• Sonuç bulunamadı

4. YÖNTEM

4.5. Tam Çözüm Yöntemleri

4.5.5. Birinci integral yöntemi

Estamos no espaço da Oca, que do tupi-guarani significa casa de índio, esta espécie de reduto da palavra, construído pelos próprios alunos, que se situa fisicamente no jardim da escola; num entre a instituição e a rua. Antes que fosse habitada por nossa presença, a Oca era apenas mais um espaço da institução. Certo, um espaço que carregava um história particular, a de ter sido construída numa semana de integração entre os índios e os alunos, mas que foi, pouco a pouco, desinvestida com o passar da rotina escolar diária. Posso afirmar que foi, a partir da entrada da palavra neste espaço, que a Oca se transformou num espaço informal adolescente. De acordo com Maurin (2010),

Se os espaços e os momentos formais, nas intituições educativas, são agenciados por regras, normas, funções, eles são delimitados por denominações, atribuições de horarios, de lugares. O informal, seria, ao contrário, o que não é normatizado, organizado, pensado, utilizado enquanto tal pelas instituições, mas que os indivíduos investem, conferindo a esses espaços, papéis, funções sociais aos espaços e ao tempo deixado vago. A compreensão e a circunscrição desses espaços e o tempo informal são delicados (...), essas duas noções podem ser tomadas pelo paradoxo inerente a sua própria constituição: separar e

religar, fechar e abrir, em memso movimento.57 (MAURIN, 2010, p.1, trad nossa)

Podemos ver como esta passagem entre o formal e o informal se deu, na medida em que fomos avançando com o trabalho da conversação. A Oca era um lugar que inicialmente incomodou as meninas: diziam que ela era suja, fedorenta, no meio da terra. Elas nos diziam que não eram índias e que não iriam sentar-se em troncos de madeiras. Propusemos a elas que pensassem na Oca como um espaço diferente, com outra imagem daquela a que estavam acostumadas a lhe atribuir. Um lugar onde estaríamos resguardadas do entra-e-

sai de pessoas da escola Ŕ como seria o caso se fizéssemos os encontros numa

das salas de aula -; um lugar protetor da palavra. Elas rapidamente concordaram, retirando folhas de caderno para não sujarem suas roupas ao se sentarem nos troncos feitos como banquinhos.

Foram estas as meninas que nos interceptaram nos corredores do colégio e nos pediram que re-criássemos o grupo de conversação. Logo que o grupo começa, depois da recusa momentânea do espaço da Oca, percebo que a palavra não é, para elas, um motivo de embaraço. Mas que palavras falavam?

Falavam todas ao mesmo tempo; uma indistinção de sons! Sinto como se palavras chegassem de todos os lugares, palavras que vinham de dentro da Oca, mas que vinham também de fora, entrando por cada buraco aberto na terra. Pensamos numa palavra surda, ou melhor, uma palavra que produzia apenas

57

Do original consultado : Si les espaces et les moments formels, dans les institutions éducatives,

sont agencés par des règles, des normes, des fonctions, ils sont délimités par des dénominations, des attributions d‟horaires, de lieux. L‟informel, serait, au contraire, ce qui n‟est pas normé, organisé, pensé, utilisé en tant que tel par les institutions, mais que les individus investissent, en conférant ainsi des rôles, des fonctions et des enjeux singuliers et sociaux aux espaces et aux temps laissés vacants. La compréhension et la circonscription de ces espaces et temps informels sont tout aussi délicates (…) ces deux notions étant aux prises avec un paradoxe inhérent à leur constitution et à leurs fonctions : séparer et relier, fermer et ouvrir, dans un même mouvement. » MAURIN, A. (2010) Référence électronique « Passages adolescents : leurs matérialisations dans les espaces et les temps informels des institutions éducatives », Conserveries mémorielles [En ligne], #7 | 2010, mis en ligne le 10 avril 2010, Consulté le 11 février 2011. URL :

efeitos de ensurdecimento. Nada escutamos. Penso na afirmação de Peixoto (2009) sobre as falas que servem apenas ao gozo, desprovidas de qualquer função de significar. E guardo quase sempre esta mesma impressão no começo de cada grupo de conversa com adolescentes de que participo.

Uma vez que os ânimos de acalmam, tentamos conversar, mas as tentativas são vãs. Podemos dizer que cada fala que começa a se esboçar, cada tentativa de produção de sentido, é minada pelo atravessamento de outra fala que chega com o papel de desestabilizar o fino laço que tentou se estabelecer. E então caímos de volta na confusão de palavras ensurdecedoras. Percebo que assisto passível a uma encenação grupal da qual não faço parte; uma encenação, encenada para ninguém, quase automática, que talvez continuasse mesmo se não estivéssemos ali. Mas talvez não! O grupo já estava formado: todas meninas, da mesma turma, com os mesmos interesses. Espécie de laço social via identificação, em que cada tentativa de singularização via palavra era rapidamente massacrada pelo interesse geral do grupo de se manter homogêneo e concordante.

É assim, como numa pequena conversa entre amigas, que chega a Oca o tema das saídas que Clara fazia às escondidas, no meio da noite, pelas ruas de uma favela, sempre que ia dormir na casa de uma amiga. Esperavam que todos dormissem na casa e saíam, saltando pela janela do quarto. Clara e sua amiga não iam a festas quando saíam; elas simplesmente, saíam e andavam pelas ruas. Ela nos diz que é levada, pela amiga, a sair pela janela: “Eu estou na

casa dela, você acha que eu posso ficar lá sozinha na casa dela, dormindo, sem ela? Se ela vai, eu tenho que ir junto!”. Lauru (2000), em seu artigo Sortir avec: l‟impossible de la rencontre amoureuse, retoma a etimologia da palavra sair/sortir:

“Vem do latim sortiri, tirar na sorte, receber ao acaso. O verbo vem de sosrs sortis (o acaso). A deriva progressiva como ir em direção ao fora, se efetuou a partir de

sortitus, “que foi designado ao acaso”, de onde „aquele que escapa a‟, e „que se manifesta do lado de fora”.58. (LAURU, 2000.p. 97, trad. nossa).

58

Do original : “Vient du latin sortiri, „tirer au sort58‟, „recevoir par le sort‟, „échoir en héritage‟. Le verbe vient de sosrs sortis (le sort). La dérive progressive vers aller du dedans vers le dehors‟, s‟effectuer à partir de sortitus, « qui a été désigné par le sort », d‟où « qui échappe à » et « qui se

Mas o que busca o sujeito adolescente quando sai? Raramente o adolescente sai sozinho. Na maioria delas, ele sai com amigos, amigas, sujeitos- adolescentes como eles, buscando apagar todo traço singular de subjetividade. Estratégia de proteção diante dos apelos do Outro sexuado que lhe espreita e convida a embarcar num mais além da ficção familiar. De uma grande massa disforme que sai junta/ sorte ensemble, para um sujeito que sai com alguém/ sortir

avec quelq‟un, que vai marcar a entrada adolescente na cena social, inúmeros

caminhos e descaminhos se apresentarão, até que o sujeito adolescente se dê conta de que a promessa de gozo pleno não passava de uma falácia, e que o encontro sexual é nada mais do que um pleno desencontro.

Assim, Clara nos diz que sai, não por sua vontade, e que ao fazê-lo, encontra-se, como sem querer, num lugar que ela não escolheu. Ao saltar pela janela, as duas meninas encontram um rapaz numa moto, que as convida para uma volta, uma saída com ele/sortir avec lui. Ele as leva de moto para um terreno isolado na favela, as deixa sós para ir buscar mais um amigo. Quando ele parte, elas saem correndo, pois, nos diz ela, teve a certeza de que seriam estupradas. Assim, o círculo se fecha para o sujeito adolescente em sua busca pela harmonia ansiada com o Outro amoroso: do espaço familiar - a casa parental-, para o espaço público - a rua -, onde o encontro se faz com um Outro Ŕ que neste caso, se apresenta como aquele que irá tomar o seu corpo sem consentimento Ŕ para, correr de volta, novamente, ao familiar e conhecido. Nas palavras de Lauru (2000),

Sair com alguém remeteria a um insistência particular, no

sentido de que sair é um primeiro elemento, e sair com alguém uma outra etapa específica que implica um outro.

Sair com não é apenas uma expressão polissêmica, mas um

tipo de ideal a ser alcançado. Um ideal que conjuga a saída do espaço do conhecido para ir de encontro ao Outro amoroso. 59 (LAURU, 2000, p. 92, trad nossa)

manifeste au-dehors »In : LAURU, D. (2000) Sortir avec: l‟impossible de la rencontre amoureuse.

In : Sortir, l‟opération adolescente, sous la dir. De Jean-Jacques Rassial. [Ramonville-Saint-Agne] :

Érès , 2000.p.97.

59

Toda a cena é narrada por Clara num mixto de euforia e excitação, numa fala que buscava um estatuto de liberdade, afrontando, graças a este episódio, as outras meninas do grupo Ŕ que diante do caso de Clara, se transformam pouco a pouco em meninhas infantis, bobas, sem experiência. Clara assume, constantemente, o lugar do Um, do líder que garantiria a união do laço horizontal do grupo de meninas. Clara trabalha em prol da homogenização dos sujeitos do grupo, e toda tentativa de fala singular feita por alguma outra menina é atravessada por seu apelo identificatório: ela mantém o grupo unido pela via de um laço identificatório imposto pela verticalidade de sua posição. De acordo com Barros (2008),

A montagem freudiana dos grupos exige uma consistência extraordinária da função do Um. Este não é necessariamente uma pessoa Ŕ pode ser, por exemplo, um princípio -, mas é preciso, de todo modo, que haja algo inquestionável para que esse grupo exista. Neste contexto, é o Um que garante a consistência do múltiplo, e não o contrário, sendo nisto que este grupo é tão particular. (BARROS, 2008, p. 56).

Mas sua fala vai, pouco a pouco, se transformando num discurso da lei parental Ŕ é, eu não deveria ter feito isso! Mas, no final de contas, ela acaba não se reconhecendo como sujeito responsável pelo ato de colocar sua vida em risco. Aonde estava Clara quando saltou pela janela levada pela amiga? E quando, sem

haver escolhido, se coloca diante do Outro que, em suas palavras, se apresenta

como aquele que irá violentá-la? Clara está na situação quando diante do perigo,

corre, corre de volta pra casa. Mas desaparece, mais uma vez, pois ao narrar o

episódio de forma corriqueira e natural, faz com que seu corpo deixe de existir.

sortir est un premier élément, et sortir avec une autre étape qui spécifie et implique l‟autre. Sortir avec est non seulement une expression polysémique, mais une sorte d‟idéal à atteindre, un idéal qui conjugue la sortie de l‟espace du connu pour rejoindre l‟inconnue de la rencontre avec l‟Autre amoureux. »LAURU, D. (2000) Sortir avec: l‟impossible de la rencontre amoureuse. In : Sortir,

l‟opération adolescente, sous la dir. De Jean-Jacques Rassial. [Ramonville-Saint-Agne] : Érès ,

Uma outra menina do grupo concorda. Clara nos diz: “mas, afinal, qual

é o problema? não há mesmo diferença entre ser estuprada e transar com o próprio namorado!”.

Perguntamos o que era, para elas, um estupro? Como é que era para elas ser tomada pelo Outro à revelia? E mais, como se vai em direção a esse lugar? Clara é então, aquela que vai de encontro ao sacrifício, que consente em seu desejo.

Esse fragmento clínico será analisado a partir de três tópicos que se cruzam e que atravessam o sujeito adolescente em sua subjetividade. São eles: a posição feminina não é mesmo que posição masoquista; a diferença entre consentir e resistir; o não-assentimento a culpa e o sacrifício da libra de carne.

Entre Resistir e Consentir: a lógica do “sacrifico-me a Ti”

Afirmamos que Clara, ao ir em busca da posição feminina, tornará equivalente consentir em seu desejo, colocando-se como o objeto do gozo do Outro, e resistir, o que implicaria a afirmação de seu desejo, a partir do assentimento à culpa implicada na castração.

Vejamos como isso se apresenta na adolescência, relacionando esse encontro com o Outro sexo como algo inevitável desta passagem. A inscrição no laço social está fortemente ligada à estrutura adolescente, onde há a descoberta do logro da promessa edipiana de satisfação plena pelo objeto, instaurada pela castração. Esta promessa sustenta o narcisismo primário da criança, anterior a clivagem estabelecida pela entrada do infans na linguagem, acesso fundamental que marcaria a ruptura e a diferenciação entre gozo da carne e corpo destinado ao prazer (Lesourd, 2004).

em que a carne é tanto excitação como satisfação, e lança o sujeito adolescente no vazio, que é experimentado como ausência de pertencimento, trazido pelo esfacelamento do véu fálico e do encontro do significante da falta no Outro. Assim, ainda segundo Lesourd (2004), caberá ao adolescente reconstruir, num segundo tempo, os véus fálicos apoiando-se na construção das instâncias ideais pelas quais o sujeito se inscreve em sua relação com os outros. Difícil trabalho que deve ser feito na adolescência e que na contemporaneidade encontrará alguns novos percalços a serem pensados. O autor afirma que haveria cada vez mais uma impossibilidade de separação dessa fantasia de completude instaurada pelo laço imaginário parental e, assim, uma maior dificuldade dos jovens afirmarem um desejo adulto marcado pela castração, se contentando com um gozo parcial e não pleno como prometido, encenado na fantasia.

Na cena fantasmática de Clara, não haveria diferença entre ser tomada pelo Outro à revelia e consentir com o ato de amor. Os primeiros tateamentos de Clara no campo do Outro sexual, são da ordem do consentir, do apagamento de seu desejo. Clara é sempre levada por alguém, a um lugar que não escolhe. Tentaremos entender o fantasma de Clara como um modo de colocar em cena sua tentativa de aceder ao lugar do feminino, pois, nas palavras de Costa e Poli (2010) “Afirmar-se homem ou mulher, sem que esses significantes possam tirar sua consistência nem da anatomia, nem da escolha do objeto sexual e amoroso, é um dos principais desafios com o qual o jovem se confronta.” .(COSTA & POLI, 2010, p.143)

Não iremos aqui nos deter além do necessário, no curso da elaboração freudiana sobre a origem da diferença entre os sexos, mas sabemos que no texto de 1905, Trois Essais sur la théorie de la sexualité, o psicanalista irá abordar os pólos “masculino” e “feminino” em termos de “atividade” e “passividade”, respectivamente. Mais adiante, no texto L‟organisation genitale infantile (1923), Freud irá tratar a diferença entre os sexos relacionando-a aos estádios do desenvolvimento sexual infantil. Em suas palavras,

No estágio da organização pré-genital sádico-anal não existe ainda questão de masculino e feminino; a antítese entre

ativo e passivo é a dominante. No estágio seguinte da

organização genital infantil, sobre o qual agora temos conhecimento, existe masculinidade, mas não feminilidade. A antítese aqui é entre possuir um orgão genital masculino e

ser castrado. Somente após o desenvolvimento ter atingido

o seu completamento, na puberdade, que a polaridade sexual coincide com masculino e feminino. A masculinidade combina [os fatores de ] sujeito, atividade e posse do pênis; a feminilidade incampa [os de ] objeto e passividade. (FREUD, 1923/1969, p.161)60

Assim, por não possuir o pênis é que a mulher, irá se dirigir, na fase genital, em direção do amor de um homem. Soler (2003), em sua leitura de Freud, dirá: “(...) ao se descobrir privada do pênis, a menina se tornará uma mulher se ela espera pelo falo Ŕ ou seja, o pênis simbolizado Ŕ daquele que o possui.”61 (SOLER, 2003, p. 30 trad. nossa). A questão é deveras espinhosa também na obra de Lacan; ele irá no texto de 1958, A significação do falo, apresentar a questão em termos de ter ou ser o falo, este agora tomado como significante, dissociado da concepção anatômica de Freud. E será pela dialética da demanda de amor que irá se ordenar a tomada de posição diante desse significante que faz falta na mãe, primeiro Outro infantil e primeiro objeto de amor da criança. Ser ou

ter o falo, eis a virada dada por Lacan na lógica freudiana que apontava o lugar do

feminino sempre como sendo da ordem de uma negatividade. Nas palavras de Lacan,

60 Do original consultado : « Au stade de l‟organisation prégénitale sadique-anale il n‟est pas

encore question de masculin e féminin, l‟opposition entre actif et passif est celle qui domine. Au stade suivant, celui de l‟organisation génitale infantile, il y a bien un masculin, mais pas de féminin ; l‟opposition s‟énonce ici : organe génital masculin ou châtré. C‟est seulement quand le développement, à l‟époque de la puberté, s‟achève, que la polarité sexuelle coïncide avec

masculin et féminin. Le masculin rassemble le sujet, l‟activité et la possession du pénis ; le féminin

perpétue l‟objet et la passivité. » In : FREUD, S. (1923) L‟organisation genitale infantile. In: La vie sexuelle. [Paris] : Presses Universitaires de France, 1969. p. 116.

61 Do original consultado : “ (...) à se découvrir privé du pénis, la petite fille devient une femme si

elle attend le phallus Ŕ soit le pénis symbolisé Ŕ de celui qui l‟a. » In : SOLER, C. (2003) Ce que Lacan disait des femmes. Étude de Psychanalyse. [Paris] : Éditions du Champ Lacanien, 2003. p. 30.

Se o desejo da mãe é o falo, a criança quer ser o falo para satisfazê-lo.” E, mais adiante, “(...) é para ser o falo, isto é, o significante do desejo do Outro, que a mulher vai rejeitar uma parcela essencial da feminilidade, nomeadamente todos os seus atributos na mascarada. É pelo que ela não é que ela pretende ser desejada, ao mesmo tempo que amada. Mas ela encontra o significante de seu próprio desejo no corpo daquele a quem sua demanda de amor é endereçada. (Lacan, 1958/1998, p. 700-701)

Temos então, no interior do sistema significante, uma fórmula proposta por Lacan (1958) que incluiria a função Nome-do-pai como o ato que autorizaria a Lei simbólica, e mais ainda a função do falo que trataria de simbolizar o desejo do sujeito. Desejo este que apareceria para o sujeito como uma impossibilidade: de significar e, mesmo ainda, de satisfazer. Assim, como saída, “... o sujeito preenche sua própria falta ao se oferecer ao Outro como objeto que preenche a falta no Outro...” (ZIZEK, 1992.p.114). Esta falta no Outro, que chegaria ao sujeito como uma interpelação O que o Outro quer de mim?, o Chez vuoi? lacaniano, terá como resposta uma elaboração fantasmática do sujeito convocado. Nos diz Zizek, “A fantasia aparece, pois, como uma resposta à pergunta „Chez vuoi?‟, ao enigma insustentável do desejo do Outro; mas, ao memso tempo, é a própria fantasia que, por assim dizer, fornece as coordenadas de nosso desejo, isto é, constrói o contexto que nos permite desejar algo.” (ZIZEK 1992.p.115). Sem a elaboração fantasmática resta ao sujeito apenas a angústia.

Assim, será necessário retomar o fantasma de Clara, onde ser tomada pelo Outro como objeto equivale a se afirmar como sujeito desejante. Freud escreve em (1919), um texto paradigmático, intitulado Un enfant est battu. Antevenho que será fundamental a nossos propósitos determos-nos um pouco mais demoradamente neste texto, seguindo-o passo a passo. Mas, antes disso, valeria a passagem por um texto mais antigo de Freud, escrito em 1908, Les

fantaisies hysteriques et leur relation à la bisexualité, pois este texto condensa e

antecipa algumas das afirmações acerca da fantasia que serão desenvolvidas de forma magistral do texto de 1919.

Já em 1908, Freud dirá de forma categórica que podemos inferir das fantasias histéricas à causa dos sintomas histéricos. Temos, desta forma, uma relação importante entre esses dois modos de expressão da neurose, a saber, uma relação de localização entre uma e outra. Ambas seriam o efeito do recalque do complexo de Édipo, no entanto, a fantasia seria anterior ao sintoma. Na fantasia, que deverá restar inconsciente, o encontro com o objeto de satisfação é sempre possível; já no caso dos sintomas, o que há é uma encenação da satisfação possível graças à aderência a um objeto substitutivo que se dá, sobretudo, na consciência.

Ao avançarmos dez anos na obra de Freud chegamos a seu texto fundamental para o estudo da fantasia, Un enfant est battu (1919). Neste texto, a partir da análise de seis casos clínicos, sendo eles em sua maior parte de mulheres, Freud constrói o caminho do desenvolvimento das fantasias de fustigação, e vai de sua aparição na primeira infância até sua evolução posterior