4. YÖNTEM
4.1. Lokal Kesirli Türev
4.1.1. Lokal kesir türevli diferensiyel fonksiyonun sürekliliği
Como nos aponta Freud (1915-1917/1996), em Luto e Melancolia, dois destinos se anunciam para o ego quando confrontado ao imperativo do abandono dos primeiros objetos de amor, vítima do interdito do incesto. Ou bem o sujeito adolescente segue o caminho „normal‟ do abandono do objeto, acatando ao doloroso sofrimento implicado no processo de luto que comporta essa perda, se contentando com os outros objetos que irão se apresentar no mundo social. Ou pode ainda, recusar essa substituição, na medida em que ela é apenas um artifício mal-ajambrado, caindo numa cilada melancólica. Podemos então relacionar a entrada adolescente na cena social a uma passagem entre luto e
melancolia que irá orientar o ego em direção a um lugar de pertencimento ao
desejo do Outro.
mas também do ideal representado por esse alguém. O luto, nos diz Freud, seria um processo não-patológico, doloroso, que sofre o ego diante da perda de um ente querido, ou de alguma abstração ideal que se colocou no lugar deste ente. Já a melancolia difere, em aspectos ideais do desenvolvimento, de uma situação de luto, pois se inscreve numa situação de perda de um objeto ideal, e não real; “O objeto de amor talvez não tenha realmente morrido, mas tenha sido perdido enquanto objeto de amor (...)”(FREUD, 1915-1917/1996, p. 251)
O adolescente deverá se separar do ideal parental, perdê-lo, para ir em busca de um lugar no campo social, que lhe dará a possibilidade de compensar essa falta, via substituição por um outro objeto que venha fazer suplência a essa perda. Este processo pode se dar como passagem ou como fixação; como luto ou como melancolia. No caso de ser apenas uma passagem, trata-se do desenvolvimento ideal do ego, rumo à escolha objetal: àquela apontada por Freud (1921) em Psicologia de Grupo e a Análise do ego, e O ego e o id (1923), em que a identificação com os objetos parentais precede à escolha de objeto. No caso da
fixação melancólica a catexia objetal retrocede a uma identificação, e será o
próprio ego a ser investido como objeto de amor, assumindo a forma patológica de uma regressão ao narcisismo primário. No primeiro teríamos um tempo de luto, onde a perda do objeto passou pelas exigências do teste de realidade que constatou que objeto não existe mais (Freud, 1915-1917). O ego protestaria um pouco, mas se resignaria diante da realidade, fazendo progressivamente, o desligamento da libido em direção a outros objetos substitutivos. No processo melancólico, temos uma fixação que impede o reconhecimento da perda, pela via da regressão que irá identificar o próprio ego ao objeto de que não pôde abrir mão. Como nos diz Freud, existiria,
(...) num dado momento, uma escolha objetal, uma ligação da libido a uma pessoa particular, então, devido a uma real desconsideração ou desapontamento proveniente da pessoa amada, a relação objetal foi destroçada. O resultado não foi o normal Ŕ uma retirada da libido desse objeto e o deslocamento da mesma para um novo -, mas algo
diferente, para cuja ocorrência várias condições parecem ser necessárias. (...) a libido livre não foi deslocada para outro objeto; foi retirada para o ego. Ali, contudo, não foi empregada de maneira não especificada, mas serviu para estabelecer uma identificação do ego com o objeto abandonado. Assim, a sombra do objeto caiu sobre o ego, e este pôde, daí por diante, ser julgado por uma agente especial, como se fosse um objeto, o objeto abandonado.” (Freud, 1915-1917/1996, p. 254-255)
Mas o que faz o processo adolescente estar tão próximo da solução melancólica é que, ao contrário do luto, que mantém uma relação entre o objeto perdido e às vicissitudes da realidade, no caso da melancolia, a relação com o objeto é carregada da ambivalência primária dos sentimentos, suporte também de toda relação com o objeto de amor parental do qual o adolescente deve buscar de separar. “Na melancolia, em consequência, travam-se inúmeras lutas isoladas em torno do objeto, nas quais o ódio e o amor se digladiam.” (Freud, 1915-1917/1996, p. 261). A porta de saída de uma fixação melancólica é também apontada por Freud: se é a ambivalência dos sentimentos e o amor que ela implica que irá tornar o desapego ao objeto tão difícil, é ela também em sua corrente contrária, que progressivamente, irá dissolvê-lo, matando-o a cada dia, pouco a pouco.
Se, como dissemos, é a força da ambivalência dos sentimentos ao pai que irá fazer o adolescente mergulhar num tempo melancólico, será esta mesma força que o fará sair da cilada da fixação ao objeto de amor parental. O pai que é amado, e que por isso, dificulta que o adolescente se movimente rumo aos objetos do mundo exterior, é também, o pai odiado, aquele que como nos diz Freud (1913), em Totem e Tabu e o mito da horda primitiva, é o detentor de todas as mulheres do clã, e impede com sua autoridade, que os filhos realizem o encontro amoroso incestuoso. Por isso, é também esse mesmo pai, odiado, que impulsiona o adolescente a sair da fantasia do incesto, familiar, e o impele a cena social, onde “novos” objetos irão circular e serão escolhidos, fazendo suplência a satisfação primordial.
que, por ser também odiado, autorizava a saída adolescente rumo à escolha do objeto no social. Ele, esse pai, não suporta sustentar a ambivalência dos sentimentos do qual deve ser alvo, quer seja, pois está cada vez mais ausente na vida real Ŕ está preso, desapareceu, tem outra família -, quer seja, porque se operou nos últimos tempos, uma revolução em termos de parentalidade e seu papel na educação das crianças. Para fins desse tópico, traremos o debate acerca da passagem adolescente no cenário familiar do contemporâneo.
Assim, nos caberia fazer a seguinte pergunta, o que aconteceria, como é o caso nos dias de hoje, se os liames simbólicos entrassem em ebulição e a ordem familiar de outrora, dos tempos de Freud, entrasse em desordem? Veremos a seguir, de que forma esse laço familiar entra em desorde. (ROUDINESCO, 2002) e quais são as consequências para a passagem adolescente à cena social, via desapego ao objeto de amor parental. Ou seja, como o adolescente consegue aceder a dimensão de encontro com objeto sexual, num contemporâneo marcado por um Outro social anômico, incapaz de
responder ao sujeito com as balizas simbólicas que garantam sua existência
num campo de sentido. Diremos que responder, significa também, suportar- se enquanto Outro faltoso, permitindo que o sujeito se confronte com o mal- estar inevitável de sua condição. Diremos que responder é suportar a angústia de sua própria incompletude. E isso é extamente o que a cena social contemporânea tenta evitar ao se organizar sob a égide do discurso do capitalismo, que tenta apagar do sujeito a dimensão do mal-estar, preenchendo o furo de incompletude com os objetos de consumo, nas palavras de Lacan, gadgets. Veremos mais adiante os contornos desse Outro
anômico e sua incidência na organização da família contemporânea, o que não será sem consenquências para os modos de inscrição do adolescente a cena social.
Roudinesco (2002), em seu livro La famille en désordre, nos mostra como a instituição familiar sofreu, a partir do século XIX na Europa, enormes transformações. Primeiramente, a criança passa a ser um ser desejado e projetado pelo casal unido em matrimônio por amor. Nos diz a autora, “ (...) a criança passou a ser olhada, no seio da família burguesa, como um lugar da
transmissão do patrimônio, e como desejante, e não mais fabricada em série, sem controle.”24 (ROUDINESCO, 2002, p.123 trad. nossa). A mulher passa a adquirir
um estuto distinto e ganha direito ao reconhecimento de sua sexualidade, para além da pura e simples função reprodutiva. Ou seja, mulher e criança passam a ter um lugar, uma existência, enquanto sujeitos no seio da instituição familiar, enquanto que a função do patriarca, pouco a pouco irá perder seu poder e autoridade sobre seus membros.
Constatar esse declínio da autoridade paterna nas sociedades ocidentais no decorrer dos tempos, e traçar os novos contornos que adquirem a família até o século XXI, não é o objetivo dessa tese. Partiremos desse fato como constatação. Que essa nova ordem simbólica tenha se constituído aqui e lá de forma distinta, sendo legitimada pela modificação da lei jurídica de cada país, é fato incontestável e alguns trabalhos o atestam (ROUDINESCO, 2002; BADINTER, 2010) Menos específico de cada sociedade é o efeito que as descobertas científicas tiveram nessas mudanças, como por exemplo é o caso, da comprovação da paternidade via teste de DNA, da disseminação dos métodos contraceptivos que deram as mulheres o poder de decisão sobre o próprio corpo e a sexualidade, e a criação de terapias reprodutivas que fizeram nascer crianças desejadas não mais por um casal, mas apenas por uma de suas partes. Ainda, nas palavras de Roudinesco,
Desde sempre, os homens, incapazes de reproduzirem por si só seus semelhantes, tiveram de aceitar e se submeter às mulheres para fabricarem seus filhos para que pudessem transmitir seu nome. Resignados a lhes confiarem essa tarefa, eles cuidadosamente, regulamentaram e dominaram os corpos de suas companheiras, notadamente, pela rejeição dos „bastardos‟, e pela instituição do casamento, que pressupunha (...) que a mulher fosse totalmente fiel. E agora, elas escapolem e reivindicam o direito ao prazer, recusando
24 Do original consultado: “(...) l‟enfant fut alors regardé, au sein de la famille bourgeoise, comme
un placement dans la transmission du patrimoine, et comme un être désirable, et non plus fabriqué à la chaîne sans contrôle. » In : ROUDINESCO, E. (2002) La famille en désordre. [Paris] : Fayard p. 123.
seu dever de procriação.25 (ROUDINESCO, 2002, p.184, trad. nossa)
Rosa (2006) irá alertar sobre as modalidades discursivas do contemporâneo que irão incidir sobre a parentalidade, impossibilitando a inscrição da criança enquanto sujeito do inconsciente, a partir da construção de um romance familiar que seja capaz de lhe atribuir um lugar como desejada por alguém. Num mundo onde não é preciso dois para se gerar uma criança, não é necessário mais nenhum para se transmitir um saber sobre ela. Diante de todo o aparato científico e suas síndromes, os pais relegam aos especialistas o saber sobre seus filhos: não se pode nem mais alimentar uma criança sem antes consultar um especialista da alimentação infantil, ou antes da leitura de dezenas de livros sobre os ideais da alimentação e do cuidado com as crianças.
Esses dispositivos, ao invés de se articularem a um saber singular que detém os pais para com seus filhos, servem, ao contrário, para destituí-los de qualquer autonomia e savoir-faire generacional sobre a criança. De acordo com a autora, haveria um apagamento do discurso familiar (relação pai-filho) em prol de um discurso social fundado sobre a díade adulto-criança. Seria próprio ao discurso familiar a transmissão dos significantes da filiação parental, seus sintomas e a chave para o encontro com o Outro sexo.
Já o discurso social contemporâneo, ancorado na díade adulto-criança, relegaria a diversos agentes sociais, especializados, portadores de um conhecimento científico, a função de passagem desta criança à vida adulta; “A eles é oferecido apenas o discurso sobre a criança; uma criança que não lhes diz respeito, que não é filho.” (ROSA, 2006, p. 126)
Se podemos elaborar nesse ponto da tese, a afirmação de que a cena
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Do original consultado: Depuis toujours, les hommes, incapables de reproduire eux-mêmes leurs semblables, avaient dû accepter de s‟en remettre aux femmes pour fabriquer leurs fils et transmettre leur nom. Contraints de leur confier cette tâche, ils avaient soigneusement réglementé et dominé le corps de leurs compagnes, notamment par le rejet des « bâtards » engendrés par eux et par l‟institution du mariage, qui supposait, (…), que la femme fût absolument fidèle. Et voilà que maintenant elles leur échappaient en revendiquant le droit au plaisir, en négligeant leur devoir procréatif. » Ibidem, p. 184.
social seria (des-) organizada sob a égide de um Outro anômico, será a partir de suas incidências efetivas no corpus da instância familiar. Para isso, devemos nos debruçar sobre o entrecruzamento de três noções: função paterna, Outro e anomia. Sobre a função paterna e seu declínio na contemporaneidade, Rosa (1999), em artigo intitulado A subjetivação nas configurações familiares da “pós-
modernidade26” irá constatar que a discussão não é recente, e que mesmo Freud
já havia detectado que sua presença e sua função no seio da instituição familiar, já dava provas de profundas alterações. Em seu lugar, nos diz a autora se apoiando sob as considerações de Volnovich, serão os saberes sociais do pediatra, do psicólogo, etc, que irão garantir a eficiência da organização familiar. Em suas palavras,
(...) os mecanismos de normas, ideais e identificação são apoiados nas insígnias paternas, derivados da função paterna (...)Volnovich pensa que ocorreu o que Freud mais temia, isto é, que houve a queda do significante pai e sua substituição por um conjunto de saberes, mudando o sintoma social por excelência, ou seja, o próprio indivíduo. Segundo o autor, a queda do significante pai resultou numa fragmentação no nível familiar e numa metaforização do conjunto de saberes sobre o gozo que nos aproximam à idéia de que atualmente o sintoma qua amarra os homens à modernidade é o narcisismo.” (ROSA, 1999, p. 101)
A queda do significante paterno pode ser vista, como demonstramos acima com Rosa (2006) e Roudinesco (2002), nas incidências jurídicas que regulamentam a autoridade parental e da existência não mais necessária do casal para a procriação. Ela incide sobre a emergência do sujeito e sua ligação à instância imaginária do ideal. Lacan, a partir da metáfora Desejo da mãe (DM), irá afirmar uma alienação primordial do bebê à imagem materna, seu primeiro Outro
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ROSA (1999), A subjetivação nas configurações familiares da “pós-modernidade. In: Psicanálise e Universidade, São Paulo, v. 9/10, p. 79-104, 1999.
(LACAN, 1957-58/1999), ao que irá se sobrepor o significante Nome-do-Pai (NP) e sua função de corte do imaginário pelo simbólico da lei.
Em Lacan, assim como em Freud, a primeira relação entre eu-outro, se dá com a chegada à fase narcísica. É no estádio do espelho que o bebê reconhece sua imagem como espelho de um Outro, imagem perfeita refletida da mãe, que o confronta com sua ainda fragmentação subjetiva. Assim, “(...) o sujeito tem sempre uma relação antecipada com sua própria realização, que o lança de volta ao plano de uma profunda insuficiência e revela nele uma rachadura, um dilaceramento original (...)”. (LACAN, 1952/2008, p. 41).
No Seminário V (1957-1958/1999), Lacan teoriza sobre a estruturação do desejo do sujeito, como submetido ao de um Outro, inicialmente ao desejo da mãe Ŕ desejo de ter sido desejado por um Outro: “(...) o importante é fazê-lo reconhecer, em relação ao que é um X de desejo na mãe, de que modo ele foi levado a se tornar ou não aquele que atende a esse desejo, a se tornar ou não o ser desejado.” (LACAN, 1957-1958/1999, p. 283). Lacan irá apontar ainda, a importância da descoberta freudiana da dialética do desejo que necessita da intervenção de um terceiro, o pai, personagem desejado ou rival. Será essa intervenção, o operador do interdito da superpotência do desejo materno. E o símbolo geral que marca a alienação do desejo ao campo do Outro, será o falo, o organizador da dialética do desejo como falta, como desejo alienado à ordem simbólica. Nas palavras de Lacan,
Na relação imaginária, como vocês sabem, a imagem de si, do corpo, desempenha no homem um papel primordial, e acaba dominando tudo. A eletividade dessa imagem no homem está profundamente ligada ao fato de que ele está aberto à dialética do significante da qual falamos. A redução das imagens cativantes à imagem central da imagem do corpo não deixa de estar ligada à relação fundamental do sujeito com a tríade significante. Essa relação com a tríade significante introduz o termo terceiro através do qual o sujeito, além de sua relação dual, de sua relação de cativação com a imagem, pede, por assim dizer, para ser significado.” (Lacan, 1957-1958/1999, p. 284)
No entanto, essa operação de significação que marca a entrada do sujeito na civilização não é sem perda para o sujeito. Ele deverá abrir mão do gozo que na tenra infância era experimentado pela completude da relação imaginária entre o infans e sua mãe. Essa perda de gozo para sempre irrecuperável, apareceu na clínica freudiana a partir da compulsão a repetição, o que fez o psicanalista a afirmar a existência de uma pulsão de morte. Resumidamente, o conceito de pulsão de morte começa a ser esboçado a partir da hipótese repressiva.
A repressão partirá do ego sobre as catexias libidinais objetais que se satisfeitas lhe causariam desprazer. Em suma, esse material reprimido retorna, então, sob a forma de uma compulsão. Como não pode eclodir tende a repetir-se indefinidamente. Grosso modo, isso foi o que Freud denominou „compulsão à repetição‟ tão bem ilustrado em seus exemplos sobre os sonhos daqueles que padecem de neuroses traumáticas, nos jogos „fort-da‟ das crianças e na relação transferencial com o analista. O material reprimido que retorna sob a forma da repetição é extremamente doloroso e avesso às exigências impostas pelo
Princípio do Prazer, assim Freud irá relacioná-lo a uma pulsão mais primitiva do
aparelho psíquico, a pulsão de morte.
Será essa evidência clínica de Freud, que fornecerá a Lacan as bases iniciais para a elaboração de sua teoria do objeto a: um quarto elemento a ser incluído na lógica terciária do esquema edipiano normatizador freudiano, fundado na tríade criança-mãe-pai. O sistema quaternário da Lacan já estava disposto no texto de 1952, O mito indivudual do neurótico ou Poesia e verdade na neurose. Ele nos aponta no seguinte trecho: “O sistema quaternário, tão fundamental nos impasses, nas insolubilidades da situação vital dos neuróticos, tem uma estrutura bem diferente daquela dada tradicionalmente Ŕ o desejo incestuoso da mãe, a interdição do pai, seus efeitos de barreira e, em torno disso, a proliferação mais ou menos luxuriante dos sintomas.” (Lacan, 1952/2008, p. 39).
Para Jacques Lacan, esse sistema de três pontas freudiano, circunscrito no seio da família conjugal, presume que a função simbólica
desempenhada pelo interdito paterno, conseguiria ter uma eficácia ideal que daria conta de recobrir com o simbólico, todas as manifestações do real, ou seja, do gozo. Como o próprio Freud havia percebido, esse real não cessa de não se inscrever, e se repete. Mas, esse mesmo pai é também castrado e a lei que deve transmitir, a lei da linguagem, é ela mesma inconsistente.
Vemos aí se delinear a concepção lacaniana de que o Outro é ele mesmo barrado (Ⱥ), ou seja, submetido as leis da linguagem, já tendo sido marcado pelo efeito do significante (Lacan, 1957-1958/1999). Dessa forma, continuamos com Lacan,
A assunção do pai pressupõe uma relação simbólica simples, em que o simbólico recobriria plenamente o real. Seria preciso que o pai não fosse somente o nome-do-pai, mas representasse em toda a sua plenitude o valor simbólico cristalizado na sua função. Ora, é claro que esse recobrimento do simbólico e do real é absolutamente inapreensível. Ao menos numa estrutura social como a nossa, o pai é sempre, por algum lado, um pai discordante com relação à sua função, um pai carente, um pai humilhado (...)”.(Lacan,1952/2008, p. 39).
Será o pai simbólico o agente responsável pela inscrição da Lei no seio do sujeito. Trata-se de uma inscrição no registro simbólico da linguagem, que funda a existência do ser como homem da cultura, marcado pelos interditos civilizatórios. Mas esse pai é ele mesmo castrado, carente e humilhado, nas palavras de Lacan, diferente do pai imaginário todo-poderoso. E é somente por isso, que é capaz de transmitir a Lei, pois que também é a ela submetido. Deve- se entender aqui a diferença entre o pai-imaginário todo-poderoso, não-castrado, e o pai-simbólico, pois este, pelo fato de ter assentido à Lei é capaz de transmiti- la. O primeiro impõe a Lei a todo custo e é o fundador da instância do supereu; o outro, transmite a castração e insere o filho no mundo da cultura. Rosa (1999), irá corroborar as análises de Julien (1998) sobre a função simbólica do pai para além da fixação imaginária que pode produzir esse pai todo-poderoso. Em suas
palavras,
(...) para além do pai imaginário e ideal, para além do amor e do ódio ao pai, o luto por ele só se dará quando houver como pai um homem que não se identifique com a imagem de soberano ou se arvore em fazer lei para tudo, um homem que encontra gozo junto à mulher e não ao filho. (...) Fala de relações não complementares ou narcísicas mas fundadas na ética e na alteridade, com a sexualidade marcada pelo