3. TEKNOLOJĠ GÖSTERGELERĠNĠN ĠHRACAT ÜZERĠNDEKĠ
3.2. Ekonometrik Metodoloji ve Veri
3.2.2. Metodoloji
A Societá Operaia di Mutuo Soccorso Unione Italiana foi criada em 1895, a partir da união de duas outras: a Societá Umberto I e a Principe Amadeo, das quais restaram referências residuais apenas na ata de fusão para a criação da Unione
Italiana. Note-se que neste documento aparecem os nomes de representantes das
duas sociedades:
64 Repartição de Estatística do Arquivo do Estado de São Paulo. Anuário Estatístico de São Paulo.
Hoje, 13 de outubro de 1895, às 18 e 30 horas, na casa do Sr. Ângelo Alario, se reúnem os senhores Ângelo Alario, Evaristo Faganucci e Givanni Beschizza, representando a Sociedade “Principe Amadeo” e o senhores Valente Fantato, Antonio Maggiorin e Enrico Zapparoli representando a Sociedade “Umberto I”, ambos assistidos pelo Sr. Carlo Olivi, funcionando como secretário65.
A partir de informações exíguas – verdadeiros vestígios documentais – a respeito destas aparentes primeiras associações criadas por italianos, foi possível levantar apenas hipóteses, como: essas duas sociedades eram pequenas e tinham se organizado para suprir necessidades básicas tanto em uma nova terra, quanto em uma nova cidade.
Outra hipótese é pensar que a prática associativa não se desenvolvia apenas em grandes centros urbanos (São Paulo, Santos, Rio de Janeiro), uma vez que a fusão de tais sociedades sugere uma precisa demonstração de organização, legitimidade e representatividade, sendo que o formalismo apresentado pela ata sugere que a prática organizacional e o ritual já estavam presentes nestas primeiras sociedades.
Os italianos presentes também chamam a atenção, como no caso de Giovanni Beschizza, por exemplo, que foi anunciado em uma edição especial intitulada: Il Brasile e gli Italiani, organizado pelo jornal Fanfulla e publicado em 1906, como um grande comerciante de Ribeirão Preto. Ângelo Alario, por sua vez, era responsável pela publicação de um jornal em língua italiana, L’ Unione Italiana, que circulou na cidade entre os anos de 1896 e 189766.
Por sua vez, no jornal de língua nacional, A tribuna, foi veiculado um anúncio em 1898 que se referia a uma casa de câmbio chamada “Ângelo Alario & Anselmi”. Além destes casos pinçados na imprensa, aparecem, nas listas de lançamento de
65 LIVRO DE ATAS do Conselho Diretor da Sociedade Unione Italiana – Ata n.º 1, 13 out 1895. 66 TRENTO, Angelo. Do outro lado do Atlântico. São Paulo: Nobel, 1989, p. 503.
impostos de indústrias e profissões67, nomes como Evaristo Faganucci, registrado
como alfaiate em 1894; Valente Fantato, proprietário de uma fábrica de cerveja, em 1892, e Enrico Zapparoli, sócio de uma confeitaria, em 1899.
Apesar das poucas informações disponíveis a respeito das duas Sociedades, ao analisar suas diretorias é possível afirmar, com base nas ocupações profissionais dentro do contexto de crescimento da cidade e da política imigratória para lavoura cafeeira, que seus membros representavam uma certa “elite” em relação ao restante do grupo étnico. Esses indícios também permitem pensar que a presença italiana no meio urbano já era forte e que se apresentava dividida em diversos segmentos sociais, resultantes da variada gama de atividades que a cidade oferecia.
Além disso, desde o princípio, os italianos manifestaram a necessidade de manutenção de laços, sejam fraternais ou estratégicos, que reforçassem e/ou recriassem uma identidade italiana – o próprio nome escolhido para a nova sociedade, Unione Italiana, é, por si só, uma demonstração de estratégias inseridas num processo ao mesmo tempo interpretativo e criativo da experiência ítala fora do continente europeu68.
No dia 18 de abril de 1938, o governo promulgou o Decreto-Lei nº 383, que proibiu os brasileiros natos ou naturalizados, ainda que filhos de estrangeiros, de pertencerem a clubes e sociedades com fins beneficentes ou assistenciais fundados por imigrantes69. Embora esse decreto tenha representado um golpe fatal no fluxo de criação dessas sociedades, a permanência de algumas com outros nomes
67 ARQUIVO PÚBLICO E HISTÓRICO DE RIBEIRÃO PRETO: Relação de declaração de Impostos de indústrias e profissões, anos 1899-1900.
68GERA, Bianca, ROBOTTI, Diego. L’influenza della tradizione mutualística piemontese
sull’organizzazione delle Società do Mutuo Soccorsos dei lavoratori italiani in Argentina. In: BLENGINO, Vanni; FRANZINA, Emilio; PEPE, A. La Riscosperta delle Americhe. Milão, Nicola Teti Editore, 1992, pp. 265 – 276.
permitiu a sobrevivência de certos contatos sociais e da memória dos fundadores italianos, representando, ao mesmo tempo, identidade e resistência por intermédio de uma “reprodução cultural”.
Nacionalizada em 28 de julho de 1940, na esteira da “campanha de nacionalização” ocorrida no período que antecedeu a Segunda Guerra Mundial, a Sociedade Unione Italiana existe ainda hoje e se apresentava, até 2004, com o nome de Sociedade de Mútuo Socorro de Ribeirão Preto, quando retomou a sua denominação original, na tentativa de reviver seu passado e seus antigos objetivos que, naturalmente, não existem mais, a partir de uma memória fluida que busca estimular novos arranjos sócio-culturais sub-reptícios às esperanças pretéritas.
Com sede própria desde os primeiros anos de funcionamento, a sociedade
Unione Italiana apresenta características específicas em relação às outras. Durante
toda a sua existência, ela não se fundiu com nenhuma outra Sociedade, mas adquiriu uma capacidade peculiar de se adequar às vicissitudes de momentos históricos variados: se dentro de seu tecido foi erigido o primeiro núcleo de resistência operária de Ribeirão Preto, por outro lado, recebeu homenagens de funcionários do regime fascista de Mussolini, além de realizar discursos complacentes, como em 1945, quando do seu aniversário de cinqüenta anos, assim descrito em trecho do jornal da cidade:
Em 1940 como conseqüência da nossa evolução jurídica, surgiu a lei de nacionalização das sociedades existentes em território brasileiro, visando estabelecer maior contacto e maior compreensão entre nacionais e alienígenas [...] e essa transformação, constituiu, sem dúvida alguma, motivo de satisfação entre os italianos remanescentes70.
70 Sociedade de Socorros Mútuos de Ribeirão Preto. Diário da Manhã, Ribeirão Preto, 21 out. 1945,
Na primeira década do século XX, essa mesma Unione Italiana abrigou a Liga Operária, que, em conjunto com a sociedade, promoveu diversas manifestações no interior da cidade, como por exemplo os movimentos favoráveis às oito horas de trabalho com a presença de anarquistas e socialistas, demonstradas tanto em ata quanto na imprensa:
Da Conferencia realisada no theatro pelo Dr. Antonio Piccarolo, em benefício da Sociedade União Italiana, verificou-se o seguinte resultado: entradas 148.000; despezas 91.900; saldo que vae ser entregue à sociedade 56.10071.
Várias festas em homenagem ao dia 1º de maio foram organizadas pela Liga Operária e pela sociedade. Apesar de não ter sido encontrado nenhum livro de ata das reuniões da Liga, a partir do trabalho da historiadora Lílian R. de Oliveira Rosa72 é possível cruzar alguns nomes como, por exemplo, os fundadores da chamada “União Geral dos Trabalhadores de Ribeirão Preto” (30 de março de 1925), Guilherme Milani e Rômulo Pardini, constavam como sócios da Sociedade Unione
Italiana.
Outro nome que aparece com freqüência em seu livro de atas como também na imprensa é o de Alfredo Farina, um anarquista aprisionado em 1907 – sendo que um dos motivos do decreto de sua ordem de prisão estava ligado à sua participação nas decisões sobre as greves organizadas pela Liga Operária em prol das oito horas de trabalho73 –, além de Augusto Pennazzi, correspondente do Jornal Avanti em
Ribeirão Preto, responsável pela tentativa de organizar a Societá Operaia
Intenazionale, em 1902, e também sócio da Unione Italiana.
71 Antônio Piccarolo em 1907 era proprietário do jornal Il Secolo e representava um grupo de
socialistas reformistas que debatia formas de defender os interesses da colônia italiana. A citação encontra-se: Jornal A Cidade, 04 jan. 1907.
72 ROSA, L. R. de O. Comunistas em Ribeirão Preto. Franca: Editora Unesp, 1999.
73 GERALDO, S. O resgate da memória proletária em Ribeirão Preto. Dissertação de Mestrado,
A participação destas pessoas no I e no II Congresso Operário Brasileiro,
realizados em São Paulo, em 1906 e 191374 respectivamente, demonstra a
influência das idéias anarquistas e socialistas dentro da sociedade, uma realidade presente, também, no II Congresso Socialista Brasileiro, em 1902, quando Ribeirão Preto marcou presença através de nomes como o notório anarquista italiano Andrea Ippolito, que chegou ao Brasil como agricultor, no ano da Proclamação da República, e se direcionou às lavouras cafeeiras de Ribeirão Preto. Todavia, já no início do século XX, encontrava-se na cidade, onde mantinha um pequeno comércio de “Secos e Molhados”, e participou com afinco da organização de Sociedades –
Unione Meridionale, a Unione Italiana, a Pàtria e Lavoro e a Dante Alighieri.
A partir das constatações anteriores, é possível seguir a reflexão empreendida por Luigi Biondi, a qual afirma que nas cidades onde os adeptos do socialismo e do anarquismo não estavam estruturados em grupos, participavam de
Sociedades de Socorro Mútuo75 – para reforçar ainda mais essa realidade,
acrescento a informação de que mesmo após a organização do Circulo Socialista, ligado ao grupo paulistano do “Avanti!”, eles permaneceram nas sociedades étnicas e mutuais.
A preocupação com o assistencialismo e com a necessidade de uma caixa de socorros ainda está presente no primeiro estatuto da União Geral dos Trabalhadores de Ribeirão Preto76, o que demonstra atitudes contrárias às indicações do I Congresso Operário Brasileiro (1906), que orientou os movimentos operários que deixassem em segundo plano as obras assistenciais para a classe operária.
74 ROSA, L., op.cit., p. 32.
75 BIONDI, Luigi. Entre associações étnicas e de classe: os processos de organização política e sindical dos trabalhadores italianos na cidade de São Paulo. op. cit., p. 215.