B- P ERFORMANS BİLGİLERİ
2. Diğer Faaliyetler
Diante do que já foi discutido até agora, constatamos que o consumo de substâncias psicoativas, no decorrer de nossa história, vêm sendo influenciados pelos diferentes contextos históricos.
Entretanto, não podemos negar que, juntamente com o processo de estigmatização das drogas, verificamos um aumento na quantidade desse uso, que passou a não ser mais associada a um ritual ou seita religiosa. Observamos uma busca cada vez maior pelos efeitos decorrentes dessas substâncias, o que proporciona um número crescente de dependentes químicos.
Antes de serem adotadas medidas repressivas e generalistas, que acabam por agravar a situação, é necessário refletir sobre esta, levando em consideração as mudanças características do período “pós-moderno” em que nos encontramos. Podemos dizer, de acordo com a concepção tão bem explicitada por Freud, que o uso de substâncias psicoativas “proporcionou ao sujeito moderno um amparo frente ao mal-estar inerente à civilização” (GONÇALVES; DELGADO; GARCIA, 2003, p. 120).
Diante das mudanças históricas e culturais relacionadas ao comportamento perante as drogas, Mourão (2003); Velho (1999) e Gonçalves, Delgado e Garcia (2003) destacam uma transformação brusca da configuração desse consumo ocorrida a partir das décadas de 60/70 do século passado. Esse período foi marcado pela dominância de um certo tipo de discurso, associado aos movimentos de contracultura, que enfatizava uma rejeição do modo de vida convencional, em que os valores tradicionais eram duramente criticados, em detrimento de um projeto de sistema de vida alternativo.
Logo, os movimentos de contracultura ressaltavam a liberdade individual, uma volta ao natural e uma forma de convivência baseada em uma sociedade igualitária, na qual se acreditava que os aspectos afetivos superariam os demais. Questionavam-se, então, o modelo repressor característico da sociedade brasileira, extremamente marcada pelo militarismo e por uma jornada de trabalho alienante.
É dentro dessa ideologia, então, que se desenvolve um modo específico de utilização das drogas por jovens, artistas e intelectuais que buscavam a expansão de novas vias de acesso à consciência. Mourão (2003, p.109) nos diz que “as drogas – as alucinógenas especialmente – representavam a via privilegiada de acesso a ‘novos universos’” .
Esse desejo de expansão dos ‘novos horizontes’ (compartilhado coletivamente por um grupo com os mesmos ideais) passou a ser associado, segundo a autora, a uma demanda de transformação da sociedade vigente, na qual as substâncias psicoativas passaram a representar uma via de acesso a um novo mundo (a ser construído). Nesse sentido, o consumo de drogas passou a assumir um caráter revolucionário, tornando-se, assim, um forte símbolo de contestação dos valores tradicionais (GONÇALVES; DELGADO, GARCIA, 2003). Dessa maneira, durante esse período, as drogas ocuparam um papel essencial na procura por uma melhor qualidade de vida, a partir de uma ‘libertação do eu’ (MOURÃO, 1999, 2003).
Gonçalves, Delgado e Garcia (2003) nos falam ainda que, no final dos anos de 1970 e início dos anos de 1980, houve uma desarticulação dos movimentos de contracultura, o que, juntamente com o advento da criminalização, atribuiu um diferente valor de uso às drogas. Esse consumo deixou de ser associado a um ideal que unia os indivíduos, e que era representado coletivamente, passando a assumir um valor e significado específico para cada um.
A geração contracultural da década de 1960, pareceu comprar, como nenhuma outra, o ‘sonho da droga’ com a finalidade de escapar de uma sociedade repressora, em busca da liberdade, mas acabou se deixando capturar novamente por uma nova ideologia totalitária, pertencente à lógica do consumo (MOURÃO, 2003).
Desse modo, a droga entra na cultura do consumo como um meio privilegiado de suportar o mal-estar característico da contemporaneidade, trazendo “uma possibilidade de alívio da angústia de existir” (GONÇALVES; DELGADO; GARCIA, 2003, p.125).
Arruda (2003) nos traz uma contribuição para melhor compreender esse mal-estar ao afirmar que o período contemporâneo é caracterizado pelo ‘final dos grandes projetos’, em que observamos um desmoronamento das grandes certezas ideológicas (predominantes na maior parte do século XX) que explicavam a realidade humana, chegando, assim, à época em que não há mais ‘salvação’. As teorias universalizantes são ultrapassadas por uma fragmentação de categorias teóricas e uma dispersão de saberes, que passam a ser regidos pela lógica capitalista.
Nessa linha de pensamento, Baptista (2003) vai mais a fundo, trazendo a discussão de que a contemporaneidade é marcada por um estado permanente de
crise e de morte dos ideais, em que há um movimento de retirar-se dessa crise a possibilidade de um futuro fora dela. Assim, segundo o autor, o que predomina é a promoção do prazer do aqui e agora, proporcionando o evitamento da dor e do ‘vazio de sentido contemporâneo’.
É exatamente dentro desse quadro, onde não há mais razões absolutas e universais, que asseguravam aos homens uma explicação satisfatória do mundo, que se encontra o sujeito contemporâneo (ARRUDA, 2003). Esse sujeito é marcado profundamente por um desamparo, gerador de angústia e de uma falta de sentido, que passa a ser visto como condição original própria. Seu cotidiano encontra-se imerso na cultura capitalista, a qual é movida pelas leis de um consumo exacerbado. Na contemporânea sociedade de consumo, os indivíduos são movidos pela ilusão da promessa de saciar suas necessidades, pessoais e sociais, a partir da aquisição de mercadorias e objetos: “para ser feliz é necessário ter” (GONÇALVES; DELGADO; GARCIA, 2003, p. 119).
Nesse sentido, esses autores consideram a droga como o objeto por excelência da sociedade de consumo, visto que não há melhor consumidor que aquele dependente da mercadoria. Segundo eles, as substâncias psicoativas estão entre os mais bem sucedidos objetos que são oferecidos pela sociedade de consumo, pois adquirem valor absoluto e insubstituível para aqueles que se encontram em situação de dependência.
Desse modo, diante do que fora supracitado, levantamos a hipótese de que o grande aumento dos índices de consumo de drogas (e do consumo de outros objetos também), assim como a sua aparente falta de significação de uso, pode ser considerado como um meio de superação e/ou preenchimento desse vazio de sentido “pós-moderno”. Acreditamos que a dependência química, da mesma forma que outros ‘sintomas’ contemporâneos conseqüentes da sociedade capitalista e de consumo, deve ser pensada e analisada a partir de sua compreensão enquanto sintoma social.