II. KURAMSAL ÇERÇEVE VE İLGİLİ ARAŞTIRMALAR
2.6. Konu İle İlgili Yapılan Araştırmalar
2.6.2. Mesleki Karar Verme ile İlgili Yapılan Araştırmalar
Todo esse leque de características envolvendo a noção de totalização poética do romance, que desponta na obra cortazariana, parece confirmar a hipótese de Mikail Bakhtin, segundo a qual o gênero romanesco não vem a ser uma formação estável, uma vez reconhecendo a convencionalidade e, também, a arbitrariedade de todas as formas, inclusive aquelas as quais lhe dizem respeito.
Os gêneros do discurso literário se acumulam, portanto, segundo a proposta do teórico russo, pós-formalista, por meio de uma sucessão de várias sincronias, levando a formas de compreensão de determinados aspectos do mundo, das quais o gênero romanesco - entendido como um devir, processo - veio a absorver toda a dinâmica das formas literárias. Com isso, a premissa da prosa romanesca encontra-se, portanto, na estratificação interna da linguagem expressiva, de cuja plurivocalidade o romance instituiu-se ao longo de sua poética histórica em formação. Ou seja, a densidade dialógica romanesca representa um fenômeno a partir do qual aparece não uma linguagem monolítica, mas, antes, um diálogo de linguagens referentes às poéticas do romance em sua privação de cânone literário. 168
Disso, avizinha-se a proposta cortazariana a respeito da poética total. Luz que aqui fazemos despejar sobre esta, a poética histórica segundo a teoria bakhtiniana diz respeito a uma consideração em devir do gênero romanesco, desestabilizando a teoria clássica dos gêneros poéticos uma vez revelando certa sorte de estruturação formal cujas possibilidades plásticas (bem como parece convir à postura cortazariana) ainda não foram totalmente exploradas. A respeito desse ponto, Bakhtin considera que:
O processo de evolução do romance não está concluído. Ele entra atualmente numa nova fase. Nossa época se caracteriza pela complexidade e pela extensão insólitas de nosso mundo, pelo extraordinário crescimento das exigências, pela lucidez e pelo espírito crítico. Estes traços determinam igualmente o desenvolvimento do romance. 169
Uma vez que o romance se estabelece como gênero predominante na modernidade, toda a literatura encontrar-se-á, a partir daí, afetada por um criticismo de gênero, de sorte que a crítica, nesse caso, uma autocrítica, é incorporada pelos próprios artefatos da ficção em prosa (especialmente, o romance) através de sua concepção em devir, e nunca como forma fechada, esgotada.
168
Cf. BAKHTIN. Questões de literatura e estética, p. 427.
O romance acolhe características diretamente relacionadas com o grau de autonomia alcançado pela arte a partir da alta modernidade, isto é, caracterizando-se a autolegitimação de uma época histórica. É o que, nesses termos, permite compreender a teorização bakhtiniana e, igualmente, a noção de totalização poética cortazariana, isto é, hibridização de formas e, sobretudo, discursos literários acrescidos de modulações narrativas distintas. Dessa peculiaridade, seja histórica, seja plástica, decorre a possibilidade de a composição da narrativa romanesca designar a crítica de si enquanto arbitrariedade das formas literárias absorvidas no decurso diacrônico de sua sedimentação poética.
Se o romance vem a dar conta de uma determinada representação cultural - seja via carnavalização, a saber, inversão de valores culturais via subversão e ou profanação, seja via dialogismo, i.e., a polifonia de um texto em que se entrecruzam vozes a despeito de uma escrita monológica, conforme o prognostico conceitual bakhtiniano - é porque a literatura constitui ela mesma uma “realidade” autônoma.
Pode-se alegar que esse grau de autonomia esteja, necessariamente, determinado por uma constituição cultural. E tudo isso, como sabemos, terá sua dignidade metodológica alçada através de uma análise sociológica. Quando a literatura diz respeito a uma dimensão da cultura, termo altamente polissêmico, é, contudo, através da linguagem que ela o faz, e nunca absorvendo tal instância como algo exterior a si - apreendido “de fora” e representando tudo isso como um reflexo difratado através de uma superfície incólume traçada sem os riscos literários da escrita.
Mediante esses aspectos já resulta compreensível os motivos em razão dos quais o romance acolhe em seu interior algo que possa caracterizá-lo tal como uma poética histórica dos gêneros literários: compondo-se da maleabilidade das formas, da hibridização dos modos relativos ao discurso literário, ele é, dentro do emaranhado saber literário com o qual é capaz de conviver, a possibilidade mais plena daquele “contradiscurso” capaz de formular a “subjetividade escriturante” que é - tal como retivemos de Foucault no capítulo antecedente deste – “a essência de toda literatura”.
Nesse sentido, ocorrerá de a poética do romance romper com a verticalização tradicional relativa ao paradigma dos gêneros literários. Falando especialmente do romance em A tipologia do discurso na prosa é Bakhtin quem ainda acrescenta:
Uma das peculiaridades essenciais da ficção em prosa é a possibilidade que ela abre de se empregarem diferentes tipos de discurso, mantendo intacta, ao plano de uma obra isolada, a sua distinta expressividade, sem a redução a um denominador comum. 170
Encontra-se, aí, toda a potência de a prosa romanesca alimentar-se intertextualmente e afirmar sua subjetividade histórica. Implica, assim, a proposição de um “contradiscurso” capaz de corporificar no romance um criticismo de gênero, revelando a arbitrariedade das formas e inclusive de si próprio.
Aceitando-se que o primado da prosa romanesca é a encenação de diversas vozes, de distintas formações discursivas, sem, contudo, alterar sua expressividade literária, o romance será, também, um embate de perspectivas aparentemente distintas e não comunicáveis num mesmo lócus.
Encontrar-se-ão concomitantemente na prosa romanesca, dessa maneira, crítica e ficção, sem que aquela perca seu caráter de literariedade frente à linguagem ainda que focalize ambas as instâncias enunciativas. Desde a alta modernidade, como vimos, a literatura põe toda ênfase, e cada vez mais, no próprio processo de criação, constituindo um mundo autônomo que não necessariamente remeta ao exterior, mas, de outro modo, àquele mundo atópico constituído a partir da linguagem, ou melhor, no interior desta.