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Norbert Elias (Heinich, 2001) afirmou, em uma conferência realizada em Paris nos últimos anos de sua vida, que em sua opinião, a principal revolução advinda na sociedade ocidental, desde a sua origem, é o direito adquirido, ao longo de nosso século, pelas mulheres, a uma identidade própria, não mais se definindo pela relação de filiação ao pai ou de união com o marido. De fato, formalmente falando, as mulheres tornaram-se sujeitos de direitos “capazes” muito recentemente.

Perrot (2005), ao descrever como o interesse no resgate histórico das mulheres ocorreu na França, aponta três séries de fatores imbricados que seriam: científicos, sociológicos e políticos. E, que estariam ligados à crise dos grandes paradigmas explicativos nos anos 60 e 70. O estruturalismo, segundo ela, não avança sobre as relações de sexo, a mulher é apenas um dado elementar do funcionamento do parentesco na “troca dos bens, troca das mulheres”, em suas palavras, uma espécie de nó quase imóvel das estruturas de parentesco. A sucessora de Lévi-Strauss no College de France retoma a discussão a partir de onde ele a havia deixado. Através de seu livro sobre o masculino e o feminino16 marca um retorno à construção do pensamento simbólico. O marxismo, por sua vez, obstaculizou a formulação de um pensamento feminista, mas, no entanto, forneceu seus primeiros contornos, devido à transferência de conceitos, substituindo a teoria da exploração burguesa pela dominação pelo patriarcado17. E o que ela chamou de início do movimento à francesa, que distante dos debates

16Quem substituiu Levi-Strauss foi Françoise Héritier (apud Perrot, 2005) que publicou “Masculin/Feminin. La pensée de la difference”, Paris: Odile Jacob, 1996.

17 Gerda Lerner (1990) afirma que o patriarcado, a institucionalização do domínio masculino sobre as mulheres, na família e a extensão dessa prática à sociedade como um todo, não é “natural” ou biológico, como uma

das americanas, representava uma sociedade mergulhada em uma efervescência cultural e política trazendo à tona a pluralidade que influenciou o desenvolvimento das pesquisas sobre mulheres.

“Experiência insubstituível para aquelas e aqueles que a fizeram, a história das mulheres, por outro lado, não mudou nem a atitude histórica, ainda reservada, nem as instituições universitárias, que opõem-se a lhe dar um lugar, ainda que modesto. Os inevitáveis conflitos de território conduzem às vezes a tensões, internas e externas aumentadas, e cuja conta pode vir a ser paga pelas pesquisadoras mais jovens. E a França, sob este ângulo, parece mais arcaica do que a maioria de seus vizinhos.

A história das mulheres também não mudou muito o lugar ou a “condição” destas mulheres. No entanto, permite compreendê-los melhor. Ela contribui para sua consciência de si mesmas, da qual é certamente ainda apenas um sinal. Nos países em vias de desenvolvimento, onde as mulheres começam a ter acesso ao reconhecimento individual, é o acompanhamento frequente de

recorrente visão essencialista poderia afirmar, mas é resultado de um processo historicamente datado, e que levou cerca de 2.500 anos para se desenvolver. Seu argumento parte do pressuposto de que homens e mulheres são biologicamente distintos, mas os valores e as implicações embasadas nesta diferença são conseqüências da sociedade. A proposta de sua obra, cujo objetivo central é retomar a discussão acerca do patriarcado, a ponto de buscar sua comprovação empírica na Mesopotâmia antiga, está centrada nas seguintes afirmações:

1) a apropriação, por parte dos homens, da capacidade sexual e reprodutiva das mulheres ocorreu antes mesmo da formação da propriedade privada e da sociedade de classes;

2) os estados arcaicos se organizaram como um patriarcado, com especial atenção à manutenção da família patriarcal;

3) os homens aprenderam a dominar outros povos graças à prática que tinham de dominar as mulheres de seu próprio grupo. O que foi formalizado através da institucionalização da escravidão;

4) a subordinação sexual das mulheres foi institucionalizada nos primeiros códigos jurídicos. Através de diversas formas assegurou-se a cooperação das mulheres no sistema: força, dependência econômica do chefe da família, a divisão criada entre mulheres respeitáveis e não respeitáveis, os privilégios das mulheres da alta sociedade;

5) entre os homens, a classe estava e está baseada em sua relação com os meios de produção: quem possuía os meios de produção poderia dominar quem não possuía. Para as mulheres, estava relacionada por seus vínculos sexuais com um homem, que permitia alcançar os recursos materiais;

6) durante muito tempo as mulheres se encontraram sexual e economicamente subordinadas aos homens, mesmo desempenhando um papel ativo e respeitado, como mediadoras entre os humanos e os deuses, em sua qualidade de sacerdotisas, videntes, adivinhadoras e curandeiras. O poder metafísico feminino, em especial o poder de dar a vida, era venerado pelos homens e mulheres em forma de poderosas deusas, muito depois que as mulheres estiveram subordinadas aos homens em quase todos os aspectos de sua vida terrena;

7) a decadência dessas deusas poderosas e sua substituição por um deus dominante ocorre na maioria das sociedade próximas ao Oriente, juntamente com a consolidação de uma monarquia forte e imperialista. Gradualmente, a função de controlar a fertilidade, até então um poder das deusas, é representada com a união, simbólica ou real, do deus ou rei divino com a deusa ou sacerdotisa. Ocorre a separação da sexualidade (erotismo) da procriação, com o surgimento de uma deusa distinta para cada função, e a deusa mãe se transforma na esposa do principal deus masculino.

um processo identitário, às vezes contrariado, de que somos as espectadoras cúmplices, ansiosas e solidárias” (Perrot: 26, 2005).

Sob uma perspectiva histórica, a descoberta do significado, ou melhor, a compreensão do lugar ocupado e de que forma isto ocorre é o primeiro passo de um caminho a ser percorrido. É a tomada de consciência de si mesmas que pode propiciar a mudança na miudeza da composição doméstica, onde, segundo Perrot (2007), reside a maior dificuldade para construir de fato um mundo de igualdade no tocante ao gênero. Apesar de todos os avanços, as mulheres trabalham mais, estudam mais, ocupam novos espaços, há uma persistente situação de hierarquização sexual, que favorece o homem branco e heterossexual. O processo de transformação é complexo e longo, um desafio que envolve profundas alterações simbólicas e práticas.