A- MALİ BİLGİLER
3. Mali Denetim Sonuçları
Conforme foi explanado no capítulo anterior, o cenário de precarização laboral contribuiu para o alargamento de formas atípicas de inserção laboral, constituindo o que estamos chamando de trabalhos marginais. De acordo com o que já foi discutido, os trabalhadores marginais vivenciam suas experiências, em geral, à margem de um processo de identificação e de reconhecimento de cidadania.
Logo, diante das várias atividades de trabalho marginalizadas, a opção por discutir o tráfico de drogas ocorreu pelo fato de que o tráfico, a partir da visão apresentada na atual pesquisa, tem sido vivenciado como possibilidade de inserção na sociedade atual, pelo menos no tocante ao consumo. Podemos dizer que a inserção mediada pelo consumo passa a rivalizar com a inserção predominantemente centrada no trabalho, que, em seus casos, caracteriza-se como um critério de marginalidade.
Com a finalidade de fundamentar melhor essa discussão, acreditamos ser interessante trazer algumas reflexões sobre a constituição da lógica do consumo no interior das transformações do capitalismo e como esta teve impacto na concepção e organização do trabalho. Tomaremos como referência as considerações sobre a sociedade de consumo de Baudrillard (1970), Bauman (2000) e Severiano (2001).
O sujeito contemporâneo, ao olhar para dentro de si, normalmente depara- se com um vazio. Devido a isso, parece ficar em uma eterna busca da felicidade, a fim de preencher o que lhe falta. No entanto, Baudrillard (1970) nos fala da necessidade de ‘provas’ de uma felicidade mensurável, que constitui a referência absoluta da sociedade de consumo.
De acordo com Severiano (2001, p.61-62), “a ética protestante teve importância decisiva nas condições culturais e ideológicas que possibilitaram o desenvolvimento do capitalismo nascente”.Havia a crença numa produção incessante, conduzindo ao êxito nos negócios, que deveria ser dissociada do gozo e do consumo gerado pelo pagamento recebido. Consumia-se somente o necessário.
A crise da produção do capitalismo, já discutida no capítulo anterior, veio a ocasionar a inversão da máxima da ética protestante para uma máxima do consumo, contribuindo para aumentar a acumulação de capital.
(...) a complexificação das relações econômicas, nas sociedades capitalistas avançadas, veio a ocasionar a inversão de uma máxima da ética protestante, responsável, então, pelo impulsionamento do sistema capitalista: não consumir, ou consumir somente aquilo que é absolutamente necessário para a sobrevivência e para uma vida
sóbria. A atual máxima da ‘sociedade de consumo’ inverte-se: consumir sempre para muito além do ‘necessário’. Entretanto, isso hoje não obstaculiza o desenvolvimento do capitalismo. Pelo contrário, é seu principal propulsor (SEVERIANO, 2001, p. 64).
A sobrevivência do sistema capitalista passou a depender da expansão do consumo, que acaba sendo alcançado através da criação de um novo modelo “hedonista”, desprovido da moral e dos valores éticos e de restrição de liberdade. Os valores dessa “ética do consumo” passam a ser fundamentados na liberdade, na auto- realização e na felicidade do ato de consumir, ou seja, no princípio do prazer.
Segundo a autora, na sociedade de consumo, a referência não se encontra mais nos valores de sua classe social, mas sim, nos estilos de consumo. Consome-se independente do valor de uso, tanto bens de luxo como bens mais elementares, mesmo quando não se necessita ou não se pode comprar, alimentando, com isso, o desejo de status e prestígio. Observa-se então uma mudança de atitude relacionada ao consumo, que recai sobre a ótica do desejo, logo, sobre os processos de subjetivação.
A fim de garantir o consumo a qualquer custo, essa nova fase do capitalismo passou a gerar estratégias para construir um novo sistema de necessidades dos sujeitos, trazendo o desejo de consumir além do necessário nas classes trabalhadoras. É interessante observar que esse novo sistema de necessidades tinha o objetivo de atender não as necessidades individuais, mas as necessidades do mercado (SEVERIANO, 2001).
Sobre a sociedade de consumo e sobre a criação de um sistema de necessidades, ou ainda de sujeitos produzidos pelo sistema, Baudrillard (1970) traz uma boa fundamentação teórica com sua discussão.
O autor fala sobre um sistema de necessidades enquanto produto do sistema de produção, aparecendo como força, como disponibilidade global. Segundo ele (1970, p. 75), as necessidades não aparecem de maneira isolada, existindo apenas um sistema de necessidades, “ou antes, que as necessidades não passam da ‘forma mais avançada da sistematização racional das forças produtivas ao nível individual’, em que o consumo constitui a seqüência lógica e necessária da produção”.
Nesse sentido, a ordem da produção prepara-se para fazer surgir e satisfazer somente as necessidades que lhe são adequadas, tomando as necessidades individuais como um álibi.
Seguindo esta lógica, na ordem do crescimento não há nem pode haver necessidades autônomas; ‘há unicamente as necessidades do crescimento’. No sistema, não há lugar para as finalidades
individuais, mas só para as finalidades do sistema (BAUDRILLARD, 1970, p. 65).
Na sociedade de consumo, as necessidades aparecem já bem especificadas em relação a objetos finitos, já existentes no mercado, ou seja, já se encontram finalizadas nos bens disponíveis. As preferências dos sujeitos já são orientadas para os produtos oferecidos no mercado, o que Baudrillard (1970) chama de escolha da conformidade.
Em concordância com o autor, Severiano (2001) nos traz que as necessidades dos sujeitos acabam tornando-se abstratas, sendo previamente especificadas em objetos e produtos a serem consumidos. Seguindo esse raciocínio, as pessoas passam a se reconhecer somente por meio de suas mercadorias, acreditando poder suprir suas carências e desejos através da posse de bens de consumo.
Baudrillard (1970) nos traz, ainda, que esses fatores relatados acima acabam contribuindo para a criação de uma visão simplista do homem, pois as necessidades empíricas não passam de reflexos dos objetos empíricos e “(...) a psique do consumidor reduz-se a simples vitrina ou catálogo” (Op. Cit., p. 74).
Seguindo essa discussão, o autor nos fala que dentro da lógica do consumo, as diferenciações personalizantes entre os sujeitos se dão a partir da imitação de modelos gerais. Tais diferenças não opõem os sujeitos, não havendo espaço para a originalidade ou espontaneidade, pois diferenciar-se é adotar determinados modelos já criados, renunciando-se então toda a singularidade, todas as diferenças reais.
Desse modo, para Baudrillard (1970), a lógica social do consumo é a lógica da produção e da manipulação dos significantes sociais, de um sistema de signos que constituem modelos a serem seguidos que, por sua vez, passam a ser signos referenciáveis. O valor, a valorização, não se dá por qualidades naturais, mas por adesão a determinado modelo construído.
Diante do exposto, é notável a importância ou ainda o domínio exercido pela atual lógica do consumo, que afeta concretamente e decisivamente os processos de construção dos sujeitos e sua relação com o trabalho. Logo, trazendo essa discussão para o recorte de análise da estruturação dos modos de trabalhar atuais, seguimos as idéias de Garrido (2006) e Bauman (2000).
Garrido (2006) afirma que durante a sociedade industrial, o trabalho assalariado era uma categoria de valor final, ou seja, a sensação de dever cumprido era a principal fonte de gratificação, era o principal objetivo dos trabalhadores;
fenômeno denominado ética protestante do trabalho.
Nesse sentido, Garrido (2006) afirma que com o trânsito da sociedade industrial, centrada na produção, para a sociedade pós-industrial, com forte ênfase no consumo, houve uma mudança de significados atribuídos ao trabalho em função do tipo de sociedade. A primeira apoiava-se em indivíduos produtores, movidos pelo princípio do dever e pela postergação da satisfação dos desejos. A segunda, por sua vez, apóia-se em indivíduos consumidores, guiados pelo princípio do prazer e pela busca de satisfações imediatas.
Em relação a esse aspecto, Bauman (2000) nos traz a discussão da mudança da ética do trabalho para a estética do consumo, afirmando que, quando os critérios éticos são substituídos por padrões estéticos, as coisas, incluindo o trabalho, deixam de ter valor próprio, passando a ser valoradas em função das gratificações imediatas que produzem. Logo, a sensação de dever cumprido (pilar da ética do trabalho) deixa de ser uma satisfação direta e o trabalho passa a ser somente um instrumento de ascender ao consumo, deixando de ser visto como realização pessoal, como vocação ou ainda como fonte de identidade.
Diante disso, é possível verificar a sensação de valorização e de reconhecimento social em ocupações que se constroem exatamente à margem dessas sensações e que são marcadas pela falta de uma posição social. Isso porque não há a identificação com o que se faz (com a atividade realizada), a qual deixa de ser o fim, mas sim com o que o trabalho permite alcançar, o qual passa a ser somente um meio de acesso ao consumo.
A partir daí, podemos observar que, apesar de o tráfico ser uma atividade extremamente marginalizada e estigmatizada (e até mesmo ilícita), é a partir dela que esses sujeitos tentam fazer parte de uma estrutura societária, ou seja, a busca de inserção e expressão no modelo social vigente (que é o do consumo) contribui para essa inserção laboral marginal. No entanto, essa inserção parece acontecer em nível do consumo por um lado, mas permanece limitada a algumas esferas de suas vidas.
Seguindo essa idéia, podemos afirmar que tal ocupação possibilita (devido ao valor ganho) o acesso ao consumo, para além de um reconhecimento social, o que não seria possível adquirir através do mercado formal, diante da restrição de oportunidades que este oferece. É essa premissa que embasa a presente pesquisa.
Desse modo, a partir do que já foi colocado, pretendemos discorrer, a seguir, sobre a categoria do tráfico de drogas. No entanto, é importante ressaltar que não é objetivo desta pesquisa discutir o tráfico de drogas como fenômeno social amplo, mas somente a partir do recorte de possíveis inserções no mundo do trabalho.
4. TRÁFICO DE DROGAS: COMPREENDENDO ESSA FORMA DE INSERÇÃO