6XUHQLQ.LPOL÷L
LQGLUGL÷LPL]NLWDSWÕU«´ 62
Bencini (2004) destaca que um passo grande e significativo foi dado com a Lei nº. 10.639/03 e acrescenta que, para que esta saia do papel é necessário acesso a material que aborde esta questão e formação sobre a temática racial na educação, o que exige muito estudo que deve partir com a busca por bibliografia específica sobre o assunto, de forma a impedir que venhamos a cair nos mesmos erros, de trazer o discurso sobre o negro para o interior das escolas, somente nas datas comemorativas, como o 18 de maio e o 20 de novembro, sem revisão histórica e tratando as manifestações culturais africanas como “folclore”.
Por outro lado, Wedderburn (2005) considera um grande desafio para o universo docente brasileiro o aprofundamento e divulgação da história da África, pois é necessário “[...] demolir os estereótipos e preconceitos que povoam as abordagens sobre esta matéria” (id. ibid., p. 160). E complementa, colocando que terão “[...] de defrontar com os novos desdobramentos da visão hegemônica mundial que se manifesta por meio das ‘novas’ idéias
que legitimam e sustentam os velhos preconceitos” (ibidem). O autor destaca ainda, três fatores essenciais que deverão ser conduzidos a partir dos estudos sobre a história da África. Assim, é necessário, segundo Wedderburn (2005, p. 161):
[...] uma alta sensibilidade empática para com a experiência histórica dos africanos, uma constante preocupação pela atualização e renovação do conhecimento baseado nas novas descobertas científicas, e uma interdisciplinaridade capaz de entrecruzar os dados mais variados dos diferentes horizontes do conhecimento atual para se chegar as conclusões que sejam rigorosamente compatíveis com a escola.
Consideramos importante também, que as universidades, através principalmente, dos seus cursos de licenciatura, são partes importantes desse processo e defendemos a urgência na reformulação dos seus currículos direcionando-os para a formação de professores para que adquiram conhecimentos que lhes dê condições de lidar adequadamente com a educação das relações étnico-raciais. Daí, se justificar uma forte mobilização dos movimentos negros exigindo que o Poder Público ofereça todas as condições necessárias para a garantia da eficácia da aplicabilidade da lei.
A Lei nº. 10.639/03 revela um reconhecimento da presença dos negros e afrodescendentes na nossa história e a sua importância para o desenvolvimento econômico do nosso país. Agora, é urgente buscar as transformações necessárias para que se modifique o processo de ensino-aprendizagem e garantam a eficácia do processo educativo.
Existe uma dificuldade enorme da parte dos educadores em lidar com estas questões. Daí ser necessário conhecimentos sólidos que lhes permitam lidar com a diversidade cultural na escola. Cruz (apud. ROMÃO, 2005), nos chama a atenção para a necessidade de pesquisas nesta área que venham contribuir nesta tarefa tão necessária colocada agora como uma responsabilidade da escola e dos educadores. Essa mesma autora ainda destaca a ausência de conteúdos da história da educação brasileira, que contemplem as trajetórias educacionais e escolares dos negros. Na fala dos professores entrevistados, notamos que entendem a necessidade de uma política de formação voltada para o conhecimento da História e Cultura Afrodescendente:
Nunca houve. Nunca em tempo algum e já vou me aposentar (PROFª. DA EDUCAÇÃO BÁSICA).
Eu acho importante, por que eu acredito que a gente se limita mesmo, a gente acostuma a limitar e só falar naquele período porque puxou o assunto, a gente só pega o fio da meada. Quando o cordão tá passando a gente segura e fala do assunto, se não passar ali, então se a data passar despercebida, o assunto não é nem percebido (PROFª. DA EDUCAÇÃO INFANTIL).
Na concepção de Valente (2005), a superação do problema passa pela elaboração “[...] de novas propostas e materiais didáticos para enfrentar a questão, e a construção de uma identidade negra positiva que se construa na relação com o branco e no reconhecimento da diferença” (id. ibid., p. 28). A autora coloca ainda, que apesar de representar um avanço, a avaliação dos livros didáticos de forma a evitar preconceitos, da elaboração dos Parâmetros Curriculares Nacionais sobre Pluralidade Cultural e da implementação da Lei nº. 10.639/03, é necessário buscar medidas que levem os professores a intervirem adequadamente na questão racial.
Daí, acreditarmos que uma proposta de formação de professores para trabalhar com esta temática se faz necessária e urgente, para que possamos ver a escola preparada para desmistificar estereótipos que ao longo dos anos têm servido para aumentar a distância entre negros e brancos. Devemos voltar a nossa atenção para a implementação de políticas universais e afirmativas que assegurem a eficácia de uma educação voltada para a igualdade racial, o que constitui um desafio que depende da:
[...] conjugação de esforços da União, dos Estados e dos Municípios no sentido de assegurar a definição dos parâmetros curriculares, a sistematização e a disponibilização das fontes bibliográficas, o desenvolvimento de uma metodologia para a capacitação de professores e a edição de materiais educativos destinados a professores, alunos e pais (POLÍTICAS DE PROMOÇÃO DA IGUALDADE RACIAL NA EDUCAÇÃO, s/d, p. 14).
Neste sentido, a questão do preconceito deve ser assumida prioritariamente pelo poder público estendendo-se esta responsabilidade à escola através de políticas universais e políticas afirmativas que corrijam esse quadro que ora se apresenta. Este trabalho passa principalmente pela formação de professores, atores fundamentais nesse processo, que muito poderão contribuir no redimensionamento da história da África, trazendo para a sala de aula elementos fundamentais na construção da nacionalidade brasileira.
Aos educadores cabe comprometerem-se com uma concepção democrática de educação, rompendo com o legado eurocêntrico que tem se colocado como obstáculo para a verdadeira compreensão da realidade histórica desse continente. Precisamos assim de pessoas atuando nas escolas, profissionais preparados para promover as mudanças que almejamos. Conhecer o verdadeiro sentido histórico do negro é promover o rompimento com a ignorância que tem gerado idéias preconceituosas e dificultado o exercício da cidadania de nossa população; é abrirmos o debate acerca da importância da afirmação de nossa identidade cultural enquanto um direito da pessoa humana. É reeducar para o
conhecimento da história de atores fundamentais no desenvolvimento do Brasil, como também nos dá o direito de conhecermos a nossa própria história.