A primeira observação a ser feita, salientada por Laplanche e Pontalis, é que o termo alemão Phantasie foi traduzido pela edição francesa das obras de Freud por fantasma, termo mais restrito do que sua origem alemã, e que indicaria “determinada formação imaginária e não o mundo das fantasias, a atividade imaginativa em geral” (LAPLANCHE; PONTALIS, 2011, p. 152). A definição precisa que Laplanche e Pontalis fornecem de Fantasia fica clara nessa passagem: “roteiro imaginário em que o sujeito está presente e que representa, de modo mais ou menos deformado pelos processos defensivos, a realização de um desejo, e, em última análise, de um desejo inconsciente” (LAPLANCHE; PONTALIS, 2011, p. 152). A partir dessas considerações, os autores podem afirmar que “é o conjunto da vida do sujeito que se revela como modelado, estruturado por aquilo que se poderia chamar, para sublinhar o seu caráter estruturante, uma fantasmática” (LAPLANCHE; PONTALIS, 2011, p. 155). Apesar de reconhecer no capítulo O trabalho do sonho não pensa, que o conceito de fantasma era o fornecido por Laplanche e Pontalis, no capítulo seguinte Lyotard se distancia de uma noção de fantasma enquanto estruturante. É sobre a conivência entre desejo e figura que Lyotard marca seu distanciamento dessa noção de fantasma.
Lyotard é enfático: “há uma conivência radical da figura e do desejo. Ela é a hipótese que guia Freud na inteligência das operações do sonho” (LYOTARD, 2002, p. 271). Recusa, portanto, a submissão da noção de desejo à lógica do significante, a uma cadeia metonímica, como pensava Lacan. É aqui que a noção de transgressão mostra sua força, pois marca o movimento próprio do desejo. É a partir da caracterização dos três modos da figura que
Lyotard poderá estabelecer uma relação entre a figura e desejo: figura-imagem, figura-forma,
figura-matriz.
Brevemente, a figura-imagem, seria “o que eu vejo na alucinação do sonho [...] ela pertence à ordem do visível” (LYOTARD, 2002, p. 271); a figura-forma, pertence do mesmo modo ao visível, mas em geral não é vista, “a Gestalt de uma configuração, a arquitetura de um quadro, a cenografia de uma representação [...] em suma, o esquema” (LYOTARD, 2002, p. 271). Por fim, a figura-matriz, invisível por princípio, “objeto do recalque originário, imediatamente misto de discurso, fantasma ‘originário’” (LYOTARD, 2002, p. 271).
Alinhamento entre figura-matriz e fantasma ‘originário’.
Porque esses conceitos se alinham? É nesse ponto que Lyotard se distancia da posição de Laplanche e Pontalis, ao dizer que a figura-matriz, alinhada ao fantasma “é figura, entretanto, não estrutura, porque ela é imediatamente violação da ordem discursiva, violência feita às transformações que esta ordem autoriza” (LYOTARD, 2002, p. 271). A relação entre fantasma e figura, entre figura e desejo autoriza Lyotard a dizer que a matriz “atesta que o que está em jogo é o outro do discurso e da inteligibilidade” (LYOTARD, 2002, p. 271).
É preciso retomar, brevemente, a distinção que Lyotard faz entre matriz e estrutura: em linhas gerais, podemos dizer que a matriz é violação da ordem enquanto que a estrutura é ordem ou ordenação. Essa distinção é importante, pois busca se distanciar de uma concepção estruturalista do inconsciente. É essa distinção que permitirá pensar o campo figural como o espaço de aparecimento das operações de transgressão próprias ao desejo. Entre matriz e estrutura há uma diferença constitutiva:
Matriz e estrutura tem por propriedades comuns serem invisíveis e sincrônicas. Mas esses dois traços procedem, a seu modo, de qualidades absolutamente contrárias: a invisibilidade da estrutura é a de um sistema, que é um ser virtual, mas inteligível; sua inteligibilidade se marca precisamente na observação das regras formais, regras lógicas que definem as propriedades de um sistema em geral, regras internas de transformação. Poderíamos dizer que essas regras consistem sempre em definir uma operatividade, quer dizer, fixar de uma vez por todas convencionalmente os produtos das distâncias e as distâncias de produção. A negatidade [négatité] tem aí uma função essencial. O inconsciente, ao contrário, não conhece negação, ele ignora a contradição. (LYOTARD, 2002, p. 338).
Se levarmos em consideração as características fundamentais do inconsciente, tal como Freud as postulou, não é possível compreender em que medida ele poderia se estruturar
como uma linguagem, uma vez que o seu modo de aparecimento, seus efeitos, suas
da língua, que respeita a negação e evita a contradição. Lyotard pensará o fantasma originário, portanto, como matriz, cujas características são diferentes daquelas da estrutura. Com efeito, desde Ferdinand de Saussure, a marca fundamental da estrutura é ser um sistema diacrítico, isto é, constituído por oposições regradas que determinam o que é e como opera cada um de seus elementos. Em outras palavras, um elemento não é uma entidade positiva existente em si que vem se agregar a outros elementos igualmente tidos como entidades positivas; ele é pura diferença entendida como pura oposição. Ora, escreve Lyotard:
A matriz não é linguagem, nem uma estrutura da língua, nem uma árvore de discurso. Ela é de todas as ordens da figura a mais distante da comunicabilidade [...]. Ela acolhe o incomunicável. Ela engendra formas e imagens e é somente à partir dessas formas e imagens, que são seus produtos, que o discurso se coloca eventualmente a falar. (LYOTARD, 2002, p. 327).
Enquanto figura, a matriz traz em si o índice da transgressão, da ruptura dos espaçamentos regidos e opositivos que possibilitam a estrutura: “ela rompe com a regra de oposição” (LYOTARD, 2002, p. 339). Os três modos da figura se revelam como três modos de transgressão. Entretanto, esses modos de transgressão são possíveis através de uma transgressão primeira, matriz. Por isso, Lyotard poderá dizer que a figura-imagem marca a “transgressão do traçado revelador” (LYOTARD, 2002, p. 277), esse mesmo que vemos operado na cena onírica; a figura-forma marca a “transgressão da boa forma” (LYOTARD, 2002, p. 277), a gestalt ou estrutura que permite o pronto reconhecimento tanto da imagem quanto do texto; e a figura-matriz, que não pertence nem ao espaço plástico nem ao espaço
textual “é a diferença mesma” (LYOTARD, 2002, p. 277), ou seja, não pertence nem a um campo nem a outro, mas permeia os dois. Por isso, aqui, devemos dissociar a ideia de figura enquanto imagem ou como forma para compreendermos o alcance da figura-matriz: “discurso, imagem e forma lhe faltam do mesmo modo, ela que reside nos três espaços
juntos” (LYOTARD, 2002, p. 279). É a figura como traço, traço de um trabalho:
Isso quer dizer que antes de sua incorporação à ordem da linguagem [...] a figura é a marca, sobre as unidades e as regras da linguagem, de uma força que trata essas unidades e essas regras como coisas. Ela é o traço de um trabalho, e não de um saber por significação. Por esse trabalho, o que se realiza é o desejo. (LYOTARD, 2002, p.146).
Dois aspectos desse texto merecem ser destacados: 1) a figura-matriz é o que vem
como significação; e 3) a figura-matriz é o traço de um trabalho que realiza o desejo. Anterior à linguagem, relação com coisas e trabalho do desejo, a figura-matriz é uma atividade e não um saber, menos ainda um texto: esta é a álgebra lyotardiana.