O crescimento desordenado de células no organismo vivo corresponde às neoplasias, ou tumores, que podem ser benignos, no caso em que apresentam crescimento de forma organizada, geralmente lento, expansivo e com limites bem nítidos, ou malignos, quando os tumores mostram um maior grau de autonomia, com a capacidade de invadir tecidos próximos e espalhar-se para várias regiões do organismo (metástase). O câncer é uma neoplasia maligna, e é o nome geral dado a um conjunto de 100 doenças (BRASIL, 2010; INCA, 2012).
A especialidade médica responsável por estudar os tumores é a Oncologia, que está voltada para a maneira como o câncer se desenvolve no organismo e qual o tratamento apropriado para cada caso. No Brasil, também é denominada de Cancerologia (INON, 2013).
Tornou-se, nos últimos anos, uma área do conhecimento relevante e complexa, dispondo da contribuição de outras especialidades (INON, 2013). Na Oncologia, é essencial o tratamento multidisciplinar, envolvendo obrigatoriamente outras áreas técnico- assistenciais, como enfermagem, farmácia, serviço social, nutrição, fisioterapia, reabilitação, odontologia, psicologia clínica, psiquiatria e estomaterapia8, para tratar dos diversos tipos de câncer e das suas diferentes abordagens terapêuticas, que são a quimioterapia, a radioterapia e a cirurgia, podendo ser usadas em conjunto (BRASIL, 2010; INCA, 2012; INON, 2013).
Para os casos que envolvem mais de uma dessas modalidades terapêuticas, correspondendo a tratamentos de alta complexidade em oncologia, é necessária uma assistência integral de serviços oncológicos (de cirurgia, radioterapia e quimioterapia), entre
8 A estomaterapia é uma especialidade da área de enfermagem, dirigida ao cuidado de pessoas com estomias (abertura feita no abdomen, por onde o conteúdo dos instestinos sera expelido e coletado por uma bolsa coletora), feridas agudas e crônicas, fístulas, drenos, cateteres e incontinências anal e urinária (SOBEST Associação Brasileira de Estomaterapia). Disponível em:
<http://www.sobest.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=23&Itemid=46>. Acessado em: fevereiro de 2014.
si e com aqueles de apoios gerais. Para tanto, é fundamental a estrutura hospitalar de nível terciário9, com maior densidade tecnológica (BRASIL, 2010; INCA, 2012).
O tratamento oncológico tem como objetivos principais a cura do câncer, a melhoria da qualidade de vida e o prolongamento da vida, através de meios paliativos (BRASIL, 2010; INCA, 2012; INON, 2013). Há tratamentos curativos para um terço dos casos de câncer, quando identificados no estágio inicial da doença e tratados em conformidade com as práticas clínicas mais adequadas para cada situação. Isso ocorre, principalmente, para os cânceres de mama, colo do útero, cavidade oral e cólon (INCA, 2012).
A importância cada vez maior dada à área oncológica, através dos diversos campos do conhecimento, é em virtude da magnitude do problema no Brasil e no mundo, atualmente.
Segundo dados da IARC, os novos casos de câncer no mundo foram 14,1 milhões, em 2012, e 8,2 milhões de pessoas morreram em decorrência da doença, nesse mesmo período (IARC, [201; ONUBR, 2013). Ainda de acordo com as informações fornecidas pela IARC, através do GLOBOCAN - projeto que fornece estimativas sobre a incidência, mortalidade e prevalência do câncer no mundo - em 2012, 32,6 milhões de pessoas mundialmente estavam vivendo com a enfermidade (dentro de 5 anos após o diagnóstico) (IARC, [201-]).
No Brasil, o INCA10 estima cerca de 580 mil novos casos de câncer para 2014. A previsão é de que o câncer de mama (57 mil) seja o de maior incidência entre as mulheres, nesse ano, e o de próstata (69 mil) o de maior número de casos entre os homens (INCA, 2013).
O constante acompanhamento das estimativas dos casos de câncer é importante para, entre outros motivos, que se estabeleçam medidas de controle e combate da doença.
9 No nível terciário, classificam-se os hospitais gerais, os de clínicas e os especializados no tratamento ou estudo de alguma doença (que se podem denominar centros, hospitais ou institutos) (KLIGERMAN, 2000).
Diante desse quadro crescente dos casos de câncer, torna-se relevante buscarem-se meios, que possam contribuir para o tratamento e a qualidade de vida dos pacientes oncológicos, bem como para o desempenho das atividades desenvolvidas pela equipe médica, que convive com pressões psicológicas e emocionais frequentemente.
Para tanto, o ambiente hospitalar, onde são realizados os procedimentos médicos, pode oferecer condições espaciais apropriadas, garantindo a segurança, o conforto e o bem-estar dos usuários, conforme as suas necessidades. Sendo assim, a arquitetura destaca-se como instrumento de auxílio, para tornar mais agradáveis lugares que remetem normalmente a sensações de dor e ansiedade, pelo risco eminente da morte.
2.2.1. Quimioterapia
A quimioterapia é um método de tratamento sistêmico do tumor maligno em que são manipulados medicamentos denominados “quimioterápicos” (ou antineoplásicos), administrados em intervalos regulares, que variam de acordo com os esquemas terapêuticos (BRASIL, 2010; INCA, [20--], 2012), podendo ser aplicados por dia, semana, quinzena, de 3 em 3 semanas, de 4 em 4 semanas, 5 em 5 semanas ou de 6 em 6 semanas (BRASIL, 2010).
Quando é concluída a administração do(s) quimioterápico(s) de um esquema terapêutico, diz-se que se aplicou um ciclo. Portanto, a quimioterapia é aplicada em ciclos, que consistem em ministrar-se um ou mais medicamentos a intervalos regulares (BRASIL, 2010).
A finalidade da quimioterapia depende basicamente do tipo de tumor, da extensão da enfermidade e da condição geral do paciente, podendo ser então, classificada em (BRASIL, 2010, INCA, [20-00]; 2008; 2012):
Curativa: objetiva a erradicação do tumor para o qual representa o principal tratamento, podendo ou não ser feita em associação com a cirurgia e a radioterapia;
Adjuvante: indicada após a cirurgia curativa, tem por finalidade promover a eliminação da doença residual local ou circulante, reduzindo a incidência de metástase a distância;
Neoadjuvante ou prévia: prescrita para se obter a diminuição parcial do tumor, com o objetivo de possibilitar uma complementação terapêutica com a cirurgia e/ou radioterapia;
Paliativa: sem fins de cura. Aplicada com o propósito de melhorar a qualidade da sobrevida do paciente.
Na RDC nº 50 (2002), a ANVISA11 determina a programação físico-funcional dos estabelecimentos assistenciais de saúde (EAS), delimitando as suas atribuições e atividades. O desenvolvimento de atividades de quimioterapia foi atribuído à prestação de apoio ao diagnóstico e terapia.
A partir disso, foram listados diversos ambientes próprios para cada atividade descrita, que são usados por equipes de planejamento do EAS, para os quais são apresentados dimensionamentos mínimos e instalações necessárias. Entre os espaços físicos descritos para a unidade de quimioterapia, destaca-se a sala de aplicação de quimioterápicos, objeto de estudo desta pesquisa.
Essas salas são áreas em que os pacientes se encontram, na sua maioria, debilitados, físico e emocionalmente, devendo assim ser planejadas de forma que eles possam ser atendidos mais confortavelmente, prevenindo condições negativas e depressivas, além de colaborar na recuperação (CARVALHO, 2004). A arquitetura e seus condicionantes têm função importante para o tratamento desses enfermos, local onde muitos permanecem imóveis durante um longo período.