Embora os agentes econômicos e os portadores de direitos não possam ser sintetizados, esculpindo assim uma terceira via, estes dois sujeitos passam há habitar o mesmo território, eles fazem parte do mesmo conjunto. No limite: empiricamente eles compõem a mesma subjetividade, atualizam-se no mesmo corpo.
Como desatar o nó górdio posto pela irredutibilidade do homo oeconomicus diante do Estado soberano69? Qual o caminho proposto pela governança liberal para esse paradoxal problema? Como é possível governar ambos indivíduos?
A governança liberal e principalmente sua vertente contemporânea – o neoliberalismo –, diante dessa encruzilhada política, investe em dois pontos: na sociedade civil e na ressignificação do
homo oeconomicus. Os neoliberais inscrevem esses dois elementos no seu horizonte teórico para
elaborar as saídas para esse impasse. Para que as regras do direito sejam obedecidas tanto quanto o respeito às especificidades da economia, o governo administrará a sociedade civil (FOUCAULT, 2008) e investirá em técnicas de modulação do homem econômico. A sociedade civil e o homo oeconomicus constituirão elementos indispensáveis a essa nova racionalidade emergente.
69
Foucault (2008) e Lazzarato (2011a) asseveram que esta polarização quando não governada pelo liberalismo terminou, na Rússia, por exemplo, com a revolução comunista: o Estado torna-se o verdadeiro e único agente econômico da nação, sem desconsiderar os problemas que esta resposta traz no seu cerne.
O homo oeconomicus é, digamos, o ponto abstrato, ideal, puramente econômico que povoa a realidade densa, plena e complexa da sociedade civil. Ou ainda: a sociedade civil é o conjunto concreto no interior do qual é preciso recolocar esses pontos ideais que são os homens econômicos, para poder administrá-los convenientemente. Logo, homo
oeconomicus e sociedade civil fazem parte do mesmo conjunto... (FOUCAULT, 2009,
p. 403)
Em tal conjuntura, as políticas da propriedade intelectual exercem função indispensável para a estratégia de se governar os circuitos comunicativos do mercado global hodierno. Por um lado, as políticas da propriedade intelectual incitam a produção e, por outro, bloqueiam a reprodução e o acesso, conectando assim estranhamente sujeito de interesse e sujeito de direito, copyright e direito de autor, na realidade densa da sociedade civil. Não é por acaso, como expusemos no início desse capítulo, que a agência responsável pelas políticas da propriedade intelectual, a OMPI, assuma como atribuição capital assegurar e gerir o bom funcionamento dessa relação no mercado mundial.
4.3.1 A sociedade civil
Os pensadores liberais e neoliberais encontram, segundo Foucault (2008) e Lazzarato (2011a) uma primeira solução para o paradoxo em um campo referencial novo. Ela se manifesta sob o signo da ““sociedade civil”, a “sociedade” ou o “social.””(LAZZARATO, 2011a, p. 16). Para que o Estado não se divida em duas comunidades cindidas – a comunidade dos sujeitos de direito e a comunidade dos sujeitos de interesses – o pensamento liberal elaborou algo como a sociedade civil.
A sociedade civil é, para Foucault, algo particular. Não se trata exatamente de uma ideia filosófica, jurídica, negação da família ou algo nessa trilha teórica. A sociedade civil é o conceito correlato da técnica de governo liberal para conduzir essa intrincada relação entre sujeito de direito e o homem econômico. O social é o local onde a vida humana se passa, no qual se articulam o material e o virtual das comunicações entre os seres viventes. É com o social e a partir dele que se tentará governar, ao mesmo tempo, as duas subjetividades humanas, essas duas vontades – interesse econômico e justiça. A sociedade civil é o ambiente onde se estabelece a
comunhão estratégica das duas ideias antagônicas proposta pelo liberalismo. O governo deve intervir sobre as articulações da sociedade como um todo para preservar o funcionamento espontâneo das trocas no mercado ao passo em que garante a igualdade de direitos no âmbito jurídico.
Essa questão é complexa e requer um estudo mais aprofundado. Não é possível avançar na história do termo sociedade civil neste trabalho. Não obstante, vale demarcar o ponto fundamental levantado por Foucault e Lazzarato para compreendermos como as políticas da propriedade intelectual efetivamente são manejadas neste novo objeto de governo que está sendo desenhado aqui.
Governar a sociedade civil é organizar e conduzir o meio (FOUCAULT, 2009) no qual a vida se manifesta. O governo conduzirá as relações sociais intervindo sobre as virtualidades e as materialidades do meio. As virtualidades são as relações possíveis de serem efetuadas; as materialidades são o que há de concreto e já constituído. O meio é, define Foucault, o ambiente “em que se faz a circulação. O meio é um conjunto de dados naturais, rios, pântanos, morros, é um conjunto de dados artificiais, aglomeração de indivíduos, aglomeração de casas, etc.” (FOUCAULT, 2009, p. 28). Desconsiderando os dados naturais, o meio é, em resumo, os sistemas de comunicação, o fluxo semiótico geral que emerge num determinado conjunto social, a depender da composição dos sujeitos e das tecnologias disponíveis.
O meio que nos interessa é o que reúne os dados artificiais da sociedade civil. Os economistas neoliberais – da alemã Escola de Friburgo e da estadunidense Escola de Chicago – foram muito astutos em definir o meio social como o lugar de incidência das técnicas políticas de governo, esboçados com traços ainda muito elementares pelos liberais dos séculos XVIII.
A economia política dos neoliberais torna-se então a ciência que pretende conhecer, organizar e atuar sobre o social, tendo em vista o pleno funcionamento do mercado70. Nesse nível, o mercado passa a ser entendido também como um meio artificial: o meio social por excelência. Assim, o
70 “O governo neoliberal deve agir sobre a própria sociedade na sua trama e na sua espessura levando em conta os, e
até mesmo se responsabilizando pelos, processos sociais para dar lugar, no interior desses processos, a um mecanismo de mercado.” (LAZZARATO, 2011a, p. 18). Além disso, Foucault nomeia a proposta dos ordoliberais (como ficou conhecido o neoliberalismo da Alemanha) da Escola de Friburgo de economia social de mercado (FOUCAULT, 2008).
mercado na ótica neoliberal não é mais visto como dado natural, o espaço em branco das trocas econômicas. Ao contrário, o mercado é compreendido como espaço de concorrência mútua, sobre o qual o governo deve intervir constantemente, a título da fina fruição mercadológica.
O mercado no neoliberalismo coincide, no limite, com a sociedade civil, com o social. Para os neoliberais, a economia política é a ciência fundamental para ordenação do meio social e não mais apenas a racionalidade a ler as leis naturais do mercado. A arte de governar pela perspectiva neoliberal extrapola o objeto da análise econômica para todo o campo das condutas racionais da sociedade e do meio onde elas se expressam.
4.3.2 O homo oeconomicus
A coincidência do mercado com a sociedade civil, a transposição da analise econômica para toda conduta humana é algo inédito que surge no bojo do pensamento liberal, defende Foucault. Este acontecimento provoca um efeito novo. O mercado é habitado por sujeitos de interesses econômicos. Com a extrapolação da analise econômica para toda e qualquer conduta racional, o antes ingovernável homo oeconomicus transforma-se igualmente em objeto da governança neoliberal. O pensamento dos neoliberais ancora-se no homem econômico como vórtice de suas técnicas de governo; ele é o ponto de ancoragem ideal da análise neoliberal.
Como afirmam insistentemente Negri e Hardt (2002; 2005), não há mais lado de fora das técnicas e dispositivos econômicos. Progressivamente, durante o correr do século XX, o homo
oeconomicus passa a ser objeto de preocupação do governo. Dessa maneira, o laissez-faire não é
mais o leitmov dos homens da economia. Ou, dito de outra forma, “para poder laissez-faire é preciso intervir muito, e intervir, ao mesmo tempo, sobre as condições não diretamente econômicas do funcionamento do mercado...” (LAZZARATO, 2011a: 18). No neoliberalismo, o governo deve intervir constantemente sobre o meio, sobre os sujeitos e sobre as coisas que os compõem. Por essa razão, o governo retém a tarefa de arregimentar as condições necessárias para que o mercado neoliberal funcione efetivamente.
O homem econômico não é exatamente um sujeito submisso, subjugado. Na verdade, ele é convidado o tempo a todo a fazer parte do mercado. Por querer sempre concretizar suas paixões, o sujeito de interesse é constantemente incentivado a desfrutar dos benefícios do mercado e, consequentemente, de assumir os riscos prováveis de frustrações e perdas. Por isso, o fulcral é compreender como o sujeito de interesse gerenciará seus rendimentos, onde os alocará de tal forma a direcioná-los, seguindo as exigências e as demandas postas pelo mercado e pela sociedade civil. A racionalidade econômica neoliberal é a ciência que irá decodificar as condutas desta multiplicidade de sujeitos de interesse. A aparelhagem conceitual dos neoliberais é portanto a caixa de ferramentas a ser mobilizada por quem deseja conhecer o tecido denso dos interesses do homo oeconomicus para, assim, dirigir suas paixões e vontades na globalidade relacional do meio social.
As práticas neoliberais de governo operam uma gigantesca modulação e gerenciamento dos diferentes interesses individuais que circulam no meio social, no mercado. A questão posta na gênese do pensamento liberal do século XVIII – como governar o mínimo possível com o máximo de eficiência – tem seu polo invertido integralmente na refundação neoliberal.
Ocorre aqui uma reviravolta. Aquele espaço antes intangível – o mercado de trocas espontâneas – e aquele sujeito outrora ingovernável – o homem de interesses econômicos naturais – transmutam-se, ambos, em artifícios de acordo com a lógica neoliberal. “A concepção de
mercado dos neoliberais, contrariamente à opinião largamente generalizada e (difundida), é, portanto, antinaturalista.”71 (LAZZARATO, 2011a, p. 18). O global – as ações do meio social – e o singular – as ações particulares do homem econômico – são finalmente governáveis em conjunto. O Estado que governa com a partitura neoliberal se aproxima da relação estabelecida entro o pastor e o seu rebanho (FOUCAUL, 2009; 2010a; LAZZARATO, 2011b). Afirmar isto significa dizer que a sociedade civil, o mercado e o sujeito de interesses devem ser governados constantemente e intensamente; e, por essa mesma razão, incluídos, ou melhor, moldados e gerenciados pela própria racionalidade econômica neoliberal de governo.
71 Grifos do autor.