2. LİTERATÜR ARAŞTIRMASI
2.8. Kesir Türevli Adi Diferensiyel Denklemin Derecesi
Se na teoria freudiana, a questão da linguagem aparecia apenas de maneira discreta Ŕ mesmo que insistente, na figura dos lapsus, dos chistes -, na obra de Lacan, ela ganhará a cena principal quando o psicanalista irá firmar que o
inconsciente é ele mesmo estruturado como uma linguagem. Freud, em Trois essais sur la theorie sexuelle (1905), aborda o interesse inicial das crianças pelo
enigma da diferença dos sexos, quando o menininho se surpreende com o fato de que a menina não possui o pênis. Trata-se de uma constatação anatômica: ter ou
não ter pênis; o que levará Freud (1923) a afirmar que haveria um primado do
falo: “para os dois sexos, apenas um orgão genital, somente o orgão masculino desempenha um papel. Logo, não é que exista um primado genital, mas sim um primado do falo.” (FREUD, 1923/1969, p.114, trad. nossa)14.
O menininho, quando confrontado com a ausência do pênis, nega que exista uma falta, ou melhor, irá explicar a falta como o resultado de um castigo: a menina tinha o pênis, mas ele lhe foi tirado. E será sua mãe a última das mulheres a ser castrada: “(...) longe de generalizar, a criança acredita que apenas as pessoas femininas indignas tiveram de pagar o castigo de perda do orgão genital; pessoas que, como ele, são culpadas dessas moções interditadas. Mas, as mulheres respeitadas, como sua mãe, guardaram o pênis por mais tempo. (FREUD, 1923/1969, p.116, trad. nossa).15 » O que levará Ouvry (2006) a afirmar
14 Consultado originalmente : “(...) pour les deux sexes, un seul organe génital, l‟organe mâle, joue
un rôle. Il n‟existe donc pas un primat génital, mais un primat du phallus. » In : FREUD, S. (1923) L‟organisation génitale infantile. In : La vie sexuelle. [Paris] : PUF, 1969.p. 114.
que não há, na infância, acesso possível a consistência do Outro sexo.
Esse encontro, para se cumprir deverá contar com a mediação de um Outro, que cuidará de inscrever esse encontro no simbólico, na cultura. Será pela via da linguagem que o acesso ao Outro sexo poderá ser encenado. Isto porque, no humano, diferente dos animais onde o encontro sexual é da ordem do realizável - o instinto constitui este saber, no real, que guia os animais pelos caminhos do sexo de modo uniforme -, não haveria nunca qualquer garantia de acesso ao Outro sexo. E se, na infância, não se pode conceber o Outro sexo, na adolescência, ao contrário, se é confrontado a ele, graças ao curto-circuito pulsional trazido pelo real do corpo. Nas palavras de Matheus,
Entende-se que a puberdade pode por vezes funcionar como elemento disparador do segundo momento da sexualidade, mas não como condição necessária. É, sobretudo, a partir do olhar do outro, ou da imagem especular que este anuncia, que surge, para o sujeito, um corpo estranho, um componente novo em seu psiquismo que não encontra registro entre os recursos simbólicos disponíveis. Esse olhar e essa imagem não estão presos à concretude da realidade, uma vez que esta é sustentada pelo campo simbólico que a fundamenta e acompanha. Da
realidade, busca-se ao menos um grão que sirva de suporte
para o real a ser, disparado pela estranheza do olhar do outro. São as imagens de um corpo transformado, produzidas em meio a este ou a tantos outros, que instigam o retorno do recalcado, inaugurando o segundo momento da sexualidade. É por esse motivo que o momento adolescente independe imediatamente da puberdade, pois está atrelado aos sentidos que aquele corpo conquista nos laços nos quais se inscreve.” (MATHEUS, 2008 p. 622)
Tal é o caso que vemos com uma certa recorrência em nossos dias, de adolescentes que brincam de expor o corpo do outro e mesmo o corpo próprio
féminines indignes ont payé amende de l‟organe génital, des personnes qui vraisemblablement se sont rendues coupables comme lui-même de motions défendues. Mais des femmes respectées, comme sa mère, gardent encore longtemps le pénis. In :FREUD, S. (1923) L‟organisation génitale infantile. In : La vie sexuelle. [Paris] : PUF, 1969.p. 114.
com gravações destinadas, ou não, a serem exibidas e publicizadas na internet. Em nosso trabalho, presenciamos, o seguinte episódio: adolescentes entre 14/15 anos que, de posse de um telefone celular equipado de uma pequena câmera, instigam duas crianças de 8 anos a encenarem um ato sexual. Esses adolescentes lhes instigam, ou melhor dirigem uma encenação de um ato, orientando as duas crianças em relação aos movimentos a serem realizados pelo corpo de ambos. Tudo isso é filmado e descoberto rapidamente pelos adultos da escola; descoberto tão facilmente que nos leva a crer no endereçamento deste pequeno vídeo.
Lacan (1956/1998) em O seminário sobre a “carta roubada”, nos aponta sobre a importância da transferência da responsabilidade daquele que escreve a carta, em nosso caso, aqueles que participam e são autores do vídeo, para a responsabilidade daqueles que detém o vídeo, seu destinatário final. O vídeo em questão não foi tornado público via internet, mas foi passado de mão em mão (de telefone a telefone) até chegar nas mãos da direção da escola.
Entendemos que essa encenação do ato sexual, para aqueles que a orquestraram, constitui uma forma de abordar o excesso do real do corpo que invade o sujeito adolescente, difícil de ser simbolizada por eles mesmos, e por isso, endereçada a um Outro que por ele deve responder e, assim ajudá-lo a simbolizar esse excesso de real. Rassial (2010), em seu livro Le passage
adolescent, nos dirá que a adolescência é o tempo subjetivo em que a imagem do
corpo-próprio, construída na infância, é desestabilizada, « (...) ou seja, não mais apoiado no olhar e na voz materna e no falo paterno, mas já inserido na relação ao Outro sexo (...)” 16 (RASSIAL, 2010, p. 73, trad. nossa).
Mas também, esse episódio, nos força a seguinte interrogação: Por que os escolhidos como atores principais dessa encenação sexual foram duas crianças e não os próprios adolescentes, seus mestres - de - cerimônia? Pois, se na adolescência o possível do encontro sexual é atualizado sob a forma da promessa irrealizável, é somente, na infância que este encontro é da ordem do
16
Consultado originalmente: “ (...) c‟est-à-dire non plus soutenue par le regard et la voix de la mère et le phallus paternel mais engagé dans la relation à l‟autre sexe (...) » RASSIAL, J.-J. (1996) Le
possível, do encontro com o objeto de satisfação antes de ser perdido para todo sempre. Por isso, não é mera força do acaso que os atores da cena tenham sido as crianças, pois apenas elas podem podem ter a experiência da completude imaginária.
Vejamos como a questão adolescente se atualiza com a desestabilização da imagem do corpo próprio garantida pelo olhar da mãe e também pelo confronto com a dimensão do Outro sexo, simbolizado por meio da lei. A questão da imagem do corpo próprio foi trabalhada por Lacan no início de sua obra, no texto O estádio do espelho como formador da função do eu (1949/1998), e em Les complexes familiaux dans la formation de l‟individu (1938/2001). O estádio do espelho seria o momento inaugural, onde a partir da idade de seis meses, o bebê humano se surpreende com o ordenamento perceptivo da imagem de si, a partir da imagem de um Outro que se mostra ao seu lado diante do espelho. Este seria o início de uma fase narcísica e o ultrapassamento da fase auto-erótica do corpo fragmentado. Em Lacan, será pela função do olhar que a criança sairá, progressivamente, da confusão de um corpo despedaçado, graças a ilusão de um ideal da imagem de um Outro. Nas palavras do psicanalista, “(…) a unidade que ela introduz nas tendências, irá contribuir, portanto, para a formação do eu. Mas, antes que se possa afirmar sua identidade, o sujeito se confundirá com essa imagem que o forma, mas que também o aliena primordialmente.” 17 (LACAN, 1938/2001, p. 43, trad. nossa).
Ainda, em Les complexes familiaux, Lacan colocará o acento na importância traumática do complexo de intrusão e do sentimento do ciúme para o reconhecimento de um outro como objeto e para a constituição do moi nessa etapa da tenra infância.
Assim, o sujeito preso por identificação ao ciúme, chega a uma nova alternativa : ou bem ele reencontra o objeto materno e irá se agarrar a recusa do real e a destruição do
17 Do original consultado :: “(...) l‟unité qu‟elle introduit dans les tendances contribuera pourtant à la
formation du moi. Mais, avant que le moi affirme son identité, il se confond avec cette image qui le forme, mais l‟aliène primordialement. » LACAN, J. (1938) Les complexes familiaux. In : Autres Ecrits. [Paris]: Éditions du Seuil, 2001. P. 43.
outro ; ou bem, conduzido a qualquer outro objeto, ele irá recebê-lo segundo o modo característico do conhecimento humano, como objeto comunicante, na medida em que toda concorrência indica rivalidade, mas também, acordo. Mas, ao memso tempo, ele reconhece o outro com o qual ele entra na luta ou faz um contrato, resumindo, ele encontra, ao mesmo tempo, o outro e o objeto socializado.18 (LACAN, 1938/2001, p. 43 trad. nossa).
Assim, no início de sua obra, Lacan irá afirmar que o processo de socialização do sujeito se faz, como em Freud, via identificação; o ciúme entre irmãos do complexo de intrusão não seria a prova de uma rivalidade vital, mas sim, de uma identificação mental (Lacan, 1938/2001). Esta idéia de uma rivalidade vital, será retomada por Lacan, como a chave-mestra em sua argumentação sobre os dois tempos da subjetivação: alienação e separação. Como iremos desenvolver mais adiante, no capítulo III desta tese, o conceito de alienação será fundamental para entendermos as etapas do desenvolvimento do [eu/moi] e sua relação com o registro imaginário da alteridade (eu e tu), bem como a emergência do sujeito [je] como efeito do significante, entrada no campo do simbólico, do Outro na obra de Lacan.
O conceito de alienação na obra de Lacan, será analisado por Poli (2003), que irá apontar três tempos do desenvolvimento desta noção na obra do psicanalista: o primeiro deles estaria presente no texto do Estádio do Espelho (1949/1998) e seria da ordem de uma alienação primordial. Lacan irá situar, no início de sua obra, o [eu] - moi, produto das identificações -, numa relação de submissão à imagem especular garantida por um Outro, representado, inicialmente, pela imago materna. Neste tempo, o operador da alienação é a imago materna da qual a criança deverá se separar, deixando de ser o objeto do
18
Do original consultado : « Ainsi le sujet, engagé dans la jalousie par identification, débouche sur une alternative nouvelle où se joue le sort de la réalité: ou bien il retrouve l‟objet maternel et va s‟accrocher au refus du réel et à la destruction de l‟autre; ou bien, conduit à quelque autre objet, il le reçoit sous la forme caractéristique de la connaissance humaine, comme objet communicable, puisque concurrence indique à la fois rivalité et accord ; mais en même temps il reconnait l‟autre avec lequel s‟engage la lutte ou le contrat, bref il trouve à la fois l‟autrui et l‟objet socialisé. In :LACAN, J. (1938) Les complexes familiaux. In : Autres Ecrits. [Paris]: Éditions du Seuil, 2001. P. 43.
gozo da mãe, para aceder a dimensão do sujeito do inconsciente, se alienando ao significante.
A partir daí, o operador da alienação passa a ser o significante Nome- do-Pai que irá introduzir no conflito do tempo edipiano, uma promessa: uma promessa de satisfação adiada, que fará que o véu encobridor do sexual, repouse sobre a criança nos tempos da latência. Ou seja, pelo conflito funcional do Édipo,
a “repressão aparece como um ideal de promessa” (Lacan, 1938/2001, p. 57).
Nas palavras de Lacadée,
Após haver dado, nesses termos, a definição do sujeito e do significante, como “o significante é aquilo que representa o sujeito para um outro significante‟, Jacques Lacan tratou das condições dessa representação, chamada operação lógica de causação do sujeito, que supõe um tempo da alienação e um tempo de separação; tempos que permitem a inscrição do sujeito na linguagem. Assim, esta operação produz, de um lado, o sujeito do incosnciente, ou seja, o sujeito inscrito no significante e, de outro lado, relaciona esse sujeito a um elemento não significante que Lacan chamou de objeto. O agente desta operação de separação é o encontro com o desejo do Outro precebido nos intervalos de seu discurso, que irá ligar o sujeito ao objeto enigmático deste desejo.”19
(LACADÉE, 2003, p.97 trad. nossa)
A criança de desloca da posição de ser o objeto do gozo da mãe, e, como forma de se defender da ausência desse Outro primordial do qual se faz objeto, elege um objeto do mundo externo, com o qual irá gozar, como forma de
19
Do original consultado : Après avoir donnée la définition du sujet et du signifiant en ces termes « le signifiant est ce qui représente le sujet pour un autre signifiant », Jacques Lacan a abordé les conditions de cette représentation, appelée opération logique de causation du sujet, qui suppose un temps de aliénation et un temps de séparation, temps permettant l‟insertion du sujet dans le langage. Ainsi, cette opération produit, d‟une part, le sujet de l‟inconscient, c‟est-à-dire le sujet inscrit dans le signifiant et, d‟autre part, corrèle ce sujet à un élément non signifiant que Lacan a appelé l‟objet. L‟agent de cette opération de séparation est la rencontre du désir de l‟Autre entraperçu dans les intervalles de son discours, qui réfère le sujet à l‟objet énigmatique de ce désir. » In : LACADÉE, P. (2003) Le malentendue de l‟enfant. Des enseignements
dar conta da falta desse primeiro Outro. Nas palavras do psicanalista, “Este objeto irá lhe permitir tratar a falta do Outro pela entrada do objeto olhar, e de recobrir o vazio da castração que implica a partida de sua mãe, o que colocará em evidência a castração do Outro, expondo sua falta.” »20 (LACADÉE, 2003, p.91
trad. nossa). Temos aqui, o momento da inscrição no campo do simbólico, onde o sujeito deve abrir mão do gozo e ficar com a promessa de um dia poder também gozar. Nesta operação algo se perde, o objeto a, causa do desejo, responsável pela circulação do sujeito na cadeia significante. O sujeito se constitui por relação a uma falta e, supõe no Outro, o detentor de uma verdade que lhe permita aceder a este momento primeiro, anterior, onde carne e corpo libidinal não estavam ainda cindidos. Nas palavras de Lesourd (2005),
Neste confronto inevitável, o adolescente irá encontrar uma das figuras da falta no Outro, que até agora ele havia conseguido evitar, ou até mesmo, ignorar. Diante da descoberta de que a promessa edipiana Ŕ “mais tarde quando serei grande, eu poderei ...” Ŕ é um engano, é toda a organização significante que é desestabilizada. Não haverá mais resposta possível aos enigmas da vida e do sentido, nada mais de significação última que organizaria os significantes lhes atribuindo um certo ordenamento.21 (LESOURD, 2005, p. 56 trad. nossa)
É, então, essa conta do gozo perdido e prometido que vêm o adolescente cobrar. Mas, qual é sua surpresa? De que não há, no campo do Outro, esse significante que dê provas de sua verdade enquanto sujeito, e que
20 Do original consultado: “Cet objet lui permet de traiter le manque de l‟Autre par la mise en jeu de
l‟objet regard et de voiler le vide de la castration qu‟implique le départ de sa mère, départ qui a révelé la castration de l‟Autre, en dévoilant son manque. Ibidem, p. 91.
21 Do original consultado: « Dans cette confrontation inévitable, l‟adolescent va rencontrer une des
figures du manque dans l‟Autre, que jusqu‟alors il avait pu éviter, voire l‟ignorer. Face à la découverte que la promesse œdipienne Ŕ “plus tard, quand je serai grand, je pourrai ...” Ŕ est un leurre, c‟est toute l‟organisation signifiante qui est bouleversée. Plus de réponse possible aux énigmes de la vie er du sens, pas de signification dernière qui organiserait l‟ensemble des signifiants en les ordonnant. » In :LESOURD, S. (2005) La construction adolescente. Collection Hypothèses. [Strasbourg] : Éditions Arcanes. 2005. p. 56.
esse Outro não detém a chave para o seu encontro singular com o sexual. Assim, o sujeito adolescente, tendo se submetido à castração, estará fadado ao desencontro do sexual: « (...) a lei da castração (…) leva o ato sexual a um eterno ato falho, onde não cessam de se verificar a ausência da relação sexual, derrota em reunir sujeito e Outro como corpo.”.”22
(OUVRY, 2001, p.64 trad. nossa).
Essa teorização é possível, graças ao terceiro tempo do conceito de alienação na obra de Lacan, cujo operador é o significante. O terceiro tempo do conceito de alienação apareceria no Seminário XI Ŕ Os quatro conceitos
fundamentais da psicanálise (1964/1998), onde Lacan se afasta da fonte de
inspiração hegeliana ao elaborar sua teoria do objeto a, que daria provas que o campo do Outro é também faltoso. Nas palavras de Poli (2003), não haveria um significante pleno que garanta a significação do sujeito, ele falta ao também ao campo do Outro. O sujeito se desloca, na adolescência, de uma promessa de gozo fálico (masculino), para cair no impossível da satisfação sexual, do Outro sexo, representado como falta, como feminino. Neste momento, em que a imago parental é colocada em xeque, o adolescente corre em busca de um Outro discurso que possa orientá-lo em sua busca pelo encontro com o objeto de amor, no social, que fará suplência a sua falta. Nas palavras de Poli (2003),
A mãe, como Outro do infantil, é o agenciador do discurso para a criança, o endereço da demanda e, portanto, o lugar da alienação primária. Na adolescência, ele é substituído pelo Outro sexo Ŕ o feminino, tanto para meninos quanto para meninas; o que implica na constatação da sexualidade materna, à qual se deve, muitas vezes, os momentos de angústia do púbere. Em termos de organização discursiva, tal modificação no Outro, produz efeitos de “perda de bússola” (POLI, 2003, p. 149).
22 Do original consultado : “(...) la loi de la castration (...) ramene l‟acte sexuel à un éternel acte
manqué où ne cessent de se verifier l‟absence de rapport sexuel, l‟échec de reunir sujet et l‟Autre comme corps. » In : OUVRY, O. (2001) Le Féminin comme nouveauté pubertaire. In: Le feminin: un concept adolescent ? Sous la dir. de Serge Lesourd. [Ramonville-Saint-Agne] : Erès , 2001. p. 64.
É por isso que nesta passagem, onde o adolescente irá se confrontar com a ferida aberta Ŕ traumática Ŕ deixada pelo real da castração, a partir do qual o sujeito irá inscrever seu gozo na Lei da linguagem, da civilização, será fundamental encontrar um lugar de pertencimento no discurso social. O mesmo trabalho de inscrição deverá ter sido feito na cena familiar infantil, aonde pai e mãe, investiram simbolicamente a criança com seu desejo parental, não anônimo. “Da mãe : enquanto que seus cuidados carregam a marca de um interesse particular, pela via de suas próprias faltas. Do pai: enquanto que seu nome é o vetor da incarnação da Lei no desejo.”»23
(LACAN, 1961/2001, p.373 trad. nossa)
Rosa (2002; 2006), irá aprofundar essas questões do lugar de incrição da criança e do adolescente na família e no socius. No artigo O lugar da criança e
a família na contemporaneidade (2006), irá discutir as reconfigurações que o
discurso da parentalidade vêm enfrentando na sociedade atual, regida pelos mandos e desmandos do discurso da ciência que abole a dimensão da falta do seio da construção do sujeito, considerando os indivíduos apenas como corpos biológicos. Nos diz que enfrentamos uma crise na concepção de família, o que nos convoca a reconsiderar seus princípios fundadores. Prossegue em sua argumentação ao desnaturalizar a função materna e paterna, ligando-as ao imaginário social que as produz.
Exercer as funções maternas e paternas supõe mais do que certa estrutura subjetiva. O sujeito da linguagem constituído pelo discurso do Outro é impregnado pela produção imaginária do grupo social, na medida em que contém fantasmas desses grupos. É desse fantasma que advém a inscrição de um lugar discursivo para o exercício das funções parentais; estas supõem uma inscrição que transcende o desejo ou a vontade de cada um, pois cada sociedade fabrica pai para filho, designação que não é
23 Do original : “De la mère: en tant que ses soins portent la marque d‟un intérêt particularisé, le fût-
il par la voie de ses propres manques. Du père : en tant que son nom est le vecteur d‟incarnation de la Loi dans le désir. » IN : LACAN, J. (1969) Note sur l‟enfant. In : Autres Ecrits. [Paris]: Éditions du Seuil, 2001. P. 373.
arbitrária. Ter pai significa que o sujeito não se auto-funda. (ROSA, 2006, p. 121)
No contexto da contemporaneidade, onde as coordenadas sociais são anômicas, a família enquanto função territorializante, garantidora de um lugar subjetivo para criança, pode ela mesma, ser produtora de desamparo e geradora