas estende-se, fundamentalmente, à elucidação dos precisos sentidos jurídico e econômico de cada uma das regras entabuladas.
Além disso, para a doutrina de Cordeiro (2007, p. 616), os deveres laterais de informação:
[...] têm uma proximidade ao vínculo contratual superior aos demais. Também aqui deve, contudo, evitar-se a vertigem contratual: não se requer uma profundidade de análise muito grande [...] para constar que, sob violações alegadas de deveres de informação, está a intenção judicial de proporcionar determinados conteúdos contratuais, de conseguir certas repartições do risco ou, muito simplesmente, de contornar dificuldades de prova.
Tão importante é o dever de informação, notadamente na fase de negociações, que em caso de dúvida sobre o alcance e significado de cláusulas ambíguas ou contraditórias, determina o art. 423 do CC/2002 a adoção de interpretação mais favorável ao aderente, sem prejuízo da incidência da regra estatuída no art. 113 do mesmo Diploma, segundo a qual “Os negócios jurídicos devem ser interpretados conforme a boa-fé e os usos do lugar de sua celebração”, o que, de ordinário, importará a análise do comportamento pré-contratual referente aos esclarecimentos prestados de parte a parte.
A relevância do dever de informação também pode ser ponderada na extensão da influência na formação do juízo de conveniência e oportunidade quando da celebração do negócio, de modo que, de posse das informações, as partes podem celebrar ou não o contrato, como também podem fazê-lo sob diversas condições.
Conforme lição de Fritz (2007, p. 226-227), sobre a violação das informações na fase de negociações:
Sendo as negociações a fase nas quais as partes deliberam sobre a formação ou não do contrato, nada mais razoável exigir-se, portanto, que todas as informações relacionadas com o eventual negócio sejam devidamente fornecidas, a fim de que as partes possam, com base em dados corretos e completos, formar seguramente um juízo de conveniência e oportunidade sobre o contrato [...]. A violação dos deveres de informação pode adquirir uma feição positiva ou negativa, constituindo, assim como a infração de todos os deveres decorrentes da boa-fé objetiva, motivo legítimo para o abandono das negociações, na medida em que há quebra da necessária confiança que deve existir entre os parceiros. Uma violação positiva ocorre, por
exemplo, face o fornecimento de indicações incompletas ou inexatas, podendo responder, quem forneceu as informações, por responsabilidade pré-contratual, caso a contraparte tenha realizado despesas em decorrência das informações prestadas. A violação de deveres de informação adquire conotação negativa quando ocorre, por exemplo, omissão de informações.
Contudo, na troca de informações deve existir a demarcação da “extensão do
dever de informação em face do dever de informar-se”, uma vez que correlato ao dever de
informar subsiste o dever de buscar as informações necessárias acerca do negócio a ser entabulado. Larenz (apud FRITZ, 2007) obtempera que a omissão a respeito de alguma informação nem sempre poderá caracterizar quebra de dever lateral, pois cada sujeito necessita arcar com o dever de cercar-se do máximo de informações relevantes para a celebração do contrato.
Dessume-se que a repercussão da extensão desses deveres de auto-esclarecimento quanto ao conteúdo e critério de interpretação dos contratos86 será tanto mais significativa, diante de um eventual desequilíbrio no poder negocial das partes, cabendo ao intérprete e aplicador da lei encontrar o justo equilíbrio, de modo a proteger o contratante mais débil.
Considerando que no atual momento histórico do direito privado, o contrato é caracterizado como entidade complexa, que além dos deveres de prestação, também comporta os chamados deveres laterais ou anexos, a inobservância desses últimos, decerto, gerará conseqüências próprias do inadimplemento, com todas as nuanças possíveis, perspectiva que será abordada ao se analisar as figuras tradicionais de descumprimento contratual.
86 Segundo registra Marino (2006, p. 67): “Interpretar o contrato de acordo com a boa-fé objetiva é substituir o
ponto de vista relevante, posicionando, no ambiente previamente delimitado (contexto situacional), não os contratantes, mas um modelo de pessoa normal e razoável, com o fito de averiguar o sentido que essa pessoa abstrata atribuiria à declaração, nas mesmas circunstâncias em que se encontravam as verdadeiras partes. Recorrer a uma pessoa razoável ou normal equivale a ter em mente o padrão de conduta honesto e leal para com a contraparte, isto é, o modelo de comportamento social que seria de se esperar de alguém que estivesse no mesmo lugar do contratante”.