1. KAVRAMSAL VE TEORİK ÇERÇEVE
3.5. Türk Yatırımlarının Kosova’nın Ekonomik Büyümedeki Yeri
3.5.3. Kosova’da Yatırım Yapan Türk Yatırımcılar ile Anketlerin Sonucu
As experiências em trabalho de campo no qual o antropólogo é afetado junto aos nativos fazem com que se abram outro ponto de vista em fazer etnografia, um ponto de vista diferente do ponto de vista dos nativos que vai além dos processos de observação sobre o mesmo. Não se almeja tornar-se um nativo, mas ser afetado pelas mesmas experiências/situações que ele. A “modalidade de ser afetado” (FAVRET-SAADA, 2005, p.155) é uma aceitação em que nada tem a ver com a observação e a empatia. Deixar-se afetar é deixar-se estar em condição de devir. Neste sentido, o devir “é o movimento através do qual
95Um caso interessante a ser demonstrado são as relações de afeto que aconteceram entre dois integrantes da
um sujeito sai de sua própria condição por meio de uma relação de afetos que consegue estabelecer com uma condição outra” (GOLDMAN, 2003, p.464). Nas palavras de Guatarri, o devir é:
termo relativo à economia do desejo. Os fluxos de desejo procedem por afetos e devires, independentemente do fato que possam ou não ser rebatidos sobre pessoas, imagens, identificações. Assim, um indivíduo antropologicamente etiquetado masculino pode ser atravessado por devires múltiplos e, em aparência, contraditórios: devir feminino coexistindo com um devir criança, um devir animal, um devir invisível, etc. (GUATTARI, 1986, p.288 apud GOLDMAN, 2003, p.464)
Em suma, o devir é um estado de movimentação de condições, ele é real, “é o que nos arranca não apenas de nós mesmos, mas de toda identidade substancial possível” (GOLDMAN, 2003, p.464). Minha experiência em campo nos dois dias do evento HQPB foram procedidas por momentos de devir. Como parte da equipe de apoio, eu estava também como pesquisadora. Meu intuito era descrever todos os detalhes em campo, as situações que apareciam e os agenciamentos dos atores sociais ali envolvidos. No entanto, a condição como parte do apoio demonstrou situações em que escapavam do meu controle de observação participante.
O incômodo em manter tudo em ordem, a presteza, a agilidade e as dinâmicas comunicativas me fizeram envolver, em que cada momento eu me sentia parte do ser staff, embora nunca tivesse trabalhado em eventos como esse. Sentia-me ainda envolvida no processo de devir staff quando notava o empenho de Lívia e de outros que, mesmos cansados, organizavam mesas, conferiam se estava tudo dando certo, subiam e desciam os primeiros andares.
No segundo dia do evento, ao me familiarizar com as dinâmicas comunicativas e em perceber os componentes do evento, pude ir até as salas administrativas e lá guardar meus pertences. A sala era ampla: havia dois sofás um de frente ao outro e ao lado de um deles, uma mesa redonda com algumas cadeiras, armário, frigobar e mesas com computadores e impressora. Nessas mesas, eram colocados os notebooks96 para se ter acesso à internet e ali, trabalhavam os que faziam as coberturas das fotos do evento e divulgação do mesmo nas comunidades virtuais.
Fiquei sentada por um tempo próximo a mesa redonda, e em cima dela haviam algumas caixas com ingressos enumerados. Chegou um rapaz da equipe de apoio próximo a mim e
perguntou se poderia pegar os ingressos que estavam ali. Lembrando-me da dinâmica de comunicação entre nós, staff, disse a ele que achava que poderia pegar, pois se estavam ali, não teria problema algum. Observando aquilo, Marília uma das coordenadoras que estava próximo a mim, ao ouvir que eu havia respondido, perguntou ao rapaz quem havia pedido estes ingressos. Ele respondeu que Glauber havia pedido. E ela continuou: “e quem disse pra
você pra pegar todos os ingressos?”. Ele, apontando pra mim disse: “aquela menina ali”.
Marília perguntou em alto e bom som: “e quem é essa menina?”. Foi quando eu intervi no diálogo e disse que não era ninguém. Ela se virou a mim, me olhou e deu uma ordem ao rapaz pedindo para levar apenas os ingressos carimbados. Depois deste momento – desagradável –, preferi não me sentar próximo aos ingressos. Afetei-me. Afastei-me. Esse foi um dos momentos em que pude experimentar um sistema de hierarquias e de ter a consciência que eu estava ali a trabalho. Ser staff é participar de um trabalho, com pessoas lhe dizendo o que fazer e indicando ordens. Ao deixar-me participar, expus a mim mesma nas diversas situações: desde colocar plaquinhas nas salas, ser paciente com o público, saber lidar com alguns dos ministradores das Oficinas (que ora reclamavam, ora solicitavam materiais) e dar informações.
Naquele momento, Marília reafirmou de maneira explícita sua autoridade. Ao ver sua autoridade talvez ameaçada e reprimida, pelo fato de eu ter respondido a uma pergunta que deveria ser feita a ela, através de seu discurso e olhar, a posição social dela naquela estrutura foi acionada. Sem a presença dos demais organizadores, ela tomou consciência do seu papel, realizando o que Da Matta (1997) fala de consciência de posição social. Sua atitude de reafirmação de autoridade foi vista em outros momentos com outros integrantes da equipe de apoio.
Ter ocupado a posição de staff me fez ser envolvida por determinadas intensidades que me fizeram experimentar uma “comunicação involuntária”, expressão dada por Favret-Saada (2005). De acordo com a autora, ser aceito a ocupar um lugar e deixar-se afetar por ele, abrem-se comunicações específicas com os nativos, que são desprovidas de intenção, sendo verbal ou não verbal. No HQPB, alguns momentos em conversas com Álida, a comunicação surgia sobre alguns assuntos de forma involuntária, de modo que muitas vezes eu estava ali não como pesquisadora, mas como uma amiga que ouvia as confidências da outra. Em outras situações, confesso que me senti em dúvida sobre minha própria posição e até calava-me97.
97 Refiro-me a uma situação em que eu estava sentada no chão do corredor em frente às salas das oficinas e
palestras e dois integrantes da equipe de apoio (um menino e uma menina) ao me ver, sentaram um do meu lado direito e outro do meu lado esquerdo e começaram a falar do evento. Minhas palavras eram poucas e rasas.
De acordo com Favret-Saada (2005), aceitar ser afetado pelas experiências em campo é assumir riscos em ver o projeto de conhecimentos se desfazerem. Fui ao campo pensando em estar sempre atenta a minha volta, a não me esquecer que estou etnografando, a ter acionado o meu estoque de questões antropológicas, mas deixe-me envolver pela situação de devir. Os discursos ali presentes como os de Marília, me fizeram compreender que são parte dos dispositivos de legitimação do ser staff. Há toda uma preparação desde a primeira reunião dos selecionados em se manter uma hierarquia e respeito, mesmo que de forma implícita ou até explícita como o caso acima. É preciso estar ciente que ali é um trabalho, no sentido de se ter responsabilidades, mesmo que este trabalho não seja remunerado, quer dizer, voluntário. Ali, se envolvem os desapontamentos, as fofocas, as responsabilidades e atuação de cada pessoa do apoio. A atuação é vista pelos organizadores, pelo público e por outros colegas da equipe.
Ao me deixar afetar e me afastar, estou participando mesmo não verbalmente de uma comunicação involuntária junto aos pesquisáveis. O cansaço, a atenção, a chateação, os sorrisos, as fofocas, tudo que acontecia a mim acontecia também aos outros da equipe. Não raro, ouvia reclamações sobre a organização, falta de informações sobre atrações do evento, a agitação dos primeiros momentos no sábado e o cansaço nas últimas horas do domingo. Tanto eu quanto um colega staff estávamos tão cansados que descansamos numa das salas das palestras. Eu estava sujeita as mesmas forças que os outros também estavam, realizando um processo de devir-staff, exercendo não uma observação participante, mas, nas palavras de Favret Saada (2005), uma participação em que era ao mesmo tempo, um “instrumento de conhecimento” (p.157).