Uma das teorias da sociobiologia diz que temos maior afinidade por indivíduos mais próximos geneticamente (homologous affiliation) e maior repulsa pelos mais distantes geneticamente (hetereologous contraposition), e que, além disso, podemos nos sacrificar para salvar nossos parentes de modo a garantir que nossos genes sejam repassados. Resumidamente, o homem seria “naturalmente nepotista”. No entanto, encontramos vários casos como o do infanticídio feminino sistemático nas altas classes na China, Índia e Europa medieval. Seria uma refutação à sociobiologia? Segundo um estudo feito pela antropóloga Mildred Dickemann, não. Também seria possível explicar sociobiologicamene tal fenômeno79. Segundo Wilson, esta antropóloga:
“... procurou saber se a proporção entre os sexos é alterada após o nascimento pelo infanticídio, de uma maneira que se ajuste à melhor estratégia reprodutiva [repassar os genes]. Parece que sim. Na Índia pré-colonial e britânica a ascensão social das
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Sociobiólogos como Richard Alexander tentaram dar respostas a estas “anomalias” da teoria sociobiológica. Para uma resposta a ele, ver (KITCHER, 1987, p. 299-307).
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Tal estudo de caso seria interessante uma vez que, segundo Segerstråle (2000, p. 164) tal caso finalmente teria convencido o então reticente Maynard Smith da aplicabilidade da sociobiologia a humanos. Kitcher tem outra versão. Maynard Smith preferiria os estudos de casos como feito por Dickemann à grande parte da sociobiologia humana, mas não saberia bem o que no final das contas estariam dizendo (1987, p. 283-4). Esta última interpretação parece ser preferível, uma vez que Maynard Smith declarou concordar com as conclusões dos sociólogos de que rejeitar a sociobiologia humana, apesar de não concordar com os meios utilizados por estes para tal (LEWONTIN e MAYNARD SMITH, 1990).
filhas pelo casamento com homens de posição superior era santificada pelos rígidos costumes e pela religião, enquanto o infanticídio feminino era praticado rotineiramente pelas castas superiores. Os Bedi-Sikhs, a subcasta sacerdotal mais alta de Punjab, eram conhecidos como Kuri-Mar, os matadores de filhas. Destruíram virtualmente todas as crianças do sexo feminino e investiam tudo na criação de filhos que se casariam com mulheres de castas inferiores. Na China pré- revolucionária o infanticídio feminino era comumente praticado por muitas das classes sociais.” (WILSON, 1978, p. 40-1).
Donde Wilson concluiu que “A hipergamia [outro estudo de caso descrito por Wilson] e infanticídio feminino não se apresentam como processos racionais. É difícil explicá-los, exceto como uma predisposição herdada para maximizar o número de descendentes em competição com outros membros da sociedade” (ibid).
Harris (1978) e Kitcher (1987) não acharam tão difícil e propuseram explicações alternativas que acreditam explicar o mesmo fenômeno de forma mais econômica, isto é, fariam menos suposições. Harris o fez de maneira bem rápida e Kitcher de modo mais extenso. Ambos acreditam, ao contrário de Wilson e outros sociobiólogos, que devemos nos basear no que alguns chamam de Folk psychology ou “psicologia de senso comum”, que supõe que pessoas agem conforme suas crenças e valores conscientes, de forma a obter coisas que elas percebem conscientemente como valiosas. Na psicologia de senso comum não se supõe que haja um cálculo biológico inconsciente agindo nos bastidores e zombando das declarações públicas; são crenças e valores conscientes que motivam e explicam a ação dos indivíduos. Não implica que todas as ações dos indivíduos sejam conscientes em suas últimas conseqüências. As pessoas podem avaliar mal certas situações, e suas ações podem ter conseqüências imprevistas, mas a motivação da ação é consciente. Tal “psicologia” é usada no senso-comum e cientistas sociais muito freqüentemente a acham bastante útil em utilizá- las também em suas explicações. Alguns sociobiólogos não parecem rejeitar em princípio a idéia que pessoas podem agir conforme sua consciência, mas parecem preferir explicações em que se utilizem as motivações profundas do gene’s eye view, uma vez que estas últimas teriam prioridade por serem as causas últimas.
Entre as classes altas, a família da noiva paga um dote para a do noivo, enquanto nas classes baixas o noivo é quem paga para obter a noiva. Partindo do pressuposto que para as elites as filhas eram menos valiosas que os filhos – uma vez que homens dominavam a fonte de riqueza e poder político, militar, comercial e agrícola – filhos poderiam aumentar a riqueza e o status da família. Já as filhas nestas elites só poderiam ter acesso a fontes de riqueza e poder através dos homens, mas só podendo ser casada através de um dote (que é caro), sendo, portanto, um custo para as famílias. Há, portanto, incentivos para o infanticídio
feminino se se quiser aumentar a riqueza e o prestígio da família. Nas classes baixas, o infanticídio não ocorreria porque as mulheres campesinas podem ganhar a vida facilmente trabalhando na terra e indústrias caseiras.
Kitcher procura mostrar que partindo de algumas proposições básicas e não de outras, os mais diferentes resultados podem ser obtidos. Por exemplo, uma outra solução possível para um rei seria manter suas filhas vivas, mas casá-las com noivos da classe média, uma vez que não haveria a obrigação do pagamento do dote. Assim, tal estratégia levaria à maior aptidão inclusiva do que o infanticídio. Mas Dickemann, segundo Kitcher, diz simplesmente que tal opção não está disponível.
Atendo-nos aos custos da criação dos filhos: se considerarmos o custo da criação como negligenciável (especialmente para as altas classes), então o infanticídio feminino não incrementará adaptação inclusiva para patriarcas. Melhor deixar as mulheres viverem para deixar mais filhos e assim maximizar a aptidão inclusiva. Mas se os custos da criação não são negligenciáveis, e mais do que isto, representem um alto custo, então, haverá pressão por infanticídio nas classes altas, e pressão ainda maior por infanticídio nas classes baixas e médias. Um modo de escapar a essa conclusão seria supor que custos da criação são diferentes conforme a classe, onde seria necessário que filhas das classes mais altas tivessem educação especial para se casarem. Mas se supomos que mulheres das classes médias e das altas competem pelos mesmos maridos das classes altas, então a pressão será maior nas classes médias, e não nas altas como predito pela teoria sociobiológica. Por fim, conclui Kitcher sobre o estudo sociobiológico do infanticídio, que “There is no model that resolves the issue in the way Dickemann suggests...it seems a little premature to claim that the case provides a ‘striking fit’ of predictions to findings” (KITCHER, 1987, p. 326),
Kitcher propõe então uma explicação alternativa baseada na Folk-psychology. Famílias se esforçam em obter riquezas e poder, e a sociedade indiana tem o costume onde famílias de classe média esforçam-se em assegurar alianças com famílias de altas classes, fornecendo esposas aos filhos da classe alta. Homens das classes altas aproveitam-se da classe média obtendo esposas e dotes. Dado isto, mulheres das classes altas são prejuízo econômico. Há quem dissesse que criar garotas seria como “aguar a grama do vizinho” (“watering your neighbor's lawn”). Os pertencentes da baixa hierarquia ganham proteção e influência, e a competição para ser “amigo do poderoso” leva à instituição do dote. Uma vez instituído, levaria também as classes altas a pagá-lo, mas tais classes não precisariam de filhas para a promoção social, e racionalizam sua ganância construindo regras sobre o casamento e destruindo filhas no nascimento. O filósofo destaca que tal explicação alternativa é levantada
por Dickemann. Por que então, pergunta ele, recorrer à aptidão inclusiva se não traz nenhum avanço na explicação80? E conclui:
“In order to understand the high frequency of infanticide in the societies of northern India and China, we need to trace the history of cultural institutions, recognizing how institutions affect the dispositions of those who grow up in societies dominated by them and how, in turn, those dispositions modify existing institutions... Ultimately we shall want an evolutionary explanation of basic human propensities.
The point is that the evolutionary questions arise relatively late in the inquiry. Only after we have traced a complex social arrangement to the fundamental proximate mechanisms that have been at work in its historical development does it become relevant to inquire how the inclusive fitness of our ancestors might been maximized by their having those proximate mechanisms. (KITCHER, 1987, p. 329, itálicos
adicionados).
A conclusão de Kitcher sobre o caso é de que ele não está errado, mas sim que não temos motivos para pensar que esteja correto. A inserção de teorias sociobiológicas é totalmente dispensável para entender a situação, e sua inserção não acrescenta nada em nosso entendimento. Se a análise de Kitcher é válida, então mais uma vez a teoria sociobiológica só aparece após a situação social já estar definida, e algumas variáveis são inseridas e outras são negadas sem muitas explicações, algumas instituições sociais são fruto da sociobiologia, outras interagem com ela.
Uma outra sugestão de explicação para o infanticídio pode nos ser dada por Darwin. O grande mestre destacava que haviam instintos nos homens, mas não deixava de salientar causas conscientes “Acresce lembrar outros problemas que a criação dos filhos acarreta para as mulheres, como o da subseqüente perda de beleza, de sossego e de tranqüilidade” (DARWIN, 2004 [1871], p. 522). Obviamente tal formulação de Darwin não explica por si só as variações culturais, mas sugere que o apelo às explicações sociobiológicas como sinônimo de darwinianas não é algo sem problemas, uma vez que o próprio considera causas próximas como fator de peso na explicação.