A análise sobre os recursos humanos refere-se à disponibilidade, à qualidade dos profissionais e, nesse âmbito, a possibilidade de capacitação na condução do processo participativo no projeto de urbanização.
O trabalho de participação, como expresso anteriormente, deve ser desenvolvido de forma multidisciplinar (BRASIL, 2010), logo as capacidades não se restringem unicamente ao setor competente pelas ações do trabalho social, mas antes pela equipe que participa da intervenção como um todo.
De uma forma geral, sobre a qualidade do trabalho, os moradores apontaram que as técnicas possuíam conhecimento sobre o que estavam realizando, além de expressarem que o contato e a execução do trabalho tiveram como diretriz a relação direta com a população, conforme identificado nessa entrevista:
O contato com os moradores, que a Sara assim, ela conhece, ela sabe de praticamente caso por caso, elas tem esse conhecimento, elas ouvem. De uma forma, eles tenta resolver. Elas tentam resolver, mas tem coisa que também é para o morador fazer (...) (Entrevista concedida por Fabiana Nunes, moradora do Conjunto Habitacional Três Maria – J6).
Para além da visão dos moradores, as assistentes sociais pontuam que a experiência daquelas que coordenam o trabalho social, Márcia Gesina Geraldo Oliveira (coordenadora) e Tássia de Menezes Regino (secretária de habitação), foi fundamental para o andamento do processo participativo e para o crescimento profissional. Sara, que estava na Secretaria de Habitação antes da nova gestão, disse que a forma como o trabalho social foi conduzido fez com que o objeto do trabalho fosse alterado:
E a experiência da Márcia, como assistente social, ela contribuiu muito para a gente. Nessa questão de escolha de blocos, que era uma coisa que a gente nunca havia feito (...).
A Márcia é uma super chefe, além dela ter conhecimento da prática e da teoria muito grande e de orientar muito bem a gente na questão do trabalho social, ela consegue saber de todos os projetos que está acontecendo e desenhar, às vezes, algumas saídas em algumas situações (...)
187 A Tássia, o fato dela também ser assistente social, ela acaba pegando mais pesado com a gente. Ela sabe, a gente não consegue... não dá dó nela ... ninguém dá dó nela. Ela é muito exigente, ela sabe. Ela é muito exigente, ela sabe tudo de todos. E o PAC Alvarenga e os 3 Marias como é projeto lá atrás dela ,então não tem como, ela sabe exatamente o que foi desenhado no projeto e o caminho que a gente tem que seguir. Mais ajuda do que atrapalha, ela é muito exigente, ela cobra muito e ela cobra resultado. Mas é uma cobrança que foi bom. Ela tem as chatices dela, mas foi bom pra mim como profissional, eu aprendi muito. O crescimento que eu tive de 2009 pra cá, profissionalmente falando, tem muito a ver com a forma que a Márcia, a dinâmica que a ela colocou no trabalho das técnicas aqui embaixo e a dinâmica que a Tassia imprimiu na secretaria como um todo, porque hoje a gente conhece o projeto como um todo, desde a engenharia como vai ser, do plano de obras, o plano de ataque, acompanha tudo (...) e isso ajuda muito, porque a gente consegue se conversa. (Entrevista concedida por Sara Bernardes, assistente social – D18).
Tanto a Márcia Gesina como a assistente Flávia já possuíam experiência em urbanização, provenientes do trabalho executado em Santo André na segunda gestão do prefeito Celso Daniel (1997-2002). Além disso, Tássia Regino também possuía experiência pretérita, tendo atuado como consultora de reassentamento, trabalho social e participação comunitária no BID e em outras entidades públicas como, por exemplo, a Companhia Energética do Estado de Pernambuco. Alguns moradores discorreram sobre a forma como ela atuava nas visitas às áreas e sobre a escolha dela como secretária:
A Tássia começou com o projeto na gestão Dib, prefeito Dib, aí o Marinho foi pra prefeitura e o Marinho conservou ela, “você que já ta com a mão na massa, vai continuar com a mão na massa”. A Tássia é uma secretaria muito competente e quis ajudar a população. (Entrevista concedida por Valdomiro Ferreira, morador do Sítio Bom Jesus – H7).
Além da questão da qualidade, outro ponto salientado foi a capacitação existente na secretaria. Nos relatórios constam algumas palestras e oficinas, em que todos da coordenação técnica social participam, entretanto do escopo de 48 volumes de relatório, há a descrição somente de oito palestras/oficinas, o que é justificado pelas entrevistadas por muitos desses cursos serem a distância. Flávia considera que a capacitação é um requisito da forma como é conduzido o trabalho:
O bom é que a Márcia quer ver a inscrição nos cursos e faz toda a diferença. E isso é bom, porque, você vai se deixando levar e nunca faz, porque o trabalho vai te engolindo. E a Márcia escreve e diz pra gente ir. (Entrevista concedida por Flávia Galis, assistente social- C17).
188
Contudo, um dos fatores que impõem limite à condução participativa e ao desenvolvimento do trabalho social é o número de funcionários da equipe própria. A contratação via gerenciadora é vista como algo positivo. Estabelece-se uma parceria, porém o tempo de trabalho da contratada limita-se ao espaço temporal estabelecido em contrato, que muitas vezes não acompanha o período total de intervenção. De acordo com as entrevistadas, algumas ações não puderam ser realizadas ou foram postergadas, devido à equipe ser reduzida e a demanda ser excessiva. Nos relatórios há evidências dessas afirmações: “Neste mês a demanda de trabalho foi deveras intensa, havendo dias em que as atividades perduraram 14 horas - relatório de execução do trabalho social encaminhado à CAIXA – (SÃO BERNARDO DO CAMPO, 2010a, p. 23). Em outros relatórios, no item ‘Aspectos Dificultadores”, há a questão do período de chuvas, que mobiliza as assistentes para trabalhar em áreas de risco, paralisando o trabalho desenvolvido nas áreas dos projetos.