3.2. Judith Butler’da İktidar ve Beden Analizi
3.2.5. Maddeleşen Bedenler
A mobilização da comunidade para participar pode ser considerada uma das etapas mais importantes e complexas na implantação de programas, projetos e ações que envolvem mudanças nas rotinas e/ou nos hábitos dos indivíduos.
De acordo com SILVA e LEITE (2001), a forma pela qual os seres humanos participam de qualquer ecossistema, depende da estrutura e composição desse ecossistema e também da bagagem cultural dos envolvidos, daquilo que eles e seus descendentes recebem e em seguida difundem, existindo diferenças entre as imagens que eles fazem e a estrutura real dos ecossistemas.
Os autores consideram ainda que a vida nas cidades, nos chamados ecossistemas urbanos, muitas vezes não propicia um convívio natural e descontraído entre os seus habitantes, afastando-os de um relacionamento pessoal mais integrado, originando o anonimato. Este fator produz um distanciamento entre as pessoas e o espaço em que vivem, desvinculando o indivíduo do seu entorno e acarretando descompromisso com a preservação e qualidade do ambiente.
A partir de 1991, CRESPO (2003) realizou três pesquisas enfocando a questão: O
que o brasileiro pensa da ecologia. Verificou que independente de fatores como
classe social, escolaridade, cor, sexo e religião, os brasileiros consideram o meio ambiente como sinônimo de fauna e flora. Este dado manteve-se constante nas pesquisas realizadas em 1992, 1997 e 2001.
A autora constatou ainda que quando os brasileiros pensam em meio ambiente deixam de fora tudo que se relaciona aos seres humanos e às suas criações.
Nesse contexto, temas como saneamento e resíduos sólidos não têm um grande apelo junto à população. Para o indivíduo brasileiro, no perfil encontrado pela pesquisadora, ser ambientalmente correto não implica mudar ações no cotidiano. Um exemplo clássico é o apoio que a população afirma dar, em pesquisas de opinião, à reciclagem,
sua baixa participação efetiva em programas de coleta seletiva e o hábito de jogar tudo o que pode em vias públicas, encostas e corpos hídricos.
Os estudos de CRESPO (2003) também envolveram os aspectos do consumo e concluíram que a maioria dos brasileiros tem motivação para consumir produtos ambientalmente corretos e buscam um estilo de vida mais saudável, associam a idéia que qualidade de vida implica em hábitos mais saudáveis. O estudo ressalta ainda que a resposta atribuída à questão sobre qual o objetivo da motivação em proteger o meio ambiente e os recursos naturais, em 1992, era predominantemente porque é bom para
a saúde humana. A autora sugere que o elo da saúde, qualidade de vida e meio
ambiente talvez seja uma relação mais facilmente percebida pela população.
Analisando sob outro ponto de vista, PORTILHO (2004) discute a adoção de estratégias de busca de soluções para problemas ambientais, decorrentes de consumo e estilo de vida, que focam apenas o papel do consumidor. O autor defende a idéia de que as responsabilidades pela resolução de problemas ambientais deveriam ser atribuídas a diferentes atores sociais. Fazendo um paralelo com as práticas adotadas em nossa sociedade, considera inadequada a estratégia da transferência da responsabilidade do Estado para o mercado e do Estado e do mercado para o consumidor individual. Neste contexto, os consumidores individuais, conscientes, bem informados e motivados por valores ambientais, estariam sendo vistos como os responsáveis pela melhoria das condições ambientais através de suas escolhas cotidianas.
A autora propõe a estratégia do Consumo Sustentável, o qual enfatiza mais as ações coletivas e as mudanças políticas e institucionais do que as ações tecnológicas, econômicas e comportamentais, visando sensibilizar o consumidor para pensar como cidadão. E conclui: Consumo e cidadania devem ser vistos de forma conjunta e
inseparável!
Outro aspecto relevante a considerar quanto à participação social é a percepção ambiental. SILVA e LEITE (2001) atribuem à percepção inadequada da realidade a responsabilidade por vários problemas relativos à utilização dos recursos naturais de maneira insustentável, fruto da falta de preocupação com as gerações futuras, ameaçando a continuidade da vida no Planeta Terra. Esses problemas precisam ser
vistos como diferentes facetas de uma única crise, que é, em grande medida, uma crise de percepção.
Infelizmente, de maneira geral, nos programas de coleta seletiva, a intervenção junto ao público alvo acontece a partir da percepção dos técnicos envolvidos, o que faz com que muitos desses projetos não alcance os objetivos propostos, principalmente o de envolver e motivar a participação social.
Segundo VILELLA (2001), não se pode desenvolver qualquer programa vinculado a sustentabilidade e a proteção ambiental sem o envolvimento dos cidadãos. Caso os conceitos por trás dos programas não sejam devidamente assimilados, por mais bem intencionados e por melhor elaborados que sejam, não estarão inseridos nas atividades do dia-a-dia da população, resultando em baixa eficácia.
Estes conceitos precisam ser internalizados, uma vez que não são as leis que provocam os impactos sobre o meio ambiente, mas o comportamento das pessoas. Cabe pontuar a importância de se levar em conta os valores sociais nas tomadas de decisão. É fundamental observar as diferenças entre a percepção de um mesmo problema pelos técnicos e pelos indivíduos envolvidos.
Antes de qualquer intervenção é necessário identificar qual a percepção que a comunidade envolvida tem sobre o ambiente, como ela percebe a relação ser humano- meio ambiente, caso contrário, o trabalho poderá não alcançar os objetivos esperados. Na busca do entendimento das relações existentes entre o indivíduo e o meio, BINSWAGNER (1973) e SVENSON (1981) apud PILON (1998) apresentam sistematização das relações entre o Homem e as quatro dimensões de Mundo, divididas em: íntima, interativa, social e biofísica, integradas e interdependentes. O Quadro 4 apresenta tal sistematização:
Quadro 4 – Relações entre o Homem e as quatro dimensões de mundo
Fonte: BINSWAGNER (1973) e SVENSON (1981) apud PILON (1998)
Os autores concluem que, em uma visão sistêmica, essas quatro dimensões não atuam isoladamente, a existência de uma necessariamente depende das demais. Toda intervenção que se venha a realizar junto à população deveria contemplar essas dimensões e suas inter-relações, gerando um trabalho integrado.
Além de se considerar a percepção ambiental do público alvo do programa, para se obter melhores resultados na etapa de mobilização da comunidade, os organizadores devem adotar alguns princípios básicos de credibilidade tais como: honestidade ao tratar da população, ouvir a opinião das pessoas envolvidas, falar de forma simples, reconhecer o que é ou não objetivo, reconhecer valores, ter consistência e admitir opiniões contrárias. Em suma, nesses casos a racionalidade técnica não funciona e as campanhas de combate ao fumo são um exemplo claro dessa questão.
Dimensão íntima: envolve sujeitos enquanto mediadores de variáveis subjetivas (motivos,
expectativas, desejos, sentimentos e razões) e objetivas (oportunidades, normas, redes de relações, matéria e energia); expressa ofertas (internas) e demandas (externas) na forma de cognições, afetos e ações.
Dimensão interativa: envolve grupos, rede de relações imediatas (grupos primários) das
quais os sujeitos fazem parte (ou pretendem fazer parte), abrangendo familiares, colegas, amigos e pessoas associadas, mediante objetivos comuns (trabalho, lazer, crença, arte, estudo, atividades marginais, entre outros.); constitui os "grupos de referência", às vezes simbólicos.
Dimensão social: envolve sociedades e culturas que as sustentam, compreendendo
organização política, econômica e social, respectivas políticas e ideologias (hegemônicas ou não), direitos e deveres (cidadania), sanções e recompensas (controle); constitui o espaço público.
Dimensão biofísica: envolve matéria e energia, a biosfera (e o próprio homem enquanto
corpo), natureza e ecúmenos (assentamentos, cidades, campos), "ar, água, terra e fogo", obras de engenharia, arquitetura, paisagem e ambiente, espaços e cosmos; constitui o entorno e os corpos nele presentes.
GRIMBERG e BLAUTH (1998) acreditam que o comportamento humano só muda se mudarem também os valores e os sentimentos que o sustentam; e que campanhas não mudam comportamento de forma duradoura.
A maioria dos programas de coleta seletiva atribui grande importância à educação ambiental como meio de fazer os indivíduos separarem o lixo, entretanto, não incorporam no seu planejamento os recursos humanos e financeiros necessários ao desenvolvimento do processo de construção de novos valores sociais e ambientais que tal atividade requer.
Segundo NUNESMAIA (1995), a educação ambiental é um instrumento importante de gestão dos resíduos sólidos, porém acertar na escolha metodológica não tem sido uma tarefa fácil, sendo necessário considerar as peculiaridades de cada região.
Convencer as pessoas sobre a importância de sua contribuição individual na solução de problemas cuja escala extrapola o seu cotidiano para garantir um futuro sustentável é tarefa de longo prazo.