2. DIŞ TİCARET VE EKONOMİK BÜYÜME İLİŞKİSİ
2.4. Dış Ticaret Hadleri
2.4.2. Brüt Dış Ticaret Hadleri
A peça Ministro do Supremo, de Armando Gonzaga241, encenada pela
primeira vez no Teatro Trianon, Rio de Janeiro, em 1921, surge como um contraponto interessante à peça O juiz de paz da roça, de Martins Pena, que inaugura nosso teatro cômico e cuja análise abre este estudo.
Enquanto a peça fundante traz em primeiro plano a questão do desleixo de um juiz de paz na roça, seu desinteresse pelas funções públicas e o abuso de autoridade perante os cidadãos, deixando o conflito privado para um segundo plano e fazendo jus ao título, a peça de Armando Gonzaga, não obstante elevar-se hierarquicamente no Poder Judiciário em seu título, não aborda qualquer questão diretamente ligada à atuação dos órgãos estatais.
Podemos considerar que a estrutura formal e temática de Ministro do
Supremo prenda-se às derivações da Comédia Nova, limitando-se à apresentação dos costumes, num tom crítico bastante despretensioso, como verificaremos ao final da leitura. Seu objetivo é retratar a vida de uma família de classe média cujo pai e chefe da casa, Ananias, perde-se enquanto gestor doméstico, contraindo dívidas e levando a família à ruína, ao pretender bajular um senador em troca de um cargo público de ministro do Supremo Tribunal Federal, que resolveria seus problemas financeiros.
Trata-se, portanto, de um personagem que busca o apadrinhamento político. Sob essa perspectiva, pode ser comparada com Quase Ministro, de Machado de Assis, e Caiu o Ministério, de França Júnior (analisada anteriormente)242: a primeira conta episódio envolvendo uma pessoa que é cotada para ser ministro, descobrindo tratar-se de falso boato; a segunda, narra a ascensão e queda do ministro e seu ministério; a última, por seu lado, apresenta o devaneio de um pai de família que sonha ser algo acima de suas possibilidades sociais e econômicas. Em comum, portanto, está o fato de ambas tratarem da questão do clientelismo, mas sob focos diversos: os personagens principais das duas primeiras comédias são procurados como padrinhos; o personagem da terceira espera tornar-se um cliente.
241 GONZAGA, Armando. O Theatro de Armando Gonzaga - Ministro do Supremo. São
Paulo: Livraria Teixeira, s.d., pp. 1-79 (a numeração recomeça a cada peça).
242 Cafezeiro e Gadelha traçam uma linha de inspiração entre as três peças (CAFEZEIRO, Edwaldo e
90
Precisamos antecipar que os três atos desenvolvem-se no mesmo ambiente cenográfico, havendo apenas diferenças quanto ao mobiliário: a sala de visitas da casa de Ananias. Diferentemente das demais peças estudadas, não se apresenta, no palco, qualquer espaço público, circunstância que reforça a perspectiva privada das questões trazidas pelo autor. A busca por um padrinho é mostrada a partir da perspectiva doméstica.
Podemos considerar que a família retratada pertença à classe média urbana que cresce na República, quando o binômio escravo-senhor dilui-se gradativamente243. Durante o período, sobretudo os anos da década de 1920, que se inicia no momento da encenação da peça, haveria um processo de autonomia e afirmação das classes médias, adquirindo consciência de sua força e necessidades244. Mas a família de Ananias surge presa a
uma sociedade cuja economia de mercado ainda se consolida, mesmo numa cidade como o Rio de Janeiro, restando poucas oportunidades para seus membros. Nessa situação, a moradia e o custo de vida são problemas constantes245.
A principal ocupação pretendida ainda é o cargo público, com a garantia de relativa estabilidade e de bons vencimentos (conforme a hierarquia ocupada). Para obtê-lo, o mecanismo retratado continua a ser o apadrinhamento, sujeitando-se ao regime de clientela246.
O primeiro ato transcorre numa sala com paredes descascadas, móveis envelhecidos e alguns reparos em andamento. A primeira cena mostra uma conversa entre D. Genoveva, esposa de Ananias, sua mãe (D. Constança), sua filha (Nini) e um pintor. D. Constança afirma preferir a sala pintada em uma cor mais escura, por ser mais econômica; Nini também prefere a cor mais escura, porém em virtude de sua nobreza; D. Genoveva, por seu lado, determina que seja pintada de azul, por ser cor mais alegre.
Desde logo percebemos o perfil de D. Constança, que critica o palavreado de Nini, e recrimina o genro pelos gastos que tem feito247. Mas essa não é a opinião de sua filha e de sua neta:
Genoveva - O futuro a Deus pertence. O que não é possível é deixar de receber o Senador. Dessa nova amizade de Ananias podemos tirar as maiores vantagens.
Constança - Que vantagens esperam vocês daí?
243 CARONE, Edgard. A República Velha (instituições e classe sociais). 2ª edição. São Paulo: Ed.
DIFEL, 1972, p. 147.
244 Idem, p. 177. 245 Idem, p. 181.
246 COSTA, Emília Viotti da. Ob. cit., p. 253 e 259 - a autora relata que, enquanto os estrangeiros
controlam o artesanato e o comércio, os brasileiros, desde o final do Império, preferem o emprego público.
91
Genoveva - Inúmeras. Mas mesmo que nada alcançássemos, bastaria a honra de manter relações com pessoa tão ilustre, para justificar quaisquer sacrifícios. Essa é que é a verdade.
Nini - De certo. Já estamos cansados da sociedade bangala-fluminense que nos frequenta. Precisamos receber a elite e ser recebidos por ela. Já não é sem tempo...248
Percebemos, da conversa, que Ananias, D. Genoveva e Nini apostam tudo na amizade do Senador ("Nini - Agora, com a amizade do Senador, vai tudo mudar de figura"249), razão pela qual justificam a reforma da casa e os novos gastos da família, pois receberão o Senador para jantar. Convém destacar que, desde o Império, a “amizade” é, depois dos laços de parentesco, a melhor forma de se tornar cliente de alguém250. Por outro lado, ainda que a mera “amizade” do Senador não rendesse uma colocação, pelo menos poderia abrir espaço para novas relações.
Além disso, a reforma da casa justifica-se para que Ananias aparente ser uma pessoa importante, levando o Senador a crer que, ao conseguir uma colocação para ele, não estaria fazendo um favor unilateral, mas amparando uma pessoa que lhe poderia ser útil posteriormente. Ter uma casa em condições de receber visitas influentes era um hábito comum entre políticos destacados251 e Ananias busca copiá-los, não obstante as desconfianças e críticas da sogra.
D. Constança, assim, revela que eles já possuem muitas dívidas e que Ananias é um rábula, ou seja, profissional do direito sem formação universitária, não muito conceituado no mercado de trabalho. Opõe-se, pois, expressamente ao oferecimento do jantar para o Senador, pois não estariam em condições de receber qualquer pessoa. Mas D. Genoveva mostra-se esperançosa:
Genoveva - (...) Nós estamos em vésperas de vida nova. Ananias vai ser nomeado Ministro do Supremo. Para isso basta ser cidadão de notável saber...
Constança - E ter quem o ampare...
Genoveva - Ananias tem o Senador. São favas contadas.252
Vemos, com o término da primeira cena, delineado o conflito central da peça: Ananias deixa a moderação e a prudência de lado, gastando mais do que pode, a fim de investir na nova amizade que contraíra com o Senador e conquistar um padrinho para tornar- se Ministro do Supremo. D. Constança, a sogra, opõe-se a tal mentalidade, pregando uma vida condizente com os parcos rendimentos de Ananias. Mas sua oposição, como se consolidará
248 Idem, pp. 3-4. 249 Idem, p. 4.
250 GRAHAM, Richard. Ob. cit., p. 304. 251 Idem, p. 235.
92
adiante, limitar-se-á a uma série de considerações morais, cumprindo um papel semelhante a um raisoneur.
Como Ananias não é bacharel em direito, mas atua como rábula, nem é renomado em seu meio, sua pretensão ao cargo no Supremo não pode fundamentar-se em seus méritos jurídicos, mas apenas no bom e velho apadrinhamento político. Ele espera conquistar a confiança do Senador e, com isso, obter um favor que resulte em sua nomeação.
A cena II inicia-se com o anúncio, por Joanna, a criada, da chegada de Álvaro, pretendente de Beatriz, a outra filha de Ananias e D. Genoveva. Constança comenta ao visitante que a neta anda triste; Genoveva reforça a afirmativa, acrescentando que a filha sempre fora "enjoada"; Nini, por fim, diz que a irmã tem um gênio "esquisito".
Todavia, na cena seguinte, Beatriz surge bem alegre, desmentindo a todas. Fica no ar a impressão de que seu gênio melhorara graças à visita de Álvaro, que andava distante. Quando o casal fica a sós, ele comenta que sua promoção está próxima e então poderá pedir sua mão a seu pai. No exato instante em que vão trocar juras de amor, entra Joanna, aflita, anunciando que Ananias está chegando. Os dois, então, saem de cena, indo para junto das demais.
Na cena V, Ananias conta a D. Genoveva que conhecera o filho do Senador, Bilú, que também jantará com eles. Do diálogo ficamos sabendo que ele comprara cortinas novas e pretende adquirir novos móveis, a crédito. Os móveis velhos seriam queimados. Conta que pedirá dinheiro emprestado a um novo agiota, que oferece condições um pouco melhores do que outro, que lhe emprestara a juros de 40% ao mês.
D. Constança, que surge durante a conversa, recrimina o casal, reputando uma loucura aumentar os credores e não se conformando com os juros leoninos dos empréstimos. A resposta de Ananias é no mesmo tom da de D. Genoveva:
Ananias - Que quer a senhora que eu faça? Afinal, há deveres de sociedade a que a gente não pode fugir. Que culpa tenho eu de que o destino me aproximasse do Senador Moura e que ele se fizesse meu amigo? Não me era lícito recusar uma amizade que não só pode nos trazer as maiores vantagens, mas, acima de tudo, é uma honra para todos nós...253
Na sequência, ambos comentam que Maneco, filho do casal, não sai do campo de futebol. Além disso, reclamam que fizera de Vicente, o criado que fora educado pela família, seu melhor amigo, fato que prejudicou o desempenho de suas atribuições domésticas e o tornou insolente. Ananias promete "admoestá-los".
93
Os dois rapazes, na cena VI, surgem discutindo a escalação de times de futebol. Quando Ananias ordena a Vicente que vá varrer a escada, este responde que já varrera. Após ser chamado de cachorro, sai resmungando que varrerá novamente. Com relação a Maneco, o pai afirma que faz uma porção de coisas erradas. D. Genoveva acrescenta que a principal delas é a liberdade que daria a Vicente:
Maneco - Se nós nos criamos juntos... Ele foi minha ama seca...
Genoveva - Isso não é motivo que justifique a camaradagem em que vocês vivem atualmente.
Ananias - No mínimo, você me perde o moleque. Maneco - Até aqui, era ele quem me perdia...254
Os pais fazem um discurso quanto à posição social de Maneco, insistindo que ele não pode se relacionar com criados e esclarecendo ao público sobre a origem de Vicente:
Genoveva - Pois não permita mais isso. Nossa vida vai transformar-se por completo e é preciso que cada qual tome a posição que lhe compete.
Maneco - Qual é a minha?
Genoveva - A sua é a de um filho-família que deve obediência a seus pais e respeito a si mesmo.
Maneco - Muito bem.
Ananias - Arranje companheiros que se possam hombrear com você. Sobretudo, não dê mais liberdade ao Vicente...
Genoveva - Quem é, afinal, o Vicente? Um rapaz que criamos desde pequenino, é verdade, mas filho de uma nossa cozinheira e de um tipo qualquer que não teve pejo de seduzi-la... A posição que ele tem aqui em casa é a de um simples criado...
Maneco - Sim, mas é também o meu grande companheiro de infância... Tenho por ele uma amizade de irmão.
Genoveva (escandalizada) - Santo Deus! Você nem diga isso na presença de ninguém. Uma amizade de irmão! Você sente por esse moleque o mesmo que sente por suas irmãs? Vamos, responda.
Maneco - A mesma coisa. Fomos criados juntos...
Genoveva - Foram criados juntos, mas atualmente só o Vicente é criado... Ananias - Você é malcriado.
Genoveva - O que é necessário é que você esconda a sua amizade pelo Vicente, pelo menos nos aspectos inconvenientes. Pode-se gostar de uma pessoa sem lhe dar uma confiança exagerada.
Ananias - É o que você vai fazer de hoje em diante com o Vicente. Precisamos do moleque para misteres mais sérios do que andar na calaçaria com você.255
Destaquemos que o raciocínio válido para Maneco em relação a um "inferior", Vicente, não é aplicado, pelos pais, à própria situação da família, que insiste em não se colocar em seu lugar humilde, ambicionando estabelecer relações sociais com a elite. Se Maneco peca, sob o ponto de vista dos pais, por não saber qual o seu lugar social, podemos dizer o mesmo de Ananias, sob o ponto de vista de D. Constança, ao pretender ser amigo de um Senador e tornar-se Ministro do Supremo.
254 Idem, p. 14. 255 Idem, pp. 15-16.
94
Mais interessante é que os pais, para convencer Maneco, utilizam justamente, no final da conversa, o argumento de que a vida da família vai mudar. Ao afirmarem que, caso tudo corra bem, em breve, comprarão um automóvel, Maneco fica eufórico, mas, novamente errando o foco de seu papel social, brada que será o motorista256. Ananias afirma que ele deve ter hábitos compatíveis com a nova posição social e promete encarreirá-lo na diplomacia, pois, mesmo que o filho não conheça línguas, fará carreira desde que tenha "um bom pistolão", não precisando perder tempo com estudos257.
Talvez a questão fundamental da comédia seja a do papel social dos personagens e da família. Ananias está descontente com sua posição social e deseja ascender. O meio que ele escolhe não é a poupança ou o trabalho, mas a busca de um padrinho. Sua pretensão conta com o apoio imediato da esposa e de uma das filhas, Nini. Por ora, esbarra nas reprovações morais de D. Constança, que prefere uma vida mais comedida, e na ingênua juventude de Maneco, que desconhece seu lugar na sociedade.
Por um lado, revela-se na conversa com o filho a crença de que o mérito não é recompensado na sociedade, sendo uma “perda de tempo”. A estrutura social da República Velha é uma estrutura mista. O padrão imperial de relacionamento, fundado no favor e no clientelismo, ainda subsiste; o novo padrão, fundado na competição e no mercado, embora já presente, não consegue se impor258.
Além disso, a visão dos pais relativamente a Maneco, questionando sua amizade com o criado, mostra uma sociedade em que as pessoas são definidas a partir de suas redes de relacionamentos, e não de uma individualidade universal259. Assim, quando ocorre uma mobilidade social (ou o desejo dela), há a necessidade de a pessoa redefinir sua posição reprogramando suas relações, adquirindo novas “amizades” e abandonando outras, que se tornam “indignas”.
A inocência do jovem se manifesta ainda outra vez no início da cena seguinte, quando Maneco conta a Vicente sobre a futura compra do automóvel e ambos discutem para saber quem será o chofer. Vicente, que conhece um pouco melhor os papeis sociais, fica indignado com o amigo/patrão: "Besta é você. Dono é dono e chofê é chofê."260.
256 Idem, p. 17. 257 Idem, p. 17.
258 CARONE, Edgard. Ob. Cit., p. 147.
259 DAMATTA, Roberto. A casa e a rua: espaço, cidadania, mulher e morte no Brasil. 5ª edição. Rio
de Janeiro: Rocco, 1997, p. 46 e p. 88.
95
Depois que os rapazes saem, Ananias e D. Genoveva discutem outro assunto de suma importância para a família e sua futura nova posição social: o relacionamento de Álvaro com Beatriz. Segundo o chefe da casa, seria preciso "cortar o mal pela raiz"261. A moça deveria casar-se com Bilú, o filho do Senador, formado em direito. Rapaz, portanto, à altura das ambições familiares. Novamente percebemos os pais buscando reprogramar as relações dos filhos, adequando-as à condição que pretendem assumir.
Os dois concluem que Beatriz é um problema muito mais sério do que a outra filha, Nini. Esta sabe qual o lugar social ambicionado pela família e não aceita um homem qualquer. Já Beatriz...
Ananias - Então? Beatriz, não. Se não abrirmos os olhos, ela é capaz de se apaixonar por qualquer um. Até mesmo pelo Álvaro... Tratemos de evitar o desastre enquanto é tempo...
Genoveva - É chamá-la à ordem e dizer-lhe a coisa como é... Nada de fantasias. [p.19] Logo em seguida, efetivamente, chamam-na "à ordem":
Ananias - (...) Filha minha só se casará com quem tenha posição definida na sociedade...
Beatriz - O Álvaro não é um desclassificado.
Ananias - Não digo isso. Mas a verdade é que ele não está em condições de casar com ninguém. Um simples amanuense...
(...) Genoveva - Ser um excelente rapaz não é o bastante. Por meu gosto vocês só se casariam com homens formados.262
Na sequência, comentam que Beatriz deveria se casar com o filho do Senador, rapaz de "lindo futuro". Mas ela revela que nunca o amará, pois já ama Álvaro:
Ananias (numa explosão) - Pois não ama mais! Pronto! Quem manda aqui sou eu. Prefiro vê-la morta, metida num caixão, a vê-la casada com esse troca-tintas. E para principiar, vou já sapecá-lo no olho da rua.263
D. Genoveva pede calma ao marido e diz que irá dissuadir Álvaro com boas maneiras. Explicita-se um novo conflito, decorrente do conflito relativo à ambição de Ananias de elevar socialmente a família, numa situação típica das comédias novas: Beatriz, a filha, deseja casar-se com Álvaro, jovem rapaz, trabalhador, mas que não está à altura da nova posição social a que Ananias almeja. Assim, o pai surge como obstáculo ao casamento e leva a filha às lágrimas.
Percebemos que, na realidade, Álvaro encontra-se no real patamar da família, mas a cega ambição dos pais de Beatriz não permite, no momento, enxergar isso. Sua mentalidade é a do profissional que deseja ascender pelo mérito, sendo paciente e trabalhador,
261 Idem, p. 19. 262 Idem, pp. 20-21. 263 Idem, p. 22.
96
embora não se esclareça como chegou ao cargo que ocupa. Essa mentalidade se opõe àquela que ilude Ananias, que é a de receber um favor que permita sua súbita ascensão.
Voltando à oposição quanto à família adotar uma postura comedida, aceitando sua condição social, ou investir em um incerto futuro promissor, devemos situar Beatriz no mesmo polo de D. Constança, reputando absurdas as pretensões dos pais. A cena IX explicita essa solidariedade entre neta e avó:
Beatriz - Ah! Vovó, eu sou muito infeliz! Constança - Infeliz, por que?
Beatriz - Amo Álvaro e papai quer me obrigar a casar com um filho do senador, que eu nem sei quem é... Veja que horror...
Constança - O seu pai é um idiota. Depois então que conheceu esse Senador de má morte, não tem feito senão asneiras... Não lhe dê importância...
Beatriz - E mamãe está de acordo com ele...
Constança - Genoveva não lhe fica a dever nada em questões de idiotice. Tirando nós duas, tudo aqui anda de cabeça virada.264
As duas convencem Álvaro, com astúcia, a voltar noutro dia. A próxima cena mostra certa insolência da criada Joanna, respondendo com pouca educação a D. Constança. Em seguida, Joanna e Vicente, os criados, dialogam. Ela afirma que a velha não a respeita, querendo tratá-la "de igual para igual"265. Vicente conta que Seu Joaquim, dono da
venda, está para morrer. Segundo Joanna, ele vivia a dizer-lhe gracinhas. Vicente fica bravo e, então, confessa que gosta dela. Mas ela afirma que só se casará quando ele tiver condições para comprar casa, mobília e estiver bem estabelecido.
A confusão social de Ananias e D. Genoveva repercute na postura dos criados. Ambos mostram-se pouco respeitosos e até desqualificam algumas determinações dos patrões. Em seguida, novamente Vicente e Maneco discutem para saber quem guiará o futuro carro da família e chegam a se atracar. Com a incerteza dos papeis sociais, o criado chega às vias de fato com o filho do patrão.
O término do ato permite identificar alguns conflitos:
1. Ananias e D. Genoveva ambicionam uma posição social mais elevada para a família, enfrentam as dívidas e o baixo rendimento profissional e esperam obter favores do novo amigo, Senador Moura;
2. D. Constança, mãe de D. Genoveva, surge como uma opositora "moral" aos planos do casal, tecendo comentários realistas e classificando-os de idiotas pelas vãs ambições; 3. Beatriz coloca-se no mesmo polo de D. Genoveva, deseja casar-se com Álvaro,
funcionário público de condição inferior em vias de obter uma promoção que não o
264 Idem, p. 23. 265 Idem, p. 25.
97
elevará em muito na sociedade, mas enfrenta a oposição dos pais, que ambicionam um casamento dela com Bilú, filho do Senador;
4. Maneco é ingênuo e não desempenha um papel social de acordo com as novas expectativas dos pais, tratando um criado como irmão e só se preocupando com futebol;
5. Vicente, o criado, trata Maneco de igual para igual, e deseja casar-se com a criada Joanna, que se mostra insolente e espera que ele tenha condições para sustentar uma casa antes de aceitá-lo;
6. Por fim, resta Nini, a outra filha, que se situa no mesmo polo dos pais, também ambiciona um novo lugar na sociedade e aprova os "investimentos" de Ananias.