2. DIŞ TİCARET VE EKONOMİK BÜYÜME İLİŞKİSİ
2.6. İhracat
2.6.1. İhracat Türleri
O “negócio político” desenvolvido por França Júnior em Como se fazia
um deputado é, de certa forma, retomado na peça O Secretário de Sua Excelência, de Armando Gonzaga, encenada em 1923 no Teatro Trianon (RJ)287. Todavia, enquanto a primeira comédia faz do tema, inegavelmente, seu fio estruturador e ponto central, a segunda foca, antes, a conduta do “secretário”, personagem malandro que ganha status social com a condição que assume, do que propriamente os arranjos que levam um coronel à condição de candidato à Presidência de seu Estado.
Tal perspectiva materializa-se no cenário quase fixo, que não se abre a um espaço público externo, contentando-se com o desenho da terrasse, no primeiro ato, e da sala principal, nos dois últimos, de uma pensão “balneária” carioca, a Lua Nova. Trata-se, o espaço de um hotel ou assemelhado, de um dos dois cenários típicos das peças do gênero Trianon, sendo o outro a sala de estar de uma residência.
O primeiro ato apresenta os personagens e os conflitos. Na cena I, Taveira, proprietário da pensão, determina a Miguel, seu funcionário, que Felipe, hóspede em atraso nas diárias, não receba refeições até deixar a pensão ou pagar o que deve. O diálogo revela que Taveira é um homem rígido e Felipe, nas palavras de Miguel, “não é hóspede que se convenha a uma pensão”, pois “não tem profissão séria”288. Taveira, após afirmar que não
montara pensão “para sustentar pançudos”, diz que Felipe é “um malandro” que precisa ser posto no olho da rua289.
Na sequência da cena, Benvinda, filha do proprietário, e D. Adelaide, sua tia-avó, defendem o rapaz, qualificado de “amável” e “alegre”. Reputam exagerada a postura de Taveira:
Benvinda - É uma maldade de papai botar o senhor Felipe no meio da rua, assim, de uma hora para outra.
D. Adelaide - Ele bem podia dar-lhe mais algum tempo para endireitar a vida. O pobre rapaz não tem para onde ir.290
287 Conforme Daniel Rocha, a primeira versão da peça foi encenada em 1920, no teatro João Caetano.
Por se tratar de um teatro dedicado às peças musicadas, a comédia foi reduzida a dois atos e ganhou números de canto (ROCHA, Daniel. In: Boletim da SBAT - n. 271).
288 GONZAGA, Armando. O Theatro de Armando Gonzaga - O Secretário de Sua
Excelência. São Paulo: Livraria Teixeira, s.d., pp. 2-63 (a numeração recomeça a cada peça).
289 Idem, p.2. 290 Idem, p.3.
107
Benvinda diz que conversará com o pai sobre a decisão de despejo, mas é dissuadida por Miguel, afirmando que as ordens do patrão são “terminantes”, além do que Felipe mereceria aquele tratamento.
A cena II traz Felipe pedindo seu almoço a Miguel, anunciando que arrumara um emprego de servente de necrotério e confessando que há muito tempo não trabalhava291. O personagem revela um universo no qual a lógica do trabalho assalariado não
penetrara completamente. Ter um trabalho fixo não é a primeira opção para manter sua vida. A próxima cena, iniciada com a entrada de Taveira, mostra o conflito instaurado entre ambos. O dono da pensão, “carrancudo”, afirma que espera há quatro meses o pagamento da hospedagem e já considera essa dívida perdida. Determina que o hóspede deixe o estabelecimento em vinte e quatro horas, estando as refeições desde logo suspensas.
Depois da saída do pai, Benvinda, que acompanhara a discussão à distância, tenta consolar Felipe e promete arranjar uma moeda para o ônibus, a fim de que ele possa ir à cidade buscar ajuda.
O coronel Praxedes é apresentado na cena IV. Conta a Felipe que ainda não comera coisa alguma, pois seu estômago era muito frágil. Felipe faz um jogo de palavras para dar falsamente a entender que também não comera por causa de seu estômago, despertando a simpatia do coronel. O rapaz, de modo perspicaz, nota o poderio econômico de Praxedes e tenta fazer “amizade” com ele. Em seguida, conversam sobre D. Leocádia e sua filha, Margarida. Mas o coronel diz que não pretende atirar-se em aventuras com a mãe da moça.
Benvinda entrega a Felipe a moeda que conseguira e pergunta sobre Jorge, que saberemos depois ser seu pretendente. Ele cuidaria de uma promoção nos Correios, onde trabalha. Novamente vemos um personagem imbuído de outra lógica, oposta à enunciada atrás: Jorge é o trabalhador que possui um cargo e espera calmamente ir galgando posições. Antes de sair, Benvinda afirma, de boa vontade: “O senhor não se mudará daqui. Papai é que tem de mudar de ideia”292.
Na cena VI, Felipe conversa com Jorge. Tendo-se em vista a determinação de Taveira, diz que não estaria em condições de começar em seu novo emprego sem almoçar. Jorge o recrimina e diz que devem ir a pé para a cidade, pois também não teria dinheiro. Ambos elogiam Benvinda, reforçando sua caracterização como boa moça, que nem
291 Idem, p.4. 292 Idem, p.9.
108
pareceria filha “daquele monstro”293. A tia-avó, D. Adelaide, é descrita pelos rapazes também
como boa pessoa, além de ser muito rica. D. Felicidade, a irmã de Taveira, por seu lado, seria uma velha insuportável, parecida com o irmão, embora também rica, possuindo cerca de quinze contos herdados do terceiro marido.
A próxima cena inicia-se com a entrada de D. Felicidade e de Margarida, bela moça. Ambas procuram uma moeda para um funcionário, mas não encontram. Então, Felipe dá a moeda que recebera de Benvinda, reforçando sua mentalidade pouco previdente. Após a saída das duas, confessa que não seria decente confessar sua “prontidão” à moça294. Jorge, com isso, tentará obter outra moeda de D. Adelaide.
A cena VIII começa com uma discussão entre Praxedes e Taveira, estando o coronel a reclamar de Miguel, também presente, que não teria preparado seu banho. Todavia, como o dia de banho do coronel era trinta e um e o mês anterior fora de trinta dias, o empregado não fizera nada de errado. O coronel pede desculpas e diz que só lavará os pés. Taveira demonstra sua rigidez novamente: “quem não anda direito vai para a rua”295, projetando suas palavras sobre Felipe.
Contrariando o dono da pensão, Praxedes convida Felipe, a quem ainda reputa sofrer do estômago, para um chá com torradas. Durante a conversa dos dois, o coronel revela que somente ficará no Rio de Janeiro até receber oitenta contos do Estado, em virtude de umas terras que vendera ao Governo, regressando, depois, a sua terra.
Para desespero de Felipe, na cena seguinte, D. Felicidade senta-se na mesa com eles e come todas as torradas enquanto conversa com o coronel. Depois, entram em cena D. Leocádia e sua filha, Margarida, que são apresentadas ao coronel. Durante a conversa, a mãe recrimina a filha por travar relações com Felipe, que, pelo tipo, seria “um coisinha”296. Quando as mulheres saem, os dois comentam:
Praxedes - Continuo na minha, “seu” Felipe. Essa D. Leocádia é um pedaço. Felipe - E a filha também.
Praxedes - Ah, “seu” Felipe, se eu tivesse a sua idade... Felipe - “Seu” Coronel, se eu tivesse a sua fortuna...
Praxedes ´Que vale o dinheiro quando não se tem a mocidade?
Felipe - Um pouco mais do que a mocidade quando não se tem dinheiro.297
A cena XI traz a notícia que abalará as estruturas do enredo: o Deputado Placidino procura o Coronel e traz um convite, de seu partido, para que ele assuma a condição 293 Idem, p.9. 294 Idem, p. 11. 295 Idem, p. 12. 296 Idem, p. 16. 297 Idem, p. 17.
109
de candidato a Presidente de seu Estado. Seu nome surgira durante a briga entre duas autoridades regionais pela candidatura, como uma alternativa conciliadora:
Placidino - Ora, esse dissídio entre chefes de tanto prestígio chegou a tornar-se ameaçador. Era a luta, o esfacelamento, a derrocada de nosso partido... Estavam as coisas nesse pé, quando o Coronel Amphilóquio teve uma ideia luminosa: a escolha de um tertius... Só assim o partido ficaria inteiro...
Após alguma hesitação, Praxedes aceita a candidatura e nomeia Felipe seu secretário, pois, efetivamente, simpatizara com ele. A “amizade” dera rápido resultado. Podemos notar a presença do deputado como uma figura que articula os polos da rede política: de um lado, a liderança nacional do partido; de outro, os coroneis. Nota-se, contudo, que a palavra final não vem do centro do país, mas do tal Coronel Amphilóquio. Essa situação inverte um pouco a ordem que existia em Como se fazia um deputado, quando a decisão veio da autoridade central.
Efetivamente, com o advento da República, houve um renascimento da descentralização administrativa que vigorara durante o período colonial, sob a forma federalista. A partir da Constituição de 1891, os Estados adquirem maior autonomia, podendo manter sob seu domínio a receita oriunda da exportação de suas mercadorias, escolher livremente seus governantes e reorganizar suas forças militares298.
Tal descentralização teria dado ensejo ao surgimento do coronelismo, caracterizado pelo aumento exacerbado do poder das lideranças locais. O nome “coronel” deriva de antiga patente da Guarda Nacional, que era comprada por fazendeiros, comerciantes e industriais locais. Tal liderança torna-se o chefe de um clã composto por familiares, agregados e seus “cabras”, aos quais distribui favores em troca de lealdade, sobretudo no momento das eleições299.
Normalmente o coronel associa-se a um bacharel. Enquanto ele controla e exerce seu poder sobre seu clã, o doutor o representa com o prestígio de sua palavra e seus serviços jurídicos. O coronel possui a influência pessoal e o dinheiro, enquanto o doutor faz campanhas jornalísticas, de oratória, em solenidades, ou acompanha e organiza as eleições, verificando o processo eleitoral sob o ponto de vista jurídico e participando de debates no Legislativo local300.
Embora Felipe não seja bacharel, sua função de secretário será similar. Ele fica eufórico com a nomeação e logo pede uma verba para representar o “futuro”
298 CARONE, Edgard. Ob. cit., p. 250. 299 Idem, p. 251.
110
Presidente. Como o coronel somente receberia o dinheiro do Estado no final do mês, o secretário delibera pedir uma quantia emprestada a Taveira. Praxedes concorda: “saque o que for preciso”301.
A nova situação traz reflexos imediatos a Felipe. Taveira é amável com ele e aceita emprestar dinheiro ao coronel. D. Leocádia, que o qualificara de “coisinha”, agora é também amável e manda a filha, que não lhe podia dirigir a palavra, cumprimentá-lo. Na cena seguinte, o dono da pensão determina a Miguel:
Taveira - Miguel, traga a Champagne que está no buffet e mande servir o almoço do Dr. Felipe.
Miguel - Do Dr. Felipe?
Taveira - Sim, idiota, do Dr. Felipe.
Miguel (baixo) - O senhor Felipe não estava com ordem de mudança?
Taveira (baixo) - Mas houve mudança de ordem. Faça o que eu mando e diga ao diabo o que sabe.302
O ato termina com Jorge, que ainda não sabia de coisa alguma, comentando a Felipe que conseguira algum dinheiro emprestado de D. Adelaide, convidando- o para irem à cidade para salvar seu emprego. Para surpresa de Jorge, o amigo recusa a oferta e ainda recebe, com o Coronel, vivas e brindes.
Inegavelmente o personagem central do ato é Felipe, permanecendo em cena quase todo o tempo, sempre envolvido nos diálogos. A peça mostra a mudança no seu estado, de um malandro sem dinheiro para o secretário de um pretenso candidato à presidência de um Estado. Essa mudança, nas palavras de Taveira, altera a ordem das coisas.
Notamos que até a forma de tratamento mudou: virou o doutor Felipe. Com sua nova posição de secretário do futuro Presidente do Estado, ele se torna uma pessoa que, entre outras atribuições, poderia exercer influência e até certo controle sobre a distribuição de favores. Tal papel, em termos de importância, só não suplanta a do próprio coronel. Por essa razão, é equiparado a um patrono, capaz de fazer favores e, por isso, sendo bajulado e bem tratado303.
É preciso destacar que a indicação de Praxedes à candidatura deu-se por um ato de deliberação externo à peça, mediante escolha de autoridades partidárias, apenas relatada pelo deputado que o convidou formalmente. Embora as cenas tenham transcorrido na capital, apresentando personagens e conflitos, não mostrou a decisão essencial que mudou o rumo dos acontecimentos, que, como salientamos, veio do interior.
301 GONZAGA, Armando. Ob. cit., p. 20. 302 Idem, p. 22.
111
O segundo ato se inicia com uma conversa entre Felipe e Miguel, pela qual o público é informado de algumas situações. A primeira delas é que o namoro entre Benvinda e Jorge vai adiantado, ambos se casarão e D. Adelaide dará um dote para a moça; Felipe comenta que só seu colega poderia querer casar com a filha de um dono de pensão304. A segunda diz respeito a D. Felicidade, que passaria as noites a suspirar por uma paixão misteriosa, após enviuvar pela terceira vez; Felipe afirma que esse objeto de sua paixão seria um “desgraçado”305. Por fim, Miguel comenta que Taveira contratara um cozinheiro novo e só comprava gêneros de primeira qualidade, para agradar o “Presidente” e seu secretário.
Taveira e D. Felicidade conversam na cena II. Ele gostaria que a irmã tentasse casar-se com o coronel, mas ela rejeita tal proposta. Afirma que nunca se casaria com quem não fosse eleito por seu coração, ainda que viesse “coberto de ouro”306.
Na próxima cena, Benvinda e D. Adelaide entram reclamando de Felipe, um “impostor” a quem tanto ajudaram nos tempos difíceis, mas que agora não falaria mais com elas307. D. Felicidade, porém, critica as duas, defendendo o rapaz e levantando suspeitas quanto ao “eleito de seu coração”. Por outro lado, D. Adelaide descreve Jorge como um excelente rapaz, “sério, trabalhador e bem agradecido”308.
Uma rápida conversa entre Felipe e D. Felicidade, no início da cena seguinte, parece confirmar as suspeitas de que ela gostaria do rapaz, dado seu ar amável e suspirante. Na sequência, Felipe pede mais cinco contos a Taveira, para as despesas da campanha, mas este afirma não possuir o dinheiro em mãos. Ele teria a receber tal quantia de Albuquerque, mas apenas na segunda-feira:
Taveira - (...) Mas não posso apelar para ele, porque está combinado que ajustaremos nossas contas segunda-feira. O Albuquerque é muito amigo, mas zanga-se por qualquer coisa. Se eu mandasse buscar o dinheiro hoje, era certo que romperia comigo. E eu não posso perder aquela amizade. É meu protetor...309
Felipe diz que buscará o dinheiro de outra pessoa e reitera que o Coronel receberá seu dinheiro, devido pelo Governo, na sexta-feira, ocasião em que pagará os empréstimos de Taveira.
A cena V traz um novo personagem, Malaquias, amigo de Felipe e Jorge, que se tornara jornalista de um periódico recém criado e desejava entrevistar Praxedes, a
304 GONZAGA, Armando. Ob. cit., p. 24. 305 Idem, p. 24.
306 Idem, p. 26.
307 Com a nova condição, Felipe começa a reconfigurar suas relações sociais, num fenômeno similar
ao apontado na peça anterior.
308 GONZAGA, Armando. Ob. cit., p. 26. 309 Idem, p. 28.
112
respeito de sua candidatura. Enquanto aguardam o coronel, conversam sobre seus gastos, que na verdade são de Felipe, com o dinheiro de Taveira, emprestado. Como a eleição seria no domingo, decidem fazer uma manifestação de apoio ao candidato, no sábado.
Logo em seguida, com a entrada de Praxedes, ocorre a entrevista, ponto alto da peça, repleta de tiradas cômicas e explicitando o despreparo do candidato, transcrita na íntegra:
Malaquias - É a primeira vez que Vossa Excelência vai ocupar um cargo de eleição? Praxedes - Eu já fui Presidente...
Malaquias - Ah! Vossa Excelência já foi Presidente de Estado? Praxedes - De Estado, não...
Malaquias - De Província?
Praxedes - Qual Província nada. Eu fui Presidente do Club de dança lá de meu Município...
Malaquias - Então não lhe pode faltar capacidade para dirigir um Estado. Praxedes - E não falta mesmo.
Malaquias - Vossa Excelência quer dar-me a honra de expor ao “Sol” as suas ideias de Governo?
Praxedes (espantado) - Expor minhas ideias ao sol?! Felipe - O Sol de que se trata é um jornal.
Praxedes - Ahn! Isso é outro caso...
Malaquias - Eu desejava ouvi-lo a respeito dos problemas que Vossa Excelência é chamado a resolver como Governo. A instrução pública, por exemplo?
Praxedes - Essa história de instrução pública não me interessa. No meu Estado, quase ninguém sabe ler...
Malaquias - E sobre Saneamento? O nosso país, segundo os competentes, é um vasto hospital.
Praxedes - Já ouvi falar nessa coisa de Saneamento, mas sou contra. Malaquias - Contra o Saneamento?
Praxedes - Contra. Se desaparecerem as doenças, que vai ser dos médicos? Morre tudo de fome. E morrendo os médicos todos, quem é que vai tratar da gente? É uma besteira esse negócio de Saneamento.
Malaquias - Principio a interessar-me por suas opiniões. E o problema ferroviário? Vossa Excelência naturalmente vai esforçar-se para que o seu Estado seja cortado por estradas de ferro.
Praxedes - Deus me livre!! Nós temos lá uma estrada de ferro que é a nossa desgraça. Quando não havia essa coisa, ia tudo muito bem. Depois que os danados dos trens principiaram a correr pelos nossos campos, foi uma miséria. Não há dia em que não fique um boi estrafegado. E quando não é boi, ainda é pior...
Malaquias - É gente?
Praxedes - Antes fosse. Gente não custa dinheiro. É vaca. Malaquias - O Coronel é boiadeiro?
Praxedes - Tenho uma grande plantação... Malaquias - De bois?!
Praxedes - Não, “seu” moço, de batata e cará. Felipe - As batatas do Coronel são notáveis.
Praxedes - É isso mesmo. Em batatas e cará ninguém me passa a perna... Malaquias - O que vejo é que o Coronel vai para o governo sem um programa? Praxedes - Programa! Você pensa que aquilo lá é cinema?
Felipe - Programa quer dizer a relação de coisas que interessarão ao seu governo. Praxedes - Só há uma coisa que me interessa mesmo de verdade: é a plantação de batatas. O futuro de nossa terra está nisso.
Malaquias - De maneira que Vossa Excelência vai para o governo com o fim especial de mandar o povo plantar batatas...
Praxedes - É isso. Felipe - È um programa.
113
Malaquias - Bem, senhor Presidente, não quero tomar-lhe mais tempo.310
Percebe-se que muitas das condições já explicitadas nas peças anteriores persistem. O fundamental na definição de uma candidatura é a posição do candidato na rede de lideranças locais, não suas ideias ou seu programa de governo. Mesmo que o candidato não tenha experiência, não conheça os problemas locais e não tenha ideais, se é indicado por um coronel com influência sobre outros, será eleito graças à movimentação da máquina eleitoral.
Após a interrupção do fluxo dramático com a entrevista, a cena VI retoma o enredo privado, trazendo D. Leocádia e Margarida para conversarem com Praxedes e Felipe, formando dois pares românticos. Felipe promete uma marquise à Margarida e, depois da saída do outro par de cena, ele tenta beijá-la.
Jorge quase os surpreende, levando à fuga da moça. Pergunta se fora D. Felicidade a sair correndo, mas Felipe nega:
Felipe (ferino) - Mesmo que D. Felicidade não fosse o monstro que é, teria para mim um defeito capital: o seu parentesco com o Taveira. Eu não quero absolutamente entrar para a família do homem de pensão.311
Jorge diz que não se incomoda, desde que seja pelo braço de Benvinda. Felipe, por seu turno, afirma que só se casará com uma mulher que seja “produto requintado de Civilização” e faça inveja a outros homens312.
Na cena VIII, Felipe falsifica a letra de Taveira e, pensando em comprar o presente para Margarida, escreve uma cobrança ao Albuquerque, pedindo os cinco contos de modo antecipado. Determina a Miguel que leve a carta ao devedor e não se incomoda com a crise que despertaria entre Taveira e Albuquerque, nem com o fato de cometer estelionato. Independentemente do caráter do coronel e de seu despreparo, percebe-se que Felipe utiliza sua condição de secretário em proveito próprio.
Na sequência, ele diz a Praxedes estar resolvido a se casar com Margarida. O coronel, embora aceite apadrinhar a união, afirma ser uma tolice pensar em casamento no seu tempo. Logo em seguida à saída do rapaz de cena, entra D. Leocádia, a quem o coronel confessa os intuitos de Felipe; ela fica contente, dizendo ter simpatia por ele.
No transcorrer da conversa, invertendo os papeis, D. Leocádia, após revelar as dificuldades causadas pela sua solidão, literalmente pede Praxedes em casamento. Tal pedido, todavia, fora motivado por um mal entendido, durante um passeio pela praia e a passagem de um caranguejo. O coronel, pensando no bicho, teria dito que é triste viver só; D.
310 Idem, pp. 31-33. 311 Idem, p. 35. 312 Idem, p. 35.
114
Leocádia entendera como uma indireta, mas se enganara. Ela cai em seus braços, chorando de vergonha. Suas lágrimas, porém, causam aflição a Praxedes, que lhe propõe casamento313.
Felipe fica surpreso com a decisão do coronel, sobretudo após ter ouvido sua opinião sobre o casamento. Por outro lado, ao constatar que ambos serão da mesma família, fica tranquilo, afirmando que “já não há receio de complicações”, pensando nos gastos que tem feito para si com o dinheiro alheio314.
O diálogo entre Felipe e Jorge, na cena XI, revela diferenças nos caracteres de ambos, desnudando as duas lógicas que os movimentam. O primeiro quer muito