2.3. Liderlik Teorileri
2.3.2. Durumsal Liderlik Yaklaşımları
Os nomes são a forma do mundo, e o homem capaz de falá-los está a caminho do poder. Nos primórdios, o Arcanum era uma pequena coleção de homens que compreendiam coisas. Homens que sabiam nomes poderosos. Lecionavam para uns poucos estudantes, devagar, incentivando-os cuidadosamente em direção ao poder e à sabedoria. E à magia. A magia verdadeira – ressaltou.
(ROTHFUSS, 2009, p. 601)
Dentro da Universidade brasileira hoje, mais especificamente no âmbito da pós- graduação em educação, podem-se contrapor dois tipos de formação, que nomeamos como formatação em série e formação artesanal. A nomeação que demos a cada uma delas está ligada a uma diferenciação fundamental na perspectiva que adotamos aqui: entre formatar um modo de agir, pensar e pesquisar; e formar um pesquisador, como veremos no que se segue.
Estamos chamando de formatação em série aquela que, usando um termo usado popularmente, é feita via “pacotão”. Nela, o professor ensina modelos de pesquisa e os alunos os reproduzem. Como têm apontado estudos feitos no âmbito GEPPEP (ALMEIDA; BARZOTTO, 2013; FABIANO, 2007; 2011, ARAGÃO, 2011), muitos trabalhos são produzidos com o intuito de ratificar ou de reproduzir autores da área em que a pesquisa se insere. Nessa lógica, a produção do conhecimento é deixada em segundo plano, já que o mais importante é “aplicar” metodologias de pesquisa ou
comprovar teorias. Tem-se, assim, uma pesquisa formatada aos moldes de determinada linha de pesquisa.
Nesse tipo de formação, é difícil encontrar traços da subjetividade de quem produziu o trabalho, pois a pessoa não se coloca à prova, não traz dúvidas em seu percurso de pesquisa, de modo que a investigação e a escrita do trabalho funcionam, como descrito no capítulo anterior, como um cumprimento burocrático, uma escrita cosmética (RIOLFI, 2011). As pesquisas produzidas na lógica da formatação em série são indiferenciadas, já que, em geral, chegam às mesmas conclusões, utilizam os mesmos autores, citações, alterando, muitas vezes, apenas o objeto de estudo de cada investigação.
Para avançar na distinção dos dois tipos de formação de que tratamos nesta seção, valemo-nos do trabalho de Riolfi (1999). A autora nomeou como via da reprodução o caminho que um professor em formação percorre quando se limita a reproduzir o conhecimento produzido por outro pensador. Nessa lógica, segundo a autora, a pessoa se faz de instrumento de divulgação do trabalho do outro. Assim, se os professores estão sendo formados pela via da reprodução, a pesquisa da autora mostrou que há uma tendência para que sigam, na prática com o aluno, o mesmo caminho.
Podemos pensar que, no campo da formação de pesquisadores, a formatação em série segue a via da reprodução, a partir da qual o pesquisador limita-se a ser um porta- voz daquilo que aprendeu, leu etc. Por seguir sempre o comando do outro, não consegue construir os seus dispositivos de pesquisa e implicar-se com um objeto de pesquisa que se relaciona a algo que lhe seja instigante.
Nesse ponto, Hemi Hess (1995, p. 28), ao discutir como um estudante se inscreve na universidade e ao defender a necessidade da implicação de cada um com seu objeto de pesquisa, afirmou que os “estudantes que não consideram esse engajamento ignoram a realidade da ciência nos seus desenvolvimentos. Eles passam pela universidade de forma um pouco autista”.
Na contramão da formatação em série, temos a formação artesanal, entendida como aquela em que, deliberadamente, alguém mais experiente investe ações para alterar a qualidade da relação do aluno com o saber. Trata-se da formação feita no um a um, nos moldes em que se tece uma peça exclusiva de tapeçaria, por exemplo, em que cada nó é feito cuidadosamente.
A partir da análise dos dados desta tese, podemos afirmar que o orientador das informantes desta pesquisa calcava sua ação em alguns princípios que, a nosso ver,
caracterizam a formação artesanal: 1) Ação feita deliberadamente no “um a um”; 2) Exigência de tempo por parte do orientador – para leitura dos trabalhos, reuniões presenciais, reescrita das versões do trabalho; 3) Envolvimento da quebra narcísica – para o orientador não se ofender quando o orientando não entende as orientações ou faz algo que quebra a sua expectativa, também, para poder validar o trabalho do pesquisador; 4) Coragem frente às possíveis reações do pesquisador em formação; 5) Imposição de limites – o que o fazia não aceitar qualquer produto apresentado; 6) Surpresa – consiste no conjunto de ações que podem ser utilizados pelo orientando visando à alteração da posição subjetiva do orientando. Ela pode ser obtida tanto por meio da palavra verbal quanto por recursos tipográficos, como cor da fonte, tamanho etc; e 7) Incentivo às elaborações do pesquisador em formação.
O modo de formação artesanal, a nosso ver, está no mesmo campo daquilo que Riolfi (1999) nomeou como ética da repetição do Real. Essa ética seria o caminho por meio do qual se tenta formar um professor de maneira a estabelecer uma relação com o saber que é mediada por uma palavra própria. Aqui o sintagma “palavra própria” consiste em uma metáfora. Não significa que um ser humano é dono das palavras, que são sempre de uma instância externa, pois já estavam em circulação na cultura na chegada de cada qual ao mundo. A expressão designa a construção de uma posição com relação ao saber na qual o lugar de enunciação a partir do qual o sujeito produz permite a construção de uma resposta ao enigma que a opacidade das palavras dos autores que produziram os textos de base lhe colocou. Se o Real é, como vimos no capítulo anterior, aquilo que sempre se repete e é calcado no corpo de quem escreve, o que se repetirá é a insistência em encontrar, de modo diferenciado, uma elaboração que, no momento da enunciação, satisfaça o pesquisador.
É essa ética que, a nosso ver, deve ser o fim último de uma formação como pesquisador na área de educação. Instigado e implicado com o ato de pesquisar, a cada investigação, ele buscaria insistentemente encontrar novas inquietações que o movessem. Conseguirá isso quanto mais souber nutrir e experimentar a transmissão de três afetos: a curiosidade, a coragem e o desprendimento narcísico.
A curiosidade é o combustível que alimenta a pesquisa e a produção de um pesquisador/professor. Somente sendo muito curioso o pesquisador poderá, desprendendo-se das interpretações já prontas da realidade educacional, inventar formas diferentes de ensinar, de pensar certos fenômenos, de analisar os textos etc. É a partir de suas inquietações que poderá buscar respostas em diversas áreas do conhecimento,
sondar as estantes das livrarias e bibliotecas, testar suas hipóteses em diferentes tipos de textos, conversar com diferentes profissionais. A exemplo das crianças, que são movidas pelo desejo da descoberta, o pesquisador curioso sempre busca testar outros modos de promover o encontro tanto de si quanto do outro com o saber.
A coragem sustenta o pesquisador no seu desejo de realizar um trabalho diferenciado. Trata-se da defesa de um ponto de honra. É preciso ter coragem para sustentar, frente ao outro, a singularidade e suportar a angústia de ser diferente. É a coragem que permite, ao pesquisador, argumentar com uma banca de avaliação, seja de término de um percurso de mestrado/doutorado ou de ingresso em uma Universidade, com outros pesquisadores ou pareceristas. Somente quem tem coragem não recua frente ao olhar externo e consegue sustentar seu desejo e buscar meios de mostrar as suas preocupações éticas, teóricas e metodológicas.
Por fim, o desprendimento narcísico é condição para que o pesquisador reconheça uma formulação que não estava clara ou uma análise equivocada e, sem ficar procurando justificativas, reconhecer suas limitações, de modo a buscar novas formulações. O desprendimento narcísico acarreta um modo leve de encarar certos eventos que não foram muito positivos na pesquisa, como, por exemplo, um artigo que não foi aceito ou um projeto que não foi aprovado. Esse desprendimento liberta o pesquisador das amarras sociais, da formatação em série, do “escrever para agradar o outro”. Livre da preocupação de ter de agradar todo mundo e da concepção de erro como algo aprisionador, o pesquisador pode valer-se dessa liberdade para colocar sua criatividade a serviço da invenção de soluções para os problemas de sua pesquisa, para os impasses educacionais.
Posto isso, tendo apresentado elementos de ordem mais macro com relação à formação do pesquisador, na próxima seção buscaremos delinear as características de uma formação da área da educação.