1.4. İLGİLİ ARAŞTIRMALAR
1.4.2. Matematik Kaygısıyla İlgili Yapılan Araştırmalar
Um dos núcleos de significação constituído a partir do relato de Sofia diz respeito aos sentimentos que ela experimentou ao longo de sua vida, em decorrência de sua baixa visão. Um primeiro aspecto a ser notado é que, a despeito da entrevistada relatar não se perceber como deficiente, ela disse que se sentia culpada pelo trabalho que sua condição dava aos pais, reiterando que esse movimento - entre ser e não ser deficiente - foi algo central em sua vida. De fato, a baixa visão gerou sentimentos fortes, provenientes de não se sentir pertencendo nem ao grupo dos cegos, nem ao dos videntes. Essas contradições manifestaram-se com frequência em seu relato. Mencionou várias vezes que não podia se perceber com deficiência visual, porque, afinal, sempre enxergou. De outro lado, também não podia se dizer vidente, pois sua dificuldade em ver era evidente, tanto que chegou a procurar um curso para cegos. Em suas palavras:
Com 17 anos, fui fazer curso de digitação em uma instituição para cegos. [...] Eu ia, mas era muito difícil, porque eu não me sentia parte daquilo: meus colegas eram cegos! [...] Lá, eu sentia falta de um pessoal com baixa visão. Eu que levava o pessoal cego para o ponto... E o treinamento era todo com voz! Mas eu via a seta do mouse!
Esse movimento desvela o sentimento de não pertença das pessoas com baixa visão, da difícil busca de identidade que se situa em uma zona de sombra, entre a cegueira e a plena visão. MORSE (1988) destaca que estudantes com baixa visão desejam estar incluídos em algum grupo, porque é preciso construir um sentimento de identidade, aprendendo a comportar-se e a responder de acordo com as expectativas dos que o rodeiam. O relato de Sofia evidencia essa busca por referências pessoais, essa estranha sensação de não corresponder ao grupo vidente e de não se sentir, ao mesmo tempo, adequada no grupo com cegueira. Lutou para encontrar um espaço que pudesse reconhecer como seu, ganhando uma identidade capaz de relacionar-se apropriadamente com o mundo e com ele aprender.
Em sua trajetória escolar, a entrevistada mencionou que, durante boa parte do Ensino Fundamental e Médio foi preciso recorrer à ajuda de colegas para ter acesso ao material que não conseguia ler na lousa. Essa sensação de dependência em relação a um grupo no qual nem sempre era bem aceita persistiu até a faculdade, quando lhe foi possível admitir, para o corpo diretor, que necessitava de materiais ampliados. Essas atitudes, diversamente do que se poderia esperar, não representavam um reconhecimento de sua condição de pessoa com baixa visão, que se distancia do grupo típico de universitários. Ao contrário, elas ocasionaram outro sentimento negativo: a vergonha. O embaraço por utilizar materiais diferenciados - os recursos ópticos – explica-se justamente por evidenciarem sua pertença no mundo da deficiência. Essa vergonha levou Sofia a buscar ajuda terapêutica para se fortalecer e enfrentar essa realidade da “visão parcial”.
Na faculdade só usava o óculos para as provas. A terapia me ajudou a superar e me adaptar... Só assim... Melhor usar e conseguir ler, do que não dar conta (de estudar).
De fato, segundo Rey (2003), emocionar-se é condição humana, presente em toda e qualquer atividade, especialmente nas mais desafiadoras, porque são elas que geram uma vivência afetiva mais intensa, que direciona e orienta a disponibilidade subjetiva para atuar. Efetivamente, como foi visto na transcrição da fala anterior de Sofia, não fosse o estudar um tremendo desafio, talvez ela não tivesse conseguido fazer uso dos recursos óticos disponíveis, preferindo manter, mesmo que equivocada e dolorosamente, uma aparência de pessoa vidente.
Em 2002, após o colegial, usei uns óculos tipo lupa, receitado por uma ortoptista de Campinas. E me senti, na primeira vez, muito bem, se eu estava sozinha, porque eu conseguia ler. Mas, eu não usava perto de ninguém! Muita vergonha... Na faculdade, usava para provas, com muita vergonha.
No que diz respeito à vida pessoal, a entrevistada mencionou, novamente, sentimentos de não pertencimento: desde muito cedo, em sua própria família, na adolescência, quando se sentia incapaz de conseguir namorar. Para Sofia, encontrar
um rapaz interessado nela, por volta dos 16 anos, bastou para “[...] desmistificar o motivo de que nunca ninguém vai me aceitar, por causa da minha deficiência”. A entrevistada informou, ainda, que sua família permanecia sem se interessar por conhecer os novos recursos ópticos que, no momento da entrevista, utilizava, pois esse “mundo” – o das pessoas com baixa visão - continuava não existindo para seus pais e irmãos. Deixou entrever, também, que não foi fácil para seu namorado reconhecer que, em algumas situações, ela não conseguia enxergar, mas que, quando isso aconteceu, tornou-se um grande incentivador para que ela usasse a lupa eletrônica:
Apesar dele (o namorado) achar, algumas vezes, que eu enxergo... [...] - “Como você não está vendo? Olha direito”! E eu contesto, mas isso eu não vou conseguir ver. E, hoje, eu consigo falar e sinalizar isso: - “Olha, eu preciso de uma lupa para eu ler - uma lupa eletrônica”! E ele acha engraçado, é tranquilo, age com naturalidade, assim. [...] Meu namorado deu um super apoio (uso da lupa eletrônica)! Falou: -“Olha que legal”!
As dificuldades encontradas por Sofia, na escola e fora dela, foram, ao que parece, adquirindo sentidos muito contraditórios entre si: de amargura e de superação. Foi lutando contra essa concomitância de sentimentos que lhe foi possível se definir como alguém de baixa visão, a ir buscar auxílio especializado para poder ser e atuar, da melhor forma possível, no ambiente em que vivia. Fazer esse percurso não lhe foi nada fácil:
[...] foram fatos marcantes e que contribuíram para que eu pudesse entender e buscar recursos externos e internos para lidar com isso e me transformar no que sou hoje.
Em seu discurso ficou claro que acreditava na necessidade de haver uma conscientização maior do social sobre a existência de pessoas com baixa, pois esse reconhecimento favorece a constituição identitária de pessoas como ela e facilita suas vidas, ao oferecer-lhes ajuda. Sofia sinalizou, ainda, que via a convivência com pessoas apresentando a mesma deficiência algo fundamental tanto do ponto de vista pessoal – como possibilidade de acolhida – como do ponto de vista social – como oportunidade de inserção distinta. Conviver com pessoas com baixa visão, em seu entender,
permitiria o fortalecimento e o amparo mútuo, algo que sua família e a sociedade mais ampla lhe negaram.
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Pensar no processo de inclusão escolar é um grande desafio da atualidade. Verifica-se uma efetivação de legislações, políticas e declarações nacionais e internacionais voltadas à educação inclusiva de pessoas com deficiência. Porém o que ocorre nas salas de aula com os nossos alunos? Como os professores experenciam essas mudanças no seu dia a dia?
As inquietações que motivaram esse estudo nasceram das demandas surgidas nos atendimentos realizados às pessoas com baixa visão e nos cursos de capacitação para professores. Pais aflitos em busca de diagnósticos, curas e indicações de escolas idealizadas em seu imaginário que proporcionem as melhores adaptações, professores capacitados e propostas pedagógicas especiais. Professores angustiados veem em nós, especialistas da área de deficiência visual, “salvadores da pátria” quase que solicitando uma prescrição com soluções organizadas como se fosse uma cartilha de instruções.
Quando o assunto é o aluno com baixa visão, o enfoque das soluções quase sempre recai sobre adaptações ambientais e recursos ópticos especiais que potencializem sua visão residual. Porém, as queixas se mantêm mesmo quando essas orientações são oferecidas e concretizadas.
Considerando-se o descrito acima, ao longo dos anos, a temática referente ao processo de ensino aprendizagem dessas crianças foi se constituindo cada vez mais para mim uma fonte de reflexão constante, que me impulsionou e motivou para a realização desta pesquisa.
Nesse momento de conclusão do estudo, lanço um olhar para minha história e sinto-me privilegiada por ter entrado em contato com a teoria sócio-histórica, precisamente nesse momento de maior maturidade e experiência, com desejos aflorados de buscar caminhos de contribuição para o desenvolvimento global das
crianças com baixa visão.
Um marco a ser destacado foi o contato com os fundamentos da defectologia de Vygotski, nos quais se apresentam pressupostos de fundamental relevância para a área de estudos em deficiência visual: a importância do processo de compensação social, que se centra na capacidade de usar a linguagem para superar as limitações produzidas pela deficiência visual e a abordagem sobre a questão da deficiência primária, que diz respeito ao órgão e a deficiência secundária, que diz respeito às consequências psicossociais da deficiência.
A importância da mediação social, que remete ao fato de o universo cultural estar construído em função de um padrão de normalidade que, por sua vez, cria barreiras físicas, educacionais e atitudinais para a participação social e cultural da pessoa com deficiência.
A partir da teoria de Vygotski e da metodologia proposta pela sócio-histórica nesse estudo, foram identificados três núcleos de significação: (i) impacto da baixa visão nas relações familiares e sociais: contradições; (ii) práticas reveladoras das atuações dos professores; e (iii) sentimentos relacionados à baixa visão.
As análises revelaram percepções que vão muito além de otimizar um potencial de visão residual. Remetem a uma revisão de posturas, de como essas crianças são percebidas em sua totalidade, e como as relações interpessoais se estabelecem de forma especial no âmbito escolar. Não se trata somente de garantir o ensino de conteúdos por meio de adaptações estruturais, ambientais ou aquisição de novo recursos.
O processo de ensino aprendizagem pode ganhar significado de sofrimento, como sendo somente uma etapa a ser ultrapassada e, com muito esforço, superada, ou adquirir um significado na construção do processo identitário das crianças com baixa visão. O resultado depende diretamente das relações interpessoais.
Termino essas considerações revendo a frase inicial que nomeia a minha tese. Compartilho quase em tom de confidência que, ao iniciar esse processo de pesquisa, pensei em “um novo jeito de ver”, significando a maneira diferente com a qual as pessoas com baixa visão veem e dão significado ao mundo a sua volta.
Agora, ao término dessa jornada, a frase citada ganhou um novo sentido: “um novo jeito de ver” deve ser nosso, precisamos vê-los em sua totalidade, para buscar novas perspectivas que realmente atendam às necessidades e anseios desses alunos, valendo lembrar, para tanto, a máxima da Declaração de Madrid (2000): “nada sobre
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ANEXOS
Anexo I. Entrevista
Tópico 1: Questões relacionadas à baixa visão
- Em que fase da vida você percebeu que tinha baixa visão? Você sabe e/ou soube o
diagnóstico?
- Como você se percebia as coisas e pessoas ao seu redor? Como era sua visão?
Notou modificação da visão no decorrer do tempo?
- Com que idade começou o tratamento?
- Quais são seus sentimentos em relação a sua deficiência visual? Comente do inicio
até os dias atuais.
Tópico 2: Questões relacionadas à família - Você mora com sua família?
- Conte como foi a reação de seus pais e irmãos em relação à sua baixa visão. - E seus outros familiares?
- Quem você acha que melhor compreendeu sua condição visual e mais te deu apoio? Tópico 3: Questões relacionadas à escola
- Fez amizades? Tem contato com eles até hoje?
- Fale um pouco sobre seu relacionamento com os outros funcionários das escolas. Alguém teve uma participação mais especial em sua vida? Quem?
- E o seu desempenho escolar? Quais as maiores facilidades, dificuldades e Por quê? E as disciplinas eu mais gostava e menos apreciava? Por quê?
- Participava das aulas de educação física? Fale sobre suas experiências. - E como eram suas horas de lazer na escola?
- Com que idade começou a frequentar a escola? Frequentou ensino municipal,
estadual ou particular? Comente.
- Estudou em sala de apoio pedagógico? Quando?
- Como era seu relacionamento com seus colegas e professores?
- Qual ou quais professores mais marcaram sua vida escolar (positivamente e negativamente)? Comente.
- Como você se sentia em relação ao grupo de colegas?
Tópico 4: Questões relacionadas aos recursos ópticos e não ópticos
- Quais os recursos ópticos e não ópticos você utilizou e/ou utiliza? - Em que situações eram e são usados? Você gostava/gosta? Por quê?
- Teve alguma fase que não quis utilizá-los mesmo precisando? Por quê? E que estratégias empregou para compensar o fato?
- Hoje quais são seus sentimentos atualmente em relação à utilização dos recursos especiais para baixa visão?
- Como as pessoas de seu convívio diário se manifestam quanto a este uso? - O que você gostaria que eu te perguntasse nesta entrevista?
Anexo II. Transcrição da Entrevista com Sofia
Tenho 28 anos, sou solteira e formada há dois anos. Moro com meus pais, dois irmãos, e com a minha avó paterna.
Percebi a baixa visão com 4 a 5 anos de idade. Lembro que não conseguia olhar para a claridade e o olho lacrimejava. Essa é a imagem que me volta de mim quando era pequena, é que eu não conseguia olhar para a claridade. Eu sentia muita fotofobia e meu diagnóstico veio porque quando eu estava com esses sintomas meus pais me levaram ao médico, era glaucoma, e que foi sequela de eu ter tomado por muito tempo o metilcorten que era à base de cortisona.
Quando eu era pequena quando eu tinha uns 3 a 4 meses de vida eu desenvolvi uma síndrome, síndrome de Evans que é como se fosse uma doença autoimune no sangue e as únicas formas de tratamento era à base de cortisona e por transfusão de sangue. Eu fazia quase que quinzenalmente, varias vezes internada, eu não podia pegar nenhuma doença, quando eu pegava ficava muito debilitada e tinha que ficar internada e tomar várias transfusões e quando eu tinha mais ou menos um ano e meio os médicos viraram pros meus pais e aconselharam a ter outro filho para que eles