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B- P ERFORMANS BİLGİLERİ

1. Faaliyet ve Proje Bilgileri

Encontrar uma explicação para o atual “fenômeno do uso de drogas” é uma tarefa difícil, mesmo porque ele vem sendo objeto de estudos e críticas de diversos campos dos saberes acadêmico e popular. O uso de drogas ou substâncias psicoativas, termos que serão utilizados, ao longo deste estudo, como sinônimos, é

algo inerente à própria história da humanidade. Conforme faz-nos referência o toxicologista francês Louis Lewin (apud Baptista, 2003, p. 25) “À exceção dos alimentos, não existem sobre a terra substâncias que tenham estado tão intimamente ligadas à vida dos povos, em todos os países e em todos os tempos, como as substâncias que modificam a percepção humana”. No entanto, essa questão é tratada com muito receio ou até mesmo com um certo temor.

As substâncias psicoativas são consideradas atualmente um verdadeiro perigo à estrutura da sociedade, concentrando grandes esforços que objetivam sua total erradicação (SEIBEL; TOSCANO Jr., 2000). Observamos, desde a segunda metade do século passado, uma guerra contra as drogas, na qual estas são consideradas como dotadas de uma personalidade mágica, a priori, fato que acaba por desconsiderar o papel fundamental do homem nessa relação.

Segundo MacRae (2000), existe uma tendência geral em se analisar o fenômeno do uso de drogas, apesar de toda sua complexidade e abrangência, somente a partir de uma visão farmacológica de seus efeitos, deixando de lado os aspectos biopsicossociais dos sujeitos.

Ao pensarmos em um estudo sobre o uso de psicoativos, é necessário levar em consideração, além dos aspectos farmacológicos relacionados aos efeitos no organismo, o próprio sujeito que usa e o contexto sociocultural em que ocorre esse uso (MACRAE, 2000).

Antes de iniciar o relato histórico do “mundo das drogas”, terminologia utilizada por Gilberto Velho (1999), acreditamos ser interessante trazer a concepção, do referido autor, da heterogeneidade da questão do uso de drogas. Segundo Velho (2000, p. 24), “trata-se de uma noção muito ampla, a partir da qual precisamos estabelecer distinções e particularidades”.

Desse modo, para a realização de um estudo coerente da questão, é preciso situá-la historicamente, levando-se em consideração as crenças, valores, estilos de vida e visões de mundo que perpassaram seu contexto histórico, visto que as mesmas drogas podem apresentar padrões de consumo variáveis e diferenciados, dependendo do contexto cultural.

A partir desse ponto de vista, em concordância com as opiniões de MacRae (2000) e Toscano Jr. (2000), o efeito puramente biológico da droga divide sua importância com os aspectos psicossocias de seu consumo, além da experiência e interpretação do próprio indivíduo que faz uso. Esse percurso é interessante porque traz contribuições para compreender a cooptação do comércio de drogas pelo modelo capitalista.

As substâncias psicoativas estão longe de possuir uma natureza genérica, assumindo diferentes significados, os quais variam de acordo com diferentes épocas e culturas (MACRAE, 2000). É a partir desses autores que será embasado o histórico das drogas neste capítulo.

Conforme já foi mencionado anteriormente, a história geral da humanidade sempre foi marcada pela história particular das drogas, tendo esta influenciado na evolução da medicina, da religião, da economia e dos mecanismos políticos (ESCOHOTADO, 2000).

Os usos de substâncias psicoativas remontam a pré-história, a partir da utilização de algumas plantas ou substâncias de origem animal, que tinham o poder de alterar a consciência, para finalidades específicas. Toscano Jr. (2000) nos diz que as drogas de uso mais remoto são as plantas alucinógenas, que eram consideradas substâncias divinas, visionárias, as quais aproximavam de Deus quem as usava. De fato, um dos primeiros significados remetido a essas substâncias era com relação ao seu caráter sagrado (TOSCANO Jr., 2000; MACRAE, 2000).

As drogas alucinógenas eram amplamente utilizadas, e ainda o são até hoje em algumas culturas, em cerimônias religiosas e rituais de passagem, com o objetivo de alimentar o espírito, aproximando-o da divindade. Em algumas sociedades, essas substâncias eram tão sagradas que passaram a ser associadas a alguns deuses da mitologia, como é o caso do deus Dionísio, associado ao vinho, do Indra, deus associado a uma bebida proveniente da Índia chamada soma, e do Sabazios, nome divino que se dava à alienação produzida pela cerveja entre os celtas (ARRUDA, 2003).

Além do uso religioso, as drogas também eram amplamente utilizadas com fins medicinais ou mesmo lúdicos. A Grécia antiga foi pioneira em apresentar a doença e a cura como processos naturais, relativizando a ação das drogas. A mesma substância poderia ser ao mesmo tempo remédio ou veneno, dependendo da dose (o desafio principal era encontrar a proporção entre a dose ativa e a dose letal). A visão romana sobre as drogas teve grande influência grega, de modo que trataremos, neste estudo, do mundo greco-romano (TOSCANO Jr., 2000; MACRAE, 2000).

Com relação aos tipos de drogas consumidas por essas sociedades, verificava-se o uso de uma grande variedade de substâncias. As flores do cânhamo eram muito empregadas em reuniões sociais para “incitar a hilariedade e o desfrute” (ESCOHOTADO, 2000). O ópio era utilizado com fins medicinais contra diversos males e o álcool era a única substância psicoativa que era vista com certas restrições, no entanto, o próprio Hipócrates aconselhava sua ingestão de vez em quando com objetivos terapêuticos de relaxamento.

No mundo islâmico, as drogas também eram amplamente utilizadas para diversos fins. Entretanto, segundo Toscano Jr. (2000), os islâmicos não proporcionavam caráter sagrado a qualquer droga, como também não apontavam drogas profanas, com exceção da restrição do álcool por Maomé. A medicina islâmica empregava largamente o ópio, o qual também era muito usado como euforizante em rituais de passagem.

O autor nos remete ainda ao fato de que os médicos árabes eram considerados hábeis prescritores de psicofármacos, cujas habilidades e conhecimentos influenciaram o mundo ocidental, principalmente após as cruzadas à Terra Santa. Outras substâncias psicotrópicas utilizadas pelos islâmicos eram o cânhamo, com fins medicinais e lúdicos, e o café, com o objetivo de evitar o cansaço ao ler as sagradas escrituras. Esse produto, após a permissão de abertura dos cafés públicos, passou a ser considerado um grande orgulho árabe, sendo muito apreciada a sua combinação com o ópio. Com o declínio do poderio islâmico, os usuários de algumas substâncias psicoativas passaram a ser punidos (MACRAE, 2000).

Além da grande influência árabe, o velho mundo ocidental adquiriu vastos conhecimentos sobre novas variedades de usos e de substâncias a partir do período das navegações. O Novo Mundo se mostrou uma fonte inesgotável de novidades psicotrópicas. Dentre estas, destacam-se as drogas alucinógenas, como alguns tipos de cogumelos com usos ritualísticos e uma grande quantidade de estimulantes: o mate, o cacau, o guaraná e o tabaco, este último foi introduzido na Itália, através do clero, chegando a abençoá-lo com o nome de “erva de Santa Cruz” (TOSCANO Jr., 2000, p.14).

Com o advento do Cristianismo, os discursos se impregnaram de uma moral cristã, que passou a perseguir e proibir os praticantes de cultos tidos como rivais, já que ameaçavam a supremacia e o poder cristão. Desse modo, as drogas, altamente associadas a esses cultos religiosos, passaram a ser estigmatizadas e vistas como diabólicas e sinônimo de feitiçaria. Além disso, seus usos terapêuticos objetivavam o alívio de sofrimento, o que ia de encontro com os princípios cristãos, já que a dor era vista como uma forma de redimir-se dos pecados e aproximar-se de Deus. O emprego de drogas terapêuticas passou a ser condenado pela Inquisição, sob pena de torturas e morte, tornando-se sinônimo de heresia (MACRAE, 2000).

No entanto, Toscano Jr. (2000) nos chama a atenção para o fato de que, apesar de toda essa proibição aos vários tipos de drogas, o vinho é um elemento de grande importância para os cristãos pois simboliza o sangue de Cristo. Outro paradoxo provém do presente oferecido a Jesus por um dos reis magos, a mirra, a qual é uma substância psicotrópica. Esse fato demonstra que a proibição do uso de drogas, até

hoje, é uma questão muito mais de interesses políticos do que de qualquer outra ordem.

Na era do racionalismo, a associação das drogas a aspectos religiosos foi deixada mais de lado. Os usos medicinais e lúdicos acentuaram-se profundamente e iniciou-se uma busca pelo conhecimento do sistema nervoso através dos efeitos decorrentes das drogas.

A partir desse momento histórico, um grande número de médicos, muitos inclusive tornaram-se famosos a partir das descobertas em conseqüência desse uso, passaram a consumir e a administrar alguns tipos de drogas com o objetivo de embarcar em aventuras interiores, desvios de consciência, transformação dos sentidos e pensamentos e inspiração da criatividade, além do objetivo terapêutico de facilitar o vínculo terapêuta-cliente. Com os avanços da medicina, os cientistas foram conseguindo isolar os princípios ativos de várias substâncias, o que aumentou o potencial de ação destas.

Nesse período, acentuou-se também a produção e comércio dessas substâncias. Dentre estas, destacamos o ópio, que era amplamente comercializado, e utilizado para tratar diferentes sintomas como insônia e distúrbios gastrointestinais, tornando-se uma das principais mercadorias de exportação e geradora de grandes lucros às bolsas de valores. O comércio do ópio era tão lucrativo que, mesmo após sua proibição, os países produtores ignoraram esse fato e continuaram com o comércio ilegal. Essa proibição se deu devido às descobertas dos potenciais geradores de dependência das drogas psicoativas.

A partir de toda essa evolução, surge a concepção de adição como doença. Os usuários passam a ser vistos como doentes e incapazes de tomar alguma atitude frente aos problemas causados pelo uso de drogas.

Desse modo, a partir da constatação do consumo como doença, e não mais como pecado (esta última disseminada, em grande parte, pelo Cristianismo), verificamos o surgimento das terapias para adição. É a partir daí que surge o conceito de alcoolismo, os grupos de ajuda mútua, como os Alcoólicos Anônimos – AA. Toscano Jr. (2000, p. 20) nos traz uma explicitação dessas terapêuticas para o controle da adição, ao afirmar que

O propósito do tratamento, dentro destas concepções, seria o de romper o hábito através da distração, atividades alternativas, elogios e persuasão. O paciente estaria preso a um dilema motivacional e o terapeuta precisaria trabalhar este conflito com paciência e habilidade. Sendo assim, ouvir e falar eram componentes vitais de um tratamento que enfatizava o relacionamento médico-paciente.

No entanto, algumas campanhas populares, de cunho religioso, que afirmavam ter o objetivo de controlar o uso indevido de drogas, na realidade tinham como finalidade interesses puramente políticos de estigmatizar alguns grupos imigrantes minoritários que eram associados ao uso de substâncias psicoativas, como é o caso dos chineses, considerados grandes consumidores de ópio, ou os irlandeses, relacionados ao consumo de bebidas alcoólicas (MACRAE, 2000). Acreditamos ser esse um dos motivos, dentre outros, que justifica o grande estereótipo que envolve o “mundo das drogas”.

O autor afirma ainda que, devido ao movimento de institucionalização da medicina científica, os médicos passaram a querer concentrar o poder de atuação clínica e, conseqüentemente, o da prescrição de medicamentos. Desse modo, começou a se configurar uma disputa entre as diferentes categorias de profissionais ditos “da saúde” (científicos) e os profissionais do saber popular (herboristas), visando a uma demarcação de território de atuação.

No entanto, em relação a esse aspecto, achamos interessante trazer o pensamento já explicitado de Foucault (2005), de que os saberes são produzidos a partir de regimes de verdade, que são produzidos nas práticas socias. O autor defende a desnaturalização de certos domínios de saber, visto que são formas de garantir poder. Logo, o saber médico constitui-se como um modelo de verdade, ligado a estruturas políticas, que constroem os sujeitos de conhecimento, caracterizando-se como um espaço de dominação.

A disputa também se estendeu sobre quem poderia produzir as drogas, pois essas substâncias possuíam um alto valor comercial, ficando, por conta desse fato, somente a cargo dos profissionais científicos a permissão desse comércio.

Diante disso, atualmente, em paralelo com as concepções de doença e de saúde pública, verifica-se uma compreensão jurídica do uso de drogas (MACRAE, 2000). A legislação que compete caráter proibitório à maioria das substâncias psicoativas acaba por favorecer ainda mais a marginalização e criminalização associadas ao emprego de drogas.

Além disso, essa legislação, que será discutida a seguir, dispõe de uma visão parcial e limitada do fenômeno da droga, visto que a classificação é estritamente farmacológica e isolada, desconsiderando fatores sociais, culturais e pessoais.

A fim de se obter uma análise coerente sobre fenômeno das drogas, é necessário levar em consideração o tripé: aspectos farmacológicos, estado psíquico de quem usa e o contexto sociocultural do uso. No entanto, como o presente trabalho é apenas o estudo de um viéis da questão, trataremos aqui somente da análise do contexto sociocultural de uso dessas substâncias.

Nesse sentido, observamos que esse uso assume diferentes contextos, dependendo da época, do local e da cultura em que está inserido. Antes de se pensar concepções descontextualizadas sobre o uso de drogas, é necessário procurar compreender esse fenômeno dentro da sociedade contemporânea em que vivemos, a qual é profundamente marcada por questões inerentes a esse período.

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Benzer Belgeler