1.3. KAYGI
1.3.4. Matematik ve Matematik Kaygısı
Analisar as falas agrupadas nesse primeiro núcleo possibilitou avançar na compreensão do grande dilema que acompanha as pessoas com baixa visão: afinal, tenho ou não tenho uma deficiência visual? As falas de Sofia foram permeadas por muitas contradições que revelam sua dificuldade, a dos familiares e, ainda, a das pessoas de seu círculo social, em admitir a presença de uma deficiência.
Ao falar sobre sua própria percepção visual na infância, tendo que aproximar muito os objetos dos olhos, mas, ao mesmo tempo, não se dando conta da gravidade desse problema e sentindo ‘normal’, Sofia expressa algo bastante comum entre aqueles com baixa visão: ver, porém de forma diferente, com limitações.
Sua fala ganha mais emoção quando relata as atitudes de seus familiares, principalmente da mãe. Repetidas vezes, expressando muito sofrimento e angústia, diz que era tudo muito velado em sua casa. Essa atitude, notadamente por vir da mãe, provoca dúvidas e inquietações em Sofia. Sua fala, seu semblante e sua voz revelam sua apreensão acerca desse comportamento materno.
Ao fazermos uma análise dessa atitude familiar, é importante recorrer ao relato de FIGUEIREDO (2009), quando descreve o quanto pode ser penoso para as famílias de pessoas com baixa visão, aventar e conviver com o espectro da cegueira. Além disso, cumpre notar que os estudos sobre baixa visão ocorreram, no Brasil, a partir de 1970 (AMIRALIAM, 2004) e, portanto, a família de Sofia pode não ter tido esclarecimentos e orientações a respeito. De qualquer modo, ao descrever como foram seus relacionamentos sociais e afetivos, Sofia revela uma incômoda sensação de
menos valia. Percebe-se tristeza ao falar sobre suas amizades e seu primeiro namoro.
Os dois irmãos da entrevistada também não reconheciam sua deficiência, porém revelam contradição quando lhes convém. Esse fato fica bem claro na fala de Sofia, quando ela, com voz emocionada, relatou:
Sempre eu fui vista como a menina que tinha uma dificuldade de visão, mas não uma deficiente visual, e que tinha algumas limitações por causa disso. Tanto que, para os meus irmãos (tenho dois), eu sempre usei a deficiência pra me defender deles. Até hoje isso acontece: se eu peço para o meu pai me buscar no ponto ou pra fazer alguma coisa, eu sou folgada e porque que eu não me viro, eu devia me virar, eu uso a deficiência como desculpa e, isso, até hoje acontece...
Segundo Amiralian (2004, p. 25), o que todos deveriam entender é que crianças com baixa visão não são nem cegas, nem videntes. São crianças que precisam construir uma identidade distinta: a de ser uma pessoa com baixa visão. O ocultamento do problema, por parte da família criou uma situação confusa, que atingiu diretamente Sofia, dificultando, em muito, sua confiança nas pessoas com as quais convivia, algo que parece lhe ter gerado grande insegurança. A incerteza sobre si mesma engendrou, por sua vez, uma redução na autoestima de Sofia, que se evidencia nas relações com as colegas e com o primeiro namorado. A família, em seu caso, não lhe ofereceu, ao contrário do esperado, um espaço seguro e abrangente para que pudesse explorar seu entorno. Assim, a entrevistada percebe-se não tendo podido experimentar, com confiança em si, a vida e a escola, tal como outras crianças. Gostaria, aparentemente, que tivesse tido ocasião de, apesar de suas limitações, ser vista tal como era, algo que lhe permitiria, entre outras coisas, vivenciar sua deficiência de forma aberta e franca. Implícita em sua fala está a hipótese de que sua família poderia ter atuado de forma diferente, mais positiva, constituindo uma boa mediação entre a filha e os ambientes nos quais circulava.
Nesse sentido, Freire (2000, p. 144) coloca que: “a mediação do adulto é a principal coluna que sustenta o processo de apropriação de experiência pela criança,
pois é ele que organiza o ambiente onde ela vive, além de ser o responsável pela sua educação”. Sofia, ao tornar explícita sua relação com as colegas, mostrou quão profundo era o sentimento de exclusão frente a esse grupo social. Segundo contou, só conseguiu amizades com outras colegas que, como ela, ainda que por razões distintas, também eram excluídas, sofrendo, inclusive, caçoadas pelo que lhes marcava a diferença. Deixa claro como, em razão de alguma característica atípica, algumas crianças não conseguem ser aceitas. Cabe lembrar, aqui, os Fundamentos de Defectologia de Vygotski (2008), no qual ele estabelece uma distinção entre deficiência primária (que diz respeito ao órgão lesionado e/ou deficitário) e deficiência secundária (que se refere às consequências psicossociais da deficiência), apontando essa última como mais grave. De fato, a deficiência secundária é socialmente constituída, ou seja, o universo sociocultural, pautado em padrões típicos, cria barreiras físicas, educacionais e atitudinais para a participação social e cultural da pessoa com deficiência.
Portanto, percebemos como esse núcleo evidencia a importância das contradições vividas por Sofia na construção de sua identidade e como sua autoimagem ficou prejudicada. Em sua fala percebemos esses aspectos: “[...] essa coisa da exclusão, principalmente na adolescência, prejudica muito. Isso acontece: a vesguinha, a cega... E você não é! Se você não tem contato com outras pessoas que tem o que você tem, você se acha a pior pessoa do mundo”. O mesmo movimento é percebido na relação com o primeiro namorado. Sem se sentir atraída por ele, acabou por namorá-lo porque foi o único que aceitou sua deficiência. Essa apreensão do namorado parece ter funcionado como um incentivo, como uma valorização de sua pessoa, um olhar que viu além da deficiência e, por isso, motivador. Foi a partir de sua interação com esse namorado que Sofia deu-se conta de que poderia lutar por suas metas de vida – e sair vencedora dessa luta. Mesmo após a ruptura desse namoro, ficou, com ela, um sentimento positivo sobre si mesma, capaz de encorajá-la a resgatar a ‘adolescência perdida’, tal como ela definiu esse momento de sua vida.
afetivas, deparando-se, entretanto, com muitos sentimentos e emoções de falta de pertença, de exclusão, que vieram constantemente à tona. Esse fato evidencia-se no relato que se segue: “[...] eu ia para balada, às vezes ficava com uns caras bonitinhos. E eu ficava maior feliz, maior contente, porque estava ficando com uns carinhas bonitinhos! Eu curti! Tudo que não curti na adolescência, eu curti nessa fase adulta, que foi muito importante pra mim”. Para Sofia, ‘ficar com uns caras bonitinhos’ foi algo importante, porque não esperado: como um desses rapazes cobiçados poderiam se interessar por alguém como ela? No relacionamento atual, Sofia diz que o namorado a incentiva e que lida com naturalidade o fato de ela ter uma deficiência visual, como quando ele a vê usar a lupa eletrônica para leitura. Para ela, mesmo que o namorado não acredite, por vezes, que ela não consegue enxergar sem esse recurso, o fato de a deficiência visual ter sido sempre conhecida, permitiu-lhes construir uma relação franca, pautada pela confiança.
Estranha, no entanto, que algumas vezes ela refira não ver. Essa e, segundo ela, uma situação totalmente distinta da que se passa com sua família, uma vez que, diante desse mesmo fato, sente-se profundamente desconfortável:
Mas, com ele, a relação foi construída de uma forma diferente, desde o começo. Eu falei: “Olha, eu tenho uma deficiência visual e algumas coisas eu não enxergo. Apesar dele achar, algumas vezes, que eu enxergo...”.
“Como você não está vendo? Olha direito”! E eu contesto, mas isso eu não vou conseguir ver. E, hoje, eu consigo falar e sinalizar isso: “Olha, eu preciso de uma lupa para eu ler, uma lupa eletrônica”! E ele acha engraçado, é tranquilo, age com naturalidade, assim.
Meu namorado deu um super apoio (para o uso da lupa eletrônica)! Falou: “Olha que legal”!
Para finalizar, esse núcleo aponta o quanto lidar de frente com o problema, qualquer que seja ele, é importante. No caso de Sofia, a pretensa negação por parte de sua família, de que ela tinha um grave prejuízo na visão, levou-a a ficar insegura acerca de si mesma: a mensagem que lhe era passada não coincidia com a experiência vivida, levando-a a perder a confiança nos pais e irmãos. Além disso, como o que não é dito fala de outras maneiras, a negação da deficiência, quiçá bem intencionada, resultou em
significação totalmente distinta: a de que a deficiência era algo grave, insuportável, intolerável a ponto de nem mesmo poder ser mencionada ou reconhecida como tal. Desse modo, a deficiência acaba por envolver a pessoa toda daquele que a tem, convertendo algo circunstancial em essencial. Como se, para os outros, a pessoa não se diferenciasse de sua deficiência: ao contrário, pessoa e deficiência formam um todo.
Nessa situação, não é de se estranhar que a constituição da identidade de Sofia tenha se dado em meio a angústias, desconhecimentos, negações e medos, muitos medos do que era ruim ficar ainda pior: perder a visão. Tal como a entrevistada relatou, conviver com outras pessoas com deficiências semelhantes poderia ter facilitado sua construção identitária, na medida em que ela teria não só maiores possibilidades de entender o que com ela se passava como, também, de ser aceita e de discutir problemas comuns.
Finalizando, as falas deste núcleo mais do que revelar importantes significados na constituição da identidade das pessoas com deficiência, contribuem para uma reflexão acerca da maior dificuldade encontrada em grupos constituídos por deficiências não reconhecidas e, sequer, bem delimitadas, como é a situação das pessoas com baixa visão, problema em que dúvidas e desconfianças adicionais da família e da sociedade agregam elementos ainda mais complexos à constituição da subjetividade.