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―Grande negócio‖. É assim que, atualmente, vêm sendo tratadas as questões relativas ao segmento do ensino superior no Brasil. Após o crescimento do número de instituições privadas a partir de 1997, aproximadamente 13% ao ano, chegou-se ao momento do investimento na profissionalização da gestão e da venda de ações na bolsa de valores. De empreendimento de grupos familiares, passou-se às S/A da educação.
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A inserção da economia brasileira, a partir da década de 1990, no processo de globalização, segundo Kuenzer (2001), apresentou impactos expressivos para a educação em função, principalmente, das novas tecnologias de produção que exigiram um redesenho dos processos de aprendizagem.
Em pesquisa realizada para o BNDES, Schwartzman, J., Schwartzman, S. (2002) afirmam que o preço médio pago, anualmente, pelo aluno do setor privado é de 5.300 reais. Ao final do curso, em média de quatro anos, o discente poderia levar para casa um carro popular, mas o que leva é um canudo e, na maioria das vezes, vazio, já que até o certificado de conclusão de curso, na maior parte das instituições privadas, tinha, até recentemente, custo adicional.
Em função do sucesso do setor, que movimenta mais de 20 bilhões anualmente, investidores de outras áreas passaram a atuar neste segmento. A previsão dos especialistas da área é de que, no período compreendido entre 2008 a 2012, cinco a oito grupos educacionais abram seu capital. Isso se explica a partir de alguns fatores que, inicialmente, parecem distintos, mas que, para o setor educacional, caminham lado a lado: o econômico, que indica que o Brasil está vivendo momentos de estabilidade e crescimento, mesmo em tempos de crise mundial, fazendo da bolsa excelente negócio para a captação de recursos; o espaço para o crescimento13 do
número de alunos no ensino privado - atualmente são cerca de 5 milhões no país. Esse crescimento tem algumas explicações: o aumento do PIB per capta, acesso maior ao crédito e crescimento dos concluintes do ensino médio. E, para completar a equação, a discussão acerca da participação de investimentos estrangeiros, que não encontrou ressonância na última discussão sobre a reforma universitária e, consequentemente, provoca interesse de investidores estrangeiros neste setor (Schwartzman, J., Schwartzman, S., 2002).
13 ―A educação no Brasil está em expansão, já que possuímos atualmente apenas 12% da faixa de
18 a 24 anos da população brasileira nas escolas superiores, um índice ainda muito baixo perto dos 70% a 80% registrados nos países desenvolvidos, ou mesmo em relação aos nossos vizinhos. A Bolívia, por exemplo, para surpresa de muitos, inclusive do mercado internacional, tem registrado um crescimento no número de alunos matriculados no ensino superior bem maior que o nosso‖. Declaração de A. Carbonari Netto, presidente do Grupo Anhanguera Educacional, em matéria publicada na Revista Ensino Superior, de Agosto de 2008 –
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As características deste segmento vêm sendo redesenhadas nas últimas décadas em função do aumento do número de instituições de ensino, de matrículas, de cursos, de funções docentes, etc. Além desses fatores, outra questão relevante diz respeito à pluralidade das diversas realidades educacionais com formatos, vocações e práticas acadêmicas diferenciadas.
A diversificação e a multiplicidade de instituições criaram um setor altamente competitivo e fragmentado no qual realidades pedagógicas e econômicas distintas são praticadas sem controle. A projeção de especialistas do setor é de que essa fragmentação diminua, haja vista a concentração da direção destas IES nas mãos de alguns mantenedores e a criação de grandes grupos educacionais. Segundo dados da Hoper Consultoria (2008), cerca de 26% dos alunos estão matriculados nos 18 principais grupos de ensino. De 2007 para 2008, os dez maiores grupos da educação registraram um aumento de 39% no número de alunos matriculados (de 640 mil para 889 mil).14
De acordo com o Ministério da Educação, existem, hoje, no país, 2.281 Instituições de Ensino Superior Privado, que, em função de suas dimensões e do capital de giro envolvido nos negócios, vêm recebendo dos analistas do mercado financeiro atenção especial. Segundo Petta (2007), ―Os analistas do mercado informam aos investidores que educação superior é um bom negócio15‖. Três grandes
grupos educacionais (Estácio de Sá, Anhanguera e Kroton Educacional) têm ações na Bovespa há cerca de três anos. Além desses grupos, o SEB – Sistema Educacional Brasileiro, que atua com a marca COC, atua na Bovespa. Além destes, outros grupos educacionais preparam-se para abrir seu capital e investem na aquisição de outras instituições16.
Questões econômicas fazem parte do dia a dia das sociedades e, atualmente, estão presentes em discussões acerca da educação superior. Os resultados econômicos sempre se fizeram presentes em todas as formas de civilização, podendo-se afirmar
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GAZETA MERCANTIL 18/02/2009
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Maria Clotilde Lemos Petta é professora licenciada da PUCCampi e secretária de Comunicação Social da CONTEE – Confederação Nacional do Trabalhadores dos Estabelecimentos de Ensino.
16 Revista Ensino Superior, Agosto de 2008 – Disponível em
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que são inerentes à vida humana. A origem das universidades, ainda na Idade Média, foi marcada por transformações de cunho econômico, político e cultural.
De acordo com Ponce (1989), sob a influência da nova burguesia, que exigia espaço na vida intelectual europeia, a escola catedralícia foi o germe da universidade que ocorreu por volta do século XI, em função da expansão do comércio e da circulação de dinheiro. Antes disso, a educação superior ocorria em instituições ligadas à Igreja, única autoridade no mundo medieval com competência para outorgar o ius ubique docendi – titulação necessária para exercer o magistério.
As primeiras universidades17 surgiram com iniciativas oriundas de alguns
professores que, por diversos motivos, deixaram de se alinhar com as normas da Igreja e fundaram corporações de ofícios - associações civis autônomas - que organizavam os mais variados ofícios (de barbeiro a cirurgiões) a partir do conhecimento disciplinado pela lógica. Ainda segundo Ponce (1989), as primeiras universidades podem ser consideradas como reuniões livres de homens que se propunham ao estudo da ciência.
A Universidade, em qualquer lugar do mundo, desde a revolução burguesa, configura-se como uma instituição pautada pela permanente reforma, buscando soluções para o seu tempo. Para alinhar-se às necessidades da Revolução Francesa, tornou-se profissionalizante ou napoleônica; para adequar-se ao movimento científico da Prússia, tornou-se pesquisadora; e para responder às demandas de países em desenvolvimento, entre o final do século XIX e XX, tornou-se de massas (Trindade, 2000).
A universidade tem, como característica, o princípio de reforma permanente, porém nenhuma alteração ocorrida anteriormente tem sido tão profunda quanto as ocorridas nas últimas décadas. Para Santos apud Germano, o ideal clássico de universidade começa a se descaracterizar a partir dos anos 1960:
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Precisar a origem das mais antigas universidades - Salerno, Bolonia, Paris, Montpellier, Orleáns e Oxford - não é possível, no entanto seus registros remontam ao século XII. Já no século XIII, encontramos constituídas as universidades de Angers e Toulouse (1229), na França; Cambridge na Inglaterra (1209); na Espanha, Palencia (1212), Salamanca (antes de 1293) y Lérida (1300); em Portugal, Coimbra e Lisboa (1288); na Itália, Pádua (1222), Nápoles (1224), Siena, Plasencia (1246). Roma e Avignon tiveram universidade desde (1303). Na Alemanha e em Praga (1347), Heidelberg (1385). Na Áustria, Viena (1365), em Polônia, Cracóvia (1364). Fonte: RUIZ – Unisinos (Doc eletrônico).
26 [...] pelas inúmeras funções que passam a ser atribuídas a ela, que vão desde a prestação de serviços (extensão), o fornecimento de mão-de-obra qualificada, o fortalecimento da competitividade da economia, a mobilidade social para os filhos de famílias operárias, a preparação de pessoas para o exercício de liderança social, até o estabelecimento de paradigmas de aplicação de políticas públicas (Germano, 2001:226).
Segundo Eunice Durham (2006), o fortalecimento da universidade ocorreu a partir da obtenção de uma bula papal consolidada por um decreto real ou imperial que autorizava a outorga do diploma. Nascida na Europa, onde se consolidou com as universidades de Bolonha e Paris, sua legitimação social foi uma questão de tempo. Hoje, funda-se na autonomia do saber frente à religião e ao Estado.
As instituições universitárias, que surgiram como cenário para pensamentos de vanguarda, romperam com o clero na Idade Média e chegaram à modernidade com a missão de se opor à tradicional visão de criação, gestão e transmissão do saber. A sociedade atual vê a universidade como guardiã do conhecimento e como elemento decisivo para a inclusão social. Isso ocorre a partir do tripé ensino, pesquisa e extensão, que norteia as instituições desde a segunda metade do Século XX. Dessa forma, as universidades iniciam suas atividades exclusivamente voltadas ao ensino (século XI), incorporam a pesquisa como tarefa essencial (Século XVII) e incluem o terceiro item – extensão – já no século XX, aproximando o fazer acadêmico da vida social. Nesse processo, a academia, segundo Audy (2006:343), ―tem convivido com as tensões geradas pelo novo ambiente, envolvendo a sua missão de ensino (original), pesquisa (primeira revolução) e desenvolvimento econômico e social (segunda revolução)‖.