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Newton Sucupira foi o responsável por escrever cerca de 400 pareceres, sendo muitos deles relativos ao funcionamento da pós-graduação no Brasil, como o parecer nº 8/75, aprovado em 20 de janeiro de 1975. Nele, estabeleceram-se as normas para a renovação periódica do credenciamento dos cursos de mestrado e de doutorado, “[...] a fim de assegurar o alto nível de funcionamento da pós-graduação”. Sucupira escreveu, ainda, o parecer CFE nº 977/65, o qual será focalizado nesta tese, pois, até hoje, a pós- graduação brasileira segue os princípios colocados nesse parecer.

Na época, faziam parte da Comissão de Educação Superior, além do relator, Almeida Júnior, que foi o presidente, mais oito membros: Clóvis Salgado, José Barreto Filho, Maurício Rocha e Silva, Durmeval Trigueiro, Alceu Amoroso Lima, Anísio Teixeira, Valnir Chagas e Rubens Maciel.

O parecer foi o primeiro documento que regularizou e caracterizou a pós- graduação no país, estabelecendo a divisão entre mestrado e doutorado. Nesse documento, composto por oito subitens, foram estabelecidas as instituições responsáveis pela formação em nível de pós-graduação; a adoção do sistema de créditos para a contagem das atividades realizadas na pós-graduação; os critérios de seleção para cada um desses cursos; a nomenclatura; e o tempo mínimo para a finalização dos cursos. É nele que encontraremos, portanto, qual concepção de dissertação de mestrado é inaugurada junto com a pós-graduação brasileira.

Acompanhemos, no que se segue, a descrição sintética de cada uma dessas partes que compõem o parecer. Na primeira delas, Definição dos cursos de pós-

graduação, o relator inicia o texto justificando o parecer. Tratou-se de uma solicitação do então ministro da Educação e Cultura, do governo Castelo Branco, Flávio Suplicy de Lacerda. O ministro teria alegado a necessidade de implantar e desenvolver a pós- graduação no país e, considerando a imprecisão quanto à natureza dos cursos a ela pertencentes, solicitou sua definição. O pedido do ministro ao Conselho foi um pronunciamento “sobre a matéria que defina e, se for o caso, regulamente os cursos de pós-graduação a que se refere a letra b do art. 69 da Lei de Diretrizes e Bases”.

A referência feita no pedido é à lei nº 4.024 de 20/12/1961 da Lei de Diretrizes e Bases (LDB), que distinguia três tipos de cursos: a) graduação; b) pós-graduação; e c) especialização, aperfeiçoamento e extensão. É ao item “b” que o ministro solicitou um parecer mais detalhado, considerando que no texto legal, segundo avaliou, a definição desse tipo de curso era feita de modo vago, uma vez que se apresentava nos seguintes termos: “pós-graduação, abertos à matrícula de candidatos que hajam concluído o curso de graduação e obtido o respectivo diploma”.

Percebemos aqui que, tal como colocado por Balbachevsky (2005), não havia nas faculdades e institutos de pesquisa, um comum acordo de como caracterizar os cursos oferecidos para quem já tinha uma graduação.

Sucupira afirmou que a solicitação, inclusive, veio ao encontro do que, segundo ele, já tinha sido colocado anteriormente pelo conselheiro Clóvis Salgado, que havia apontado a devida necessidade de conceituar a natureza da pós-graduação. Segundo o relator, o exame dos estatutos e regimentos mostrou que, de modo geral, “falta às escolas uma concepção exata da natureza e fins da pós-graduação, confundindo-se frequentemente seus cursos com os de simples especialização”.

O relator foi quem definiu o que o Conselho de Educação Superior entendia como a função da pós-graduação: formar pesquisadores e docentes para os cursos superiores. Estabelece-se, aí, a natureza acadêmica dos cursos que, segundo Sucupira, deveriam fazer-se em dois ciclos sucessivos, “equivalentes ao de master e doctor da sistemática norte-americana”.

A segunda parte do parecer, denominada Origem histórica da pós-graduação, foi dedicada a retomar como, nos últimos trinta anos do século XIX, a universidade americana se desenvolveu e, por influência da tradição da universidade germânica, deixou de ser uma instituição que apenas ensinava e formava profissionais, para dedicar-se às atividades de pesquisa científica e tecnológica. Essa retomada foi feita

porque é justamente o modelo americano o que foi sugerido como padrão a ser adotado nas universidades brasileiras.

Na terceira parte, Necessidade da pós-graduação, o relator justifica a necessidade dessa modalidade de curso no Brasil. Para ele, somente o curso de graduação não dava conta de formar o profissional comum, o cientista e o técnico de alto padrão. Delegar à graduação esses três tipos de formação, no seu entendimento, seria antieconômico, porque teria de aumentar, e muito, o tempo da graduação. Além disso, era antipedagógico, já que nem todas as pessoas queriam ter uma formação científica. O relator fez a ressalva de que não se tratava de excluir a pesquisa científica da graduação, ao contrário, defendeu a necessidade de iniciar o estudante na pesquisa científica já durante a graduação.

Na pós-graduação, seria o momento de a universidade proporcionar, aos seus alunos, um “ciclo mais elevado de estudo onde pudessem ser aproveitados seus talentos e capacidades”. O autor recorreu a exemplos desses cursos na França e nos Estados Unidos, argumentando em favor de o Brasil instituir uma universidade moderna, deixando de apenas formar profissionais em uma área para formar um “centro criador de ciência e cultura”.

Para finalizar essa seção, o relator resumiu as três principais razões, no entender do Conselho de Educação Superior, para que se exigisse a instauração de sistema de cursos pós-graduados, tendo em vista a necessidade de:

1) formar professorado competente que possa atender à expansão quantitativa do nosso ensino superior garantindo, ao mesmo tempo, a elevação dos atuais níveis de qualidade;

2) estimular o desenvolvimento da pesquisa científica por meio da preparação adequada de pesquisadores;

3) assegurar o treinamento eficaz de técnicos e trabalhadores intelectuais do mais alto padrão para fazer face às necessidades do desenvolvimento nacional em todos os setores.

Feito isso, Sucupira passou à quarta parte do parecer, na qual discutiu acerca da natureza da concepção da pós-graduação. Designa-se como “todo e qualquer curso que se segue à graduação”. É dividida em dois tipos: sensu stricto e sensu lato. Quanto ao último, o autor exemplificou diferentes cursos de especialização que podem ser incluídos nessa categoria. Em poucas palavras, trata-se da especialidade profissional. Já o primeiro, sensu stricto, foco do trabalho desta tese, agrega os cursos que conferem o grau acadêmico. Segundo o parecer, a pós-graduação sensu stricto apresenta as

seguintes características fundamentais, as quais, para nós, ainda hoje são as mesmas dos termos do documento:

[...] é de natureza acadêmica e de pesquisa e mesmo atuando em setores profissionais tem objetivo essencialmente científico, [...]; confere grau acadêmico [...]; finalmente a pós-graduação possui uma sistemática formando estrato essencial e superior na hierarquia dos cursos que constituem o complexo universitário.

A quinta parte do relatório, dedica-se a tratar a respeito do modelo de pós- graduação que foi adotado pelo sistema brasileiro. A partir da justificativa de que o Brasil tinha uma experiência muito incipiente nessa modalidade de ensino, o autor afirmou que era preciso ter um ponto de partida que servisse de construção do modelo nacional. O modelo escolhido foi o americano.

Na prática, a escolha desse modelo implicou que a nossa pós-graduação stricto sensu passasse a ter as seguintes modalidades de formação: 1) cursos de mestrado (acadêmico e profissional); e 2) doutorado (acadêmico e profissional), sendo esses graus autônomos, ou seja, não há a necessidade da realização de mestrado antes do doutorado. Resumidamente, assim foram definidos os cursos: “doutorado e mestrado são o resultado de estudos regulares e rigorosos em determinado campo do saber podendo prolongar-se por tempo maior do que o necessário à graduação”.

Note-se que tal qual colocado na regulamentação de 1931, os predicativos “regulares e rigorosos”, referentes aos resultados dos estudos feitos nesse tipo de formação, também são de difícil mensuração por parte da comunidade científica. Portanto, mais uma vez caberia a cada orientador e professor, que ofereceria os cursos nesse nível, sopesar o rigor exigido em cada uma de suas etapas.

A duração de cada curso, segundo o documento, poderia variar de acordo com a natureza da matéria e a capacidade do aluno. Tanto no mestrado quanto no doutorado a exigência era de no mínimo um ano para o cumprimento de créditos, ou seja, a frequência regular nas disciplinas oferecidas pelo programa de pós-graduação. O parecer apontou que, em geral, cada programa deveria estabelecer um prazo máximo para a obtenção de cada título. Citou, como exemplo, a Universidade de Columbia, cujo prazo máximo para o doutorado era de sete anos.

Ainda nessa seção, destacou-se a característica fundamental da pós-graduação norte-americana: o candidato ao mestrado e ao doutorado, além da tese, dissertação ou ensaio, deveria seguir certo número de cursos, participar de seminários e trabalhos de

pesquisas, e submeter-se a uma série de exames, incluindo-se as provas de língua estrangeira. Trata-se, portanto, das mesmas exigências que temos até hoje nos programas de pós-graduação.

Com relação à natureza do trabalho a ser entregue no final do processo, o parecer colocou que, para o doutorado, a exigência da tese era universal. Já para o mestrado, ora se requeria uma dissertação, memória ou ensaio, ora se consideravam suficientes os exames prestados. Por fim, elencaram-se as vantagens, na visão do relator do parecer, da adoção desse modelo: 1) a pós-graduação não se limitaria apenas ao preparo de uma tese ou uma dissertação de mestrado – como exigiria que o pós- graduando cursasse uma série de cursos, buscasse ampliar a extensão da área de conhecimento escolhido; 2) ofereceria o máximo de assistência e de orientação ao pós- graduando em seus estudos, sem prejuízo de liberdade de iniciativa.

Nesse aspecto, pensamos que ter aí a semente do que entendemos como o percurso de formação de pesquisadores na universidade. Não se trata apenas de produzir um trabalho acadêmico, mas, sim, de passar por um processo de formação que pode ser uma transformação, dependendo do tipo de relação que o pesquisador estabelece com o saber.

Assim, se nos documentos anteriores um curso de pós-graduação era exclusivamente centrado na produção da tese ou da dissertação, esse modelo, tal como temos hoje, prevê uma vivência mais abrangente do aluno de pós-graduação, uma formação que vai além da entrega do texto que registra os resultados de uma pesquisa. O pós-graduando então precisa circular por outros ambientes na universidade, fazer cursos e participar de eventos nos quais dê provas de sua formação.

Na sexta parte do parecer, nomeada de A pós-graduação na Lei de Diretrizes e Bases, Sucupira analisou a legalidade da proposta feita no documento, tendo como referência os artigos 69 e 70 da LDB vigente na época. Ainda tratando da parte legal da pós-graduação, na seção seguinte o relator apontou a necessidade da criação, por parte do Conselho de Educação, de critérios operacionais e normas que dirigissem e controlassem a implantação e desenvolvimento desse nível de ensino.

Finalmente, na última parte, Definição e características do mestrado e doutorado, o relator retomou as partes principais do documento, a fim de concluir seu relatório a respeito do que a comissão tinha proposto acerca dos cursos de pós- graduação stricto sensu no Brasil.

O autor registrou que, apesar da discordância de alguns membros da comissão com relação à criação de cursos de mestrado, ficou assim decidido: dois níveis de cursos autônomos – mestrado e doutorado; a duração mínima de um ano para o primeiro e dois anos para o segundo; os estudos exigidos para completar o curso poderiam ser avaliados em créditos ou unidades equivalentes. Se no primeiro período o pós-graduando tivesse cumprido os créditos determinados pela instituição e obtido aprovação nos exames, estabeleceu-se que o segundo período de curso era reservado para o aluno se dedicar mais à investigação de um tópico especial da matéria de opção, elaborando a dissertação ou tese que exprimiria o resultado de suas pesquisas.

Quase cinquenta anos após a publicação desse documento, vemos que as ideias nele colocadas ainda sustentam o funcionamento da pós-graduação, inclusive com relação aos critérios exigidos para a aprovação do candidato no curso (prova específica da área e de língua estrangeira). Tanto nos cursos de mestrado quanto de doutorado, manteve-se o sistema de créditos mínimos, a serem cumpridos em disciplinas e outras atividades obrigatórias. Em geral, tal como colocado no documento, o primeiro ano de curso é dedicado ao cumprimento desses créditos e uma aproximação com a área em que está inserido. Permanece também a separação entre mestrado acadêmico e mestrado profissional e mantém-se a exigência de escrita de uma tese de doutorado e dissertação de mestrado como requisitos essenciais para comunidade acadêmica.

Se o parecer não inclui na discussão aspectos mais precisos como relação à concepção de dissertação de mestrado, mostra quando e como a formação de pesquisadores, no Brasil, nesse nível de ensino, foi instituída.

Quanto à concepção de dissertação, depreende-se, pela leitura do documento, que se trata de um texto em que o pós-graduando demonstre o resultado de uma pesquisa a respeito de um tópico específico dentro de uma linha de investigação. Essa linha de investigação foi chamada no parecer de 1965 de “matéria de opção”. Um ponto que nos chamou a atenção foi que, diferentemente dos regimentos atuais, a redação do documento não focaliza a necessidade de uma sistematização teórica no seu relatório de pesquisa. Talvez porque partisse do pressuposto que isso já era consenso na área.

Tendo feito essa retomada histórica de alguns dos regimentos que instituíram a pós-graduação em nosso país e visto como nasceu a ideia de produção de uma dissertação de mestrado, na sequência, veremos como a Universidade onde as informantes estudaram concebe uma dissertação de mestrado.

2.2 A concepção de dissertação de mestrado na instituição de formação das

Benzer Belgeler