1. KURAMSAL VE KAVRAMSAL ÇERÇEVE
1.3. Ekonomik Büyüme Modelleri
1.3.4. Marxist Büyüme Modeli
Os vinte primeiros anos do Segundo Reinado caracterizam-se pela consolidação da monarquia brasileira e a imposição da autoridade centralizadora do Poder Moderador, por meio do qual o monarca formava ou dissolvia os governos, escolhia os Senadores e encabeçava a rede de apadrinhamentos do Estado nacional100. Entre 1850 e 1863 ocorre a chamada “conciliação”, período marcado pelo governo do Partido Conservador, mas no qual há um “abafamento” do conflito partidário e um acordo para se evitarem questões controvertidas101. A política partidária transforma-se, assim, em uma rotina sem sobressaltos, embora marcada pelas disputas locais permeadas de subornos, intimidações e fraudes102.
A peça Torre em Concurso, de Joaquim Manuel de Macedo, encenada em 1861 e publicada em 1863, estrutura-se em três atos, compondo uma tradição de comédias assim concebidas que permeará nossa história teatral. Normalmente, o primeiro desses atos tem a finalidade de apresentar os conflitos (ou nós dramáticos), que atingem o grau máximo de tensão no segundo ato e são resolvidos (ou desatados) no último ato.
Ao percorrermos a descrição inicial do cenário, notamos que todas as cenas desenvolvem-se numa praça de acanhada povoação do interior do Brasil, com sua igreja ao fundo e o jardim de uma residência no plano da frente. Trata-se de uma confluência de espaços, sendo a praça central o espaço público por excelência dos pequenos povoados e o jardim uma zona de transição entre esse espaço e o âmbito privado. Tal confluência permitirá ao autor construir cenas que transitem entre as esferas ao longo dos atos, sem mudanças de cenário.
Convém destacar que, em meados do século XIX, os núcleos urbanos têm pequena importância em nossa sociedade, encravados entre os latifúndios em uma economia de trabalho escravo e agroexportadora, num sistema político paternalista e marginalizador103. Essa importância é ainda menor nas cidades do interior, que normalmente apresentam um aspecto descuidado e com imprecisos limites entre a zona rural e urbana, sendo comuns as chácaras cujas demarcações chegam à cidade. Os poucos edifícios
100 SKIDMORE, Thomas E.. Ob. cit., p.73. 101 Idem, ibidem, p. 75.
102 Idem, ibidem, p.75.
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dignamente construídos limitar-se-iam à igreja e aos conventos, além de, algumas vezes, à Câmara Municipal e à cadeia104.
Percebe-se, voltando ao cenário, ao lado da igreja, o sino preso a quatro estacas de pau, por falta de uma torre. Eis o mote para se iniciar a peça: na cena 1, o juiz de paz, João Fernandes, determina a leitura de um edital que anuncia concurso para contratação de engenheiro que irá construir a torre, elaborado por Junta especialmente constituída para presidir tal construção. Curiosamente, todavia, exige-se que o engenheiro seja inglês e tenha vindo ao Brasil “já barbado”, além de, por falta de moradores locais que compreendam a língua inglesa, fazer-se “entender ainda que seja em português estrangeirado”105.
Germano, advogado, pedindo a palavra, contesta tal exigência de o engenheiro ser inglês, preterindo-se os engenheiros nacionais e aqueles oriundos de outras nações. Os representantes da Junta encarregada da obra desqualificam os brasileiros (“porque todos eles juntos não valem o dedo mindinho de um engenheiro inglês”), os franceses (“o ano passado um ourives francês empurrou-me uma corrente de papagaio, jurando que era um cordão de ouro da Califórnia”) e os italianos (“um mascate italiano vendeu à minha mana um corte de alpaca avariada por seda do grande tom”)106.
A exigência atesta, de modo cômico, o ambiente ao mesmo tempo hostil e favorável à presença inglesa em nossa economia, que era bastante significativa, sobretudo após a abertura dos Portos, em 1812. Embora parte da opinião pública se manifeste contrariamente a essa presença107, o fato é que nosso governo continua, durante o Segundo Reinado, a incentivá-la. Os ingleses tornam-se, assim, ao mesmo tempo, símbolo de progresso e/ou de uma ganância quase infinita.
O jovem Henrique, durante as discussões, manifesta-se:
Henrique – Um momento: perderei palavras, mas cumprirei o meu dever. Estais fazendo loucuras! Eu já vos disse que o presidente da província vai contemplar-me no número dos engenheiros dela, e encarregar-me da direção das obras da nossa igreja, e em tal caso...
Manuel Gonçalves – Homem, você é eleitor influente de alguma freguesia?... Henrique – Não; e que tem isso?...
Manuel Gonçalves – Pois, se não é influência eleitoral, como diabo quer que o presidente faça caso de você?...
Atanásio – Olhem quem quer fazer a torre! Está doido!... Fora!... Vozes – Fora! Fora!... ah! ah! ah!
104 Idem, ibidem, p. 240.
105 MACEDO, Joaquim Manuel de. Teatro Completo 1. Rio de Janeiro: MEC – SEAC – FUNARTE –
SNT, 1979, p. 175.
106 Idem, ibidem, pp. 176-177.
107 O jornal que defendia um liberalismo radical durante a Regência, Nova Luz, por exemplo,
manifesta reiteradamente sua indignação com os monopólios comerciais concedidos aos ingleses (In: COSTA, Emília Viotti. Ob. cit., p.150.
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Henrique – Quero, sim! Nasci neste lugar; deve, portanto, ser-me grato prestar-lhe os meus serviços como engenheiro que sou. Em uma palavra, senhores, a obra que com razão desejais, há de ser executada e se-lo-á por mim, a despeito da vossa anglomania.108
Durante o diálogo, Henrique tenta mostrar suas credenciais aos debatedores: será nomeado engenheiro pelo Presidente da Província. Todavia, os demais não acreditam em suas palavras. A lógica que norteia essa desconfiança deriva de uma sociedade que se articula por meio de relações de troca de favores: proteção por lealdade, benefícios por obediência, cargos por votos109. Se Henrique não dispunha de votos para oferecer ao
Presidente da Província (não é visto como uma “liderança”)110, como seria nomeado
engenheiro? Ele é ridicularizado, mas, surpreendentemente, mostra, em sua última fala, excessiva confiança na nomeação que receberá.
Manuel Gonçalves, por sua vez, é apresentado como uma “influência do lugar”, enquanto Atanásio é o subdelegado. Assim, a fala de Henrique revela o primeiro conflito, ou nó, que permeará a peça: temos uma disputa que envolverá, de um lado, Henrique e seu desejo de ser o engenheiro responsável pela construção da torre (respaldado pela pretensa nomeação que receberá), e, de outro, o edital e a exigência de que o engenheiro seja inglês, amparada pela vontade dos poderosos do lugar e pelo povo em geral. Ou seja, há um conflito entre a autoridade central do governo provincial e as autoridades locais.
Enquanto os presentes retiram-se em comemoração ao edital, fica apenas a jovem Faustina, no jardim, regando as flores, e, escondida, Felícia, sua prima, observando-a. Faustina lamenta que, cercada pela tia, “com olhos de velha que ainda quer casar” e pela prima, “com os olhos de moça que já foi casada”, é difícil achar-se só. E lamenta, também, que seu pretendente Henrique pareça preferir “as suas questões de torre à minha companhia”111, pondo-se à cantar.
Logo, na cena 3, em resposta à cantoria, surge Henrique. Faustina mostra-se ciumenta, reclamando que Henrique permite a sua tia lançar-lhe “uns olhos de basilisco” e dizer coisas “que me fazem frios de febre”, além de pisar os pés de sua prima por debaixo da mesa112. Durante a conversa, Felícia revela-se aos dois, surpreendendo-os. Diz que não precisam temê-la, pois quer ajudá-los. Confessa que, por ser viúva de um deputado, tendo vivido na Corte, é muito sabida e já tinha percebido que os dois namoravam escondidos.
108 Idem, ibidem, p. 177.
109 GRAHAM, Richard. Ob. cit., pp.41-42.
110 Os homens eram medidos pelo tamanho de sua clientela (GRAHAM, Richard. Ob. Cit., p.40). 111 MACEDO, Joaquim Manuel de. Ob. cit., p. 178.
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Com as palavras de Felícia, revela-se outro conflito, um inesperado triângulo amoroso:
Felícia – (...) adivinhei que vocês se amavam; que minha tia antes quer o senhor Henrique para marido do que para sobrinho, e que, portanto, os atrapalha consideravelmente, visto que meu tio é escravo de sua irmã, porque espera ser seu herdeiro, e já está de posse da sua fortuna e do seu testamento.113
Felícia propõe-se passar por namorada de Henrique, para ajudá-los, mas Faustina, que já se mostrara ciumenta, recusa prontamente tal alternativa.
Ao final das três primeiras cenas, os dois conflitos básicos da peça já foram apresentados. Podemos dizer que o primeiro conflito apresente uma natureza pública, envolvendo a questão da nacionalidade do engenheiro da torre da igreja, tendo Henrique, de um lado, e o edital elaborado pelos poderosos do lugar, de outro. Já o segundo conflito apresenta natureza privada, consistindo no típico conflito das comédias novas, envolvendo um triângulo amoroso com Henrique e Faustina, que se gostam, e Ana, a tia de Faustina e Felícia, que, não obstante sua idade avançada, também cobiça Henrique.
Ainda da fala de Felícia, podemos constatar que o pai de Faustina, João Fernandes, que é também o juiz de paz, não pode apoiar a filha, pois espera ser contemplado pelo testamento de sua irmã Ana e jamais ousaria contrapor-se a sua vontade. Essa situação é trabalhada na cena V, mostrando João Fernandes completamente submisso a Ana:
João Fernandes – (...) Ah! Meus pecados! Que eu não tenha remédio, senão aturar esta mulher visto que devo ser seu herdeiro... Oh! Que fome! Que fome de quinze dias! 114
Tal submissão inverte, de modo cômico, a estrutura patriarcal das famílias de nossa sociedade, que costumam ser chefiadas por um homem, o qual possuía toda a autoridade e, inclusive, o direito de punir os parentes115. Ana é a “patriarca”, gere a família e
mantém o irmão, juiz de paz, sob sua dependência, exigindo sua obediência irrestrita em troca de uma possível herança.
O conflito privado é ainda tratado, no primeiro ato, nas cenas VII e VIII. Felícia conversa, no jardim, com Ana e Faustina e revela que esta conversara com Henrique, causando ciúmes em Ana. Há um momento de indefinição quanto ao papel que Felícia ocupará no conflito, quanto a qual par romântico auxiliará, embora tenha prometido auxílio à
113 Idem, ibidem, p. 182. 114 Idem, ibidem, pp. 184-185. 115 GRAHAM, Richard. Ob. cit., p.34.
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prima. Logo chega Henrique, que precisa suportar os questionamentos de Ana e suas declarações, por recear os “ciúmes de amor” 116.
A cena é interrompida pela súbita retomada do conflito público. Surge, na cena IX, Germano, anunciando a Henrique que dois pretensos ingleses se apresentaram candidatos para construir a torre e, cada um tinha, agora, um partido de adeptos, os amarelos e os vermelhos. Tais candidatos foram apresentados nas cenas IV e VI, tratando-se, na verdade, de Crespim e de Pascoal, malandros que, supondo encontrar uma vila na qual ninguém falasse o inglês, resolveram-se passar por engenheiros dessa nacionalidade117.
O ato termina, na cena X, com a apresentação de debates entre os candidatos, apoiados por seus partidários, satirizando o ambiente político brasileiro ao explicitar o vazio ideológico de ambos, as mudanças de lado de alguns personagens, a violência potencial e concreta que marca as situações eleitorais e a indecisão do juiz de paz e Presidente da Junta, João Fernandes, pendendo para o lado que estiver “em cima” ou que lhe prometer vantagens pessoais118. Nesse ínterim, os dois candidatos descobrem-se antigos conhecidos e podem manter a farsa que os beneficia pessoalmente.
No final do ato, a comédia revela-se uma crítica política a nosso país, sobretudo aos contextos eleitorais. Destacamos que as pequenas comunidades brasileiras viveriam sob constante preocupação eleitoral, organizando-se votações para diversos cargos (como no caso do engenheiro) e elaborando-se as constantes listas de votantes qualificados a participar do processo, trabalho que se repetia anualmente119.
Temos, assim, dois conflitos de natureza diversa que requerem recursos cênicos também diversos para serem desenvolvidos. O conflito privado pede uma estrutura dramática, por vezes de aprofundamento psicológico ou de apresentação de caracteres; o conflito público exige recursos épicos, como a abertura do drama para o ambiente externo, com referências a situações contextuais fora dos palcos e a redução da importância dos diálogos para movimentar as cenas. Ambos conflitos podem ser desenvolvidos quase
116 MACEDO, Joaquim Manuel de. Ob. cit., pp. 187-188.
117 Crespim é um ator que foge de uma companhia mambembe após algumas trapalhadas e busca um
meio para que “tome um partido” a fim de se “arranjar na vida” quando descobre o edital do concurso para construção da torre, resolvendo passar-se por engenheiro inglês (MACEDO, Joaquim Manuel. Ob. Cit., p.183). Pascoal é um ex-ator que se tornou capanga de um potentado mas, no dia da eleição, durante uma briga, fugiu, até se deparar também com o edital (MACEDO, Joaquim Manuel. Ob. Cit., p.185).
118 Retomaremos a questão das eleições em nossa sociedade na análise da peça posterior, Como se
fazia um deputado. Notamos que as ruidosas manifestações favoráveis aos candidatos eram bastante comuns (GRAHAM, Richard. Ob. Cit., p. 151).
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simultaneamente, graças ao já destacado cenário da peça, que funde a praça e o jardim da casa.
O segundo ato, conforme a estrutura tradicional das comédias, deve caminhar para um agravamento dos conflitos. Num primeiro momento, o conflito privado é trazido à baila, graças à personagem Felícia, que, como vimos, prometera ajudar a prima Faustina. Livrando possíveis dúvidas que pudessem pairar sobre essa promessa, ela, em monólogo, esclarece ao público quais suas reais e sinceras intenções:
Felícia (só) – Estou a braços com a mais difícil empresa: vou entrar em luta com minha tia para fazer triunfar os direitos que tem a prima Faustina sobre o coração do senhor Henrique. Arrancar um noivo a uma velha é mil vezes mais dificultoso do que separar um náufrago da última tábua do navio despedaçado, a que se agarrou com esperança de salvamento; mas eu hei de mostrar que já fui parlamentar, e creio que o verdadeiro é cortar logo a discussão, decidindo de uma vez o negócio. (...)120
Porém, por mais bem intencionada que possa estar Felícia, sua iniciativa, ao invés de resolver a questão, somente irá em mais agravá-la. Chama Ana e revela que Henrique, na verdade, gosta de Faustina, e zomba do amor da velha. Incrédula, Ana duvida e se esconde no jardim, a pedido de Felícia, que promete provar o que dissera.
Na cena seguinte, Faustina é chamada por Felícia e ambas conversam sobre Henrique e o papel ridículo da tia. Recorrendo a uma repetição cômica, Faustina põe-se a cantar no jardim, para “avisar” Henrique que está só. Este surge e, enquanto conversam, promete à amada dizer para Ana que a despreza. Mas, nesse momento, ela aparece furiosa e jura vingança.
Conforme antecipado, a atuação de Felícia para proteger o amor da prima resulta desastrosa. O conflito amoroso envolvendo Henrique, a tia e a sobrinha explode. Ana quer vingar-se e, na cena VI, procura João Fernandes. Afirma que sua filha, Faustina, tem namorado Henrique no jardim. Ameaça partir e não fazer o irmão seu herdeiro, mas este se humilha:
João Fernandes - Sinhá Aninha, não me abandone, por quem é, num caso destes; veja antes o que devemos fazer: decida, castigue, ponha debaixo de chave, corte os cabelos daquela rapariga desmiolada; mas não me deixe, senhora! Não me deite a perder!... (à
parte) Se a bruxa me arranca o dinheiro e o testamento, eu estouro!121
Conforme já destacado, Ana ocupa o papel de “patriarca” da família e mantém sobre seus parentes próximos uma relação de autoridade familiar e de patronagem. Enquanto protetora do irmão e das sobrinhas, exige, em troca, lealdade total e absoluta. Ao
120 MACEDO, Joaquim Manuel de. Ob. Cit., p. 195. 121 Idem, ibidem, p. 203.
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pretender Henrique, não pode tolerar uma oposição vinda de uma das sobrinhas, Faustina; exige que o pai dela, João Fernandes, seu dependente, a coloque em seu devido lugar.
Ana, então, apresenta uma solução ardilosa: Faustina deverá ser entregue em casamento ao engenheiro que vencer a licitação para construir a torre. João Fernandes, pensando que o vencedor seria realmente inglês e engenheiro, gosta da ideia de possuir um genro com tais atributos e ainda conservar a herança:
João Fernandes - Com o engenheiro que fizer a torre?... Bravo! A dúvida está em que ele aceite a noiva; porque um é lord inglês e o outro é filósofo; mas veremos... veremos... Oh! Se eu fico com uma filha godemi, e com um genro que saiba consertar alambique de engenhoca, dou pulos de contente! Sinhá Aninha, você tem mil vezes mais juízo do que eu.
A vingança de Ana leva a um inesperado cruzamento entre os conflitos da peça. Para que Faustina possa se casar com Henrique, é necessário antes que ela não se case com o engenheiro que construir a torre. Em outros termos, o conflito privado fica na dependência de uma solução para o conflito público122.
Convém destacar que a figura de João Fernandes constitui um eixo pessoal de ligação entre ambos os conflitos. Na questão privada, é o pai cuja filha será entregue em casamento mas que somente consegue pensar na herança da irmã; na questão pública, é juiz de paz e o Presidente da Junta responsável pela execução da obra pública de construção da torre, dependente de Ana, mas que teme agir de modo neutro e comprometer-se politicamente, desgostando alguma das lideranças locais. Sua fraqueza impede resoluções satisfatórias aos conflitos.
Observando o comportamento do juiz, notamos que os dependentes de um líder local podiam, eventualmente, mudar de lado, transferindo sua lealdade. Todavia, o preço de uma escolha errada ou de uma indefinição era alto demais: a perda da proteção, que podia significar perda da vida ou a miséria total123. Talvez por isso ele demonstre tanta
insegurança.
Escondida, Felícia ouve a conversa entre os tios e percebe a dimensão do problema (o edital do casamento) que, involuntariamente, causara. Sente-se na obrigação de desatar o nó e recuperar a confiança dos pretensos noivos, mas não sabe como.
Eis, então, que surge Germano. Ele, em à parte, confessa gostar de Felícia e começa a conversar com ela, que lhe promete um sorriso e um suspiro de seu
122 Note-se que a falta de nitidez entre as fronteiras dessas esferas era ainda maior em pequenas
cidades, sendo comum o uso de dinheiro privado para construção de obras públicas e, ao contrário, o uso de verbas públicas para fins privados (COSTA, Emília Viotti da. Ob. Cit., p. 247).
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coração, caso chame um destacamento policial na vila ao lado, para prender os falsos engenheiros e impedir que se casem com sua prima. Após a aceitação do pedido, ela, que, como dito, era viúva de um político e morara na Corte, revela já ter outros três pretendentes, mas confessa poder vir a optar pelo quarto.
As cenas XI a XIII encerram o ato voltando-se ao conflito público. Ao retratar os partidos dos amarelos e dos vermelhos, que se formaram para apoiar cada um dos ingleses, satiriza novamente o ambiente político nacional da “conciliação”. Revelam que os partidários simplesmente se opõem uns aos outros, sem motivações mais profundas, sem conhecer os planos dos engenheiros para construção das torres, movidos apenas pela figura pessoal dos falsos ingleses124.
Num dado momento, as lideranças tentam um acordo: dividir a construção e pintar a torre meio a meio, resolvendo a questão. Porém, surge um obstáculo: não concordam quanto a qual seria a cor da metade superior. Nova baderna. João Fernandes teme um “godemicídio”, havendo trocas de insultos e agressões na cena final.
Se o conflito privado atingiu seu clímax no ato e tornou-se dependente do conflito público com a vingança de Ana, podemos constatar que nos estritos limites deste último conflito, as cenas não trouxeram avanço significativo em relação ao ato anterior. Os partidos continuam em uma disputa desconectada do objeto da licitação, a torre, movidos por interesses de grupos locais e sem formular uma discussão pública que pudesse levar à solução do caso.
Por outro lado, devemos ressaltar que Felícia, ao tentar impedir o casamento da prima com o falso engenheiro que vencer a disputa pela torre, solicitando a Germano que busque a força policial na vila vizinha, pode resolver também o conflito público, caso efetivamente os malandros sejam presos.
De qualquer modo, há de se notar novamente a fraqueza do caráter de João Fernandes. Como juiz de paz e Presidente da Junta, deveria zelar pela ordem e pelo cumprimento do edital licitatório. Nos dias de eleições, o juiz de paz era a autoridade máxima nas pequenas cidades, sobretudo porque, além do cargo que ocupava, costumava contar com