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Como isso se estabelece? Quais acontecimentos operam essa passagem?

O sujeito de interesse existe apenas enquanto forma ideal de um prisma racional específico, nomeadamente o neoliberal. Com efeito, esta subjetividade precisa ser produzida ou incentivada. O sujeito de interesse não é um dado da natureza; é uma tendência. É precisamente nesse ponto particular que o governo da comunicação ganha contrastes destacados, emergindo com força absoluta no processo de individualização e de organização do meio social.72

Esse processo tem lastro. A comunicação social está no cerne das práticas de governo político do humano desde a constituição do Estado moderno, como contextualizamos nos capítulos precedentes, abrindo a história para o aparecimento das políticas da propriedade intelectual. Contudo, desde o século XX, os dispositivos de comunicação dão um salto qualitativo no que tange ao padrão tecnológico existente nos séculos anteriores e que forjaram a indústria da comunicação social. Grosso modo, num sobrevoo supersônico, podemos sublinhar: 1) o estabelecimento da cibernética e da informática – que não por acaso aparecem como ciência concomitantemente com a renovação do pensamento liberal no início do século passado, em meados dos inflamados anos 30; 2) o desenvolvimento da indústria cultural e da comunicação de massa, particularmente no período após à Segunda Grande Guerra; 3) a revolução digital informática iniciada nos potentes anos 60 e 70 – que suscita outra sincronia temporal, é logo após os movimentos de contra-conduta dessas décadas que o neoliberalismo se hegemoniza como prática de governo, principalmente nos anos 80; 4) a popularização da internet e das chamadas novas tecnologias da comunicação e da informação que imperam no mundo desde o virar do século XXI.

Qual a relação, portanto, da comunicação com a racionalidade neoliberal de governo? Como a propriedade intelectual é reatualizada nesse contexto? Como ela é praticada sob o lume

                                                                                                               

72 Esta afirmação é levada à máxima consequência pela dupla de filósofos contemporâneos Negri e Hardt. Eles

apontam sobriamente as arquitraves das relações de poder do capitalismo contemporâneo. São elas: a guerra e o dispositivo militar-jurídico correlato, o grande equalizador universal – o dinheiro – e o éter – a comunicação social e seu dispositivo mediático mundial. (HARDT; NEGRI, 2002).

neoliberal? Essas perguntas nos permitem remontar os atributos principais da propriedade intelectual no presente.

Na penúltima aula do seu curso de 79, sobre os liberalismos e os neoliberalismos, Foucault afirma que o sujeito de interesses é, na definição neoliberal dos norte-americanos, aquele quem aceita a realidade no qual se está inserido. Aceitar a realidade onde se está inserido significa responder ou reagir positivamente aos estímulos, fluxos e variáveis provenientes do meio social do qual o sujeito faz parte. O homo oeconomicus age racionalmente ao receber informações do meio onde vive. Ele aceita, se envolve e atua afirmativamente na realidade ao seu entorno, isto é, sua reação é uma reação sistêmica e, por essa razão, não aleatória. Logo, estas reações são passíveis de intervenções e medições de cunho político e econômico.

Na esteira do economista Ulrich Becker, Foucault explica que toda e qualquer conduta racional dos indivíduos que “responda de forma sistemática a modificações nas variáveis do meio – em outras palavras, como diz Becker, toda conduta que aceite a realidade – deve poder resultar de uma análise econômica” (FOUCAULT, 2008, p. 368). É nesse exato momento que ocorre esta passagem histórica: a gênese do governo do homem econômico, algo até então impensável pelos liberais. Esse governo será, uma vez mais, estruturado pela prática da economia política, agora a neoliberal. Isso acontece porque a conduta do homo oeconomicus é suscetível aos fluxos e aos circuitos do meio social, ou seja, do mercado arquitetado artificialmente pelo neoliberalismo. A conduta racional do sujeito de interesses diz respeito à “toda conduta sensível a modificações nas variáveis do meio e que responde a elas de forma não aleatória, de forma portanto sistemática, e a economia poderá portanto se definir como a ciência da sistematicidade das respostas às variáveis do ambiente.” (FOUCAULT, 2009, p. 368).

Como provocar, instalar, inscrever modificações nas variáveis do meio?

No passado, era muito difícil investir em tal dinâmica sem deixar a ver traços de um autoritarismo intenso sobre os corpos humanos. Com a edificação do mercado da comunicação social, muito lentamente mas numa crescente gradativa, torna-se possível a produção e a circulação, em escala planetária (e atualmente na velocidade da luz), de afetos, conhecimentos, informações e imagens.

No contemporâneo, diagnosticado o fato de que o meio social está progressivamente e inescapavelmente comprometido com o processo de subsunção ou de conexão estratégica às redes digitais, emerge e se afirma finalmente a possibilidade de comunicação direta entre cérebros, entre os seres viventes (GORZ, 2005; LAZZARATO, 2006; NEGRI; HARDT, 2002; 2006; 2011).

Esse dado é fundamental para a nossa análise: a composição do meio social às redes sociais digitais e vice-versa, bem como a experiência da comunicação direta entre os seres humanos. Neste contexto de alta acessibilidade, a capacidade de provocar, inserir, inscrever e de reinscrever; a possibilidade de codificar, decodificar e recodificar as múltiplas variáveis ou virtualidades do meio é de uma potência absoluta e aberta (por enquanto). Logo, em virtude desta absoluta potência, a capacidade de governo dos outros, a capacidade de governar os sujeitos de interesse, a possibilidade de agir sobre as ações do homem econômico e determinar e mensurar suas ações futuras é cada vez mais evidente e eficaz.

O mercado da comunicação se torna praticamente perene. Esse mercado passa a desempenhar uma das essenciais funções do processo de essencialização da ideia de mercado concebida pelos neoliberais. Ao se tornar perene e apresentar uma alta capacidade de acesso, a potência de se governar o meio social e as singularidades que o compõem são igualmente poderosas e subversivas. Por esses motivos, é preciso, por um lado, impor certos arames a esta potente abertura que os dispositivos digitais propiciam aos indivíduos do meio; por outro, há uma urgência em incentivar a produção de comunicação e de conhecimento para que o mercado seja de fato um lugar de circulação incessante de produtos e de saber.

Paradoxalmente, as políticas da propriedade intelectual – direito de cópia e direito de autor – abrem espaços ao mesmo tempo em que os bloqueiam. A Organização Mundial da Propriedade Intelectual torna límpida essa relação ao expor suas principais missões, como já as citamos. Poderíamos fazer alusão, igualmente, a legislação federal brasileira referente à propriedade intelectual, lei n°: 9610, de fevereiro de 1998, a qual segue os mesmos ditames firmados pela OMPI.

Por exemplo, a lei vigente no Brasil73 “orienta-se pelo equilíbrio entre os ditames constitucionais de proteção aos direitos autorais e de garantia de pleno exercício dos direitos culturais e dos direitos fundamentais e pela promoção do desenvolvimento nacional.” (LEI n.˚ 9610, 1998). Na sequencia o parágrafo único indica que “a proteção dos direitos autorais deve ser aplicada em harmonia com os princípios e normas relativos à livre iniciativa, à defesa da concorrência e à defesa do consumidor”. (LEI n.˚ 9610, 1998).

Podemos observar nas linhas da lei brasileira muito do teor do regimento da OMPI. Equilíbrio, proteção, acesso, mercado, tudo está assumidamente coordenado à lógica do incentivo e do acesso/bloqueio aos benefícios e riscos que o mercado neoliberal impõe. A OMPI, por um lado, estabelece um arcabouço jurídico de alcance planetário o qual incentiva os sujeitos de interesse a criar, tendo em vista os frutos que irão colher com o sucesso da sua produção. A OMPI alisa um espaço de forte possibilidade de ganhos para aqueles indivíduos dispostos a produzir para a fruição no mercado. Por outro lado, ela monta um sistema de controle, de acesso e de bloqueio para este fluxo incessante de comunicação, informação e conhecimento que flui pelos circuitos culturais da sociedade civil.

Em junho de 2013, o diretor da OMPI, Francis Gurry trata, numa entrevista ao site Intelectual Property Watch (www.ip-watch.org), das resoluções do ultimo tratado condensado pela agência. Ele destaca o papel da OMPI na produção de regras econômicas relativas à propriedade intelectual. Além disso, Gurry ressalta o fato de que os tratados da OMPI estão sempre orientados a cuidar dos interesses dos beneficiários dos sistemas de propriedade intelectual ao mesmo tempo em que preservam igualmente os interesses de todas as partes da sociedade civil74.

                                                                                                                73

A lei vigente no Brasil está passando por um processo de reformulação. Durante os 8 anos do governo do presidente Lula, por iniciativa do Ministério da Cultura, liderado pelo ministro Gilberto Gil, a lei de 1998 foi posta em consulta pública. Um sítio na internet apresentava a lei dentro de um sistema que recolhia sugestões de melhora. A sociedade civil, a academia, os movimentos sociais, coletivos artísticos todos foram convocados a contribuir para alterar o panorama da propriedade intelectual no Brasil.. Tal proposta recebeu elogios consideráveis da comunidade internacional. Após período de meses, as sugestões foram acolhidas e sintetizadas em projeto de Lei de Reforma do Direito Autoral. O MinC encaminhou a Lei de Reforma à Casa Civil da Presidência da República no inicio do governo Dilma. Com a reforma ministerial, a nova (e já afastada) ministra Ana de Hollanda pediu revisão da Lei para que um grupo de juristas especialistas da temática pudesse avaliá-la criteriosamente e propor modificações adequadas. Tal atitude gerou muita polêmica e praticamente paralisou o processo de atualização da Lei de Reforma do Direito Autoral brasileira.

74 “For WIPO, as an organisation, I think it is extremely important that we maintain our relevance to economic

rulemaking. The member states are demonstrating that they have the capacity to tackle specific problems, and to achieve a consensus on a result for those problems (...)It shows that the IP system can be expansive and take care of the interests of the beneficiaries of the IP system, and take care of the interests of all parts of society.

A agência máxima acerca da temática da propriedade intelectual expressa, sem constrangimentos, sua estratégia de governo de toda a produção do intelecto humano75 (individual ou coletiva). Fica evidente a intenção de controlar, até certo limite, a reprodução e a fruição dessa produção por todo o tecido social. O limite traçado é o respeito aos interesses dos beneficiários dos rendimentos gerados, ou seja, dos articuladores do mercado neoliberal. Assim, a OMPI assume uma postura integralmente alinhada aos preceitos do pensamento neoliberal de governo – tanto das ações globais da sociedade quanto das ações singulares da vida humana.

Citamos dois exemplos que ilustram bem este particular sistema de propriedade intelectual no neoliberalismo.

O Youtube, maior site de compartilhamento de vídeos do mundo, há alguns anos adquirido pelo Google, recentemente decidiu veicular peças publicitárias na maioria dos vídeos disponíveis no seu gigantesco acervo. Diante da grande resistência encontrada, o Youtube indica que, a depender da quantidade de visualizações registradas, o autor do vídeo receberá uma parcela do valor do anúncio veiculado. O Youtube não exige de ninguém a cessão dos direitos de propriedade.

O Youtube, que já incentivava a produção de conteúdo, agora passa a remunerar diretamente os criadores. O dispositivo do direito de autor é a técnica que permite esse serviço de distribuição de renda.

Outro caso de grave importância aconteceu recentemente no Brasil. Durante a Copas das Confederações, o país talvez tenha experimentado as maiores manifestações políticas de sua história. As ruas foram tomadas, de norte à sul, por milhões de pessoas. Mas não só as ruas. As redes sociais também, especialmente o Youtube e o Facebook. Esse acontecimento fez com que a FIFA, entidade realizadora do evento, temesse uma explosão de protestos dentro dos novos estádios de futebol, onde os jogos eram realizados.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                       

For multilateralism, it is important because the international community in general has a limited capacity at the moment to achieve agreement, and it is good to have a success for multilateralism. The treaty is a demonstration that you can get things done through multilateralism.” (Francis Gurry, 2013)

75 Para a OMPI a propriedade intelectual “se refere a toda criação do intelecto: invenções, trabalhos literários e

artísticos, bem como símbolos, nomes, imagens, e designs usados em comércio.” (WIPO) (Intellectual property (IP) refers to creations of the mind: inventions, literary and artistic works, and symbols, names, images, and designs used in com merce.)

Confirmando o temor da FIFA, os torcedores passaram a protestar dentro dos estádios de futebol com faixas e cartazes de apoio às manifestações das ruas e de ataques direto ao poder público, nas mais variadas esferas, bem como contra a própria FIFA. Segundo a Lei da Copa, exigência da FIFA, qualquer manifestação contrária à realização dos jogos num raio de três quilômetros de distancia dos estádios e principalmente dentro dos estádios da Copa são estritamente proibidos. Ora, os torcedores conseguiram facilmente burlar o esquema de segurança e abriram cartazes no interior das arquibancadas mesmo com a proibição da entidade máxima do futebol mundial. Como a grande mídia era detentora dos direitos oficiais de transmissão, ela não exibia os cartazes. Os torcedores, sagazmente, não só filmaram como viralizavam os vídeos pelos circuitos do Youtube e do Facebook.

Em resposta, a FIFA conseguiu, com uma rapidez impressionante, a retirada de todos os vídeos do Youtube que fizessem alusão aos protestos. A propriedade intelectual é o dispositivo por meio do qual a FIFA censurou as manifestações. Ela detém a exclusividade de reprodução de tudo o que acontece dentro deste raio limítrofe traçado. Ninguém pode gravar um vídeo dentro do estádio e compartilhá-lo pela internet; ou melhor, até pode. Todavia, caso a detentora dos direitos de cópia, neste caso a FIFA, se sentir lesada, ela tem proteção jurídica para bloquear e censurar os manifestantes, pouco importando as ofensas à liberdade de expressão.

Embora bastante simples e sintéticos, estes dois exemplos ilustram algumas formas de intervir sobre as variáveis do meio para consequentemente agir sobre as condutas individuais e coletivas da sociedade civil. Não há absolutamente qualquer referencia a naturalidade de direitos. A naturalidade dos direitos de autor, quando requisitada, é por pura estratégia retórica.

Ao contrário, os neoliberais assumem a artificialidade do mercado e por isso investem em técnicas refinadas de controle político. Somente aprimorando essas técnicas de intervenção e, por conseguinte, intervindo constantemente e incessantemente, é possível otimizar o funcionamento dos mercados, mitigando os riscos de crises e rupturas inerentes ao processo histórico.

Por fim, há ainda um outro exemplo que gostaríamos de apresentar. É um caso formidável da prática de governo contemporâneo. Ela traduz excepcionalmente como se apropriar dos dados das variáveis do meio para conduzir as relações sociais.

O Facebook é a maior rede social do mundo. Só perde em número de usuários para a China e para a Índia, ou seja, o Facebook possui mais de 1 bilhão de pessoas cadastradas em seus sistemas, praticamente cinco vezes a população do Estado brasileiro. É um dado realmente impressionante para uma empresa de comunicação social que tem menos de dez anos.

Uma das condições para que alguém possa fazer parte da rede social é aceitar o termo de condições da empresa. Esse termo estipula e impõe ao usuário uma série de exigências concernentes às políticas da empresa Facebook. Caso ele deseje participar da rede deve aceita-las todas. Um dos tópicos diz respeito à propriedade intelectual. Ela consta entre as exigências da maio rede social do planeta. O usuário para se registrar no Facebook necessita ceder à empresa a propriedade intelectual de todo o conteúdo veiculado em sua conta, seja vídeo, textos, imagens etc.

Não é uma escolha. É uma obrigação para toda pessoa que tenha vontade de ser usuário registrado na rede social. A declaração de direitos e responsabilidades contida no site do Facebook, no item 2 – Compartilhando conteúdo e informações – declara que

para o conteúdo coberto pelas leis de direitos de propriedade intelectual, como fotos e vídeo (conteúdo IP76), você nos concede especificamente a seguinte permissão, sujeita às configurações de privacidade e aplicativos: você nos concede uma licença mundial não exclusiva, transferível, sublicenciável, livre de royalties, para usar qualquer conteúdo IP publicado por você ou associado ao Facebook (Licença IP). Essa Licença IP termina quando você exclui seu conteúdo IP ou sua conta, a menos que seu conteúdo tenha sido compartilhado com outros e eles não o tenham excluído.

Por que o Facebook exige essa transferência dos direitos de propriedade intelectual? Primeiro, porque assim ele controla todo o fluxo semiótico que circula pelos seus canais. Embora a comunicação interpessoal seja aparentemente livre, tudo postado na rede é de propriedade do Facebook.

Isso produz alguns efeitos. O Facebook pode intervir, gerenciar e modular a comunicação de 1 bilhão de pessoas no mundo, abrindo precedentes que ilustram bem a prática política que a

                                                                                                               

empresa segue. A principal ferramenta para que este tipo de prática se efetive é a propriedade intelectual.

Por exemplo, nas recentes manifestações do Brasil, o Facebook sumariamente deletou usuários da sua rede. As pessoas só conseguiram recuperar seu perfil no sistema, encaminhando obrigatoriamente dados extras e privados à rede social, como cópias de documentos de identidade. Como num conto de Kafka, o sujeito estava obrigado a comprovar que ele era ele mesmo. Além disso, o Facebook bloqueou comentários, excluiu eventos e praticou mais uma série de censuras e ofensas à livre expressão. A maioria desses atos ocorreu tendo como salvaguarda jurídica a propriedade intelectual.

Outra questão relevante sobre o Facebook e sua composição com o pensamento neoliberal remete à forma como a empresa manipula os dados dos usuários. O Facebook transforma o conteúdo em circulação na rede em dados estatísticos que organizam as preferencias dos seus usuários, seus desejos, crenças e paixões, seus hábitos de consumo etc. Ao transformar a vida dos usuários em dados matemáticos, o Facebook é capaz de gerenciar anúncios exclusivamente adequados e correspondentes aos anseios dos seus usuários. Além disso, os dados dos usuários são verdadeiras matérias primas vendidas a peso de ouro para outras empresas. A vida das pessoas se transforma em planilhas e banco de dados vendidas como produtos especiais para o mercado dirigir suas ações.

Por essa razão o Facebook possui a competência e a eficiência de capitalizar e de gerar valor manuseando as informações de mais de 1 bilhão de pessoas do mundo. E faz isto exigindo a propriedade intelectual da cadeia semiótica que circula pelos seus canais. Vale destacar que o Facebook figura entre as três mais valiosas empresas do mundo (ao lado de Google e da Apple ambas empresas que investem pesadamente em tecnologias e sistemas de comunicação e de informação), além de ser também a primeira empresa da internet a abrir suas ações à venda nos disputados pregões do signo maior do mercado financeiro mundial, a bolsa de valores de Wall

Street.

Queremos com isso dizer que o Facebook expressa à perfeição o pensamento neoliberal de governo político dos humanos. O Facebook é um exemplar caso de como o mercado se conecta e subsume o meio social e como ele escancara a possibilidade de inscrição e de alteração das

coordenadas e códigos do meio na tentativa de induzir, inflar e cooptar as ações do homo

oeconomicus.

A comunicação, o fluxo semiótico produzido e compartilhado socialmente, é o óleo que lubrifica todo o mercado neoliberal (MARAZZI, 2009). Inserir no platô da comunicação social às qualidades produtivas e reprodutivas de uma população engendra efeitos profundos. No presente, governar a comunicação social de um território é o mesmo que governar a sociedade civil e os indivíduos que a habitam em sua espessa realidade histórica e subjetiva.

As políticas da propriedade intelectual – copyright e direito de autor – são práticas essenciais para que um governo da comunicação se estabeleça e organize e module o complexo espaço social hodierno. Ela instala no solo do nosso presente uma renovada economia do visível. “A propriedade intelectual tem, assim, uma função política, determina quem tem o direito de criar e quem tem o dever de reproduzir.” (LAZZARATO, 2006, p. 125).

Estas políticas arrastam no seu bojo sedimentos de uma longa tradição histórica. É a história da edificação da indústria e do mercado da comunicação global. As condições materiais do mercado

Benzer Belgeler