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No século XIX, o antropólogo, filósofo e sociólogo finlandês Edvard Westermarck se inspirou em Darwin para combater a tese de uma suposta promiscuidade

primitiva. Westermarck propôs uma teoria para explicar o incesto que recebeu o nome de “efeito Westermarck”: haveria uma aversão instintiva ao incesto. O tabu do incesto recebeu diversos estudos sociobiológicos, e é um dos casos mais badalados. Por vezes é tido como manifestação da natureza humana, por outras, como resultado de sanções culturais, ou às vezes como resultado de ambas. Segundo Wilson (1980, p.36), a proibição de relações sexuais entre irmãos e irmãs e entre pais e sua prole seria garantida por sanções culturais “em toda parte”. E considera que o tabu do incesto pode ser resultado de uma regra mais geral, assinalada pelos antropólogos sociobiólogos Lionel Tiger e Robin Fox, que versa sobre o impedimento da formulação de laços. Quando duas pessoas formam entre si um vínculo forte, dificilmente elas irão se unir por outros tipos de vínculos. Por exemplo, estudantes e professores demoram em tornar-se colegas, mesmo depois de os estudantes terem “ultrapassado” seus tutores.

Mas pelo menos no caso do tabu irmão-irmã, diz Wilson, existiria “uma forma de imposição muito mais profunda, menos racional”. Segundo a teoria sociobiológica, deveria haver maior repulsa sexual quanto maior a proximidade genética, uma vez que filhos de irmãos geram proles deficientes, podendo ter retardo mental, nanismo, deformações no coração, dentre outros. Seria então vantajoso biologicamente haver algum mecanismo que inibisse esse tipo de relação. Um candidato a esse mecanismo seria que a aversão sexual desenvolve-se automaticamente entre pessoas que cresceram juntas por longo tempo a partir de tenra idade. Entre os kibbutzim77 de Israel nos estudos de Joseph Shepher, da Universidade de Haifa – diz Wilson – mostraram que a aversão sexual entre pessoas da mesma idade não dependeria de uma relação real de consangüinidade, mas sim de terem sido criados juntos. Wilson comenta a teoria de Claude Lévi-Strauss de que o tabu do incesto facilitaria a troca de mulheres durante barganhas entre grupos sociais. Nessa perspectiva, irmãs e filhas não são usadas para o casamento, mas sim para obter poder em trocas. Mas a afasta afirmando que “[a] explicação sociobiológica dominante, ao contrário, considera a integração da família e os acordos nupciais subprodutos ou, quando muito, fatores contribuintes secundários. Ela identifica uma causa mais profunda, mais premente, a pesada punição fisiológica imposta pelo endocruzamento” (WILSON, 1980, p. 37).

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Kibbutz (kibbutzim no plural) são comunidades predominantemente agrícolas mais ou menos independentes do mundo exterior, criadas ao longo do século XX inicialmente com valores comunistas (alguns assumidamente marxistas-seculares) e sionistas na região da Palestina, mas também houve kibbutzim de cunho religioso. As crianças eram criadas todas juntas entre si e relativamente separadas de seus pais. Os kibbutzim atualmente estão desaparecendo ou privatizando grande parte dos serviços, e inserindo cada vez mais valores capitalistas. Mais informações em http://www.kibbutz.org.il/eng/

“A exclusão de vínculo do tipo existente entre as crianças israelenses é um exemplo daquilo que os biólogos chamam de uma causa próxima; neste exemplo, a exclusão psicológica direta é a causa próxima do tabu do incesto. A causa última, sugerida pela hipótese biológica, é a perda da aptidão genética resultante do incesto.” (ibid. p. 39).

Kitcher (1987) comenta que outro sociobiólogo, Van den Berghe se dedicou mais extensamente ao mesmo problema. Além do exemplo dos kibbutzim haveria ainda o exemplo dos “casamentos entre menores” (minor marriages): em muitas partes da China, adota-se uma filha bem jovem legalmente, mas com o objetivo de que esta se case com seu filho de mesma idade. Este caso seria mais uma confirmação da teoria sociobiológica, uma vez que haveria evidências de resistências ao casamento, grande número de adultério e divórcio, e o sucesso de tais casamentos seria um terço dos convencionais.

No entanto, Kitcher levanta algumas dificuldades enfrentadas por estes exemplos, onde haveriam outros fatores não discutidos por Van den Berghe. No caso dos kibbutzim, Kaffman, o diretor médico de um kibbutz em Tel Aviv, afirmou que o período estudado por Shepher – estudo que embasa as afirmações dos sociobiólogos – foi o chamado “the puritanical era in the kibbutz” (KAFFMAN, 1977, p. 208 apud KITCHER, 1987, p. 273) onde o ambiente externo ao kibbutz era extremamente conservador, sendo reforçados constantemente os ideais de pureza nas crianças. Um estudo teria mostrado a falha estatística de Shepher ao não formular corretamente as hipóteses nulas (in KICHTER, 1990, p. 104). Já no caso dos casamentos entre menores, Kitcher argumenta que no estudo de casos de Wolf e Huang que embasa as conclusões sociobiológicas haveria um caso onde casamento foi bem sucedido e três casos onde relação sexual pré-nupcial adiantou o casamento. Afora isto, haveria outras complicações que também sugeririam explicações alternativas. Os casamentos entre menores eram muito desprezados pelos outros habitantes, tomando tal instituição como adoção de esposa para um incompetente. O marido e a esposa adotiva eram zombados constantemente a ponto de desaprovarem tal situação matrimonial, bem como rejeitarem um ao outro. Estes fatores que suscitam explicações alternativas, também foram negligenciados por sociobiólogos.

Há casos bem conhecidos onde o incesto irmão-irmã ocorre, tal como no antigo Egito, nas elites governantes do Havaí, entre os Incas e primeiros imperadores chineses. Van den Berghe tenta dar uma resposta sociobiológica a estas possíveis refutações. Onde mesmo nestes casos de incesto haveria maximização de aptidão inclusiva. Para o plebeu monogâmico ou um poligâmico em baixa escala seria vantajoso evitar o incesto, mas para um rei

poligâmico seria uma boa além de ter filhos com suas muitas mulheres, ter também com sua irmã, uma vez que poderia produzir herdeiros com um grau de parentesco genético maior que o normal (r=0.75 contra r=0.5 do normal), que seriam poligâmico e produzindo muitas crias. E por ter várias esposas, o custo de ter crias defeituosas seria irrelevante uma vez que já teria garantido os herdeiros com as outras esposas. Se repetido o incesto várias vezes, haveria a possibilidade do rei clonar a si mesmo.

No entanto, a solução do autor apenas inverte o problema: agora se tem de explicar a inexistência de incesto em outras famílias reais. Além disto, não explica por que haveria proibição do incesto entre pais e filhas, uma vez que o grau de parentesco entre pais e filhas é o mesmo que o entre irmão e irmã: 0,5. E há muitos casos onde o incesto pai-filha é bastante freqüente, às vezes até institucionalizados. Em certos locais da Índia, por exemplo, homens se casam com a filha da irmã (LEACH in SEGERSTRÅLE, 2000, p. 172). Aqui não nos interessa tanto refutações empíricas à sociobiologia, mas sim como explicam instituições sociais.

Se a proibição do incesto é o caso, então “incesto” seria um afloramento da natureza humana. Mas quando o incesto é estimulado (como entre reis poligâmicos), seria a interação da instituição social (poligamia do rei) com natureza humana num processo evolucionário que resultaria em outras instituições sociais (incesto real sancionado). Mas por que a instituição social “poligamia real” seria o caso, e não a instituição “proibição do incesto”? Por que em alguns casos as instituições são frágeis, sendo reflexos da natureza humana, e em outros seriam rígidas a ponto de impor desvio à natureza humana? Também a explicação implica certa arbitrariedade. A explicação para o incesto do rei, no entanto, explica como tal procedimento iria aumentar a aptidão inclusiva do irmão, mas não explica como tal solução iria aumentar a aptidão inclusiva da irmã.

Algumas das explicações alternativas ressaltam que incesto tem a ver com poder político e econômico, e são tais configurações que explicam tais instituições (HARRIS, 1982; KITCHER, 1987, p. 269-79).

Além do mais, Sahlins (1976) se esforçou em mostrar que a teoria sociobiológica não explica os sistemas de parentesco existentes:

“My aims is to support the assertion that there is not a single system of marriage, postmarital residence, family organization, interpersonal kinship or common descent in human societies that does not set up a different calculus of relationship and social action than is indicated by the principles of kin selection.” (SAHLINS, 1976, p. 26).

A idéia de que quanto maior a proximidade genética entre indivíduos, maior a solidariedade, e quanto maior a distância genética, maior a hostilidade não explicaria a diversidade de sistemas de parentesco. Neste sentido, destacava Sahlins, há casos de “casamento fantasma” onde é o tio (irmão da mãe), e não o pai biológico quem cuida das crianças, e há o caso de polinésios que por vezes praticam o infanticídio, mas costumam adotar o filho do inimigo de guerra78. Também entre os polinésios, o filho do irmão homem faz parte do clã, e o filho de sua irmã é um outsider, talvez um inimigo. Se a linhagem matrilinear for posta saliente, tudo pode mudar, e o filho da irmã passa a ser um membro (ibid p.12). O ceticismo de Sahlins não era tanto com a aplicação de teorias biológicas à seres humanos, mas sim com a esperança que tal aplicação explique componentes culturais e instituições sociais, isto é, a tese do isomorfismo entre biologia e instituições sociais. O motivo que indivíduos engajam na guerra não é o mesmo que o que a guerra acontece.