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Mekânsal Verilerin Özellikleri

3. MATERYAL VE METOT

3.1. Materyal

3.1.2. Mekânsal Veriler ve Zaman Serilerinin Genel Özellikleri

3.1.2.1. Mekânsal Verilerin Özellikleri

Rochelle Costi era estr‡bica desde a inf‰ncia, o que fez com que ela tivesse contato com inœmeros aparelhos —ticos e procedimentos associados ˆ vis‹o em fun•‹o dos tratamento que fez. Esta realidade despertou sua aten•‹o para o sentido da vis‹o, o que sem dœvida, repercutiu em sua trajet—ria profissional.

A curiosidade pela fotografia tambŽm sempre esteve presente, o que ficou evidente por ocasi‹o de sua passagem pela forma•‹o em comunica•‹o social, quando come•ou a pesquisar e investir em seu interesse pela fotografia, mas uma fotografia desvinculada dos rigores da tŽcnica que caracterizam a linguagem tradicional, e atrelado ˆs experimenta•›es permitidas pelas artes pl‡sticas, o que fez com que a artista desenvolvesse um percurso de trabalho em que associava fotografia e artes pl‡sticas. Um h‡bito de inf‰ncia, o colecionismo, tambŽm vai sendo agregado ˆ sua trajet—ria, como critŽrio conceitual de seus trabalhos. Fotografar, para Rochelle Costi, Ž tambŽm colecionar imagens, no sentido de que tanto uma pr‡tica quanto a outra se referem ˆ escolher, reter e possuir aquilo que lhe interessa do mundo.

Seu olhar apurado e sagaz, decorrente destas experi•ncias e curiosidades, lhe confere aptid‹o para perceber, em meio a tantos elementos e informa•›es, aqueles que lhe parecem mais interessantes e significativos, isto porque seu gosto para o h‡bito de colecionar vai sendo lapidado com o tempo e o que, a princ’pio era caracterizado pelo excesso de elementos, com o tempo vai se tornando mais seletivo, aprimorando sua capacidade de perceber e capturar, atravŽs da fotografia, algumas cenas de situa•›es que nos parecem t‹o corriqueiras e banais, mas que ganham ares de poesia atravŽs do olhar desta fot—grafa.

Ao captar estes momentos de aparente simplicidade Rochelle nos mostra uma complexidade que seriamos incapazes de perceber na correria di‡ria. Ela nos presenteia com algo de poŽtico que retira da rotina e da singeleza do dia-a-dia.

Os detalhes de sua fotografia nos ajudam a compreender o que est‡ alŽm da imagem, como se fossem uma porta de acesso para o universo que elas representam.

A esta artista interessam desde refer•ncias corriqueiras, como as atividades do dia a dia, atŽ aspectos oriundos da cultura popular como o artesanato, os flagras cotidianos nas ruas, as situa•›es intimas nas casas das pessoas.

Estes elementos, bem como a fotografia s‹o trabalhados num contexto art’stico mais amplo, envolvendo as rela•›es com o espa•o expositivo que Ž o que nos interessa discutir.

O sentido de muitos dos trabalhos da artista, compostos por fotografias com seus conteœdos ’nsitos, se d‡ pela rela•‹o entre as imagens que integram as instala•›es. Rochelle faz uma espŽcie de colagem com as imagens que produz, cria uma assemblage que, uma vez instalada, proporciona sentido pelo conjunto, por suas rela•›es de oposi•‹o ou conex‹o.

A instala•‹o dos projetos no espa•o expositivo s‹o essenciais no trabalho de Rochelle Costi, a maneira de distribu’-los pelo espa•o expositivo, onde rela•›es entre obra e espa•o criam possibilidades de reconfigura•‹o espacial e de ressignifica•‹o da obra art’stica, bem como a forma como o observador interage neste contexto, s‹o preocupa•›es imprescind’veis para a artista.

Neste sentido Costi toma precau•›es deste o ato de fotografar, j‡ considerando as rela•›es espaciais e pensando em como o projeto ser‡ constitu’do no local de exposi•‹o. Trabalhos como Pratos T’picos, Quartos e Objeto Encontrado, que aqui pretendemos discutir, revelam estas caracter’sticas, de situar o observador dentro do campo de experi•ncia art’stica, de encontrar a complexidade na aparente simplicidade, de valorizar o acaso e se render ao improviso, deixando-se levar pelas circunst‰ncias de uma rotina aparentemente banal, mas carregadas da desconcertante poesia que a artista lhes imprime.

Outros aspectos importantes permeiam o trabalho de Rochelle Costi como o despojamento, o improviso Ð como estratŽgia criativa Ð, a precariedade, a simplicidade. Estas caracter’sticas captadas pela artista tem uma natureza diferente da observada no trabalho de Miguel Rio Branco. Enquanto Rio Branco evidencia sua insatisfa•‹o e impot•ncia diante dos dilemas do ser humano, demonstrando um inconformismo atravŽs da densidade e do peso dram‡tico de suas imagens, Costi olha para esta marginalidade, muitas vezes pressuposta nos improviso das moradias retratadas, dos quartos, dos pratos de comida, das fachadas deterioradas, com um olhar de interesse e de curiosidade que reverbera em seu trabalho.

Podemos citar como exemplo uma imagem da sŽrie Casa Cega de Rochelle Costi. A imagem registra a fachada de uma casa totalmente pichada. Ao lado direito da fotografia, pr—ximo ao nœmero da casa, um detalhe que nos remete ˆqueles desenhos de casinha feitos pelas crian•as: um ret‰ngulo com um tri‰ngulo em sua parte superior parecem se destacar da fachada criando, uma nova estrutura que como diz’amos, lembra as casas de desenhos infantis. Mas h‡ um detalhe importante, a casa n‹o tem janelas, trata-se de uma casa cega.

A sensa•‹o que temos ao olhar para a imagem Ž de enclausuramento, pois n‹o se pode escapar daquela Casa Cega, mas, eis que um tom azulado no local onde deveriam haver as janelas conduz o nosso olhar para a liberdade do azul do cŽu, pois Ž ali que est‹o as janelas e a sa’da desta situa•‹o claustrof—bica. A legenda com o nome da obra, Casa

casa cega Ð Rochelle Costi

Esta Ž, inclusive uma pr‡tica da artista, a legenda das obras refor•a ou por vezes direciona o sentido que se pretende dar ˆ obra.

O trabalho de Rochelle Costi Ž constru’do por estas sutilezas estabelecidas por conex›es e oposi•›es capturadas no cotidiano e na intimidade de nossa rotina di‡ria, rotina que nem percebemos mais, j‡ que estamos t‹o anestesiados. Seu trabalho Ž pleno de encantamento pela simplicidade, pelo corriqueiro, pelo comum.

Rochelle tambŽm nos conduz para alŽm da imagem fotogr‡fica, como acontece no trabalho M‹os de Ouro e em muitos outros. Neste projeto, composto por mais de uma fotografia, observamos imagens de croch•s e bordados minuciosos em tecido que, percebemos, foram elaborados com maestria por m‹os extremamente habilidosas, as M‹os de Ouro, que n‹o est‹o presentes visualmente, mas se fazem presente atravŽs de seu trabalho manual e da legenda que Rochelle associa ao projeto.

m‹os de ouro Ð Rochelle Costi instala•‹o m‹os de ouro Ð Rochelle Costi Rochelle Costi proporciona, atravŽs de uma obra estŽtica que relaciona fotografia e artes pl‡sticas, discuss›es de cunho social, pol’tico, antropol—gico. Transita ainda entre o pœblico e o privado, o erudito e o popular fazendo aproxima•›es que nos remetem as ideias propostas pela arte pop.

Suas imagens captam e representam um sentido muito alŽm de nossa compreens‹o e percep•‹o, conduzindo nosso racioc’nio para muito mais longe: a intimidade muito alŽm das evid•ncias que a imagem nos mostra. Costi deflagra uma intimidade velada, escondida para muito alŽm do registro fotogr‡fico que nos apresenta.

Quartos

O trabalho Quartos constitui-se por uma sŽrie de imagens fotogr‡ficas de diversos quartos capturadas por Rochelle Costi na regi‹o da cidade de S‹o Paulo e de seu entorno.

As fotografias retratam diferentes tipos de c™modos e, portanto, diferentes contextos pessoais, representando um universo formado por indiv’duos das mais variadas faixas et‡rias, sexual, social, cultural e econ™mica.

Estas caracter’sticas poderiam nos remeter a um trabalho de car‡ter antropol—gico, mas mais do que retratar h‡bitos e caracter’sticas de um povo, ao produzir estas imagens e

imprimi-las em grande escala Costi nos insere dentro do universo dos quartos retratados, isto Ž, naquilo que h‡ de mais ’ntimo para um ser humano.

Esta rela•‹o de proximidade se estabelece desde o ato de fotografar, quando a artista invade ambientes extremamente particulares e complexos: a intimidade dos quartos de dormir.

Ao analisar algumas das fotografias que constituem o trabalho, podemos depreender um pouco dos interesses e da complexidade de seus habitantes.

Nesta primeira fotografia notamos a profus‹o de elementos, cores, acess—rios e informa•›es provocando inquietude no observador.

Quartos Ð Rochelle Costi

O quarto, de tonalidade avermelhada intensa, conta com um excesso de informa•›es nas estampas, cores e texturas variadas especialmente nos tecidos das cortinas e do teto, mas tambŽm nas colchas.

As toalhas, com suas rendas e recortes, s‹o colocadas sobre as mesas e m—veis e sobre elas inœmeros objetos de car‡ter pessoal, tais como vidros de perfumes, caixas, vasos, roupas, plantas, entre outros elementos que, em excesso, tornam o espa•o confuso e sufocante. Os poucos m—veis amontoados no pequeno quarto como que disputam espa•o com seu morador. Como contraponto, o espelho situado numa parede lateral ˆ cama e acima das

mesas Ž o œnico elemento que tem por objetivo ampliar e suavizar este universo exagerado, quase barroco.

Em outra imagem, o oposto.

Quartos Ð Rochelle Costi

Um ambiente de linhas retas, com um equil’brio melhor estabelecido entre os elementos pendurados nas paredes, as cores da colcha que recobre a cama, das cortinas e da parede ao fundo que, apesar de n‹o serem em tons pastŽis, demonstram harmonia em rela•‹o ao ambiente como um todo, dando a sensa•‹o de quietude.

Nota-se tambŽm certa leveza no design dos m—veis, das mesas laterais e atŽ da pr—pria cama, cujo suporte remete a troncos de ‡rvores, demonstrando uma quebra com rela•‹o as estruturas tradicionais de mobili‡rio, sem dœvida uma caracter’stica de personalidade do dono do ambiente.

Em outro exemplo, nos deparamos com um quarto, digamos, improvisado, habitado por alguŽm que se apropria de objetos que encontra em seu cotidiano numa tentativa de fazer deste ambiente o seu refœgio da rotina ‡rdua das ruas. Poder’amos, quem sabe, atribuir este lugar a um sem teto.

Quartos Ð Rochelle Costi

Estruturas de madeira s‹o usadas para fazer uma cama, bem como para improvisar outros m—veis. A cama Ž contornada por uma tela, provavelmente para prote•‹o contra insetos, alguns eventualmente pe•onhentos.

Neste caso, mais do que apenas um c™modo para dormir, estamos diante de sua moradia. As roupas penduradas num varal por cima da cama improvisada, fios aparentes que sugerem gambiarras elŽtricas, divis—rias de madeira delimitando o espa•o e poucos objetos espalhados pelo local, alguns provavelmente alocados nas caixas embaixo da cama que faz as vezes de arm‡rio.

Apesar de toda a simplicidade do local, notamos a presen•a de um aparelho de TV, cuidadosamente embrulhado numa coberta protetora.

Estas informa•›es visuais provenientes dos elementos constitutivos dos quartos, que observamos quase como voyeurs, nos dizem muito sobre o morador, por ora afastado do ambiente.

Apesar da aus•ncia dos ocupantes, o registro fotogr‡fico dos diversos quartos com suas caracter’sticas representadas pela arquitetura, pelos tipos de objetos dispostos no ambiente, pelos tipos de m—veis, tecidos, cores predominantes, e outros aspectos observados nas imagens nos permite ter acesso ˆ privacidade dos moradores, imaginando como seriam estas pessoas.

Assim, muito se pode conhecer e inferir a partir de cada uma das complexas imagens que fazem parte da instala•‹o Quartos.

O importante a ressaltar Ž que cada uma das fotografias da sŽrie Quartos n‹o captura apenas discretas ou ex—ticas caracter’sticas f’sicas dos locais, mas, tambŽm consegue captar um pouco da aura de seus ocupantes, ainda que ausentes fisicamente.

Descritas algumas das imagens que comp›e a instala•‹o Quartos de Rochelle Costi, refletiremos agora sobre a rela•‹o destas imagens individuais, repletas de significados, no contexto da instala•‹o propriamente.

No trabalho de Rochelle Costi, a rela•‹o com o espa•o Ž utilizada como recurso de express‹o que pode ser considerado sob v‡rios aspectos, e Ž deste ponto de vista que consideraremos seu trabalho enquanto instala•‹o fotogr‡fica. Particularmente na obra

Quartos, o que percebemos s‹o rela•›es que se estabelecem entre a fotografia e o

espa•o expositivo em que a obra se apresenta.

Uma a uma, em dimens›es ampliadas de 183 x 230 cm, as fotografias deste projeto foram instaladas durante a Bienal das Artes de S‹o Paulo de 1998 sobre v‡rios painŽis distribu’dos em uma ‡rea no interior do Pavilh‹o Ciccillo Matarazzo do Parque do Ibirapuera.

Estes painŽis, que contŽm imagens em ambos os lados, como que se organizam no espa•o quase como um labirinto. Ao se deslocar por esta instala•‹o, o observador se depara com esta multiplicidade de informa•›es pessoais espalhadas por todo seu entorno, assim como acontece no cotidiano ca—tico da cidade.

A diferen•a fundamental Ž que, a partir destas imagens, cuja escala imensa faz uma interessante oposi•‹o ao seu car‡ter tem‡tico intimista e repleto de significados, o observador Ž inserido dentro do universo de cada um daqueles ambientes. Assim, este observador torna-se um intruso em busca de um segredo que possa ser revelado, enquanto especula sobre a privacidade escondida em cada um dos ambientes.

A inser•‹o do observador no campo da instala•‹o art’stica provoca uma rela•‹o de complexidade e reconfigura•‹o espacial que n‹o se restringe apenas a observar a obra de um ponto de vista fixo.

Mais do que isto, este observador Ž convocado a fazer parte do mundo de cada um daqueles personagens retratados e representados em cada detalhe que comp›e os ambientes registrados nas fotografias que constituem a instala•‹o.

Quartos Ð Rochelle Costi

O espectador Ž solicitado a se situar constantemente num espa•o-quarto diferente. A artista prop›e, assim, uma releitura da vida cotidiana contempor‰nea fragmentada e

inst‡vel, que leva ˆ busca pelo aconchego da habita•‹o, atravŽs da apresenta•‹o de espa•os fixados por uma percep•‹o m’ope do todo. (Canclini, 1996: 131).

Benzer Belgeler