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TÜRK CEZA KANUNU’NDA GÜVENİ KÖTÜYE KULLANMA SUÇU

II. MADDİ KONU

A antinomia se apresenta nos seguintes termos: 1 – A virtude é o caminho para a felicidade;

2 – A virtude não é o caminho para a felicidade, ela é a própria felicidade. A primeira proposição, conforme Kant, é completamente falsa, como já demonstrada. A segunda é falsa condicionalmente, na medida em que se pensa a existência do agente moral apenas no âmbito sensível. A resolução da 3ª antinomia da razão teórica mostrou que o erro da conexão entre causalidade natural e causalidade por liberdade se dava pela compreensão limitada que se fazia do ser racional finito. E, analogamente, a resolução desta antinomia da razão prática, na busca pela fundamentação do soberano bem, far-se-á da mesma forma.

Ainda que presente no mundo sensível e, dessa forma, sujeito às condições de minha sensibilidade, também posso me vê como um ser o qual pertence ao mundo inteligível e, por essa ótica, possuo na lei moral um princípio determinante de minha ação que se direciona para o mundo sensível ou, dito de outro modo, um princípio que é puramente intelectual que determina minhas relações de causalidade. É por essa

354 Cf. A típica da razão prática. Cap. III, A 119, p. 82.

355HERRERO assim nos coloca esse impasse: “A unidade Analítica das duas é impossível porque, por mais que no fim término esteja contida a felicidade enquanto proporcionada à moralidade, suas máximas são sempre diferentes das da moralidade. […] Ora, conceber a máxima da virtude como causa da felicidade mostra-se impróprio, pois a felicidade é uma realidade sensível e toda relação de causa e efeito no mundo não se regula pelas intenções morais da vontade, mas segundo o conhecimento das leis da natureza, de modo que não se pode esperar qualquer união necessária suficiente para o Soberano Bem pela observância mais exata das leis morais. É um fato da experiência que o comportamento moral não implica a felicidade. […] a possibilidade da conexão necessária de moralidade e felicidade não é proporcionada pela natureza. Assim, a impossibilidade da conexão sintética leva à antinomia da razão prática: a lei moral prescreve incondicionalmente a promoção do Soberano Bem e este se mostra impossível na sua realização.” (Op. cit., p. 44-5).

compreensão que Kant sustenta a possibilidade se não imediata, pelo menos mediata (por um autor inteligível da natureza)356, de uma conexão necessária entre a ação moral, a virtude e a felicidade. Nos termos de Kant, a resolução desse conflito é realizada do seguinte modo:

Porém, visto que não unicamente autorizado a conceber minha existência também como númeno no mundo do entendimento, mas tenho mesmo na lei moral um princípio determinante puramente intelectual da minha causalidade (no mundo sensível), não é impossível que a moralidade da disposição (Gesinnung)357 tenha com a felicidade enquanto efeito no mundo sensível, uma conexão necessária, a título de causa, se não imediata, apesar de tudo mediata (por intermédio de autor inteligível da natureza), conexão essa que, numa natureza que é simplesmente objeto (Objekt)358 dos sentidos, jamais pode ser suficiente para o soberano bem.359

Para Kant, o soberano bem é o fim supremo de uma vontade moralmente determinada, apesar daquela aparente antinomia, sendo, além disso, um verdadeiro objeto dessa mesma razão prática. Portanto, Kant se utiliza da mesma fórmula do pertencimento (por parte do sujeito agente) a dois mundos para realizar a ligação entre os elementos da constituição do soberano bem que era feita, entendendo-se fenômenos como coisas em si e, desta forma, gerando aquela antinomia na razão prática.

Destarte, da análise da antinomia da razão prática, percebe-se que Kant entende como possível a existência de ligação entre a consciência moral e a felicidade, e que os princípios que fundamentam a busca de felicidade jamais irão fundamentar a moralidade. O que leva à conclusão de que, na fundamentação do soberano bem, a moralidade tem lugar privilegiado, sendo a condição primeira daquele e a felicidade tão- somente o seu constitutivo acessório. Sua existência ou manifestação empírica é apenas a consequência da moralidade, mas não é necessária. E somente nesta relação necessária360 de subordinação em que se encontram os elementos constituidores do soberano bem, é que este se torna objeto (Objekt) inteiro que tem o dever de representar a si mesmo como possível e de modo necessário, posto que a própria razão se auto- impõe como mandamento a sua autocontribuição para a realização do soberano bem.361

356 KANT, Immanuel. Crítica da Razão Prática . Tradução de Artur Morão. Lisboa: edições 70, 2001, A 207, p. 134

357

Sensível. 358 Intelectual.

359 KANT, Op. cit., p. 133-4. 360

Na consecução do soberano bem é necessário que a virtude esteja à frente da felicidade, mas não é necessário que ao se agir de modo correto se obtenha como resultado imediato, a felicidade.

Também se depreende dessa análise, que a razão prática tem o primado362 sobre a teórica à medida que a razão pura teórica tem todo o seu interesse voltado para o aspecto prático. E isto já se mostra pela própria consciência da lei moral. E, além disso, só há uma única razão pura, que se apresenta tanto teórica quanto prática, dependendo apenas do âmbito de onde se está a falar. E conforme Kant,

[…] sem esta subordinação, surgiria um conflito da razão consigo mesma porque, se elas estivessem simplesmente justapostas (coordenadas), a primeira encerrar-se-ia estritamente nos seus limites e não admitiria no seu domínio nada da segunda, mas esta, no entanto, estenderia os seus limites sobre tudo e procuraria, onde o exigisse a sua necessidade, incluir aqueles dentro dos seus.363

Portanto, para Kant, não há dúvidas de que todo o interesse da razão é

prático e, segundo ele, não se pode fazer a inversão desta ordem, pois o interesse “[…]

mesmo o da razão especulativa só é condicionado e completo no uso prático.364” Kant também ressalta que toda vontade moralmente determinada exige, necessariamente, a consecução do soberano bem. Isto porque a boa vontade, que tem a peculiaridade de ser determinada pela lei moral, possui, justamente por isso, todas as suas inclinações, os seus desejos, necessariamente, em acordo com a lei moral sem exceção alguma. Se assim não o for, não há soberano bem nenhum. Entretanto, essa exigência de total adequação da vontade à lei moral é o que Kant chama de santidade365; em outras palavras, é uma conexão perfeita e, como tal, foge às possibilidades de todo e qualquer ser racional finito. Contudo, ela é oriunda da própria razão e tem sua exigência dada ou proferida de modo necessário; o que implica dizer que terá que ocorrer de alguma forma366. É daqui que o filósofo parte para introduzir definitivamente a religião no problema moral e, para isso, parte postulando a existência da alma e de Deus367.

362 Cf. as passagens 5.3 e 5.4 da obra Interesse da razão e liberdade de Valério Rohden. 363

KANT, Immanuel. Crítica da Razão Prática . Tradução de Artur Morão. Lisboa: edições 70, 2001. A 219, p. 140.

364 Ibid.

365 Ibid., A 220, p. 141.

366 A solução kantiana aponta para o conceito de progresso, este sendo necessariamente o da alma. Segundo Kant, a nossa razão no âmbito puramente prático faz exigências e postula, ou seja, admite como verdadeira mesmo sem a possibilidade de demonstração, o referido progresso da alma, pois, sem esta não há como se falar de Soberano Bem.

367

ROHDEN nos diz por que Deus é introduzido na moral kantiana: “A possibilidade do sumo bem não depende de princípios empíricos, logo sua dedução tem de ser transcendental. Ou seja, Kant tem que demonstrar como essa síntese é possível e necessária a priori. [Na demonstração da possibilidade do sumo bem possível Kant expõe a antinomia (III) da razão prática e num segundo momento ele elimina essa antinomia, pondo a necessidade prática da existência de Deus]. No primeiro caso ele, [Kant], dirá que a conexão prática das causas e efeitos no mundo envolve um conhecimento das leis naturais e, então que se a promoção do sumo bem, ordenada pela lei moral for impossível, também a lei moral o será [III