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Mali Tabloların Düzenlenmesi ve Açıklanması

BÖLÜM 2: TÜRKİYE MUHASEBE SİSTEMİ

2.1. Tek Düzen Muhasebe Sistemi

2.1.5. Mali Tabloların Düzenlenmesi ve Açıklanması

As sociedades não urbanas contemporâneas da Amazônia, apesar de grande diversidade, têm em comum uma relativa invisibilidade sociopolítica. É recente o reconhecimento legal da existência de estilos de vida tradicionais, cabendo aos organismos governamentais dedicar atenção necessária às suas necessidades e aspirações. São culturas originárias, autóctones, que efetuam uma agricultura tradicional, supostamente adaptada ao ecossistema, e cuja herança cultural passou a ser considerada valiosa (BARRETO FILHO, 2006).

Viver a cultura amazônica é encontrar-se com a diversidade, com diferentes condições de vida locais, de saberes, de valores, de práticas sociais e educativas, bem como com uma variedade de sujeitos camponeses (ribeirinhos, pescadores, índios, quilombolas, assentados, atingidos por barragens, e outros) e citadinos de diferentes matrizes étnicas e religiosas, em seus diversos modos de vida e interação com a biodiversidade dos ecossistemas aquáticos e terrestres da Amazônia.

Realidades distintas, que não se apresentam como uma verdade a ser conhecida, mas como possibilidades de existir em um ambiente que continuamente se movimenta, e que potencializa maneiras amazônicas de estar no tempo.

O ribeirinho, como que à espreita, está à espera dos acontecimentos, atento aos eventos inesperados. A vida e as pessoas circulam com intensidades e durações que não ocorrem com a mesma velocidade da cidade. Opera movimentando “cabreirismos” e “leseiras-baré”19, e semelhante ao movimento salientado por Alvarez e Passos (2009) descrevendo o habitar em um território existencial, pode-se falar de um desligamento que não se confunde com dispersão da atenção.

Repouso dos movimentos automáticos e espreita aos eventos do acaso, [...] espera atenta, mas não ansiosa, ciente e respeitosa do tempo dos eventos e da necessidade de não atropelá-los (ALVAREZ E PASSOS, 2009, p.145). Harris (2006) destaca que os ribeirinhos estão acostumados a descontinuidades temporais, ambientais e econômicas, movendo-se entre áreas rurais e urbanas, e acomodando- se às condições do mercado, do mesmo modo como se adaptam às pressões ambientais. Povos que são capazes de se reorganizar e se reproduzir nas novas condições engendradas, num movimento que em muito se diferencia da “síndrome do loop20”. Entretanto, ainda que a capacidade de abraçar a mudança em cada nova fase se apresente, sem que isso resulte no fim de seu modo de vida corrente, impactos significativos têm sido produzidos nestas comunidades, principalmente nas que, próximas aos grandes centros urbanos, passam a ser abrangidas ou mesmo subsumidas. Estes novos arranjos sugerem a produção de subjetividades capitalísticas, aprisionadas em devires homogeneizadores.

A comunidade estudada inscreve-se neste cenário heterogêneo, no entrecruzamento rural/urbano, em que os vínculos entre os moradores, os meios de subsistência e a edificação da vida em meio à natureza podem ser considerados como características do modo rural ribeirinho. Todavia, mudanças na comunidade sugerem a desorganização dos estilos tradicionais, que parecem deixar de despertar o interesse principalmente dos mais jovens, evidenciando uma estratégia de domesticação destes estilos pelo habitus da modernidade.

19 Remetemos a estilos descritos por Márcio Souza, 1994.

20 O historiador Sevcenko compara ao loop da montanha russa, o dinamismo, a instabilidade e as qualidades

fugidias de uma estética pós-moderna, induzidas pela capacidade técnica de produção, pela proliferação das mercadorias e pela fragmentação crescente do mercado. O loop é o clímax da aceleração precipitada, “sob cuja intensidade estrema relaxamos nosso impulso de reagir, entregando os pontos entorpecidos, aceitando resignadamente ser conduzidos até o fim pelo maquinismo titânico” (2001, p.16).

A tradição oral anteriormente valorizada na transmissão de conhecimentos tende a ser desconsiderada. São poucos os momentos dedicados à cultura da conversa, oralidade dos mais antigos, que se utilizam dos espaços comunitários e religiosos para a transmissão dos saberes, dos valores e da tradição social. Não há mais interesse em manter as atividades agrícolas ou pesqueiras, emergindo como “opção” o trabalho urbano-industrial. Os conhecimentos aprendidos na prática e transmitidos por procedimentos de observação e repetição estão desvalorizados, creditando à escolarização a possibilidade de qualificação profissional.

O saber movimentar-se na sociedade urbana tem sido cada vez mais considerado, e a escola se coloca como espaço mediador, um dispositivo eficaz para assimilação de valores citadinos. A comunidade, antes espaço de socialização e aprendizado, tem cedido sua vez à escola, que assume a educação, alimentação, acompanhamento e saúde.

Os pais não se consideram mais responsáveis pela aprendizagem profissional, pois entendem que seus ensinamentos não dão conta de uma nova realidade. Mas, se por um lado esperam que a escola possa transmitir aos seus filhos a formação necessária para esta inserção, por outro, sabem que as oportunidades educacionais presentes no cotidiano dos alunos que habitam o meio rural não lhes conferem o suporte necessário a “bons empregos”. Em função da baixa escolaridade passam a compor quadros de menor remuneração, submetendo-se à exploração.

O formato de loteamento e a separação entre este e uma área considerada privilegiada é outro indicador de mudanças que conferem ao espaço as estratégias mercadológicas; são espaços que se diferenciam dos tradicionais formatos ribeirinhos e que, representados de forma negativa ou como ambiente desfavorecido, ganham a dimensão de periferias urbanas. Com ele, configuram-se novas redes de relações e de poder que autorizam uns, mais do que outros.

O tempo e o ritmo, anteriormente marcados pelo regime das águas, precisam concorrer com novos regimes de temporalidade, homogêneos, que impõem a produção de novas subjetividades, e que, conforme Grisci (2001), somente se instauram a partir de um significativo controle disciplinar. Temporalidades que também contribuem para a emergência de um modelo potencializador de formas mais sofisticadas de acumulação, condizentes com o sistema capitalista de produção de mercadorias. Cidadania, democracia, e outros vinténs urbanos, tornam-se forçosamente conseqüências do ato de consumir individualmente.

Conforme Coimbra e Leitão (2003), o sistema capitalista produz diferentes dispositivos, instituindo e naturalizando territórios bem definidos. Um deles, o do saber- poder, identificado como lugar da competência, do conhecimento/reconhecimento, da

verdade, dos modelos, da autoridade, do discernimento, da legitimidade e adequação de certos modos de ser. E outro, o do não saber, o da falta, caracterizado como território da exclusão, desqualificado, e até mesmo, como o que necessita ser acompanhado, tutelado e controlado. Enuncia formas de dominação que não se manifestam de modo simples e transparente, mas que imprimem nas e pelas subjetividades, formas de pensar, perceber, sentir e agir.

Citando Guattari e Rolnik (1986), a ordem capitalística produz os modos das relações humanas até em suas representações inconscientes: os modos como se trabalha, como se é ensinado, como se fala, etc.; fabrica a relação com a natureza, com os fatos, com o corpo, com a alimentação. Ainda conforme estes autores

[...] todos os que buscam produzir uma existência singular à normalidade vigente, geralmente assistem atônitos ao desmanchamento de seus modos de vida. Passam então a se organizar segundo padrões universais, que os serializam e os individualizam. Esvazia-se o caráter processual de suas existências; pouco a pouco eles vão se insensibilizando. A experiência deixa de funcionar como referencia para a criação de modos de organização do cotidiano: interrompem-se processos de singularização. É, portanto, num só movimento que nascem os indivíduos e morrem os potenciais de singularização (GUATTARI; ROLNIK, 1986, p. 38).

Universalizam-se desejos, ações e agenciamentos, esvazia-se a vida, diminui-se a potência e determina-se apenas uma única possibilidade de existência. É o mundo da representação, de existências sem cheiro e sem sabor. Sujeitos padronizados, cristalizados, que consomem produtos industrializados em série, e que praticam um serializado esforço cotidiano para continuar vivendo em série.

Os povos tradicionais têm um inegável reconhecimento e compromisso com a adoção de ações que cooperem para a conservação do ambiente natural, pois é o espaço de satisfação das necessidades básicas, espaço de lazer, de produção material, da memória e das tradições, enfim, fonte de vida. Este reconhecimento persiste atravessado por diferentes agenciamentos, em meio a novos modos de subjetivação e mesmo em face aos impactos que o próprio poder público conduz: impactos decorrentes da implantação de um assentamento com cerca de 300 novas famílias, removidas de ocupações urbanas, sem o acompanhamento mínimo de infraestrutura, para uma localidade no mesmo bairro, que possuía, à época, 180 famílias; obras de canalização de esgotos e de água servida em uma escola municipal que conduzem os dejetos, sem nenhum tratamento, diretamente para o curso d’água; obras que iniciam o que o poder público denomina processo de urbanização. Processo inconcluso e indefinível, estabelecido em planos que não envolvem a população local, e o deveriam, não só pelo grande

conhecimento que possuem dos recursos naturais e de seus ciclos de reprodução, como também porque ali é o território de seu habitar.

A produção de subjetividades capitalísticas lança desafios. A atualidade aciona uma crise ecológica, e a relação da subjetividade com sua exterioridade encontra-se comprometida, segundo Guattari (2006), com um movimento geral de implosão, em que os desequilíbrios ecológicos são engendrados pelas intensas mutações técnico-científicas e pelo contínuo desenvolvimento do trabalho maquínico, que é redobrado na produção informática.

Esta crise repercute sobre as formas tradicionais de relacionamento e de uso dos recursos naturais, que parecem conduzir-se cada vez mais por uma lógica empresarial homogeneizadora. Associada à anuência e omissão do poder público, que não oferece os serviços básicos para o bem-estar social, intensifica-se a pressão sobre os recursos hídricos, favorecendo a exploração comercial.

Enunciações ecológicas passam a figurar em diferentes falas revestidas de sustentabilidade, mesmo que este termo não represente a mesma coisa para os distintos discursos. Todavia, apesar de se evidenciar uma consciência parcial dos perigos eminentes, as formações políticas e as instâncias executivas parecem totalmente incapazes de apreender essa problemática no conjunto de suas implicações; e este híbrido e insustentável discurso da sustentabilidade, ao privilegiar o “uso contínuo dos recursos naturais em bases ecológicas”, minimiza/desqualifica o acúmulo dos saberes tradicionais, expandindo lentamente a pressão sobre o ambiente.

Os moradores sentem-se distantes dos centros de poder, expostos aos caprichos de

forasteiros e de decisões que nunca são tomadas em seu benefício. A seu modo, reivindicam o

direito à diferença, experimentando tensões entre segmentaridades rígidas e linhas de escape. Há, segundo Harris (2006), um mérito entre eles, que consiste na capacidade de negociar com sucesso as condições do presente (“que sempre se ajeita”) na busca constante por melhores condições de vida. Constatou-se que as lutas por infraestrutura na comunidade decorreram de processos de mobilização, e a própria construção da escola deve-se à luta dos moradores, em particular após a criação da associação comunitária, numa ação insistente, penosa e paciente, junto às instancias do poder público local. Estas ações precisam ser potencializadas a fim de favorecer os escapes, multiplicar os acontecimentos, criando formas de existência a favor do processo vital. Nas palavras de Rolnik (1995), trata-se de ouvir as linhas de virtualidade que se anunciam e se perguntar: que agenciamentos são passíveis de trazê-los à existência, e relançar um processo.

Benzer Belgeler