Quando se pensa na dinâmica urbana associada aos rios, é possível compreender a tentativa de tratar a questão de um modo mais uniforme, ignorando o problema e encaixotando os rios em canais fechados. Se o curso d’água permanece em seu canal natural, a permeabilidade das margens e sua manutenção de cobertura vegetal do solo tornam-se imprescindíveis. Araújo (2002, p. 10) considera que “em cidades com alto grau de impermeabilização do solo, a manutenção das APP talvez assuma importância ainda maior do que em áreas rurais.”
A dimensão da APP deve ser suficiente para que ela cumpra seu papel ambiental. Um dos mais importantes aspectos da efetividade da APP é a trajetória das águas por entre a vegetação ripária. No entanto, é menos complicado definir as espécies vegetais a serem plantadas na APP do que estabelecer seu tamanho.
Diversos modelos e sistemas para dimensionamento de APP têm sido desenvolvidos, relacionando áreas da bacia de drenagem e largura da APP; métodos relacionados às declividades; gerenciamento de ecossistemas ripários; escoamento superficial de substâncias químicas bem como o delineamento de equações para a zona ripária. Na maioria dos países, a dimensão da faixa marginal é definida conforme os objetivos a serem alcançados.
Lima (1996, p. 312 apud MELLO, 2008, p. 88) afirma que não há, ainda, conhecimento suficiente para permitir o estabelecimento de larguras-padrão de
proteção para as zonas ripárias. Os fatores condicionantes, como clima, geologia e solos, podem variar bastante ao longo da microbacia e, principalmente, entre diferentes microbacias. Portanto, os limites da zona ripária, do ponto de vista geomorfológico, não são facilmente delimitados.
Lindner e Silveira (2003, p. 68) citam a regra prática, seguida peã legislação brasileira, segundo a qual “[quanto] maior o corpo de água a ser protegido, [tanto] maior é a APP requerida: maior a área de drenagem da APP, mais larga ela deve ser.” Os autores sugerem também um critério econômico: dimensionar a APP com a largura mínima para que ela desempenhe as funções desejadas, mas o proprietário da terra não seja penalizado com perda de renda.
Lima84 (1996 apud MELLO, 2008, p. 88) menciona estudos feitos sobre a eficácia de faixa ciliar que concluíram que a largura deve variar entre 25 m e 30 m.
Em sua pesquisa, Oliveira85 (1998 apud LINDNER; SILVEIRA, 2003, p. 67) obteve resultados contraditórios quanto à largura da faixa de vegetação de preservação permanente, no que concerne a fontes de dispersão de poluição (estas não discriminadas pela autora). Os valores variaram entre 20 m a 80 m, na primeira simulação, e entre 10 m e 50 m, na segunda simulação. A autora concluiu que, em algumas parcelas da região de estudo (bacia hidrográfica do ribeirão do Feijão, São Carlos/SP), a APP foi superestimada, pois apenas 10 m de mata ciliar seriam suficientes para proteção do corpo d’água, enquanto o Código Florestal estabelece 30 m. Contudo, na maior parte da área, o modelo concluiu por valores superiores a 30 m, o que significa que o Código Florestal, ao mesmo tempo que, em alguns casos, exige mais área que o necessário, em outros subestima a largura de faixa necessária com relação a fontes dispersas de poluição.
Lindner e Silveira (2003, p. 59) comentam que “considerando a literatura internacional pode-se constatar que na maioria dos países a largura da faixa marginal é definida em relação aos diferentes objetivos a serem alcançados.” Na Inglaterra, a Agência de Meio Ambiente (1996) e o Ministério de Agricultura, Pesca e Alimentos do Reino Unido (1997) determinam a dimensão da faixa marginal a ser
84 LIMA, Walter de Paula. Hidrologia Florestal aplicada ao manejo de bacias hidrográficas.
Piracicaba: Universidade de São Carlos, ESALQ, Departamento de Ciências Sociais, 1996. 318 p. Mimeo. p. 312.
85 OLIVEIRA, Lília Maria. Controle de fontes dispersas de poluição pela fixação de largura mínima de
faixa de vegetação natural ou recomposta ao longo de corpos d’água. Dissertação [mestrado] -
protegida a partir de variáveis como: função a ser desempenhada; grau de eficiência requerido; tamanho, topografia, hidrologia e hidrogeologia da área de drenagem. O protocolo descrito resulta em recomendações de largura de faixas que variam, em geral, entre 5 m e 30 m de largura.
A Constituição norteamericana dá às Agências Federais a função de proteger a vida silvestre e seus habitats em terras federais, incluindo a limitação de acesso e urbanização em terras públicas. O Serviço Florestal e a Secretaria de Manejo da Terra são as agências com políticas de uso do solo responsáveis pela proteção da zona ripária. Suetônio Mota86 (2003 apud MELLO, 2008, p. 88) comenta que nos Estados Unidos da América a falta de uma regulação geral sobre faixas de proteção, faz com que elas variem de 7,6 m (Condado de Oakland, Michigan) a 91 m (Estado de Wisconsin, variável com a área de inundação).
Lindner e Silveira (2003, p. 68) citam o Sistema de Gerenciamento Ripário (RiMS), programa desenvolvido nos Estados Unidos da América para a recuperação de APP com multi-espécies, restaurando suas funções hidrológicas e biológicas e reduzindo a ocorrência de erosão e de poluição. É baseado na construção de APP mistas e combinado, com diversas larguras mínimas e máximas, para o desempenho de diferentes funções.
Na França, o Código de Domínio Público Fluvial estabelece que a largura da faixa que não pode ser ocupada é de 3,25 m. Segundo o Código, esta medida deve ser tomada em função da altura das águas mais altas, antes da calha transbordar. Tendo em vista a quantidade de intervenções realizadas, que alteraram a dinâmica hídrica, é difícil aplicar este critério.
Saide Kahtouni87 (2004 apud MELLO 2008, p. 89) afirma que desde meados do século XIX já era conhecida a importância da preservação de matas ripárias para garantir a qualidade e a quantidade de águas de abastecimento. A autora, baseada na pesquisa de Maria Franco, comenta aquela que seria a primeira norma conservacionista brasileira, emitida por D. João VI, em 1817: a proibição da derrubada de matas no entorno das cabeceiras de rios e ao longo do aqueduto de Santa Tereza, no Rio de Janeiro. Como a maioria das normas ambientais, esta também não foi obedecida: as matas das nascentes foram substituídas por cultivos
86 MOTA, Suetônio. Introdução à Engenharia Ambiental. Rio de Janeiro: Associação Brasileira de
Engenharia Sanitária e Ambiental - ABES, 2003.
de cana de açúcar e café, tornando crítico o abastecimento de água no Rio de Janeiro, motivo até mesmo de marchinhas de carnaval.
No Brasil, o Código Florestal e a R-CONAMA n. 303 (BRASIL, 2002) adotam a largura das APP de acordo com a largura do curso d’água, determinado a partir do nível mais alto: nível alcançado por ocasião da cheia sazonal do curso d’água perene ou intermitente. Este critério é extremamente simplificador, quando se consideram todos os fatores que influenciam na dinâmica hidrológica e na diversidade de ambientes existentes no país.