No que concerne às edições realizadas durante a descompactação e recompactação de UTs, P0 foi o tipo de macrounidade mais frequente, seguido por ocorrências de P1, P3 e, por último, P2, independentemente da direcionalidade da tradução e do efeito facilitador. No caso de P0, quando ocorrem, as edições são feitas no fluxo imediato de produção textual (entre uma pausa e a pausa seguinte). O estudo de Alves e Gonçalves (no prelo) demonstra que podem ocorrer edições relacionadas à P0 na microunidade imediatamente subsequente, seja pela inclusão de uma pontuação ou, no caso de P1, uma correção no fluxo de produção textual ou também na microunidade subsequente.
Os dados demonstram que quando faz edições em microunidades de tradução, elas são realizadas com mais frequência na fase de redação, constituindo-se como P1, o que contribui para que um texto seja mais durável ao final dessa fase. Como a maioria dos tradutores realizou mais edições na fase de redação, apresentando mais macrounidades tipo P1 no processo tradutório do que macrounidades tipo P3, independentemente da direcionalidade da tradução, os dados parecem não confirmar a hipótese inicialmente levantada nessa pesquisa de que haveria mais macrounidades tipo P3 nas traduções inversas do que nas traduções diretas.
Em números absolutos, apenas a tradutora Mona teve predominância de P3 em três das quatro tarefas tradutórias: TD e TI da Coleta 1 e TI da Coleta 2, devido à sua estratégia de lidar com os problemas tradutórios na fase de revisão, deixando uma versão rascunho ao final da fase de redação e resolvendo os problemas posteriormente na fase de revisão. Observou-se, entretanto, uma tendência de haver maior proporção de P3 nas traduções inversas do que nas traduções diretas de uma mesma coleta, havendo 9 ocorrências em que a maior proporção de macrounidades tipo P3 é mais frequente na TI: Adam e Mona nas duas traduções inversas, Cycy e Jane na TI da Coleta 1, Jim e Tess na TI da Coleta 2 e Will na TI da Coleta 1, e 7 ocorrências de maior proporção de macrounidades P3 na TD: Rui nas duas traduções diretas, Jim e Tess na TD da Coleta 1, Cycy, Jane e Will na TD da Coleta 2. A realização do teste do quiquadrado mostrou ser significativa a ocorrência de P3, conforme a direcionalidade, na
Coleta 1, apresentando o valor do quiquadrado = 15.1338 e p = 0.03432. Não se observou, contudo, qualquer significância da ocorrência de P3 apenas na Coleta 2 nem em ambas as coletas. Dada essa variação significativa na Coleta 1, pode-se inferir que o assunto do texto (nesse caso, assunto correlato: anemia falciforme) ou tipo de texto (nesse caso: textos científicos) pode se constituir como uma variável importante a ser analisada em pesquisas futuras. Portanto, esses dados confirmam apenas parcialmente a hipótese levantada de maior ocorrência de P3 nas traduções inversas, valendo apenas para a Coleta 1, em que foi constatado o efeito facilitador, podendo esse ser um ser um indício de maior dispêndio de esforço cognitivo por parte do tradutor quando este executa a tradução inversa da Coleta 1.
Dada a nova reformulação das categorias de edição propostas por Alves e Vale (2011), não se observou nos dados analisados dos sujeitos sob escrutínio a mesma hierarquização estrutural do número de macrounidades que os autores encontraram nos dados por eles analisados, em que ocorreu inicialmente um número maior de P1, seguidas por P2 e, por último, P3. Com a inclusão da categoria P0, a reformulação de P1 englobando também edições no fluxo (dentro dos 2,4 segundos), a reformulação de P2 sendo caracterizada pela não edição (nem fora do fluxo nem dentro do fluxo) na fase de redação e pela posterior edição apenas na fase de revisão, observou-se que a tendência à hierarquização das macrounidades ocorre começando com P0, seguida de P1, por P3 e, em último lugar, P2. Essa menor proporção de P2 é um fator indicativo de que frequentemente o tradutor faz revisões no fluxo ou fora dele na fase de redação, havendo poucos segmentos nessa fase sem qualquer edição e que sejam retomados na fase de revisão. Já a alta frequência de macrounidades tipo P0 implica somente na possível edição da microunidade no fluxo imediato do processo tradutório. P0 poderia estar relacionada, na maioria das vezes, a uma grande quantidade de sinais de pontuação e espaços em branco durante o processo tradutório e que se constituem como produção textual, conforme o programa Translog© (ALVES e GONÇALVES, no prelo).
Com relação aos movimentos das edições realizadas no decorrer das fases de redação e revisão do processo tradutório, a presença desses movimentos também é um indício de gerenciamento do processo tradutório. O tradutor preocupa-se em manter uma consistência nos termos utilizados garantindo que uma mesma tradução de expressão ou termo seja igual em todo o texto. Esse maior gerenciamento também pode estar relacionado a uma maior capacidade da memória de trabalho de longo prazo, como no caso de Jane, que, quase ao final da fase de redação, se lembrou de ter traduzido “Coagulation activation and inflamation” no início do texto, e mudou a tradução inicial. Se não houvesse uma maior capacidade dessa
memória de trabalho de longo prazo, provavelmente essa alteração não ocorreria, pois essa tradutora não se lembraria de fazê-la. Diferente do que foi constatado por Alves e Vale (2011), não se percebeu, na análise concentrada nos títulos, movimentos descendentes das macrounidades de tradução, independentemente da direcionalidade, ocorrendo apenas movimentos ascendentes.
Conforme as edições realizadas nas UTs durante a realização das traduções inversas e diretas, percebeu-se que os tradutores apresentam um perfil e subperfil mais recorrentes ao descompactarem e recompactarem as UTs seja na TD ou na TI. A aplicação das fórmulas propostas por Alves e Vale (2011) nos dados, contabilizando-se as macrounidades de cada tipo no Litterae, identificou esses perfis, mas foi necessária uma nova reformulação, que agora permite que qualquer perfil de tradutor possa apresentar subperfil Recursivo ou Não recursivo. As novas fórmulas parecem ser mais adequadas por considerarem agora a recursividade apresentada pelo tradutor ainda na fase de redação. Esse comportamento mais recursivo, segundo Buchweitz e Alves (2006), também é um indício de maior adequação do tradutor à tarefa tradutória e de um maior gerenciamento do processo tradutório. Desse modo, a partir de um estudo mais aprofundado de recursividade, como o está fazendo Ferreira, em seu doutorado, aliando-o também a um estudo da qualidade do produto tradutório, pode-se provavelmente comprovar se o comportamento recursivo é um indício de expertise em tradução.
Além disso, tendo em vista porcentagens semelhantes de cada uma das categorias de edição e de produção e uma tendência de os perfis e subperfis serem os mesmos nas traduções diretas, diferindo-se, em alguns casos, apenas nas traduções inversas, pode-se afirmar que os padrões das categorias de edição (P1, P2 e P3), conforme classificação de Alves e Vale (2011) tendem a ser semelhantes para um mesmo tradutor nas traduções diretas e nas traduções inversas, independentemente do efeito facilitador constatado na Coleta 1, e isso consequentemente faz com que haja uma predominância de um mesmo perfil e subperfil nas tarefas tradutórias, especialmente nas traduções diretas, em que houve maior recorrência de um mesmo perfil e subperfil, conforme apontado anteriormente.
Dada uma recorrência do perfil Redator Revisor em 21 dentre as 32 tarefas tradutórias executadas pelos oito tradutores profissionais, parece haver uma tendência de que este seja o perfil que possa ser relacionado à expertise. Desse modo, o tradutor experto seria aquele que busca atingir um texto durável ao final da fase de redação (Jakobsen, 2002), mas reconhece que esse texto pode se tornar ainda mais durável com edições na fase de revisão. Entretanto, serão necessários estudos adicionais com estudantes de tradução e tradutores novatos, para
confirmar se esse perfil implica expertise. Com relação ao subperfil, não se perceberam indícios de expertise, havendo uma proporção semelhante de subperfil Recursivo e Não
recursivo.