• Sonuç bulunamadı

Como citado anteriormente, será adotada nessa pesquisa a dimensão psicossocial da deficiência. Essa ideia sugere que, para além do estado orgânico, existe um sujeito cuja constituição psíquica foi socialmente construída (ORMELEZI, 2010).

Nessa discussão, Vygotski (1993) é autor importante, justamente por propor um modo de encarar a cegueira que transforma radicalmente seu enfoque usual. Para o autor, não há limites às possibilidades de conhecer do cego, uma vez que ele se encontra mergulhado em uma cultura cujo valor social está no conhecer e não no ver.

Vygotski (1993) distingue, ainda, deficiência primária - que consiste nos problemas de ordem orgânica - de deficiência secundária, que decorre das consequências psicossociais da deficiência. Essas limitações secundárias, construídas via mediação social, remetem ao fato de que o universo cultural tende a ser elaborado

em função de um determinado padrão de normalidade que acaba por criar barreiras físicas, educacionais e atitudinais para a participação social e cultural da pessoa com deficiência.

Nessa concepção de deficiência que percebe o sucesso ou o insucesso da pessoa com deficiência como determinado pelas condições sociais do indivíduo, pelas relações que ele estabelece e que são estabelecidas com ele ao longo de sua vida, pode-se dizer, nas palavras de Vygotski (1997) que “o que decide o destino da personalidade, em última instância, não é o defeito em si, mas suas conseqüências sociais, sua realização sociopsicológica”.

Muitos estudos e pesquisas têm se dedicado a estudar esse tema, principalmente nas áreas médica e educacional. A partir de 1980, são encontrados muitos trabalhos científicos e acadêmicos que tratam de questões referentes ao melhor uso do resíduo visual e à educação das crianças com baixa visão. Pode-se dizer, portanto, que houve, por parte dos especialistas (CARVALHO ET AL., 1992; VEITZMAN, 2000), uma tentativa de mudança do foco da cegueira para o da possibilidade de enxergar. Tem-se confirmado que a inclusão do aluno com baixa visão vem se efetivando de forma inadequada, muito distante da ideal, revelando pouco interesse e, notadamente, baixo investimento nesse processo, desde o momento do diagnóstico. Crianças e jovens com baixa visão não tinham suas limitações visuais reconhecidas, e eram tratados ou como se fossem cegos ou como se não tivessem nada (GARCIA,1980).

Dentre as pesquisas acadêmicas sobre desempenho escolar e pessoas com baixa visão, a importância do papel do professor é indiscutível, desde a fase inicial de seu processo de desenvolvimento como também no processo de identificação e encaminhamento dessas crianças.

Um estudo realizado em 2005, na Fundação Dorina Nowill para Cegos, investigou, em 40 (quarenta) casos de baixa visão na faixa etária de 5 (cinco) meses a

17 (dezessete) anos, todos com patologias congênitas e diagnosticadas até os primeiros 6 (seis) meses de vida, o tempo transcorrido desde o diagnóstico oftalmológico até a procura por atendimento especializado. A conclusão foi a de que apenas 27,5% (vinte e sete e meio por cento) dos casos receberam encaminhamento a um serviço especializado, após o diagnóstico precoce. A grande maioria deles (68,9%) foi encaminhada pelos professores da rede pública de ensino, no início do ensino fundamental (LIMA e LOBO, 2005).

A escola, por intermédio do professor, tem tido o importante papel de detectar as dificuldades visuais apresentadas pelas crianças, através das atividades que envolvem a utilização do quadro negro e as atividades de perto como a leitura e escrita, porém, sabemos que a ausência de uma estrutura adequada e o desconhecimento dos professores, em relação aos procedimentos adaptativos necessários ao aluno com baixa visão, podem gerar conflitos no programa educacional, ou seja, o desenvolvimento das potencialidades do aluno poderá ficar prejudicado.

Atualmente os alunos com deficiência visual, tanto os cegos como os com baixa visão, têm à sua disposição a opção da sala de recursos e as instituições especializadas.

A sala de recursos é definida conforme Resolução SE 95/00 da Secretaria de Educação Estadual como: "um espaço educacional integrado aos demais ambientes da escola destinado a complementar ou suplementar as atividades escolares dos alunos matriculados em classes comuns prioritariamente da unidade escolar onde as salas de recursos estiverem instaladas. Deve ser regida por professor devidamente habilitado na área da deficiência a que se destina a sala, atendendo os alunos em horários programados de acordo com as necessidades dos mesmos, em período diverso ao da classe comum" (MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO, 2000).

Os alunos que não dispõem desse recurso buscam junto às instituições especializadas atendimento e orientação bem como aos seus professores e familiares.

Esses espaços acabam por exercer um importante papel no processo inclusivo das pessoas com deficiência visual.

O presente trabalho, à luz de tais informações, tem por objetivo verificar e analisar as principais dificuldades vividas pelos alunos com baixa visão no seu processo de aprendizagem.

4 METODOLOGIA

O objetivo deste estudo é conhecer quais são os sentidos e significados que os alunos com baixa visão atribuem aos seus desafios escolares.

O método consistiu em uma pesquisa qualitativa, na abordagem sócio histórica, cuja meta é apreender os sentidos e significados construídos pelos sujeitos, indo além das aparências dos fatos. O método do materialismo dialético de Vygotski, segundo González Rey (2009), representa um modelo de pensamento que facilita a construção do conhecimento em unidades complexas, permitindo a representação dos fenômenos entendendo-os em sua natureza contraditória e, portanto, como processuais, como estando em permanente desenvolvimento. Em nosso caso particular, esse método ajuda a avançar na compreensão do sujeito, apreendendo as formas como o pensamento se realiza na palavra constituída de significações, ou seja, de sentidos e significados.

Assim explicam Aguiar, Liebesny, Marchesan e Sanchez:

Considerando o valor heurístico das categorias significado e sentido, avaliamos que cumprem o papel de dar visibilidade a uma determinada e importante zona do real, ou seja, como construções intelectivas abstratas que são, carregam a materialidade e as contradições presentes no real, condensando aspectos dessa realidade e, assim, destacando-os e revelando-os. [...] Significado e sentido são momentos do processo de construção do real e do sujeito, na medida em que objetividade e subjetividade são também âmbitos de um mesmo processo, o de transformação do mundo e constituição dos humanos. (AGUIAR, LIEBESNY, MARCHESAN E SANCHEZ, 2009, p. 60).