O empreendedor tradicional é aquele que em sua atividade busca a maximização dos lucros. Os termos empreendedorismo social (social entrepreneurship) e empreendedor social (social entrepreneur) referem-se, respectivamente, aos que reconhecem a existência dos problemas sociais e tentam utilizar ferramentas empreendedoras para resolvê-los. Diferem do empreendedorismo e do empreendedor tradicional, pois se referem aos que tentam maximizar retornos sociais.
O empreendedor social visa à maximização do capital social (relações de confiança e respeito) existente, a fim de se realizarem programas e ações que permitam comunidades, cidades ou regiões desenvolverem-se de maneira sustentável. Ele dissemina tecnologias produtivas e sociais, aumentando a articulação de grupos produtivos e estimulando a participação da população na esfera política, além de ampliar o espaço público dos cidadãos em situação de exclusão e risco. É um empreendedorismo a serviço das comunidades carentes.
Quando se fala em empreendedorismo social, logo se pensa em tecnologia social, não que ela não possa ser desenvolvida em outras espécies de empreendimentos, mas é que ambos possuem profunda ligação, a saber.
Tecnologia Social46pode ser definida como todo produto, método, processo ou técnica criados para solucionar algum tipo de problema social e que atenda aos quesitos de simplicidade, baixo custo, fácil aplicabilidade (e reaplicabilidade) e de impacto social comprovado. É uma proposta inovadora de desenvolvimento econômico e social, baseada na disseminação de soluções para problemas essenciais como demandas por água potável, alimentação, educação, energia, habitação, renda, saúde e meio ambiente, entre outras. O conceito de Tecnologia Social compreende produtos, técnicas ou metodologias reaplicáveis, desenvolvidas na interação com a comunidade e que representam efetivas soluções de transformação social.
As tecnologias sociais originam-se dentro das comunidades ou no próprio ambiente acadêmico, aliando os saberes populares aos conhecimentos técnico-científicos. Importa, essencialmente, que sua eficácia seja multiplicável, propiciando desenvolvimento em escala às populações atendidas, melhorando sua qualidade de vida. A criação de bancos de sementes comunitários, a substituição de chuveiros elétricos por aquecimento solar, o aproveitamento total do babaçu e de resíduos da mandioca, o soro caseiro, as cisternas de placas pré-moldadas que atenuam o problema da seca e a oferta de microcrédito são alguns dos exemplos de tecnologia social, de aplicação imediata e para resolver problemas imediatos. O Gerador Social, sistema de geração elétrica não poluente, construído com materiais de baixo custo e adequados a quedas de água com pouca vazão, idealizado pelo professor Mario Kawano, da PUC-SP, é outro exemplo de tecnologia social.
A pesquisa socioeconômica e a identificação de empreendimentos comunitários devem ser estimuladas, a fim de se levantar potenciais organizações associativas que desejam desenvolver alguma tecnologia social ou que já possuem experiências concretas que possam ser utilizadas em outras comunidades.
Hernán Thomas47 (apud FERREIRA, 2009b), um dos coordenadores da Rede de Pesquisa Latinoamericana sobre Tecnologia social, afirma ser imprescindível incorporar a tecnologia como um aspecto fundamental de qualquer democracia, pois ela seria a base material de um sistema que determina a viabilidade de certos modelos socioeconômicos. Em sua opinião, as Tecnologias Sociais são componentes chave nas estratégias de desenvolvimento e democratização política. Hernán não concorda com a visão tradicional da
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A referência completa está no final do texto: http://pt.wikipedia.org/wiki/Tecnologia_social. 47
O argentino Hernán Thomas foi citado por Paula Ferreira no texto “Tecnologia e democracia de mãos dadas”, cuja bibliografia completa encontra-se na lista de referências bibliográficas.
relação entre tecnologia e sociedade, ou seja, que a tecnologia determina as mudanças sociais, ou que a sociedade determina a tecnologia. As sociedades são tecnologicamente construídas ao mesmo tempo em que as tecnologias são socialmente configuradas.
O desenvolvimento de Tecnologias Sociais, intensivas em conhecimento, tenderia a gerar mais utilidade social de saberes produzidos localmente e, ainda, subutilizados. Hernán identifica três erros comuns no desenho de Tecnologias Sociais em contextos capitalistas:
Concebê-las fora das relações de mercado, como se fossem uma economia solidária paralela isolada das relações de produção econômica; concebê-las como salvação para empreendedores locais; e concebê-las como mecanismos para consertar as falhas do sistema de distribuição de renda voltados para a população em situação de pobreza extrema (FERREIRA, 2009b, p. 57). As Tecnologias Sociais não devem ser entendidas como minimizadoras da exclusão social, mas sim viabilizadoras da inclusão de todos. Nessa perspectiva, o desenho ideal de Sistemas Tecnológicos Sociais é o que permite dar suporte material a processos de mudança social, às relações econômicas solidárias, à ampliação do caráter público e de livre disponibilidade de bens e serviços, à redução de custos, ao controle de danos ambientais e à diminuição de riscos tecnológicos, permitindo a geração de ciclos de inclusão social com sustentabilidade material e novas ordens socioeconômicas.
Os empreendedores sociais utilizam-se de técnicas de gestão, inovações produtivas, técnicas de manejo sustentável de recursos naturais e criatividade para fornecer produtos e serviços que possibilitem a melhoria da condição de vida das pessoas envolvidas e beneficiadas. Eles vão além do atendimento das necessidades do mercado, buscam resolver os problemas sociais e ambientais, dedicando aos problemas sociais esforços semelhantes aos que os empreendedores tradicionais usam para criar riqueza no mundo dos negócios.
O desafio da geração de emprego e renda perpassa marcadamente pelo crescimento econômico, mas também há de se considerar o estímulo e o apoio ao desenvolvimento de empreendimentos inovadores e competitivos que consigam enfrentar o mercado local, nacional e internacional. É, portanto, a criação de novos negócios e o fortalecimento dos negócios já existentes que possibilitarão a geração e manutenção dos empregos, a distribuição da renda e a geração de impostos, permitindo investimentos em áreas prioritárias para a região. O caminho mais rápido e seguro para promover a qualidade de vida da população é criar condições para que os pequenos negócios floresçam e se fortaleçam na região, promovendo o desenvolvimento econômico e social.
Por meio do empreendedorismo social, o desenvolvimento local pode ser trabalhado de maneira diferenciada, baseando-se nas experiências e necessidades locais. As incubadoras,
dentro da perspectiva de incentivadoras de negócios inclusivos, devem despertar os envolvidos para seu potencial propulsor de inclusão social, aumentando o impacto social dos empreendimentos.
A preocupação com as questões sociais deve servir-se da razão; por sua vez, essa precisa ser colocada a serviço da sociedade, apostando na criatividade e na originalidade dos que a compõem e, sobretudo, apostando na motivação dos jovens pela ciência e tecnologia.
Para análise acerca das incubadoras de empresas de base tecnológica, que aqui se propõe, não será relevante a diferenciação entre as tecnologias. Todas as tecnologias, que concorrem para o desenvolvimento social, serão denominadas de tecnologias sociais, ou, simplesmente, tecnologias. Mesmo se, num primeiro momento, as tecnologias aqui tratadas servirem diretamente ao mercado – transferência da tecnologia desenvolvida para a área privada ou financiamento do desenvolvimento tecnológico por grandes empresas –, as novas tecnologias geradas, automaticamente, converter-se-ão, num futuro próximo, em impostos, novos empregos e desenvolvimento social e, por isso, estarão atendendo às necessidades sociais.