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Bem como se ressaltou anteriormente, para ocorrer, a infecção pelo HIV depende de ações e comportamentos específicos. Este trabalho versa sobre a transmissão por via sexual, e, portanto, os comportamentos que mais interessam, neste caso, dizem respeito à vivência da sexualidade por parte dos indivíduos aos fatores socioculturais que determinam essa vivência. A esse respeito, sabe-se que a abstinência sexual e o sexo não penetrativo são as práticas que envolvem mais baixo risco. O uso consistente de preservativo e a prática sexual monogâmica têm sido preconizados como o comportamento mais desejável no tocante à redução do risco de infecção. São fatores que aumentam o risco da prática de sexo penetrativo em relações heterossexuais: praticar sexo anal, estar infectado por alguma DST, usar a esterilização como método anticonceptivo.
Por uma questão “anatômica”, a mulher está em maior risco de infecção durante o sexo penetrativo. A carga viral do sêmen é, de maneira geral, mais elevada do que a da mucosa vaginal. Durante a ejaculação, e depois dela, uma grande extensão da mucosa vaginal fica em contato com o sêmen por um período de tempo considerável. No sexo vaginal, portanto, a chance de transmissão do vírus é superior para a mulher. Ademais, a prática de coito anal aumenta consideravelmente a chance de infecção, pois além de, nessa prática, a exposição ao risco de infecção se assemelhar anatomicamente àquela presente no sexo vaginal, a mucosa da região anal é mais frágil e, portanto, mais sujeita
à ocorrência de pequenos cortes, durante a penetração, que podem causar sangramentos e promover o contato direto entre o sangue e o sêmen (BARBOSA, 2003).
A relação entre DSTs e HIV tem sido amplamente discutida na literatura (WASSERHEIT, 1991; La GUARDIA, 1991; BARBOSA, 2003). Em geral, os autores citam que, em homens soropositivos, também infectados por outra DST, sobe a concentração de HIV no sêmen, aumentando, assim, a sua chance de infectar a parceira. Entre as mulheres, na presença de uma DST, a vagina pode apresentar pequenos ferimentos ficando mais exposta à outra infecção. Além disso, como a maioria das DSTs é assintomática na mulher, um grande contingente delas pode não saber que tem alguma DST, desconhecendo, também, o fato de estar em risco de infecção pelo HIV.
Assim como explicitado nos itens que descreveram a elaboração do marco teórico, o comportamento pessoal está pautado pela maneira como o indivíduo internaliza componentes sociais, culturais e institucionais, e como responde a eles. As relações de gênero, a religiosidade e a estigmatização da aids são alguns dos elementos sociais e institucionais cuja internalização interfere na configuração individual da exposição ao risco de infecção.
A maioria das religiões - senão todas - preconizam a fidelidade conjugal e fundamentam muito de sua doutrina na vida familiar. Levado a termo, esse ensinamento tem um potencial altamente preventivo contra a infecção. Por outro lado, sabe-se que nas parcerias estabelecidas pelos fiéis, bem como nas parcerias dos não religiosos, essa premissa nem sempre se cumpre e, quando é o caso, os fiéis raramente encontram, no âmbito da comunidade religiosa, ferramentas para se prevenir contra o risco. No caso da Igreja Católica, por exemplo, a abstinência sexual e a fidelidade conjugal dos casados são as únicas medidas preventivas aceitas, sendo que a promoção e o uso da camisinha são combatidos, chegando-se mesmo a questionar a eficácia do produto. OROZCO (2002) comenta a falsa sensação de proteção que mulheres católicas soropositivas sentiam antes de serem infectadas pelo parceiro único ao qual, cumprindo as expectativas religiosas, eram fiéis. Por outro lado, em um estudo com gestantes realizando pré-natal em serviços de referência em Brasília (DF), GUILHEM (2005) constatou que mulheres evangélicas tendem à maior recusa do teste anti-HIV, o que lhes impõem uma vulnerabilidade aumentada. Segundo a autora, isso pode dever-se ao fato
de que, embora a grande maioria da população brasileira se declare católica, a existência de “não praticantes” é maior entre os católicos do que entre os evangélicos, determinando que os primeiros, mais freqüentemente do que os evangélicos, não sigam os preceitos de sua religião quanto à sexualidade, ou que os relativizem, adequando-os à sua realidade concreta.
A doutrina religiosa é apenas um dos muitos elementos que integram as expectativas sociais sobre a configuração das relações de gênero. No tocante a essas, e à maneira como elas determinam a vivência da sexualidade, conforme criticado por HEISE e ELIAS (1995) e BARBOSA (1999), as principais frentes de combate à AIDS (redução do número de parceiros, promoção do uso de preservativos e tratamento de outras DSTs em populações em risco de contrair o HIV) não se adequam à realidade de um grande número de mulheres. Dentre as razões para tal estão: o fato de a maioria delas serem monogâmicas, mas estarem sujeitas a um risco aumentado por seus parceiros manterem parcerias múltiplas; porque a decisão final sobre o uso do preservativo recai sobre o homem e, entre outras coisas pela dependência econômica, muitas mulheres têm baixo poder de negociação de práticas sexuais mais seguras; pela forte estigmatização pela qual passa a mulher em busca de serviços de tratamento a DSTs, provocando que esses tratamentos tenham de ser associados a outros serviços de saúde. Um grande número de estudos refere o temor à violência física e/ou psicológica mencionado por mulheres de diversos níveis sociais e culturais quando comentam a possibilidade de demandar o uso de preservativo aos seus parceiros, fundamentalmente, em relações estáveis. O receio mais freqüentemente mencionado é de que tal demanda colocaria sob suspeita a sua fidelidade (GUIMARÃES, 1996b; HEILBORN e GOUVEIA, 1999 entre outros).
Em parcerias estáveis, a aceitação do preservativo é maior quando o seu uso é justificado como anticonceptivo e não como método de prevenção de doenças. Esse é um elemento complicador nas tentativas de promoção da prática de sexo mais seguro, fundamentalmente quando confrontado com a alta prevalência de métodos contraceptivos definitivos. De acordo com a Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde (PNDS), de 1996, cerca de 40% das mulheres em idade reprodutiva estavam esterilizadas e, dentre os homens entrevistados, a proporção de vasectomizados era de 2,4% (BEMFAM, 1997). Em um estudo comparativo entre mulheres esterilizadas e não esterilizadas, no município de São Paulo, observou-se a associação negativa entre uso
de preservativo e esterilização. Além do mais, as mulheres esterilizadas mostraram maior aderência aos padrões tradicionais de feminilidade (VILLELA e BARBOSA, 1996). MAGALHÃES et. al. (2002) observaram que, também entre as soropositivas, há grande resistência ao uso do preservativo quando a mulher é esterilizada, mesmo quando o parceiro é soronegativo.
Relações de gênero regidas por um padrão conservador não aumentam apenas a vulnerabilidade das mulheres, mas também a dos homens. Força, autoconfiança e invulnerabilidade são atributos que integram a construção cultural da masculinidade. Os homens tendem a replicar essa concepção em seu comportamento com respeito à saúde, facilmente envolvendo-se em práticas de risco nos mais diversos aspectos da saúde (COURTENAY, 2000). Em sua vida sexual, os homens são mais incentivados a assumir riscos do que responsabilidades, o que fica evidente, por exemplo, pelo arraigo da crença na naturalização da infidelidade masculina em contraposição à naturalização da fidelidade feminina (NASCIMENTO, [S.d]; GUERRIERO, AYRES e HEARST, 2002).
Para FOREMAN (1999) o êxito dos programas de prevenção depende da inclusão dos homens como um dos focos de atuação, pois eles têm determinado a trajetória da AIDS desde os seus começos. Primeiramente, pela grande expressão das categorias homo/bissexual e UDI (que são, majoritariamente, homens) dentro do quadro total de infecções e, em seguida, com a feminização da epidemia, pelo fato de a maioria das mulheres soropositivas terem sido infectadas por seus parceiros.
O grande desafio das campanhas de prevenção voltadas aos homens heterossexuais é, precisamente, lidar com os pilares que sustentam a identidade masculina e a sua relação com a idéia de grupos de risco, lamentavelmente ainda presente no imaginário social, segundo a qual a soropositividade masculina é quase um sinônimo de homossexualidade. Além disso, uma das primeiras tentativas de explicação da feminização da epidemia formulou, e difundiu, a idéia da “ponte bissexual”, isto é, de que as mulheres estariam sendo contaminadas em função do comportamento bissexual de seus maridos. Essa imagem colocou em xeque o fundamento da masculinidade e da virilidade e provocou certa animosidade dos homens heterossexuais às campanhas preventivas. A estigmatização do comportamento homo/bissexual e o medo de ser
incluído nessas categorias comprometeram a capacidade de autoavaliação do risco e autoproteção dos homens heterossexuais (GUIMARÃES, 1994; VILLELA, 1998).
De fato, a estigmatização e a discriminação marcam fortemente a epidemia da AIDS e a sua alta prevalência no ambiente social confere uma propriedade latente ao risco de infecção, tentando isolá-lo e colocá-lo na esfera do invisível e do “indizível”. Para PARKER e AGGLETON (2001:35), “a estigmatização e a discriminação devem ser entendidas como processos sociais ligados à reprodução da desigualdade e da exclusão”. Vista dessa maneira, a estigmatização consiste em uma relação de desvalorização do sujeito estigmatizado que opera na intersecção entre cultura, poder e diferença, e que conduz à discriminação.
No Brasil, a estigmatização da AIDS e dos indivíduos soropositivos e em risco, associada à falta de informações adequadas sobre suas formas de transmissão, provocou uma série de eventos no comportamento social relacionado à AIDS. Alguns exemplos desses eventos são: ocorrida na década de oitenta, a recusa do Instituto Médico Legal do Rio de Janeiro, o IML-RJ, a realizar necropsias em indivíduos que tiveram a aids como causa de morte; os inúmeros casos de recusa de atendimento de indivíduos soropositivos por parte de médicos e dentistas; a discriminação, em locais de trabalho, dos portadores do HIV; o levantamento de suspeitas sobre a condição sorológica de determinados atletas, trazendo à tona discussões sobre a possibilidade de transmissão do vírus em lesões ocorridas durante a prática esportiva; a recusa da matrícula de crianças soropositivas em estabelecimentos escolares (RAMOS e MARUYANA, 1990; BASTOS et. al., 1994). Outro efeito da estigmatização da aids, no Brasil, é a baixa probabilidade de adoção de crianças órfãs de pais que morreram devido à aids, independentemente de sua idade, cor da pele e condição sorológica (DORING, FRANÇA JR. e STELLA, 2005).