Entretanto, a solução para o impasse da relação entre linguagem e mundo dada pela fenomenologia será objeto de crítica. É a partir da compreensão do distanciamento em relação à fenomenologia que compreenderemos o aparecimento do espaço da diferença e a possibilidade do figural.
Inicialmente é preciso alertar o leitor de que a crítica que o filósofo realiza da fenomenologia merleau-pontyana é sinuosa. Justamente por assumir a posição da fenomenologia na crítica ao estruturalismo e ao hegelianismo, o leitor é levado a acreditar que não há nenhuma diferença significativa em relação à fenomenologia. Essa é a ilusão que as primeiras páginas de Discurso, Figura provocam. Também não podemos afirmar que Lyotard nega a fenomenologia como erro. Ele busca mostrar seus limites. De que modo?
33O bloqueio da reversibilidade entre os termos será um dos índices maiores da presença de uma instância do
poder. Poderíamos induzir que partilhar do método estrutural nas análises da sociedade impediria a compreensão dos mecanismos de poder, uma vez que esses mecanismos se revelam pela transgressão da distância entre os termos, donde o figural surge como efeito ou o campo próprio do aparecimento do poder no interior do discurso. Sabemos também que aquilo que restava de dialética na teoria marxista contribui para o afastamento de Lyotard em relação a Marx. Lyotard chega mesmo a estabelecer a analogia entre a invariância presente no sistema da língua e o fracasso da crítica da práxis social: “[...] A crítica sócio-política só pode se efetuar rompendo com as obrigações que caracterizam o sistema capitalista, que dizem respeito às distâncias invariantes segundo a qual seus termos são distribuídos” (LYOTARD, 2002, p. 34).
A Fenomenologia da Percepção será interpretada como uma tentativa de construir uma continuidade entre linguagem e percepção, mostrando em que medida essas duas experiências encontram-se entrelaçadas em uma relação de parentesco primordial. Sobre a continuidade, dirá:
O ponto de passagem é o ponto de ilusão por excelência, é a categoria de continuidade. Se é verdade que o gesto é sentido, ele o deve ser em oposição à significação linguageira. Esta não se constitui senão como rede de descontinuidades [...] onde não são confundidos jamais o pensante e o pensado [...]. O gesto, ao contrário, tal como compreendia Merleau-Ponty, é a experiência de um sentido onde aquilo que é sentido e aquele que sente se constituem em um ritmo comum [...]. (LYOTARD, 2002, p. 20).
Ao contrapor a positividade que vai do gesto à linguagem, ou do gesto positivamente como já linguagem, a existência e distinção de duas negatividades34, é justamente a continuidade que o filósofo quer evitar. Sua justificativa é a manutenção de ordens distintas de sentido, evitando o apagamento, a sobreposição, a superação, ou continuidade de uma ordem sobre a outra. A empreitada de Merleau-Ponty será interpretada como uma tentativa de “introduzir o gesto, a mobilidade do sensível na invariância característica do sistema da língua, para dizer o que é constitutivo do dizer, para restituir o ato que abre a possibilidade de falar” (LYOTARD, 2002, p. 56). Do mesmo modo, interpretará o esforço do fenomenólogo como uma tentativa de mostrar, através do gesto, o que é constitutivo do dizer, como o ato que torna possível falar.
Tudo se passa como se a fenomenologia tivesse sucumbido à tentação de uma reflexão sobre o conhecimento e, enquanto tal, de realizar o movimento que marcaria a fenomenologia hegeliana: “Ela é ainda uma reflexão sobre o conhecimento, [...] tal reflexão tem por função [...] recuperar o Outro no Mesmo” (LYOTARD, 2002, p. 21), ou seja, igualar o gesto – próprio à dimensão corporal – à linguagem, constitutivamente diferente do campo sensível. Essa leitura é compartilhada por Corinne Enaudeau, quando afirma que:
Todo saber vive da ambição de se igualar àquilo do qual ele está separado. A ciência pretende ter o objeto, possuir o domínio conceitual e técnico. A compreensão fenomenológica pretende ser o objeto e se fundar na ‘carne’ do
34Devemos compreender por negatividades os espaçamentos: tanto as distâncias que separam os termos no
interior do sistema da língua; quanto a distância que o discurso abre frente ao seu objeto; as faces de um objeto ainda não vistas; a distâcia que coisa mantém uma das outras. No trecho a seguir Lyotard deixa claro que não atribui negatividade à fenomenologia merleau-pontyana: “ Pode parecer infiel ao espírito de O visível e o
Invisível, se é verdade que exibir a razão do segredo não se dá sem que pareça a restauração de uma filosofia do
negativo, da qual Merleau-Ponty não deixou de se delimitar e emancipar. Contudo, o negativo que nós vamos colocar em questão não é este de Sartre, nem o de uma dialética hegeliana. Ele se desdobra em intervalos invariantes do sistema e espaçamentos móveis do ver” (LYOTARD, 2002, p. 55).
mundo. Que se queira ter ou ser a coisa,o anseio paga o preço da denegação de sua ausência. (ENAUDEAU, 2011,p. 527).
A distinção entre duas negatividades permite o distanciamento da fenomenologia. Com a separação, diz Lyotard, “podemos caminhar sobre o mesmo caminho que Merleau- Ponty. Mas em outra direção, dando-lhe as costas” (LYOTARD, 2002, p. 56).
Curiosamente, uma das etapas da crítica à fenomenologia é a retomada dos desenvolvimentos teóricos feitos pelo estruturalismo ao mostrar que há um sistema anônimo da língua (algo que o próprio Merleau-Ponty reconhecia, mas cuja razão ele colocava no gesto linguístico). Acompanhemos o comentário de Peter Dews a este respeito:
[...] O estruturalismo realizou um avanço decisivo no que concerne ao sistema da linguagem como um quadro de relações diferenciais […]. Para Lyotard, o ponto crucial é que a existência deste sistema anônimo torna inadequada qualquer tentativa fenomenológica de fundar o significado linguístico em uma intencionalidade ou gesto logicamente anterior. (DEWS, 2007, p. 139).
As análises de Saussure mostravam que a língua não era somente algo involuntário, como um depósito ou tesouro acumulado pelo seu uso. As considerações sobre a língua em sua teoria, a colocam como um “sistema, e mesmo uma “gramática”, uma ordem que prescreve ao menos a forma do discurso [...]. A negação35 que se desenrola no sistema, que está fora do sujeito e é anterior a ele, recai sobre seu privilégio de agir” (LYOTARD, 2002, p. 30). Essa observação permite redirecionar a crítica da oposição que Merleau-Ponty faz entre uma fala falante, ou uma intenção significativa em seu estado nascente, e uma fala falada, “que desfruta as significações disponíveis como a uma fortuna obtida” (MERLEAU-PONTY, 2006, p. 267). A esse respeito, Lyotard diz:
A oposião pertinente não é entre fala falada e fala falante, a primeira assimilada à língua, a segunda ao gesto, ao movimento. Mas, em todo enunciado há duas dimensões, aquela em que se estabelecem em diferentes níveis [...] as oposições e correlações que ligam as unidades de que se serve o locutor, e aquela na qual se lança a intenção de significar. De um lado, a dimensão da língua, que não é simplesmente fala falada, mas matriz de proposições inumeráveis ; e do outro, a dimensão da intenção, do gesto linguístico que é ‘falante’ por sua expressão, mas primeiramente porque observa as obrigações da língua. (LYOTARD, 2002, p. 58).
35Por vezes, Lyotard se vale das palavras négation [negação] e négativité [negatividade] como sinônimas. A
diferenciação deste uso só será perceptível a partir da retomada da teoria freudiana em suas análises. A partir desse momento, négation se diferenciará de nétativité e remeterá à experiência da castração (negação primordial). Não temos motivos para crer que o uso da palavra negação [négation] no trecho acima nos remeta a uma análise psicanalítica. Portanto, ao menos no trecho em questão consideraremos negação como negatividade e, portanto, como a distância e a separação interna ao sistema da língua.
Não é preciso fazer a oposição entre fala falada e fala falante. Basta mostrar que em
todo enunciado, há duas dimensões que coexistem sem, no entando, se excluírem ou serem
contínuas:
O enunciado pode obedecer às obrigações estabelecidas pela língua e moldar sua intenção de significar, ou antes desfazer as obrigações para forçar os elementos da língua a se dobrarem ao vetor do desejo. No segundo caso, ele direciona a atenção ao código, insere entre as palavras, e talvez até nelas, intervalos imprevistos, os mesmos que separam e unem as coisas imaginárias, ele pode insulflar a mobilidade do desejo, construir sobre a polaridade do próximo e do distante, no espaço da língua. Mas, mesmo assim é preciso que ele respeite as condições da significação se ele quer escapar ao caos puro e simples [...], o trabalho do poeta, do escritor, do sonho, que coloca o figural no abstrato, o ‘real’ no ‘arbitrário’, e dá ao discurso quase a mesma carne que a do sensível. (LYOTARD, 2002, p. 58). Ora, como é possível pensar uma relação entre as duas negatividades? É em relação ao
desejo que a promiscuidade entre o discurso e seu objeto, ou entre linguagem e mundo deve
ser realizada. São as transgressões operadas pela ordem do desejo e sua capacidade de se manter à revelia das determinações significativas da linguagem e perceptivas da consciência que garantem que as negatividades se toquem sem, no entanto, se tornarem uma o momento da outra ou uma a continuidade da outra. Lyotard recorre à psicanálise freudiana para mostrar em que medida as análises fenomenológicas são insuficientes em manter resguardado esse espaço de diferença constitutiva. Eis o limite da fenomenologia. Entre campo da língua e campo sensível, não há dialética nem continuidade. Há aquilo que Lyotard chama de
diferença.
O emprego da noção de diferença marca o terceiro momento da obra de Lyotard: campo da língua, campo perceptivo e campo da diferença. Marca também a superação da alternativa entre singificação e designação. Lembremos como o campo da diferença – que nos abre ao figural– é o espaço onde se marca a descontinuidade, a impossibilidade, o recesso. Em contrapartida, a relação de continuidade, de tradutibilidade, de unidade e de passagem gratuita de um campo ao outro é apontada pelo filósofo como uma tentativa de apagamento da
diferença36. Sobre a relação entre as duas negatividades, diz: “Se queremos articulá-las em verdade, mantendo-os em exterioridade, em sua desigualdade intrasponível, nisto que nomearemos sua diferença, é necessário pensá-las em relação ao destino do desejo” (LYOTARD, 2002, p. 59). Mas, por que a articulação das negatividades deve ser pensada em relação ao destino do desejo?
36Ora, vimos nos capítulos anteriores que a característica fundamental da ideologia era a instauração de uma