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Os períodos mais ou menos demarcados, as principais correntes de estudo que frequentaram a área desde o seu surgimento, são descritas por Pinheiro (1997, 2005, 2006), relativamente ao seu caráter interdisciplinar, aspecto que muito interessa à presente pesquisa, em três fases, a saber:

1a) Fase conceitual e de reconhecimento interdisciplinar (1961/62 – 1969). As discussões se concentravam em torno da natureza interdisciplinar e social da área, sua terminologia, e a preocupação com a busca de cientificidade através de estudos de seus métodos próprios e dos de outras ciências e da inclusão da palavra ciência à sua denominação.

2a.) Fase de delimitação do terreno epistemológico (1970 a 1989). Nessa fase há maior rigor científico nos trabalhos e indicações da utilização de experimentos matemáticos, talvez como forma de buscar o caráter científico da área, o que levou a uma demonstração de grande rigor científico nas pesquisas do período. São estudados, com maior profundidade, o objeto: sobre o que deve tratar – “descobrir e formular, em termos gerais, as condições sob as quais ocorrem fatos e eventos relacionados com a geração, transmissão e uso da informação” segundo Goffman (1975, apud PINHEIRO, 2005, p.7) e a natureza da ciência da informação, a presença da tecnologia nos processos da área e o contexto de desenvolvimento científico daquele momento.

3a. Fase de consolidação da denominação e de alguns princípios, métodos e teorias,

e de aprofundamento da discussão sobre interdisciplinaridade com outras áreas (1991-1998). Essa fase sofreu grande influência do que foi a mais importante reunião da C.I., realizada em 1991, em Tampere/Finlândia4, com a presença de

4 A autora se refere à International Conference for the Celebration of 20th Anniversary of the

Department of Information Studies, University of Tampere, Finland − cujos anais foram organizados

alguns renomados pesquisadores, especialistas da área e grande número de participantes.

Pode-se dizer que outra fase foi prevista no evento de Tampere. De certa forma Savolainen (1992) sugere a quarta fase, em perspectiva, quando se refere ao crescimento das pesquisas multidisciplinares, como pesquisas de busca e uso de informação, cruzadas com psicologia cognitiva, inteligência artificial, ciência da computação, filosofia, matemática, semântica e linguística, entre outras, o que, segundo ele, levaria ao fortalecimento da pesquisa em CI, por meio de relações mais próximas com outras disciplinas. Para o autor, a teoria de sense-making já poderia ser citada como um bom exemplo de um projeto de pesquisa que tem ênfase na abordagem multidisciplinar e na importância de fatores cognitivos na comunicação de pesquisa.

Qualquer que seja a fase em que a CI se enquadre, neste início do século XXI, é certo que a área seja caracterizada por fundamentos teóricos e práticas que foram desenvolvidos ao longo de sua história. Segundo Hjorland (2000), as proposições, ou os princípios metateóricos, estão sempre conectadas a posições filosóficas, não sendo possível clara distinção entre paradigmas e essas posições. A partir de várias correntes epistemológicas que influenciaram a reflexão filosófica na CI no século XX, Capurro (2003) destacou três paradigmas epistemológicos da ciência da informação identificados pelas características predominantemente presentes nas pesquisas realizadas na área em determinados períodos. Foram estudadas pelo autor, entre outras, a teoria da informação de Claude Shannon e Warren Weaver; a hermenêutica, como teoria filosófica desenvolvida por Gadamer; o racionalismo crítico de Karl Popper; a filosofia analítica e a teoria da ação comunicativa de Jürgen Habermas e Karl-Otto Apel; a cibernética de segunda ordem, baseada em teorias desenvolvidas por Heinz von Foerster, Maturana e Varela e Luhmann, entre outros; a semiótica de Charles Peirce; e o pensamento de Michel Foucault e Gianni Vattimo.

Os paradigmas de Capurro são baseados nas duas raízes da CI, que para o autor são: a biblioteconomia clássica (que se relaciona com a transmissão de mensagens baseada na linguagem, ligada a todos os aspectos sociais e culturais humanos) e a computação digital (que se relaciona ao impacto da computação nos

do objeto de pesquisa, o escopo e o fenômeno central da ciência da informação e da biblioteca em três diferentes perspectivas: histórica, empírica e teórica”.

processos que envolvem a informação, em especial a informação científica). Inicialmente, Capurro (1992, p.84) identificou três paradigmas da CI que consideravam a informação somente “como algo objetivo na realidade externa”, denominados: a) paradigma da representação (ou idealista); b) paradigma emissor- canal-receptor; e, c) paradigma platonista. Em nova proposta feita pelo autor em 2003, estes três tipos foram agrupados na primeira categoria e os três tipos de paradigmas passaram a se denominar:

Paradigma físico. Inicia-se com a teoria da recuperação da informação, baseada na epistemologia fisicista, ligada à chamada teoria da informação de Claude Shannon e Warren Weaver e à cibernética de Norbert Wiener. Por esse paradigma, há algo, um objeto físico, que é um emissor transmitindo mensagens a um receptor. Não são considerados os aspectos semânticos e pragmáticos relacionados ao uso diário do termo informação.

Paradigma cognitivo. Relaciona-se à recuperação do próprio conteúdo da informação, não estando ligado, portanto, aos suportes em que se encontra. Considera a informação como algo separado do usuário, deixando de lado os condicionamentos sociais e materiais do existir humano. Brookes, proponente inicial desse paradigma, diz que conteúdos ou “informações objetivas” existem somente em espaços cognitivos ou mentais.

Peter Ingwersen (1992) e Vakkari (2003) propuseram a integração do usuário, “objeto perdido desse paradigma”, por meio da teoria dos modelos mentais (de Belkin et al.) segundo a qual a busca de informações surge da necessidade do usuário quando seu conhecimento é insuficiente para resolver o problema. O usuário tem percepções do mundo exterior que são transformadas durante os processos informacionais. Contudo, esses estudos estariam, segundo Capurro (1992), numa posição intermediária entre o paradigma cognitivo e o social.

Paradigma social. Parte de uma crítica ao paradigma cognitivo ao desconsiderar o processo social de construção dos processos informacionais. Baseia-se na premissa de que o existir significa estar socialmente envolvido em uma rede de relações e significados. Hjorland e Albrechtsen, segundo Capurro (1992), desenvolveram o paradigma social-epistemológico chamado domain analysis, que diz que o estudo de campos cognitivos está relacionado diretamente a distintos grupos sociais e de trabalho que constituem a sociedade moderna. Assim sendo, o objeto da ciência da informação deve estar relacionado às possíveis perspectivas ou

pontos de acesso de distintas comunidades de usuários, abandonando-se, então, a busca de uma linguagem de representação do conhecimento ou de um algoritmo ideal de recuperação da informação a que aspiram os paradigmas físico e cognitivo (CAPURRO, 2003).

Junqueira e Barbosa (2005), em pesquisa que analisa questões referentes ao conhecimento organizacional sob a perspectiva da CI, dizem que sob o primeiro paradigma – físico – estão as atividades tradicionais da biblioteconomia e outras atividades profissionais ligadas à organização, indexação e recuperação de documentos. As pesquisas associadas aos processos informacionais ao nível do indivíduo como usuário da informação estariam justificadas no paradigma cognitivo. E o terceiro paradigma – social – sustenta e fundamenta os estudos de criação e utilização do conhecimento organizacional.

Como é facilmente observado na literatura da área, os paradigmas da CI identificados por Capurro, se constituem importante e conhecida fonte de reflexão interna. A utilização do termo “paradigma” mantido pelo autor, foi objeto de questionamento feito por Matheus (2005), com base em análise da obra de Rafael Capurro. Matheus (2005) propõe a substituição do termo por outro: sugere uma reinterpretação da palavra paradigma e sua substituição pelo termo “abordagens”, uma vez que estas (ou aqueles “paradigmas”) estão a representar o resultado histórico da ampliação dos interesses das pesquisas em CI com foco em diferentes objetos, ao longo do tempo. A abordagem física estaria associada à tecnologia e aos sistemas de informação, a cognitiva às necessidades do usuário e suas interações com os sistemas, e a abordagem social ampliaria o foco no usuário em relação também aos diferentes grupos e contextos sociais dentro de organizações ou comunidades. Na opinião de Matheus (2005), essas abordagens estudam diferentes aspectos dos problemas associados à informação e por isso continuam sendo essenciais e convivendo juntas na área. Elas não seriam, dessa forma, paradigmas concorrentes.

Ainda utilizando o termo paradigma, mas com sentido de funções desempenhadas pela CI e pela biblioteconomia, Miksa (1992) apresenta uma revisão da CI com ênfase na relação entre as áreas de biblioteconomia e da CI consideradas pelo autor como campos orientados por paradigmas diferentes. Enquanto o paradigma da biblioteca caracteriza-se por suas funções e suas propriedades social e institucional, o paradigma da CI “compõe-se de um grupo de

ideias relativas ao processo que envolve o movimento da informação em um sistema de comunicação humana” (MIKSA, 1992, p. 232).

Em artigo de Le Coadic (2004), o qual foi chamado por ele de “breve estudo crítico”, ou um “estudo epistemológico parcial” sobre a área da CI, o pesquisador distinguiu os cinco princípios que em sua percepção norteiam “os novos paradigmas informacionais” da CI e das tecnologias de informação digital, atualmente. Esses princípios são na maioria das vezes representações mais ou menos metafóricas de um conjunto de fenômenos, e como tais devem, portanto, ser compreendidos, lembra Le Coadic. São eles:

Princípio produtivista (e-construção), relaciona-se ao “publique ou pereça” exigido para sobrevivência científica dos pesquisadores, altamente modificado com as novas tecnologias de informação e comunicação, inclusive na produção de periódicos.

Princípio interacionista (e-comunicação). Divulgação ampla do modelo “emissor”, que “comunica” uma “mensagem” a um “receptor” que domina as mídias de massa, tem dividido espaço com a dimensão interativa possibilitada pela internet, com os correios eletrônicos, as listas de discussão etc.

Princípio do consumo (e-utilizador). No setor de serviço, um produto informacional é pensado ou “orientado ao usuário”, com a função de modificar atividades. Esta situação levou a formas de trabalho severo no setor de serviços, à mercantilização crescente dos produtos culturais e aos serviços de identificação de práticas de usuários que irão alimentar os indicadores “midiamétricos”.

Princípio métrico (e-metria), análises métricas ou estatísticas que se convertem em indicadores que às vezes tendem a resultados que nem sempre retratam a realidade mas que são do interesse de quem os produz.

Princípio eletrodigital (e-digital)- importância crescente do suporte eletrônico, que apesar dos planos, ainda convive com suportes analógicos e poderão ser substituídos por outros “horizontes não-digitalizados”.

Sob qualquer paradigma ou abordagem, orientado sob qualquer princípio ou teoria, no âmbito da CI, a noção de informação é importante para compreensão da área. Seus significados, conceitos e definições são assuntos caros à área. Considerada objeto de estudo e pesquisa da CI, a informação tem sido estudada dentro da própria área e em outras áreas que também lidam com a informação. Em vista dessa multiplicidade de usos do termo, ele possui também uma enorme

quantidade de significados nos diversos campos, e mesmo dentro da CI seu significado apresenta múltiplas concepções. Sem a pretensão de esgotar a discussão, apresentamos, a seguir, algumas reflexões sobre o termo, baseadas na literatura da área.

Benzer Belgeler