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2. LİTERATÜR ARAŞTIRMASI

2.2. Kuyruk Ağı Modelleri

A fim de verificar a EdC na sua relação com as esferas religiosa e econômica, julgou-se necessário localizar a religião no âmbito da sociedade ocidental contemporânea, caracterizada por uma estrutura funcionalmente diferenciada.

A partir da modernidade, de fato, a religião cristã católica foi perdendo cada vez mais a hegemonia na função de orientar a organização social no seu conjunto, sem que com isso tenha perdido totalmente a influência, tanto no âmbito privado, quanto no âmbito público. Não é por acaso que a religião esteve presente no centro das análises dos autores clássicos da sociologia que se depararam, na origem desta disciplina, com as primeiras conseqüências das transformações geradas pela modernidade.

Os clássicos da sociologia enfrentaram a questão da religião dentro da tentativa mais ampla de individuar as características da nova sociedade que se estava delineando, no começo do século XIX. (Martelli 1995:29)

A sociedade Ocidental começou a ser vista sob diversos prismas: como sociedade industrial, sociedade burguesa, capitalista ou moderna. Também as causas das transformações foram identificadas de forma variada, como resultado da revolução científica, tecnológica, divisão do trabalho social, processo de racionalização (ibidem:29). Todas essas variações tratam do mesmo objeto – a sociedade – sob diferentes prismas, logo, embora apresentem diferenças, apresentam também pontos de convergência. Neste contexto, entender a questão religiosa tornou-se vital, uma vez que uma das principais transformações ocorridas foi, justamente, a ruptura com tudo o que havia de tradicional, entendendo o tradicional como uma posição diante do mundo e da própria sociedade fortemente fundamentada em valores, mais precisamente, numa visão de mundo religiosa.

De fato, as mudanças sociais que fundaram a sociedade contemporânea levavam a crer que a religião perderia a sua relevância no entrelaçamento de relações que se constituíram entre os vários âmbitos da sociedade colocados lado a lado, em oposição à organização tradicional, na qual as esferas eram indiferenciadas e a religião, hegemônica.

Marx acreditava que a religião desapareceria junto com a alienação, na sociedade socialista; e Weber pensava que a religião, na sociedade desencantada e racionalizada, presa em uma gaiola de ferro, teria sido colocada para fora dela, talvez para sempre (ibidem:30-31).

Ao falar de desencantamento do mundo – expropriação de todo elemento tradicional fundamentado na magia e no sagrado – Weber (2004) aponta para o fato de que o processo de racionalização – característica da sociedade ocidental moderna – se deu inclusive no interior da esfera religiosa, principalmente nas igrejas da Reforma, sem deixar imune, porém, mesmo se mais tarde, o próprio catolicismo.

Também Durkheim previu, de um certo modo, o fim da religião, mas de uma forma diferente de Weber e Marx. Para ele, a religião tem origem no social, ela é expressão do que realmente transcende o indivíduo: a força da associação que está na consciência individual, mas não é por ela produzida. Esta força de associação eleva o homem acima de si mesmo, mas é imanente à natureza humana. Porém, até então, só foi expressa por forças religiosas. Esta força religiosa, energia, é transfigurada seja no totem – no caso das sociedades tribais – seja na figura de Deus (Durkheim 1989).

Uma vez que a sociedade moderna é caracterizada pelo declínio da religião, esta haveria de ser substituída – pois um deus, sempre haverá de existir – por um equivalente funcional civil, deuses laicos, como o indivíduo e, nele, a sociedade (Durkheim 1975:235-249). Em última instância, para Durkheim, o Deus que o homem adora é a própria sociedade.

Na Divisão social do trabalho, ele (Durkheim 1999), afirma que a solidariedade, coesão social, seria garantida pela interdependência das várias funções sociais.

Uma vez que a religião cristã católica tenha perdido sua hegemonia como pensamento legitimador do mundo e tenham surgido outras confissões a partir da Reforma, abriu-se espaço para a legitimação do pluralismo religioso e a decorrente possibilidade de escolha. Unido a este fator, o processo de desfiliação, característico das sociedades pós-tradicionais, mediante o qual «as pertenças sociais e culturais dos indivíduos, inclusive religiosas, tornam- se opcionais» (Pierucci 2004:14), a adesão à religião passou a ser resultado de uma escolha pessoal, livre de coerções externas. Fenômeno este que fortaleceu ainda mais o processo de secularização, no que diz respeito ao declínio de uma prática religiosa hegemônica.

A partir de então, este trabalho optou por utilizar o termo polissêmico da secularização, abstraindo-se, porém, da vastidão de conteúdo de significado que engloba incontáveis teorias a respeito deste fenômeno, para expressar, justamente, a dinâmica que deslocou a religião para fora do centro da sociedade, que passou a ser estruturada de forma autônoma em relação à religião, prescindindo de toda e qualquer justificação transcendente. Afirma Martelli: «Na sociedade moderna os processos sociais se fundam sobre uma racionalidade instrumental que não requer nenhuma legitimação transcendente» (Martelli 1995:165).

Berger segue a mesma direção, entendendo a secularização como «o processo pelo qual setores da sociedade e da cultura são subtraídos à dominação das instituições e símbolos religiosos» (Berger 1985:119), tendo sido forjada na área econômica, de modo especial nos setores da economia formados pelos processos capitalistas industriais.

Em outras palavras, a moderna sociedade industrial produziu um setor “localizado” no centro que é algo assim como um “território livre” com relação à religião. A secularização partiu daí “para fora” na direção das outras áreas da sociedade. (Berger 1985:141)

A reflexão elaborada até então firma como pressuposto da análise à qual esta dissertação se propõe, o fato de a sociedade contemporânea constituir-se e organizar-se segundo a especialização e a diferenciação dos vários âmbitos, fomentando o processo de secularização, entendido como autonomia dos vários campos sociais em relação à religião, que deve subsistir ao lado dos demais setores da sociedade.

IV.2 Secularização e dinamismo da prática religiosa: um paradoxo sempre presente