2. OECD ÜLKELERĠNDE TEKNOLOJĠK GELĠġMENĠN GÖSTERGELERĠ VE
2.2. DıĢ Ticaret Performansı ve Ġhracat
2.2.2. Ġhracatın Yapısı
CULTURAL:
ENSAIOS
DE
MODERNIZAÇÃO
E
DE
COSMOPOLITISMO
A edificação da primeira igreja contribuiu, sobremaneira, para que ocorresse um constante aporte de população em uma região já ocupada. Segundo Pierre
Mombeig, em obra clássica22, a movimentação populacional na localidade antecede
naturalmente a construção da capela, sendo possível encontrar dados a respeito de mineiros foragidos – “homiziados”, conforme expressão de época – que se apossaram de terras desabitadas do “sertão desconhecido”, que constituía então a nossa região alvo.
Já em sua dissertação a respeito da fundação da cidade de Ribeirão Preto, José Antonio Lages apresenta de modo detalhado todo o processo de doação de terras ao Patrimônio Religioso; a formação das grandes fazendas e, finalmente, a demarcação do chamado Patrimônio de São Sebastião, no ano de 185623. Esse temário é encontrado, também, na dissertação de Valéria Valadão, que questiona as exigências relativas à documentação e às ações necessárias para a formação do Patrimônio Religioso, entre as quais a construção de uma capela, conforme apresentei anteriormente24.
Desse modo, a recorrência a Mombeig e à importância dos estudos contemporâneos, como os já citados e outros que virão, estão ancorados justamente no caráter inédito do debate acerca do povoamento da região. Assim, ainda que o processo de intensificação do povoamento regional, ocorrido na segunda metade do século XIX, seja um fenômeno histórico previamente estudado, salienta-se em uma pesquisa como a de Lages não somente um modo sistemático de tentar desvendar todos os momentos dos autos da criação da Comarca, mas o desenvolvimento de um debate com a historiografia a respeito da necessidade de legitimação das posses de terras diante das transformações que o país atravessava. Assim, os trabalhos mais recentes sobre a temática colocam à mesa uma plêiade de novas abordagens e de novos documentos prenhes de conteúdos de grande significado para a historiografia.
A preocupação com a construção de um patrimônio eclesiástico estava envolta de objetivos que iam bastante além da mera assistência religiosa, pois, segundo palavras de Lages:
23 LAGES, José A. O povoamento da Mesopotâmia pardo-mogi guaçu por correntes migratórias mineiras: o caso de Ribeirão Preto. Dissertação de Mestrado, UNESP, Franca, 1995.
24 VALADÃO, Valéria. Memória Arquitetônica de Ribeirão Preto: Planejamento Urbano e Política de
[...] é também um ato político significativo. Não era apenas o acesso garantido à tão desejada assistência religiosa, mas igualmente, o reconhecimento daquela incipiente comunidade, de fato e de direito, perante a igreja oficial, portanto perante o Estado. [...] desejavam também o usufruto da formalidade civil com todo o direito à segurança que pudesse propiciar. É como se a passagem de simples indivíduos a cidadãos, de homens sem direitos a homens com direito, elevados a uma categoria superior e aceitos como concidadãos de uma nova sociedade25.
Segundo Valadão, o sistema sesmarial havia sido eliminado em 1822, mas como nenhum sistema novo fora proposto na ocasião, novos colonizadores mineiros chegavam à região do vale do Rio Pardo e, assim, garantiam a sucessão das divisões e subdivisões das antigas sesmarias: a legitimação da propriedade ocorria pela permanência da ocupação, por heranças ou através da transmissão por meio de escrituras26.
O sistema de doações de terras por parte dos latifundiários foi mantido por muito tempo como um modelo de criação de núcleos urbanos, além das exigências relativas à documentação legal e aos valores das doações, outras tantas eram cumpridas, como, por exemplo, a constituição de um patrimônio religioso estabelecido como regra desde o início do século XVIII pelas “Constituições primeiras do arcebispado da Bahia”.
É impossível empreender uma reflexão mínima que seja sobre a formação de Ribeirão Preto sem, ao menos, tangenciar sua relação com a Lei n.º 601, de 1850, conhecida como “Lei de Terras”, que imputava limites balizados pelo poder de compra à possibilidade de acesso à terra. Note-se que essa Lei surgiu por ocasião da assinatura de outro instrumento jurídico, a “Lei Eusébio de Queiroz”, que proibia o tráfico de escravos, enquanto dava início à crise final da escravidão, acenando para
25 LAGES, José, op. cit., p. 221. 26 VALADÃO, Valéria, op. cit., p. 22.
a necessidade vindoura de implementação da mão-de-obra livre, portanto assalariada.
Deste modo, cumpre ressaltar que, ao limitar o acesso à propriedade por meio do poder de compra, o ponto nevrálgico da “Lei de Terras” constituiu uma tentativa de circunscrever de forma legal o acesso de homens sem recursos à propriedade rural. Dessa maneira, tratava-se de mais um esforço, dentre vários, de não comprometer o desenvolvimento capitalista centralizador que havia se iniciado ainda no período colonial.
Assim como ocorre com outras leis da época, a Lei de n.o 601 pode ser analisada não apenas como um instrumento jurídico no processo de mercantilização da terra, mas também como um instrumento de defesa de posseiros e sesmeiros irregulares que proliferaram perifericamente em relação ao centro do desenvolvimento capitalista nacional, capitaneado pela capital Rio de Janeiro, desde que as pessoas que se apossassem da terra cumprissem uma série de regras e deveres. E era justamente na condição de posseiros que repousava a situação da maioria dos “proprietários” na região do Rio Pardo antes do desenvolvimento cafeeiro, ou seja, a carência de oficialização da posse de terras era uma situação imperativa.
Esse caso já foi estudado por Warren Dean, ocasião na qual o historiador analisou a aliança entre a igreja e o latifúndio na condição de uma saída estratégica para o controle legal da região27. Nesse sentido, antes mesmo da construção de capelas – tão essenciais ao processo de evolução da malha urbana –, assim como do debate a respeito da exata localização de uma igreja, a disputa pelo controle das regiões é mais que notável nos documentos de doações.
A rede fundiária que se construiu paulatinamente serviu ainda como meio de troca de concessões para servir de moradia a quem mantivesse um relacionamento com os doadores. Assim, o sistema de lotes ao redor da capela pôde configurar-se como o delineamento inicial da paisagem urbana. Contudo, conforme já foi reforçado anteriormente, isso não significa que antes da edificação da capela não houvesse um determinado povoado na região, de modo geral, e no entorno do templo, de maneira particular, pois isso significaria dizer que não existiram diversos confrontos de interesses na composição da futura freguesia.
No dia 2 de abril de 1870 foi assinada pelo Dr. Antônio Cândido da Rocha, Presidente da Província de São Paulo, a Lei n.º 51, que criava a Freguesia de São Sebastião do Ribeirão Preto, e em meados desse mesmo ano a capela foi elevada à condição de Matriz, mais precisamente no dia 16 de julho de 1870. Todos os registros oficiais de nascimento, matrimônio e óbito, ficariam sob sua competência, com todas as implicações jurídicas e sociais decorrentes.
O crescimento populacional e econômico, e, por conseguinte, o avanço das edificações da Freguesia de São Sebastião do Ribeirão Preto, mantinha-se bastante vigoroso. Por isso, sua autonomia política e administrativa era reivindicada com empenho. Dessa maneira, foi elevada à categoria de Vila através da Lei de n.º 67, no dia 12 de abril de 1871 – desmembrada do município de São Simão, a localidade passava a denominar-se Vila de Ribeirão Preto.
Todavia, o desmembramento de fato ocorreu após a eleição dos vereadores e juízes de Paz, em 22 de fevereiro de 1874, sendo que a edificação da Câmara Municipal da Vila foi finalizada em 4 de junho de 1874, data de sua instalação. Ribeirão Preto contava então com quatro ruas, seis travessas e dois largos – e,
segundo o primeiro censo demográfico geral do Brasil, realizado em 1872,
habitavam-na 5.552 pessoas, das quais 857 eram escravas28.
É importante salientar o primeiro artigo da lei que elevou Ribeirão Preto à condição de Vila, pois o mesmo apresenta um plano geral do nascimento daquilo que poderia se chamar de núcleo urbano, ou seja, o embrião da futura cidade que logrou se tornar importante pólo regional, sobrevivendo, inclusive, ao período cafeeiro que, no limite, foi o responsável pelo salto qualitativo de seu desenvolvimento urbano. O referido artigo da lei define o seguinte: “Fica elevada à cathegoria de Villa a Freguezia do Ribeirão Preto [...] devendo seus habitantes construir a Casa de Câmara e Cadeia”29.
Se as construções de uma Câmara, de uma cadeia e de uma igreja matriz delineavam para Ribeirão Preto um projeto urbanístico bastante simples – além de óbvio, na perspectiva cultural de seu tempo –, impunham-se questões mais refinadas a respeito de infra-estrutura e saúde pública. Logo nas primeiras atas da Câmara já eram levantados questionamentos, por vezes debates acalorados, a respeito de doenças epidêmicas, assim como da edificação de um hospital de isolamento, temas que apareciam com freqüência, juntamente com a proposição de construção de praça, matadouro etc.
Em sua dissertação de mestrado, Rodrigo Santos de Fariaaborda a temática
acima, circunstância em que considera também toda a estética modernizadora posta
28 Todos esses dados factuais e de Registro Legal foram retirados da Enciclopédia dos Municípios Brasileiros, IBGE, 1958. v 2, p. 32.
29 SÃO PAULO. Assembléia Legislativa Provincial, Lei n.º 67, art. 1º. Apud: FARIA, Rodrigo S. de. Ribeirão Preto, uma cidade em construção (1895-1930): o moderno discurso da higiene, beleza e
em andamento na cidade no início do século XX30. Na construção da imagem de um
novo centro econômico e, por conseguinte, de um novo vetor de representatividade política, os registros priorizavam o engendramento do universo urbano de extrato burguês e deixavam de lado, como de praxe nas experiências desse tipo, as mazelas sociais típicas da contradição do desenvolvimento capitalista, sobretudo em áreas que até há pouco tempo prestavam-se à exploração de metrópoles européias.
Naturalmente, os incômodos representados por problemas sociais que desvirtuavam a ordem em um universo vincado pela perspectiva positivista não apareciam nas projeções visuais e, tão menos, nos discursos de Martinho Prado
Junior e de Luis Pereira Barreto31, que remetiam sempre às amplas potencialidades
agrícolas de Ribeirão Preto: “É na constituição física e na espessa camada de terreno roxo, que reside o segredo da sua uberdade e toda a garantia da província de São Paulo”32.
Na passagem da década de 1870 para a década de 1880, Ribeirão Preto havia se integrado à chamada “frente pioneira” da expansão do café, fato que promoveu uma inflexão no seu desenvolvimento sócio-econômico e espacial. Nesse sentido, em resposta a um desenvolvimento inexorável das relações do capitalismo, à época em sua fase industrialista, houve a substituição de meios de transporte arcaicos por outro típico da modernização científico-tecnológica empreendida pela segunda Revolução Industrial. E a reboque do contingenciamento técnico, ocorreram modificações estruturais nas propriedades fundiárias regionais, que se
30 FARIA, Rodrigo S. de. Ribeirão Preto, uma cidade em construção (1895-1930): o moderno
discurso da higiene, beleza e disciplina. Dissertação de mestrado, UNICAMP, Campinas, 2003.
31 Os Artigos de Luis Pereira Barreto e de Martinho Prado Junior foram publicados no Jornal A Província de São Paulo, nos anos de 1876 e 1877, e direcionam-se, sempre, à produção cafeeira e
as análises sobre a qualidade da terra do chamado “Oeste Paulista”.
integraram em definitivo ao mercado internacional do café no ano de 1883, quando ocorreu a chegada dos trilhos da Companhia Mogyana à região.
O último quartel do século XIX foi o período da grande expansão do café, época em que as estradas de ferro substituíram o transporte por meio de animais eqüestres. Depois de concluso o eixo ferroviário fundamental de integração litoral- interior, representado pela linha férrea Santos-Jundiaí, a rede ferroviária brasileira obteve muitos avanços, embora essencialmente restrita a São Paulo – a Companhia Paulista de Estrada de Ferro fazia a ligação Jundiaí – São Carlos e, posteriormente, chegando a Jaboticabal. A Companhia Mogyana, por sua vez, fundada em 1872, tinha início em Campinas e chegava até a região de Ribeirão Preto.
A reboque da consolidação da monocultura cafeeira na região, bem como dos trilhos que inauguravam um novo movimento no ritmo dos transportes, integrando o interior paulista ao Porto de Santos, houve um deslocamento populacional cada vez maior numericamente em direção ao chamado “Novo Oeste Paulista”. Assim, nas sendas renovadas das dinâmicas material, demográfica e tecnológica, outros arranjos nas relações humanas fincaram suas raízes no rosso do solo basáltico paulista. Há, inclusive, uma rica literatura reflexiva sobre as mais variadas realidades que concernem ao desenrolar do cotidiano regional.