Há um estudo mais recente da psicologia evolucionista que está entre os mais badalados no campo atualmente. Não se trata necessariamente de infanticídio, mas de maus
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Ridley (1993, p. 126) comenta este caso dizendo que explicações alternativas, como esta de Kitcher falharam por não conseguirem explicar a correlação com ranque, o que não é verdade, como acabamos de viver.
tratos a filhos, principalmente os não biológicos, nos estudos feitos pelos psicólogos evolucionistas Martin Daly e Margo Wilson ao longo de cerca de vinte anos. Segundo estes, “current [evolutionary] theory implies that natural selection shapes social motives and behavior to function nepotistically on behalf of blood kin... Parental care is costly, and animals usually avoid expending it in behalf of young other than their own” (DALY e WILSON, 1996. p. 79). Pinker nos explica tal estudo:
“O amor pelos filhos é selecionado ao longo do tempo evolutivo porque impele os pais a proteger e criar seus rebentos, os quais provavelmente possuem os genes conducentes ao amor pelos filhos. Em qualquer espécie na qual filhos de terceiros têm probabilidade de ingressar no círculo familiar, a seleção favorecerá uma tendência a preferir a própria prole, pois segundo o frio raciocínio da seleção natural, investir em filhos dos outros seria um desperdício. A paciência de pais adotivos tenderá a esgotar-se mais rapidamente com os enteados do que com os filhos biológicos e, em casos extremos, isso pode conduzir a maus tratos.” (PINKER, 2004, p. 231).
Isto é, segundo a teoria sociobiológica, filhos não biológicos tenderiam a sofrer mais maus tratos do que filhos biológicos, e isto, segundo Daly e Wilson, seria “the most obvious prediction from a Darwinian view of parental motives” (DALY e WILSON, 1988, p. 83 apud BULLER, 2009). O amor pelos filhos (parental love) teria evoluído para ser disparado pelos filhos biológicos durante uma fase crítica da vida, servindo para inibir o uso de violência no conflito com crianças, mas não contra filhos adotivos. Daly e Wilson citam vários casos que supostamente confirmariam suas predições, mas há um caso em especial: o estudo feito em 1985 de 99 casos de maus-tratos no município de Hamilton-Wentworth em Ontário, Canadá, compreendendo o período de 1982 e 1983, que teria vantagem por conter as variáveis de que se pais são biológicos ou não. O estudo teria mostrado que crianças com menos de 5 anos de idade e que viviam com um dos pais biológicos e outro não-biológico tinham a chance de 40,1 vezes mais de serem vítimas de maus-tratos do que as outras crianças que viviam com ambos pais biológicos. E apesar do percentual de maus tratos diminuir conforme aumente a idade da criança, em qualquer idade, crianças que vivem com um dos pais biológicos estão mais propensos a sofrerem maus tratos do que os que vivem só com os pais biológicos.
Mas, destaca Buller, há deficiências neste estudo. Nos 99 casos, há também casos de abuso sexual, que envolvem diferentes mecanismos (até pelas próprias teorias
sociobiológicas), além do que, abuso sexual intra-familiar raramente envolve abuso físico81. Buller e Elliot Smith – o diretor associado do Arquivo Nacional de Dados sobre Abuso e Negligência Infantil dos EUA – resolveram testar a teoria com uma amostra maior, e descobriram que tal propensão é de 8,2 vezes – bem menos que os 40,1, mas ainda assim um número expressivo e condizente com a teoria sociobiológica. No entanto, com tais números não se levou em conta o perpetrador do abuso. A segunda pesquisa tem esta informação, e levando-a em consideração, constatou-se surpreendentemente que pais biológicos solteiros tem 1,7 vezes mais chances de praticar abuso físico do que em casa onde moram mãe biológica e pai não-biológico – uma anomalia para a teoria sociobiológica. Há ainda outras controvérsias sobre a confiabilidade dos dados utilizados, e o debate entre Buller de um lado e Daly e Wilson de outro continua82. Mas aqui não nos interessa tanto as confirmações ou refutações empíricas, mas sim a estrutura da explicação sociobiológica. Podemos aceitar plenamente que o “efeito cinderela” não é só conto de fadas, podemos aceitar a realidade dos dados fornecidos por Daly e Wilson, mas isto não implica aceitação automática da explicação sociobiológica que fazem destes fenômenos. Não é de modo algum claro que tais predições de Daly e Wilson sejam as únicas possíveis dada a teoria sociobiológica. Podemos pensar que, assim como em outros casos, qualquer resultado pode ser “predito” pela teoria.
Se mulheres com filhos evitassem de engajar em outros relacionamentos, poder- se-ia dizer que a teoria sociobiológica preveria isso, uma vez que o padrasto representaria um risco potencial para seus filhos e melhor seria evitar possíveis futuros problemas para as crianças. Se fosse isto que acontecesse, estaria “previsto” pela teoria. Mas como este não é o caso, perguntam os pesquisadores “But then why is the human animal so willing to enter into step-relationships that may entail prolonged, costly pseudoparental investment?” (DALY e WILSON, 1996, p. 79). Uma primeira hipótese seria a de que arrumar pais “adotivos” (stepparenthood) não era um problema recorrente para nossos ancestrais, não havendo, portanto, adaptações psicológicas para isto. Daly e Wilson descartam tal alternativa apelando para estudos feitos com tribos de coletores contemporâneas, onde tal tipo de relacionamento é algo mais ou menos recorrente. Para fins argumentativos, deixemos de lado a questão de que se seria legítimo pegar grupos coletores atuais como evidência de coletores do passado pleistocênico. Daly e Wilson não dizem que esta última explicação não preveja o conflito, mas sim que ele é refutada empiricamente, e recorre-se então a uma segunda hipótese, “more
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Buller cita em suporte desta afirmação o estudo de Parker, Hilda, and Seymour Parker. 1986. “Father- Daughter Sexual Abuse: An Emerging Perspective.” American Journal of Orthopsychiatry 56: 531–549. 82
plausible”, que dizia que assim como alguns animais, o investimento de pais não biológicos em mulheres com filhos é interpretado como um esforço conjugal (mating effort), isto é, uma parte do custo do cortejo masculino. Assim, “in this light” dizem os pesquisadores “the existence of stepparental investiment is not so surprising” (p. 80). Tal formulação pode “prever” que o abuso de filhos biológicos e não-biológicos seria o mesmo, afinal o macho estaria mostrando à fêmea que é um “bom pai” e poderá cuidar das futuras crianças, afinal, melhor ter um novo parceiro que ajuda as crianças, do que aquele que pode causar danos à estas. Se fosse este o caso, também a teoria poderia prevê-la. Mas advertem que tal não seria o caso, e que ainda assim haveria perferência por filhos biológicos: “But the fact of such investment cannot be taken to imply that stepparents ordinarily (or indeed ever) come to feel the sort of commitment commonly felt by genetic parents” (ibid). Mas que vantagem na aptidão inclusiva pode haver nesta ligeira preferência por filhos biológicos? Pais que maltratam mais filhos não-biológicos deixam mais descendentes do que os que não maltratam? Podemos imaginar ainda que caso a violência fosse maior entre os filhos biológicos, tal fato também poderia ser predito pela sociobiologia. Alguns pesquisadores dizem que quanto mais cedo a violência seja perpetrada contra crianças, maior a tendência destas de se comportarem agressivamente83. Tal comportamento seria adaptativo por que “pedagógico”: ensinaria desde cedo às suas crianças a “lei da selva”, isto é, a agir agressivamente mais prontamente, algo vantajoso no ambiente ancestral. Já os casos de morte podem ser explicados como as vezes que o pai biológico “errava a mão” e mataria a criança, e isto seria um subproduto (by-product) da adaptação; ou então poderíamos explicá-la adaptativamente: a violência paterna seria um tipo de pré-seleção: os sobreviventes da agressão estariam mais aptos a sobreviverem e evitariam que pais gastassem recurso com um filho que não suportaria a pressão e rapidamente morreria.
Numa réplica à Buller, Frank Miele contesta a suposta anomalia da teoria de Daly e Wilson, de que pais biológicos solteiros abusariam 1,7 mais do que pais adotivos que moram com mães biológicas. Segundo Miele, Daly e Wilson já haviam tratado disto em um artigo de 1981 e que provavelmente estes teriam sido os primeiros a documentar isto. Mas Miele não nos apresenta o argumento. Se é verdade que “In this 1981 article, Figure 24–1 clearly shows that ‘Father-only is much the riskiest situation’”, por que a convivência com pai somente seria a situação mais perigosa que mãe-filhos se a correlação genética mãe-filhos e pai-filhos é a mesma?
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Daly e Wilson propõem explicações alternativas evolutivas dado o problema da morte do pai biológico da criança. Um seria recasar com o irmão do marido morto, uma vez que o grau de parentesco do novo marido seria próximo do das crianças. Outra alternativa seria deixar as crianças serem cuidadas por um parente fêmea pós-menopausa84. Mas descartam tais hipóteses simplesmente dizendo que na ausência de tais práticas, a alternativa será outra, mas não nos dizem quando e por que a opção será outra – no caso, a teoria sociobiológica que defendem. Acrescentam que por vezes tem a mulher de escolher entre o novo parceiro e a criança, e com isto pode tornar-se cúmplice do abuso do parceiro. Assim, “prevê-se” também que a mãe cometerá a violência contra seus rebentos. No final das contas, a teoria parece só predizer as possibilidades, mas não em que condições tais possibilidades ocorrerão ou não.
Se minhas reconstruções forem legítimas, então a sociobiologia mais uma vez parece estar “acomodando aos fatos” e não os “prevendo”.